Sempre gostei da
sonoridade desta palavra: es-ca-la-fo-bé-ti-co. Segundo o Houaiss, adjetivo
para aquele ou aquela “que se comporta de maneira excêntrica, esquisita, extravagante”.
Quando adolescente, vivia usando esta palavra para me referir à certas figuras
que eu conhecia e que se destacavam da paisagem pela maneira extravagante que
se vestiam. Mas fazia tempo que não a usava. Hoje, ao passear pela cidade,
aproveitando o climinha de inverno, explorando um novo café, eis que me deparo
com uma escalafobética.
Um sábado inocente, em
torno de três da tarde, num inverno de país tropical, temperatura variando
entre 17 e 19 graus. Um café. Cadeirinhas de praia, caixas de plástico
coloridas emborcadas de cabeça para baixo fazendo as vezes de mesinha. Quando
bati os olhos na criatura, pensei se tratar de um membro de uma família real
qualquer, completamente fora de contexto. Logo de cara, chamou minha atenção um
adereço que levava na cabeça, uma mistura de uma tiara com um chapéu russo,
peludinho, preto. Uma maquiagem bastante carregada para às três da tarde, um
batom vermelho carmim. Na orelha, no pescoço, nos dedos e no pulso, inclusive
num broche que levava do lado esquerdo, muito dourado. Estava toda de preto.
Nos pés, uma sapatilha. Uma saia longa, justa, de tecido acetinado. Na parte de
cima, um casaco, também preto, que parecia bem quentinho, daqueles bons para
encarar um frio europeu. Extravagante. Ousaria dizer, totalmente descolada da
paisagem. Uma Mortícia Addams carregada nas joias douradas e com um semichapéu
russo de pelinhos. Imagine!
Imagem criada no Canva com ajuda de IA
Eu tive vontade de rir.
Era muito ridículo. Meu olhar, curioso e malicioso, não conseguia se desgrudar
da criatura. Quando passou a interagir com as pessoas que a acompanhavam –
vestidos de maneira mais normal -, descobri que não se tratava de uma gringa
que havia se materializado, ali no café, por alguma estranha circunstância. Então,
fiquei pensando: rica e cafona? Ou cafona querendo parecer rica? Seria uma
dessas influencers sem noção? Não pareceu. Em nenhum momento sacou o
celular. Rica, cafona e sem amigas? Sim, porque uma boa amiga faria um papel
importante numa situação como aquela. “Amiga, você não acha que está
exagerando? Vamos só tomar um café…” Era o mínimo que uma amiga de verdade poderia
fazer.
Era um café em bairro de
bacana. Lugar de gente que gosta de ser chique, descolada. Alguns fazem aquele
tipo despojado, querendo parecer pobre de boutique. E tem a galera que vive
acreditando ser herdeira da nobreza. Muita gente esnobe. Eu costumo gostar dos
cafés. E só. O tipo de gente que circula por esses lugares não me comove. Não
fico curiosa para saber a história de vida que se esconde por trás desses
personagens. São enfadonhos. A escalafobética de hoje só me fez mesmo foi rir
do ridículo a que se prestava. Pra mim, gente como ela, é aquele tipo de
entretenimento de qualidade duvidosa; às vezes até faz a gente rir, mas, na
maioria dos casos, só é perda de tempo de mau gosto. Se me dei ao trabalho de
dedicar essa crônica ao ocorrido foi pelo bizarro da situação, que superou em
muitos graus qualquer outra que eu já tenha presenciado nesses contextos.