23 agosto 2026

E isso é jazz?

     Sábado, céu azul, praça cheia. O coreto virou palco do Jazz. Embaixo da figueira, sentado numa caixa de cimento, ele amassava latinhas. Com os pés. Ao redor, pessoas tomavam seus chopps artesanais, vinhos brancos, e comiam lanches gourmet.

A praça, na qual ele está acostumado a passar os dias, estava tomada por pessoas vindas de vários cantos da cidade, e dali mesmo, do centro. Das torres do Cambuí. Uma banda após a outra subia no coreto e enchia a praça de acordes e ritmos. Ele ia e voltava para o mesmo lugar, com um saco de latinhas. Entre uma volta e outra, curtia o festival. Batia palmas. Batia os pés acompanhando as batidas da bateria. Embaixo da figueira, linda, gigante e imponente, quase em frente ao coreto-palco, ele, com seu saco de latinhas, curtia o jazz.

Praça Carlos Gomes, 22 de agosto de 2026

           A maioria dos ocupantes de ocasião da praça curtia o festival indiferentes à presença dele. De vez em quando, um ou outro bacana, num gesto de gentileza – ou seria mesmo para aliviar a consciência? – se aproximava dele e entregava uma latinha de cerveja artesanal. Vazia.  Antes de amassá-la, com os pés, ele verificava se estava mesmo vazia. Virava a latinha na boca, de olhos fechados. Chacoalhava a cabeça e resmungava chateado quando não encontrava nada. Numa das vezes, sorriu. Depois de engolir aquele último gole que havia sobrado. Em seguida, fez com aquela latinha o mesmo que vinha fazendo com as outras: amassou com os pés.

Ele é alto. Corpulento. Tem os olhos miúdos. Quando pisa nas latinhas, fechas os olhos por completo. Uma cicatriz no antebraço direito. Difícil dizer a idade. Apesar das condições, não diria que tem mais que sessenta anos. Algo entre cinquenta e sessenta.

Ele fica impaciente. Enquanto um músico apresenta o repertório, ele grita: vai, vai, tá falando demais! Desta vez ele voltou alterado. Havia demorado a retornar. Talvez tenha encontrado outros goles finais. Enquanto os músicos tocavam, ele gesticulava e reclamava. Não estava gostando do repertório. De repente ele grita: Michael Jackson?! E isso é jazz? Isso jazz? Com as mãos balançado no ar, sujas, pesadas, demostrava sua indignação. Para o morador da praça, Billie Jean não é jazz, não pode ser. Mas ele parecia gostar de Michael Jackson. De repente, a indignação deu lugar a uma empolgação. Ele improvisou uma percussão com o saco de latinhas. E sorria. Deixando à vista o único dente que ainda tinha na boca. Com os olhos fechados. Sorria.

Os músicos anunciaram que fariam uma música de Jacó do Bandolim. O homem bateu palma em câmera lenta. Aí sim! Ele disse. Mas quando a música começou. Nova indignação: Cadê o bandolim? Não tem bandolim?

O homem que recolhe e amassa latinhas na praça, não foi sempre o homem que recolhe e amassa latinhas na praça. O repertório musical dele atiça a imaginação de quem o observa. Qual seria sua história? Como foi que veio parar ali, naquelas condições? Teria sido músico? Teria trabalhado em quê? Ele tenta interagir com outras pessoas que estão curtindo o show. Tenta partilhar sua indignação, afinal, aquele é um festival de jazz. Jazz!

Anunciam que irão tocar Fato consumado, de Djavan. Ele se anima novamente. Aí sim! Repete algumas vezes, sorrindo, de olhos semicerrados, batendo palmas. E ele solta a voz: eu quero ver, você mandar na razão… Ele não sabe toda a letra. Mas segue cantarolando. Frases soltas. E canta com vontade o verso: Eu quero é viver em paz…

E quem não quer? Sendo jazz ou não, Djavan sabe das coisas. E o homem do saco de latinhas também.

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