02 agosto 2026

Interior

 

Mercado Municipal de Tatuí (imagem retirada deste site)

Não eram nem 9 horas da manhã e ele, João Carlos da Silva, já estava na terceira latinha. Ali, no balcão do bar do mercado municipal de uma cidadezinha do interior. Era sábado. Ao redor, muitas pessoas, algumas famílias, tomavam seu café com pastel e bolinho caipira. E ele, João Carlos da Silva, sozinho, se embriagava. As orelhas e a nuca vermelhas. Os olhos esbugalhados. A cara amarrotada, curtida, parecia empilhar camadas de pele sob as ressacas acumuladas. Os lábios secos. Sedentos. De quê? Difícil saber. Fácil imaginar.

João Carlos da Silva não tem mais do que quarenta anos. Também não tem sonhos. Ou ainda tem? Está sozinho. No balcão do mercado. E na vida. Perdeu o bonde do amor. Ana Maria de Jesus se casou. Com outro. Num dia de semana, sem festa, sem vestido de noiva. Sem amor. Ela foi prática. Precavida, pensou no futuro. Ele ficou no passado.

Quando tinham quinze anos, ela ainda não tinha recebido as lições de economia doméstica e fez juras de amor depois do primeiro beijo deles. Ele acreditou. Fez planos. Até os nomes dos filhos imaginou. Seriam dois. Um casal. Rita e Afrânio. Homenagem à avó materna e ao avô paterno. O namoro, quase brincadeira de criança, foi se arrastando. Ele se alistou. Foi chamado para servir no exército brasileiro. Passou um ano fora. O namoro esfriou. Quando voltou de vez, Ana Maria de Jesus estava diferente. João Carlos da Silva fingiu não perceber. Voltou com carteira de motorista. Arrumou emprego fixo na mercearia. Fazia planos de juntar dinheiro e em dois anos e meio pedir Ana Maria em casamento.

O tempo, desde então, passou lento, para ele. Para ela, de repente, a vida acelerou. Apareceu um pretendente. Filho de um grande e velho amigo do pai dela. Moço trabalhador e de algumas posses. A família dela fazia gosto. Ela disse sim. Foi só o tempo de procurar João Carlos da Silva e dizer, em poucas palavras, que aquele namoro de criança não tinha futuro. Não quis saber de igreja, de bolo. Assinou os papéis. Rasgou os sonhos de João Carlos da Silva. Foi embora. Faz uns vinte anos que ele não tem notícia dela.

Nunca mais se aprumou. Trabalha pra um, pra outro. Mas todo sábado, religiosamente, vem para o bar do mercado municipal. Fica ali, no balcão, pensando em Ana Maria de Jesus. Naquele namorico de criança. Vinham comer pastel e bolinho caipira aos sábados de manhã. Parece que foi semana passada. Ele às vezes suspira. Levanta a cabeça e encara os rostos no balcão com uma tristeza poética e uma dor no coração impossível de medir.

Foi num desses momentos, naquela manhã de sábado, que ele me encarou. Eu, encostada no balcão, ao lado do João, quase fui tragada pela tristeza do seu olhar vazio. E por alguns segundos olhei no fundo, bem lá no interior, daqueles olhos tristes, e encontrei estas lembranças e a história que acabei de narrar.

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