Sábado, céu azul, praça cheia. O coreto virou palco do Jazz. Embaixo da figueira, sentado numa caixa de cimento, ele amassava latinhas. Com os pés. Ao redor, pessoas tomavam seus chopps artesanais, vinhos brancos, e comiam lanches gourmet.
A praça, na
qual ele está acostumado a passar os dias, estava tomada por pessoas vindas de
vários cantos da cidade, e dali mesmo, do centro. Das torres do Cambuí. Uma
banda após a outra subia no coreto e enchia a praça de acordes e ritmos. Ele ia
e voltava para o mesmo lugar, com um saco de latinhas. Entre uma volta e outra,
curtia o festival. Batia palmas. Batia os pés acompanhando as batidas da bateria.
Embaixo da figueira, linda, gigante e imponente, quase em frente ao coreto-palco,
ele, com seu saco de latinhas, curtia o jazz.
| Praça Carlos Gomes, 22 de agosto de 2026 |
A maioria dos ocupantes de ocasião da praça curtia o festival indiferentes à presença dele. De vez em quando, um ou outro bacana, num gesto de gentileza – ou seria mesmo para aliviar a consciência? – se aproximava dele e entregava uma latinha de cerveja artesanal. Vazia. Antes de amassá-la, com os pés, ele verificava se estava mesmo vazia. Virava a latinha na boca, de olhos fechados. Chacoalhava a cabeça e resmungava chateado quando não encontrava nada. Numa das vezes, sorriu. Depois de engolir aquele último gole que havia sobrado. Em seguida, fez com aquela latinha o mesmo que vinha fazendo com as outras: amassou com os pés.
Ele é alto. Corpulento.
Tem os olhos miúdos. Quando pisa nas latinhas, fechas os olhos por completo. Uma
cicatriz no antebraço direito. Difícil dizer a idade. Apesar das condições, não
diria que tem mais que sessenta anos. Algo entre cinquenta e sessenta.
Ele fica
impaciente. Enquanto um músico apresenta o repertório, ele grita: vai, vai, tá
falando demais! Desta vez ele voltou alterado. Havia demorado a retornar.
Talvez tenha encontrado outros goles finais. Enquanto os músicos tocavam, ele
gesticulava e reclamava. Não estava gostando do repertório. De repente ele
grita: Michael Jackson?! E isso é jazz? Isso jazz? Com as mãos balançado no ar,
sujas, pesadas, demostrava sua indignação. Para o morador da praça, Billie
Jean não é jazz, não pode ser. Mas ele parecia gostar de Michael
Jackson. De repente, a indignação deu lugar a uma empolgação. Ele improvisou
uma percussão com o saco de latinhas. E sorria. Deixando à vista o único dente
que ainda tinha na boca. Com os olhos fechados. Sorria.
Os músicos
anunciaram que fariam uma música de Jacó do Bandolim. O homem bateu palma em
câmera lenta. Aí sim! Ele disse. Mas quando a música começou. Nova indignação:
Cadê o bandolim? Não tem bandolim?
O homem que
recolhe e amassa latinhas na praça, não foi sempre o homem que recolhe e amassa
latinhas na praça. O repertório musical dele atiça a imaginação de quem o
observa. Qual seria sua história? Como foi que veio parar ali, naquelas condições?
Teria sido músico? Teria trabalhado em quê? Ele tenta interagir com outras pessoas
que estão curtindo o show. Tenta partilhar sua indignação, afinal, aquele é um
festival de jazz. Jazz!
Anunciam que
irão tocar Fato consumado, de Djavan. Ele se anima novamente. Aí sim! Repete
algumas vezes, sorrindo, de olhos semicerrados, batendo palmas. E ele solta a
voz: eu quero ver, você mandar na razão… Ele não sabe toda a letra. Mas segue cantarolando. Frases soltas. E canta com
vontade o verso: Eu quero é viver em paz…
E quem não quer?
Sendo jazz ou não, Djavan sabe das coisas. E o homem do saco de latinhas
também.