| Mercado Municipal de Tatuí (imagem retirada deste site) |
Não
eram nem 9 horas da manhã e ele, João Carlos da Silva, já estava na terceira
latinha. Ali, no balcão do bar do mercado municipal de uma cidadezinha do
interior. Era sábado. Ao redor, muitas pessoas, algumas famílias, tomavam seu
café com pastel e bolinho caipira. E ele, João Carlos da Silva, sozinho, se
embriagava. As orelhas e a nuca vermelhas. Os olhos esbugalhados. A cara
amarrotada, curtida, parecia empilhar camadas de pele sob as ressacas
acumuladas. Os lábios secos. Sedentos. De quê? Difícil saber. Fácil imaginar.
João
Carlos da Silva não tem mais do que quarenta anos. Também não tem sonhos. Ou
ainda tem? Está sozinho. No balcão do mercado. E na vida. Perdeu o bonde do
amor. Ana Maria de Jesus se casou. Com outro. Num dia de semana, sem festa, sem
vestido de noiva. Sem amor. Ela foi prática. Precavida, pensou no futuro. Ele
ficou no passado.
Quando
tinham quinze anos, ela ainda não tinha recebido as lições de economia
doméstica e fez juras de amor depois do primeiro beijo deles. Ele acreditou.
Fez planos. Até os nomes dos filhos imaginou. Seriam dois. Um casal. Rita e Afrânio.
Homenagem à avó materna e ao avô paterno. O namoro, quase brincadeira de
criança, foi se arrastando. Ele se alistou. Foi chamado para servir no exército
brasileiro. Passou um ano fora. O namoro esfriou. Quando voltou de vez, Ana
Maria de Jesus estava diferente. João Carlos da Silva fingiu não perceber.
Voltou com carteira de motorista. Arrumou emprego fixo na mercearia. Fazia
planos de juntar dinheiro e em dois anos e meio pedir Ana Maria em casamento.
O
tempo, desde então, passou lento, para ele. Para ela, de repente, a vida
acelerou. Apareceu um pretendente. Filho de um grande e velho amigo do pai dela.
Moço trabalhador e de algumas posses. A família dela fazia gosto. Ela disse
sim. Foi só o tempo de procurar João Carlos da Silva e dizer, em poucas
palavras, que aquele namoro de criança não tinha futuro. Não quis saber de
igreja, de bolo. Assinou os papéis. Rasgou os sonhos de João Carlos da Silva.
Foi embora. Faz uns vinte anos que ele não tem notícia dela.
Nunca
mais se aprumou. Trabalha pra um, pra outro. Mas todo sábado, religiosamente,
vem para o bar do mercado municipal. Fica ali, no balcão, pensando em Ana Maria
de Jesus. Naquele namorico de criança. Vinham comer pastel e bolinho caipira
aos sábados de manhã. Parece que foi semana passada. Ele às vezes suspira.
Levanta a cabeça e encara os rostos no balcão com uma tristeza poética e uma
dor no coração impossível de medir.
Foi
num desses momentos, naquela manhã de sábado, que ele me encarou. Eu, encostada
no balcão, ao lado do João, quase fui tragada pela tristeza do seu olhar vazio.
E por alguns segundos olhei no fundo, bem lá no interior, daqueles olhos
tristes, e encontrei estas lembranças e a história que acabei de narrar.