Com um sorriso no rosto, ela me disse: “boa tarde, com licença, eu me chamo Jéssica e acabei de chegar na cidade, mas eu faço chocolate há muito tempo. Eu tenho aqui cones trufados, um modo de pagar os boletos...”. Certamente, ela continuaria falando até o sinal abrir, mas eu a interrompi, educadamente, dizendo que não tinha intenção de comprar cone trufado e não queria fazê-la perder tempo comigo. Desejei boa sorte. Ela agradeceu, sorriu e se dirigiu ao carro que estava atrás de mim.
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Eu fui e voltei da terapia e não
consegui tirar a Jéssica da minha cabeça. Ela pareceu ter a minha idade, talvez
um pouco mais. Agora que escrevo, me pergunto por que não comprei um cone
trufado dela. Não é o tipo de doce que eu gosto. Mas não era sobre mim. Era
sobre a Jéssica, sobre os boletos que ela precisa pagar. Agora, enquanto
escrevo, me dou conta de que eu poderia ter feito algo por ela. Mas, egoísta
que sou, o que eu fiz foi capturar um pedaço dela para transformar em texto. É
uma coisa que eu costumo fazer. Eu roubo coisas das pessoas – palavras,
expressões, gestos, olhares. Eu confesso, cada vez que retorno para casa, do
trabalho ou depois de ir almoçar ou jantar em algum restaurante, depois de um
barzinho, um show ou um evento na praça, eu volto com muitas coisas roubadas de
pessoas que, na maior parte das vezes, eu nunca mais verei. E a partir desses
fragmentos roubados, eu invento histórias. Algumas bonitas e alegres, outras
muito tristes. Eu invento porque aqueles fragmentos não são suficientes. Porque
para mim, a vida não é suficiente. Nunca foi. Eu sempre precisei inventar.
Será que a Jéssica conseguiu
vender seus cones trufados? Eu me pergunto com um gosto amargo na boca. Eu sei
que se eu tivesse comprado um cone, não teria mudado a vida dela. Mas qual é o
limite entre a gente ter consciência de que não vai mudar a vida de uma pessoa
e a gente não fazer nada? Eu tento me convencer de que eu fiz alguma coisa. Essa
cidade grande, com tantas pessoas em cada esquina, em cada semáforo, vendendo
algo, pedindo algo, ou simplesmente precisando ser vista por alguém, tende a levar
a gente a um cinismo de sobrevivência. Eu sei que não posso resolver os problemas
dessas pessoas – não dou conta nem de resolver os meus sozinha, por isso eu
estava indo para a terapia -, mas eu me esforço para não deixar de enxergar
pessoas e suas histórias. Nem que seja para roubar alguma coisa delas e eternizar
em alguns poucos parágrafos, em crônicas como esta.