Essa me parece uma ótima pergunta. Uma pergunta que talvez tenha sido negligenciada em décadas de feminismo. Mas, claro, falo a partir do meu umbigo, das minhas experiências e percepções, principalmente como professora em sala de aula, em contato com adolescentes. Além daquela pergunta, seria muito importante que ensinássemos os meninos a se questionarem desde cedo a respeito do que é ser um homem. Nós, mulheres, estamos lidando com esses questionamentos há alguns séculos. Talvez por isso, em Mulheres do século 20, de Mike Mills (EUA, 2016, Netflix), quando sente necessidade de buscar ajuda para a tarefa de tornar seu filho adolescente, Jamie, um homem, Dorothea recorra a duas outras mulheres, mais jovens que ela, e bastante escoladas no feminismo dos anos 70.
Desde que eu era adolescente, e olha que tive uma adolescência com muitas limitações numa pequena cidade de Minas Gerais, havia uma preocupação, entre professores, principalmente professoras, em dizer para as meninas que elas poderiam fazer muitas coisas, além de casar. E desde que me mudei para Campinas, durante os anos de faculdade e depois de formada já em sala de aula como professora do ensino médio, essa fala de empoderamento das meninas se tornou muito mais forte e presente no dia a dia escolar e na sociedade de maneira geral. Disseram, e eu disse também, que as meninas poderiam ser o que elas quisessem. Mas faz alguns anos que tenho me perguntado se não falhamos em dar a mesma mensagem para os meninos.
Claro, alguém pode me dizer que
os homens sempre puderam tudo. Que num mundo machista, eram as mulheres que
precisavam ser estimuladas a assumirem lugares até então proibidos. Que numa sociedade patriarcal, quem precisava ser
capaz de enxergar possibilidades de ser de outras maneiras eram as meninas. Mas
não seria a ideia de homem, de masculinidade, nesse sistema patriarcal tão limitante e opressora para
muitos garotos como aquele ideal de mulher o era para as garotas? Na medida em
que as meninas empoderadas se tornaram mulheres empoderadas, não estaria
havendo um descompasso no mundo entre homens e mulheres? Não seria esse
descompasso um dos motivos de vivermos nos últimos dez anos numa sociedade
invadida pelo ressentimento masculino, por ataques misóginos e crescentes taxas
de feminicídios? Não seria esse descompasso, responsável pelo aparecimento de grupos red pills nas profundezas
e, por que não, na superfície da internet, aliciando as novas gerações e prometendo aos garotos um retorno ao paraíso perdido? A verdade é faz tempo os meninos e adolescentes estão perdidos num mundo que, por um lado, diz que o velho padrão de masculinidade - homem provedor, forte, que não chora - já não serve mas que, por outro, não ofereceu ferramentas para que esses meninos e adolescentes fossem capazes de imaginar e forjar para si outros modos de ser homem.
“E eu te conheço menos, a cada dia.” Dorothea, em Mulheres do século 20, sobre seu filho adolescente, Jamie
Revendo esse excelente filme, Mulheres do século 20, me peguei pensando em como é urgente problematizarmos o lugar e a ideia de masculinidade, o que é ser homem, com nossos adolescentes. A linha mestra do filme é o diálogo. As cenas permeadas por diálogos delicados, honestos e por vezes constrangedores, explorando as fragilidades que nos fazem humanos, mostram que esse é o caminho para nos humanizar. Antes de nos tornarmos homens ou mulheres, é fundamental nos tornarmos humanos, familiarizados com tudo que é humano: dúvidas, medos, inseguranças, amor, desejos, frustrações, paixões, prazer, dor.
Onde falta o diálogo, a palavra,
sobra violência, sobra o uso da força bruta. Quanto menos somos capazes de
nomear o que sentimos, os bons e os maus sentimentos, menos equipados estamos
para lidar com nós mesmos e com os outros. Com nossas perdas, com as emoções
fortes que tendem a nos tirar do prumo, com os imprevistos, com tudo que escapa
ao nosso controle. É preciso que pelo menos tenhamos a palavra, palavras, para
nomear e narrar o que nos acontece e, assim, nos sentirmos um pouco que seja,
confortável no mundo, confortável em nossa própria pele. Para que meninos se tornem homens bons é urgente que sejamos
capazes de fazer com que crianças - meninos e meninas - se tornem adultos bons, humanos: sensíveis, emocionalmente
confiantes, conscientes de seus limites, capazes de reconhecer nos outros a mesma
humanidade que reconhece, respeita e valoriza em si mesmo, curiosos – pelo mundo
e pelos humanos que habitam esse mundo -, empáticos e honestos consigo e com aqueles
que estão a sua volta.