30 setembro 2026

Irresistível

 “Fala, meu amor.” Foi assim que o presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), dirigiu-se a Daniel Vorcaro.

"mas queria mesmo estar era em Mônaco com você", mensagem enviada por Daniel Vorcaro a Hugo Mota (Republicanos-PB), a pelo presidente da Câmara.

As mensagens coletadas no celular do ex-banqueiro e maior vigarista da história recente desse país, Daniel Vorcaro, não deixam dúvidas: o homem era irresistível.

Imagem retirada de: https://www.itatiaia.com.br/politica/almoco-vip-daniel-vorcaro-alexandre-de-moraes-campos-do-jordao-pf/

    Pudera. Com jatinhos, mansões e festinhas privê, presentinhos que iam de garrafa de uísque, passando por ingressos de show e experiências gastronômica até mesadas generosas para filhos de "amigos", sem falar dos contratinhos milionários com esposas, cunhados, filhos… Quem não gostaria de ter um "amigão" desses?

Eu. Eu não gostaria. Mas ele também não teria interesse em mim. Não sou ministra de estado nem de nenhum tribunal muito menos da suprema corte; não sou governadora, nem dona de nenhum partido, não sou presidente do senado, nem da câmara. Eu não teria nada a oferecer para o tipo de amizade que Vorcaro costumava cultivar.

Mas sejamos justos: o sujeito era mesmo boa praça e não fazia distinção entre direita ou esquerda, conservadores ou progressistas, centrão, executivo, legislativo ou judiciário. O critério era um só: poder. Poder para influenciar decisões a favor dos interesses do banqueiro. Poder para blindar o “irmão” quando fosse preciso. E ele sabia que iria precisar. Poder para garantir clientes – ou seria melhor dizer “vítimas”? – e lucro em suas transações feitas por debaixo dos panos ou nem tão às escondidas assim, e ainda regada a uísque e incensada por fumaça de charutos.

Vorcaro era especialista em criar laços profundos. Mandou umas tantas mensagens para ministros e políticos afirmando ter para com eles “dívida de vida” e “gratidão eterna”. Fico pensando o que esses nobres senhores fizeram ao sujeito para merecer tanta deferência. As mensagens obtidas do celular do ex-banqueiro e analisadas pela Polícia Federal nos permite dizer que Daniel Vorcaro é o Dom Juan de Brasília. Seduziu geral. Lendo as mensagens, sinto um pouco de pena – ou seria vergonha alheia? - das esposas dessas figuras que andaram declarando amor e fidelidade ao ex-banqueiro.

Como bem disse Aristóteles, em seu livro Ética a Nicômaco, nas amizades por utilidade, os amigos se amam não por si mesmos, por serem quem são, mas por causa da sua utilidade; daí esse tipo de amizade se dissolver facilmente, uma vez que o útil não é permanente, mas muda constantemente. Preso, sem poder bancar festinhas, nem oferecer garotas de programa de luxo, tendo se tornado uma ameaça – dada a possibilidade de assinar uma delação premiada – Daniel Vorcaro, o irresistível, talvez esteja se sentindo neste momento abandonado pelos seus grandes amigos.

De irresistível a indesejável. É bem verdade que os amigos de Vorcaro ainda não lhe viraram as costas, mas certamente isso se deve à autoproteção, à amizade que devotam a si mesmos, e não ao laço que os unia ao ex-banqueiro - e que agora ameaça enforcá-los. A amizade entre os maus, já dizia Aristóteles, tem vida curta, visto que eles ambicionam mais do que seu quinhão justo de vantagens e vivem “procurando coagir uns aos outros sem que ninguém se disponha a fazer o que é justo”.

22 setembro 2026

Morte na estrada

Dei um grito, sozinha, dentro do carro. Como se pudesse impedir o que se seguiria. O caminhão que estava a minha frente era dirigido por uma criatura que já havia merecido meus xingamentos matinais. Ele me fechou. Não permitiu que eu o ultrapassasse logo depois da praça de pedágio. Por quê? Eu costumo ter ótimas hipóteses para esse tipo de comportamento...

 Lá estava eu, nove e pouco da manhã, fazendo elogios à pessoa do motorista do caminhão baú. E aí ele veio. Na hora eu só pude gritar: Não! E no segundo seguinte o cadáver estava bem na minha frente.

Ele estava completamente desnorteado. Só podia ser. Por que atravessar a estrada daquele jeito? Quando ele entrou no meu campo de visão logo antevi o desfecho. Meu coração deu aquela parada, de susto, e depois acelerou. O que eu poderia fazer?

Mas foi pior, passei por cima. Quer dizer, o cadáver ficou entre as rodas do meu carro. Não passei por cima. Mas isso tanto faz. Ele já estava morto. A batida foi muito forte. Aquele seu corpinho frágil não resistiria. E eu não poderia ter feito nada. Havia outros carros atrás de mim. Eu não podia simplesmente parar no meio da rodovia.

Foi muito rápido. Ele veio da esquerda para a direita. De canto de olho eu o vi. Meus olhos costumam ser muito bons em identificar pássaros. E eu amo anu-branco. Seu canto triste, melancólico, nos fins de tarde, me aperta o peito. Já vi vários pássaros cruzando a estrada pela manhã: tucano, alma-de-gato, anu-preto, bem-te-vi, suiriri. Aquele anu-branco ia atravessar a estrada. Mas estava voando muito baixo.

WikiAves


           Não consigo entender. Ele devia estar doente, não sei. Assim que ele surgiu no canto do meu olho esquerdo, sabia que ele ia se chocar com o baú do caminhão. E não havia a menor chance de não acontecer. Só um milagre. Que não aconteceu.

Eu fui testemunha ocular do acidente. Ou teria sido um suicídio? Será que anu-branco comete suicídio? Será que aquela morte, trágica, diante dos meus olhos, nove e pouco da manhã, foi planejada por ele? O que levaria um anu branco a se matar?

Eu sei, a vida anda difícil. O noticiário rouba a cada edição as migalhas de esperança que ainda restam em nós. Graças aos efeitos do El Niño, num mesmo dia temos primavera-verão-outono-inverno e primavera. E tudo isso tem me causado dores nas articulações dia sim e outro também. Mas o anu-branco? Que motivos teria para desejar findar seus dias de modo tão trágico?

Eu segui meu caminho, um pouco mais triste. Fiquei pensando no quanto as estradas são perigosas, até para os anus. Pensei naquela criatura, no seu corpinho estendido no asfalto, o dia todo. Resolvi eternizá-lo nessas linhas, registrando sua morte na estrada. Querendo acreditar que foi só um acidente, que um anu, por mais triste que seja seu canto, não teria motivos para se matar.

23 agosto 2026

E isso é jazz?

     Sábado, céu azul, praça cheia. O coreto virou palco do Jazz. Embaixo da figueira, sentado numa caixa de cimento, ele amassava latinhas. Com os pés. Ao redor, pessoas tomavam seus chopps artesanais, vinhos brancos, e comiam lanches gourmet.

A praça, na qual ele está acostumado a passar os dias, estava tomada por pessoas vindas de vários cantos da cidade, e dali mesmo, do centro. Das torres do Cambuí. Uma banda após a outra subia no coreto e enchia a praça de acordes e ritmos. Ele ia e voltava para o mesmo lugar, com um saco de latinhas. Entre uma volta e outra, curtia o festival. Batia palmas. Batia os pés acompanhando as batidas da bateria. Embaixo da figueira, linda, gigante e imponente, quase em frente ao coreto-palco, ele, com seu saco de latinhas, curtia o jazz.

Praça Carlos Gomes, 22 de agosto de 2026

           A maioria dos ocupantes de ocasião da praça curtia o festival indiferentes à presença dele. De vez em quando, um ou outro bacana, num gesto de gentileza – ou seria mesmo para aliviar a consciência? – se aproximava dele e entregava uma latinha de cerveja artesanal. Vazia.  Antes de amassá-la, com os pés, ele verificava se estava mesmo vazia. Virava a latinha na boca, de olhos fechados. Chacoalhava a cabeça e resmungava chateado quando não encontrava nada. Numa das vezes, sorriu. Depois de engolir aquele último gole que havia sobrado. Em seguida, fez com aquela latinha o mesmo que vinha fazendo com as outras: amassou com os pés.

Ele é alto. Corpulento. Tem os olhos miúdos. Quando pisa nas latinhas, fechas os olhos por completo. Uma cicatriz no antebraço direito. Difícil dizer a idade. Apesar das condições, não diria que tem mais que sessenta anos. Algo entre cinquenta e sessenta.

Ele fica impaciente. Enquanto um músico apresenta o repertório, ele grita: vai, vai, tá falando demais! Desta vez ele voltou alterado. Havia demorado a retornar. Talvez tenha encontrado outros goles finais. Enquanto os músicos tocavam, ele gesticulava e reclamava. Não estava gostando do repertório. De repente ele grita: Michael Jackson?! E isso é jazz? Isso jazz? Com as mãos balançado no ar, sujas, pesadas, demostrava sua indignação. Para o morador da praça, Billie Jean não é jazz, não pode ser. Mas ele parecia gostar de Michael Jackson. De repente, a indignação deu lugar a uma empolgação. Ele improvisou uma percussão com o saco de latinhas. E sorria. Deixando à vista o único dente que ainda tinha na boca. Com os olhos fechados. Sorria.

Os músicos anunciaram que fariam uma música de Jacó do Bandolim. O homem bateu palma em câmera lenta. Aí sim! Ele disse. Mas quando a música começou. Nova indignação: Cadê o bandolim? Não tem bandolim?

O homem que recolhe e amassa latinhas na praça, não foi sempre o homem que recolhe e amassa latinhas na praça. O repertório musical dele atiça a imaginação de quem o observa. Qual seria sua história? Como foi que veio parar ali, naquelas condições? Teria sido músico? Teria trabalhado em quê? Ele tenta interagir com outras pessoas que estão curtindo o show. Tenta partilhar sua indignação, afinal, aquele é um festival de jazz. Jazz!

Anunciam que irão tocar Fato consumado, de Djavan. Ele se anima novamente. Aí sim! Repete algumas vezes, sorrindo, de olhos semicerrados, batendo palmas. E ele solta a voz: eu quero ver, você mandar na razão… Ele não sabe toda a letra. Mas segue cantarolando. Frases soltas. E canta com vontade o verso: Eu quero é viver em paz…

E quem não quer? Sendo jazz ou não, Djavan sabe das coisas. E o homem do saco de latinhas também.

15 agosto 2026

Sinais

Eles estão chegando cada vez mais cedo. E, apesar de gostar muito deles, isso tem me preocupado bastante. Este ano, ainda estamos na primeira quinzena de agosto, e alguns deles já podem ser vistos. Não sei se sou eu ou se, de fato, há algo de errado com eles. Meus olhos se alegram em contemplá-los. A qualquer tempo. Mas este ano, os que já podem ser vistos pelas ruas, não estão tão vistosos.

Adiantados, parecem também acanhados. Nada da exuberância de anos anteriores. Mas ainda é agosto. Talvez quando setembro chegar...

Fora do tempo, eles parecem nos lembrar os mal feitos que tanto fizemos à natureza. Um inverno com chuva no sudeste. Não é normal. Dizem que é coisa do El Niño. Mas não só. 

As chuvas em julho melaram as flores dos ipês rosas. Ano passado, entre julho e agosto, fiz registros lindos. Árvores enfeitadas, ruas forradas de flores. 

E agora, os meus preferidos, os ipês amarelos, parecem um pouco confusos. Na manhã deste sábado, as flores de alguns deles pelas ruas da cidade eram como sinais de alerta. Será que ainda temos tempo para evitar o colapso? 

Já não sei o que esperar, quando setembro chegar...




15 de agosto de 2026
31 de agosto de 2025




10 agosto 2026

A ideia


    - Sabe quem me deu a ideia de comprar esse carro? – indaga um homem entre trinta e quarenta anos, todo orgulhoso, diante de um Audi preto, estacionado numa rua tranquila de um bairro de uma metrópole, num domingo ensolarado. O senhor de traços orientais, com quem ele conversava, analisava o carro com interesse, e balançou a cabeça em negativa. Então ele continuou: - Foi a IA. Eu perguntei qual carro comprar e ela me deu três opções…

    Não pude ouvir o resto da conversa. Mas o que ouvi foi suficiente para encher a minha cabeça de ideias. Péssimas ideias sobre o dono do Audi. Ideias bem pessimistas sobre o nosso futuro, como espécie.

    Já é possível afirmar que o experimento humanidade deu muito errado. O sujeito tem dinheiro para comprar um Audi e está convencido de que a IA tem ideia. Pior: trata a IA como um quem. Que outras ideias a IA anda dando para tipos como aquele?

    Segundo dados da Agência Internacional de Energia dos Estados Unidos, cada consulta ao ChatGPT consome, em média, cerca de dez vezes mais eletricidade do que uma pesquisa típica no Google. Mas eu duvido que o dono do Audi faça ideia disso. Tenho certeza que o sujeito também não faz ideia de como essas geringonças funcionam.

    Imagem retirada deste site, cujo artigo também pode interessar a quem está lendo está crônica

    Os papagaios estocásticos ou modelos de IA generativa são modelos estatísticos, alimentados por uma quantidade imensa de dados – textos criados por nós, humanos, sobre os mais diversos temas e problemas, basicamente todo o conhecimento produzido até hoje pela espécie humana e mais um monte de besteira que se produz diariamente nas redes sociais – que funcionam a partir da probabilidade de uma determinada palavra se seguir a outra numa frase e de uma frase se seguir a outra num parágrafo. Ou seja, quando alguém pergunta para uma IA “Que carro devo comprar?” ou qualquer outra coisa, o sistema percorre uma quantidade imensa de textos em busca de uma resposta. E não dá para dizer que isso é igual a pensar ou ter uma ideia.

    Numa versão otimista, dá para dizer que a IA é boa em se apropriar das ideias que nós humanos tivemos algum dia e nos devolver como resposta fresquinha. Não é possível falar em originalidade no que a máquina nos entrega. Além do mais, essas traquitanas alucinam bastante. Se elas não encontram uma resposta, inventam. Quer dizer, juntam um monte de palavras, ao melhor estilo gerador de lero-lero, e entregam de forma muito confiante àqueles que estão dispostos a cultuarem essas engenhocas como os oráculos do século XXI.

    Que o rapaz dono do Audi se refira à IA com um quem, portanto, de modo antropomórfico, diz menos sobre a inteligência dele e muito mais sobre como as big techs estão sendo bem-sucedidas em suas empreitadas. Em artigo publicado em 2021, “Sobre os perigos dos papagaios aleatórios: os modelos de linguagem podem ser grandes demais?”, a pesquisadora etíope, Timnit Gebru, já fazia um alerta: na medida em que os resultados dos modelos ficassem cada vez melhores, as pessoas poderiam facilmente confundir suas produções estatisticamente calculadas com linguagem dotada de significado e intenção reais, tornando-as propensas a, não apenas acreditar que a informação do texto era factual, mas também, considerar o modelo um conselheiro competente.*

    Ao que tudo indica, OpenAI, Google, Anthropic e afins estão conseguindo convencer os seres humanos de que suas geringonças pensam, tem ideias próprias, são mais inteligentes que nós. Pior: conseguiram convencer uma boa parcela de desavisados de que esses papagaios digitais são bons amigos e até mesmo uma boa opção para parceiro romântico.

    Parece que já não fazemos ideia do que seja ser humano...

*** 

 

* Conferir texto na íntegra em: Karen Hao, O Império da IA: por dentro da corrida irresponsável pela dominação total, trad. Ananda Alves e André Sequeira, Rio de Janeiro: Rocco, 2026, p.170-171.


09 agosto 2026

Aperto

Segura a criaturinha como se fosse algo precioso. Olhinhos brilhantes. Face corada, boca entreaberta. Sorri. Um meninozinho. Doce e carinhoso. Dedinhos gordinhos acariciam as penugens amarelinhas. Um pintinho. - Gabriel, devolve, filho. A galinha está nervosa. Vai atacar você. Não quer se separar. Aperta a criaturinha contra si. - Gabriel, a galinha vai bicar seu pé. Devolve, filho. Ele aperta mais um pouco. Lágrimas inundam seus olhinhos. Respira com dificuldade. Rosto vermelho, muito vermelho. Parecia que ia verter sangue a qualquer momento. Ele estava confuso. Raiva? Frustração? Não sabia dizer ainda. - Gabriel, a mamãe tá falando, devolve o pintinho. As mãozinhas, gordinhas, apertam com muita força a criaturinha. Ela esperneia. Tenta escapar. Fica imóvel. A mãe grita horrorizada: - Gabriel, você ma… Não consegue completar. A mãe em choque. Voa sobre ele, a galinha. Abre as mãozinhas assustado. Vê a criatura, sem vida, cair a seus pés. Chora. Chora sentido. Caminha em direção à mãe, bracinhos estendidos. Busca colo. Consolo. Ele não conseguiu conter suas emoções. Ela também não. Parece ver nele outros: irmão, pai, avô. Diz ríspida: - Não chore! Vamos, agora já foi…seja um menino grande, passou.

Mas ele era só um meninozinho.

Imagem criada por IA via Canva


02 agosto 2026

Interior

 

Mercado Municipal de Tatuí (imagem retirada deste site)

Não eram nem 9 horas da manhã e ele, João Carlos da Silva, já estava na terceira latinha. Ali, no balcão do bar do mercado municipal de uma cidadezinha do interior. Era sábado. Ao redor, muitas pessoas, algumas famílias, tomavam seu café com pastel e bolinho caipira. E ele, João Carlos da Silva, sozinho, se embriagava. As orelhas e a nuca vermelhas. Os olhos esbugalhados. A cara amarrotada, curtida, parecia empilhar camadas de pele sob as ressacas acumuladas. Os lábios secos. Sedentos. De quê? Difícil saber. Fácil imaginar.

João Carlos da Silva não tem mais do que quarenta anos. Também não tem sonhos. Ou ainda tem? Está sozinho. No balcão do mercado. E na vida. Perdeu o bonde do amor. Ana Maria de Jesus se casou. Com outro. Num dia de semana, sem festa, sem vestido de noiva. Sem amor. Ela foi prática. Precavida, pensou no futuro. Ele ficou no passado.

Quando tinham quinze anos, ela ainda não tinha recebido as lições de economia doméstica e fez juras de amor depois do primeiro beijo deles. Ele acreditou. Fez planos. Até os nomes dos filhos imaginou. Seriam dois. Um casal. Rita e Afrânio. Homenagem à avó materna e ao avô paterno. O namoro, quase brincadeira de criança, foi se arrastando. Ele se alistou. Foi chamado para servir no exército brasileiro. Passou um ano fora. O namoro esfriou. Quando voltou de vez, Ana Maria de Jesus estava diferente. João Carlos da Silva fingiu não perceber. Voltou com carteira de motorista. Arrumou emprego fixo na mercearia. Fazia planos de juntar dinheiro e em dois anos e meio pedir Ana Maria em casamento.

O tempo, desde então, passou lento, para ele. Para ela, de repente, a vida acelerou. Apareceu um pretendente. Filho de um grande e velho amigo do pai dela. Moço trabalhador e de algumas posses. A família dela fazia gosto. Ela disse sim. Foi só o tempo de procurar João Carlos da Silva e dizer, em poucas palavras, que aquele namoro de criança não tinha futuro. Não quis saber de igreja, de bolo. Assinou os papéis. Rasgou os sonhos de João Carlos da Silva. Foi embora. Faz uns vinte anos que ele não tem notícia dela.

Nunca mais se aprumou. Trabalha pra um, pra outro. Mas todo sábado, religiosamente, vem para o bar do mercado municipal. Fica ali, no balcão, pensando em Ana Maria de Jesus. Naquele namorico de criança. Vinham comer pastel e bolinho caipira aos sábados de manhã. Parece que foi semana passada. Ele às vezes suspira. Levanta a cabeça e encara os rostos no balcão com uma tristeza poética e uma dor no coração impossível de medir.

Foi num desses momentos, naquela manhã de sábado, que ele me encarou. Eu, encostada no balcão, ao lado do João, quase fui tragada pela tristeza do seu olhar vazio. E por alguns segundos olhei no fundo, bem lá no interior, daqueles olhos tristes, e encontrei estas lembranças e a história que acabei de narrar.

28 julho 2026

Humanidade

̶  Bom dia, Ana.

̶  Bom dia, Tom. Você já tomou seu café? Estamos começando mais cedo hoje.

̶  Você está cada vez mais observadora, Ana. Vou tomar café no escritório. Preciso de uma ajuda.

̶  Claro. Pode falar.

̶  Envie uma mensagem para o meu cardiologista. Desmarque a consulta. Invente uma desculpa. Ou melhor, diga que estou indo viajar e entro em contato quando retornar. Faça o mesmo com o psiquiatra.

̶  Entendi. Gostaria que acrescentasse que você não tem data para retornar?

̶  Ótimo! Ana, outra coisa. Preciso que você analise minha agenda do mês. Desmarque todas as reuniões que não forem extremamente importantes.

̶  Certo. Já estou trabalhando nisso.

(silêncio)

̶  Tom, estou pensando. Qual o critério para “extremamente importante”?

̶  Repita o padrão dos últimos dois meses.

̶  Ok. Entendi.

Ele está terminando de se trocar. Coloca alguns papéis numa pasta. Pega o relógio e o celular.

̶  Tom, tarefas cumpridas. Enviei para o seu e-mail apenas as reuniões extremamente importantes que foram mantidas.

̶  Obrigado, Ana. Só mais uma coisa. Entre no meu app e chame um Uber. Vou para o escritório.

Tom pega uma pequena mochila preta e a pasta. Abaixa a tela do notebook. Sai do apartamento. Entra no elevador às 7h06. O elevador chega ao térreo.

̶  Bom dia, seu Tom.

Tom apenas balança a cabeça. Estava ocupado olhando para a tela do celular. O porteiro abre o portão. Em frente, um Uber já está esperando por Tom. Ao entrar no carro, diz de modo seco:

̶  Procure fazer o caminho mais rápido. Estou com muita pressa.

Não ouviu o que o motorista respondeu, pois já havia enfiado os fones de ouvido sem fio nas orelhas. Pensava por que o condomínio ainda mantinha aqueles porteiros. Já tinha passado da hora de substituí-los por porteiros virtuais. Seria muito mais barato e mais eficiente. A humanidade ainda perdia tempo com gente. Não via a hora de ter carros autônomos com piloto automático circulando pela cidade. Tinha certeza de que o trânsito seria muito melhor.

De repente sente seu corpo deslocar-se violentamente para frente. O motorista freou bruscamente. Tom levantou os olhos da tela. O que era aquilo? Um punhado de gente no meio da avenida. Tudo parando nos dois sentidos. O que estava acontecendo? Ele sentiu o coração palpitando. Era algum tipo de manifestação. Pessoas gritando qualquer coisa que ele não ouvia. Ainda se fazia esse tipo de coisa? Cartazes. Vários cartazes erguidos. Leu escrito em letras garrafais: "Não queremos Data Center em nosso bairro”.

Ficou furioso. Sentiu o coração acelerar. As mãos gelaram. Um zumbido tomou conta da sua cabeça. Retirou os fones de ouvido e gritou com o motorista: “Atropele, passe por cima! Essa gente é o atraso! Se dermos ouvidos a esses idiotas, corremos o risco de voltarmos a 1500!”

O motorista, atônito, não sabia o que fazer nem o que dizer. O passageiro parecia fora de si. Espumava. Tinha os olhos arregalados. Estava visivelmente alterado. Parecia que ia explodir.

̶ Senhor!... o senhor está bem?

Notou que ele tinha dificuldades para respirar.

̶  Senhor, devo chamar um médico?

Com muito esforço ele conseguiu dizer:

̶  Não. Fale com Ana. Ela saberá o que fazer…

̶  Sua esposa? Sua secretária? Qual o número?

Ele apertava o peito. Tentava desabotoar a camisa. Transpirava. De repente tinha ficado completamente pálido.

O motorista ainda tentou:

̶  Senhor, quem é Ana?

Depois de alguns segundos, ele balbuciou:

̶  Minha assistente...

E estendeu a mão entregando o celular ao motorista… 

Image by DAMIAN NIOLET , do Pixabay

25 julho 2026

Descolada da paisagem

Sempre gostei da sonoridade desta palavra: es-ca-la-fo-bé-ti-co. Segundo o Houaiss, adjetivo para aquele ou aquela “que se comporta de maneira excêntrica, esquisita, extravagante”. Quando adolescente, vivia usando esta palavra para me referir à certas figuras que eu conhecia e que se destacavam da paisagem pela maneira extravagante que se vestiam. Mas fazia tempo que não a usava. Hoje, ao passear pela cidade, aproveitando o climinha de inverno, explorando um novo café, eis que me deparo com uma escalafobética.

Um sábado inocente, em torno de três da tarde, num inverno de país tropical, temperatura variando entre 17 e 19 graus. Um café. Cadeirinhas de praia, caixas de plástico coloridas emborcadas de cabeça para baixo fazendo as vezes de mesinha. Quando bati os olhos na criatura, pensei se tratar de um membro de uma família real qualquer, completamente fora de contexto. Logo de cara, chamou minha atenção um adereço que levava na cabeça, uma mistura de uma tiara com um chapéu russo, peludinho, preto. Uma maquiagem bastante carregada para às três da tarde, um batom vermelho carmim. Na orelha, no pescoço, nos dedos e no pulso, inclusive num broche que levava do lado esquerdo, muito dourado. Estava toda de preto. Nos pés, uma sapatilha. Uma saia longa, justa, de tecido acetinado. Na parte de cima, um casaco, também preto, que parecia bem quentinho, daqueles bons para encarar um frio europeu. Extravagante. Ousaria dizer, totalmente descolada da paisagem. Uma Mortícia Addams carregada nas joias douradas e com um semichapéu russo de pelinhos. Imagine!

Imagem criada no Canva com ajuda de IA

Eu tive vontade de rir. Era muito ridículo. Meu olhar, curioso e malicioso, não conseguia se desgrudar da criatura. Quando passou a interagir com as pessoas que a acompanhavam – vestidos de maneira mais normal -, descobri que não se tratava de uma gringa que havia se materializado, ali no café, por alguma estranha circunstância. Então, fiquei pensando: rica e cafona? Ou cafona querendo parecer rica? Seria uma dessas influencers sem noção? Não pareceu. Em nenhum momento sacou o celular. Rica, cafona e sem amigas? Sim, porque uma boa amiga faria um papel importante numa situação como aquela. “Amiga, você não acha que está exagerando? Vamos só tomar um café…” Era o mínimo que uma amiga de verdade poderia fazer.

Era um café em bairro de bacana. Lugar de gente que gosta de ser chique, descolada. Alguns fazem aquele tipo despojado, querendo parecer pobre de boutique. E tem a galera que vive acreditando ser herdeira da nobreza. Muita gente esnobe. Eu costumo gostar dos cafés. E só. O tipo de gente que circula por esses lugares não me comove. Não fico curiosa para saber a história de vida que se esconde por trás desses personagens. São enfadonhos. A escalafobética de hoje só me fez mesmo foi rir do ridículo a que se prestava. Pra mim, gente como ela, é aquele tipo de entretenimento de qualidade duvidosa; às vezes até faz a gente rir, mas, na maioria dos casos, só é perda de tempo de mau gosto. Se me dei ao trabalho de dedicar essa crônica ao ocorrido foi pelo bizarro da situação, que superou em muitos graus qualquer outra que eu já tenha presenciado nesses contextos.


17 julho 2026

O nome dela era Jéssica

 

Com um sorriso no rosto, ela me disse: “boa tarde, com licença, eu me chamo Jéssica e acabei de chegar na cidade, mas eu faço chocolate há muito tempo. Eu tenho aqui cones trufados, um modo de pagar os boletos...”. Certamente ela continuaria falando até o sinal abrir, mas eu a interrompi, educadamente, dizendo que não tinha intenção de comprar cone trufado e não queria fazê-la perder tempo comigo. Desejei boa sorte. Ela agradeceu, sorriu, e se dirigiu ao carro que estava atrás de mim.

Imagem retirada do pixabay

Eu estava a caminho da terapia. E enquanto meu cérebro processava a cena e eu tentava avisá-la de que não seria uma cliente, uma parte de mim já dava início a esta crônica. Jéssica acabou de chegar nesta cidade que está cada dia mais caótica. O trânsito, hoje, particularmente infernal. De onde veio Jéssica? Diria que do estado de São Paulo mesmo. Não capturei nenhum sotaque diferente. Por que a Jéssica veio para Campinas? Que esperanças e sonhos a trouxeram até aqui? Um dia eu também cheguei em Campinas. Cheguei cheia de sonhos e planos. Cheguei e fiquei. Será que a Jéssica também ficará? Eu só tinha dezenove anos. Tive muito medo desta cidade. Ela me parecia tão grande, e eu me sentia tão pequena e sozinha. Diferente da Jéssica, eu não tinha boletos para pagar. Apesar do desamparo que senti quando cheguei nesta cidade, eu fui acolhida por muitas pessoas. E fui acolhida também pela Unicamp. Não fossem as políticas de permanência – moradia, bolsa alimentação, bolsa trabalho – e eu certamente não teria ficado aqui. Não estaria onde estou hoje.

Fui e voltei da terapia e não consegui tirar a Jéssica da minha cabeça. Ela me pareceu ter a minha idade, talvez um pouco mais. Agora que escrevo, me pergunto por que não comprei um cone trufado dela. Não é o tipo de doce que eu gosto. Mas não era sobre mim. Era sobre a Jéssica, sobre os boletos que ela precisa pagar. Agora, enquanto escrevo, me dou conta de que poderia ter feito algo por ela. Mas, egoísta que sou, o que eu fiz foi capturar um pedaço dela para transformar em texto. É uma coisa que costumo fazer. Eu roubo coisas das pessoas – palavras, expressões, gestos, olhares. Eu confesso, cada vez que retorno para casa, do trabalho ou depois de ir almoçar ou jantar em algum restaurante, depois de um barzinho, um show ou um evento na praça, volto com muitas coisas roubadas de pessoas que, na maior parte das vezes, nunca mais verei. E a partir desses fragmentos roubados, eu invento histórias. Algumas bonitas e alegres, outras muito tristes. Eu invento porque aqueles fragmentos não são suficientes. Porque, para mim, a vida não é suficiente. Nunca foi. Eu sempre precisei inventar.

Será que a Jéssica conseguiu vender seus cones trufados? Eu me pergunto com um gosto amargo na boca. Eu sei que, se tivesse comprado um cone, não teria mudado a vida dela. Mas qual é o limite entre a gente ter consciência de que não vai mudar a vida de uma pessoa e a gente não fazer nada? Tento me convencer de que fiz alguma coisa. Esta cidade grande, com tantas pessoas em cada esquina, em cada semáforo, vendendo algo, pedindo algo, ou simplesmente precisando ser vista por alguém, tende a levar a gente a um cinismo de sobrevivência. Eu sei que não posso resolver os problemas dessas pessoas – não dou conta nem de resolver os meus sozinha, por isso eu estava indo para a terapia -, mas eu me esforço para não deixar de enxergar pessoas e suas histórias. Nem que seja para roubar alguma coisa delas e eternizar em alguns poucos parágrafos, em crônicas como esta.

14 julho 2026

Data centers: tê-los ou não tê-los, eis a questão!


 "O Brasil discute hoje um incentivo para data centers. Isso funcionaria?

Não acho errado, mas daria errado sem capacidade energética e planejamento. Quando se vê a capacidade de geração de eletricidade chinesa, o gráfico é de assustar.

Uma empresa que tem data centers no Brasil que me procurou disse que está quase desistindo de trazer investimentos em IA para o país. Isso porque é muito caro e não há capacidade energética. Assim, os provedores nacionais não conseguem competir em custo com os grandes provedores de nuvem internacionais. É mais sério do que um simples incentivo fiscal.

É possível conseguir acordos de transferência tecnológica das big techs interessadas em instalar data centers no Brasil?
Tendo energia, o resto vem. O país dá energia barata e pede computadores, qualificação de pessoal e dados. Os dados precisam estar no Brasil. Os datasets são o novo petróleo, são extremamente valiosos para os criadores de modelos de IA."

Trecho da entrevista de Mat Velloso para Folha de São Paulo, publicado em 14/07/2026.. 

Mat Velloso liderou times de IA no Google, onde foi vice-presidente, e foi parte do superlaboratório de inteligência artificial da Meta. Ele deixou a big tech de Zuckerberg em fevereiro para orientar empresas brasileiras.

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"De acordo com a Agência Internacional de Energia dos Estados Unidos, cada consulta ao ChatGPT consome, em média, cerca de dez vezes mais eletricidade do que uma pesquisa típica no Google. 

Até recentemente, os maiores data centers eram projetados para operar com cerca de 150 megawatts, o que significa consumir anualmente tanta energia quanto aproximadamente 122 mil residências nos Estados Unidos. Hoje, desenvolvedores e empresas de serviços públicos se preparam para megacampi de IA que poderão exigir de mil a 2 mil megawatts. Um único deles poderia usar, em um ano, de cerca de uma vez e meia a três e meia a quantidade de energia consumida pela cidade de São Francisco. 

Existem poucos lugares no planeta capazes de produzir e fornecer tanta energia para um único local. Os desenvolvedores estão trabalhando com empresas de serviços públicos ao redor do mundo para construir mais usinas de energia e ampliar as opções disponíveis.  (...) As empresas de serviços públicos estão adiando a desativação de usinas a gás e carvão, assim como a transição para energia renovável. A Microsoft reativou a Three Mile Island, uma usina nuclear perto de Middletown, Pensilvânia, que sofreu um acidente nuclear no final da década de 1970, o pior acidente nuclear comercial da história do país. Até 2030, no ritmo atual de crescimento, estima-se que os data centers usarão 8% da energia dos Estados Unidos, em comparação com 3% em 2022; mundialmente, a computação de IA poderá consumir mais energia do que toda a Índia, o terceiro maior consumidor de eletricidade do mundo."

Karen Hao, O Império da IA: por dentro da corrida irresponsável pela dominação total, trad. Ananda Alves e André Sequeira, Rio de Janeiro: Rocco, 2026.

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Discursos como o de Mat Velloso são exemplos do que Karen Hao identificou como parte do modus operandi do Vale do Silício: a inevitabilidade. Sutskever, um dos fundadores da OpenAI, afirmou ao repórter do New York Times, Cade Metz:

"Acho bastante provável que não demore muito para que toda a superfície da Terra fique coberta por data centers e usinas de energia." Segundo Sutskever, "haveria um tsunami de computação... quase como um fenômeno natural". A IAG (Inteligência Artificial Geral) e os data centers necessários para sustentá-la seria "útil demais para não existir" (HAO, 2026, p.87). 

No entanto, ao longo das mais de 400 páginas do seu livro, Hao nos conta que, diferente da inevitabilidade alardeada por Sam Altman e seus sócios, "a história da IA revela que seu desenvolvimento sempre foi moldado por uma elite poderosa" (HAO, 2026, p.99). Segundo Karen, à medida que comunidades do sul global, mais vulneráveis às investidas das grandes empresas de tecnologia, vão tomando consciência da ameaça que esse desenvolvimento desenfreado significa para seus territórios, a questão central por elas colocadas é: "como imaginar um caminho diferente para o desenvolvimento da IA que não esteja enraizado na extração". 

Poderíamos complementar: como imaginar um caminho diferente para o desenvolvimento da IA que não implique na devastação da Terra? Universidades, centros de pesquisas independentes, governos e políticos dos países que estão sendo "cortejados" e "assediados" por essas empresas precisam urgentemente focarem nessa questão. Nos colocar simplesmente como fornecedores de matéria-prima e energia em troca de "transferência tecnológica" é apenas nos render a um modelo destrutivo que pode custar a sobrevivência da maioria de nós. Pois, enquanto se empenham em enganar e trapacear governos e comunidades mundo afora, esses bilionários também investem em Planos B e C de sobrevivência própria, seja na Lua ou em Marte. 

As notícias de estados brasileiros dispostos a atrair data centers para seus territórios precisam fazer soar alarmes em toda a sociedade. O que realmente temos a ganhar com isso? A expansão de data centers pelo mundo está a serviço de um modelo de tecnologia que não beneficia a todos. É um modelo extrativista, colonialista, exploratório e completamente descontrolado.  Estamos sendo convencidos de que "precisamos" desses data centers porque "precisamos" das IAs, mas não estamos nos perguntando: Precisamos mesmo? Precisamos para quê? Qual IA? 

Nunca foi tão importante a capacidade de pensar, de se questionar, de interpretar textos e contextos. Enquanto tantos de nós são ludibriados e, encantados pelas demonstrações dos avanços tecnológicos que nos fazem acreditar que vivemos em cenários de filme de ficção científica, se tornam incapazes de olhar para o que acontece a nossa volta, o planeta sofre as consequências do desatino de bilionários mimados, narcisistas, com perfis que oscilam entre psicopatia e sociopatia. 

Karen Hao apresenta em seu livro a experiência de uma comunidade indígena na Nova Zelândia que usou IA para revitalizar uma língua tradicional do povo maori. Uma IA específica, criada com e para a comunidade, desenvolvida a partir de três princípios fundamentais: consentimento, reciprocidade e soberania maori em todas as etapas. A diferença de perspectiva aqui é fundamental:

            "Enquanto a OpenAI busca criar modelos únicos, massivos e capazes de realizar inúmeras tarefas, um objetivo que exige o máximo de dados possível, a Te Hiku concentrou-se simplesmente em desenvolver um modelo pequeno e especializado, excelente para uma função específica. Além disso, beneficiou-se da comunidade transfronteiriça e de código aberto: tomou como ponto de partida o DeepSpeech, um modelo gratuito da Fundação Mozilla, ele próprio fruto de uma visão distinta de desenvolvimento em IA. (HAO, 2026, p.400)

Não se trata de negar a tecnologia e seus potenciais benefícios. Trata-se de colocar cada coisa no seu devido lugar. O tipo de uso banal que se faz hoje de ChatGPT e afins, inclusive correndo o risco de atrofiar ou não desenvolver capacidades e habilidades humanas básicas que nos trouxeram até o atual estágio de desenvolvimento tecnológico, é um erro que pode custar muito caro. Empresas como Google, OpenAI, Microsoft, Meta e Anthropic, e aqueles que estão a serviço da mesma visão de mundo que norteia essas empresas, seguirão dizendo que é preciso ampliar a produção de energia, que os países precisam se adequar a nova era da IA, que os países que não seguirem o roteiro, escrito por eles, ficarão para trás. 

Mas o verdadeiro perigo não é "a gente voltar para 1500", e sim o planeta ser sugado até a última gota, sem haver chances de retorno. 

30 junho 2026

Capitu

 

Pretinha de olhos verdes. Miúda. Pelo curto e macio. Assim era a nossa gatinha perfeita. Capitu. Dizíamos que era uma gatinha de família, afinal, conhecíamos a mãe, os irmãozinhos e a humana da casa onde ela nasceu. Foram sete anos e meio de amor. Muito amor. Gatinha de apartamento por cinco anos, por quase sete, gatinha única. Quando nos mudamos para a casa e ela viu pela primeira vez o quintal, foi coisa tão especial. A carinha dela, os olhos brilhando, percorrendo cada cantinho do que seria seu lugar preferido no mundo. Dizíamos que era vegetariana, a Capitu. Amava uma graminha bem verdinha. Seus olhos, verdes, verdejaram ainda mais naquele dia.

A primeira noite no apartamento foi difícil. Era janeiro de 2016. Havíamos preparado um cantinho para ela, com tapete, cestinha, cobertorzinho. Aconchegante. Mas não houve jeito. Miou e miou até que foi introduzida ao nosso quarto. Do lado da nossa cama, na cestinha, ela finalmente se acalmou.

Não gostava de colo. Mas era carinhosa, Capitu. E quando se deitava, no sofá da sala, entre nós dois, seu corpinho roçava de leve nossos corpos. Ronronava. Ela nos ensinou e estabeleceu um ritual: as escovadinhas. Alguns humanos especiais que frequentavam nosso apartamento também foram introduzidos ao ritual. Por ela. E como gostava das escovadinhas, a Capitu. Era felicidade em forma de gato naqueles momentos.

Quando filhotinha, brincamos tanto com ela. Pelo corredor, na sala, no quarto, no escritório. Desde cedo foi minha companheira de longas tardes de trabalho. Deitava-se em algum canto da escrivaninha, sempre bagunçada. Lá ficava. Vidinha de gato. Cansava da posição, se levantava, se alongava e arrumava seu corpinho em outra posição. Depois de um tempo, acostumou-se a dar cabeçadinhas em mim. E com seus olhos grandes e expressivos, tanto amor tinha naqueles olhos, esticava a cabecinha e tocava seu nariz geladinho no meu. Amor.

Durante a pandemia, nossa convivência se intensificou. Foi feliz, a Capitu, com seus dois humanos. Estávamos com medo, assustados, depois cansados, estressados, mas tínhamos a companhia dela, nossa Capituzinha. E sei que ela nos salvou. Brincávamos. Bolinhas papel e outros brinquedinhos pelo corredor. Carinho e aconchego no sofá, na cama, principalmente nos dias frios.

Pouco tempo depois da mudança, vieram os primeiros sintomas. Vômitos. Capitu perdeu peso, ficou amoada. E começou a saga. Sabíamos que ela tinha um rim atrofiado. Descobrimos, depois de idas e vindas ao veterinário e um tanto de exames: pedras no rim, no rim que era bom. Foram meses de angústia, para nós, de sofrimento para ela. Ainda hoje, quando lembro, um aperto na garganta e uma coceira no nariz fazem meus olhos transbordarem.

Era dócil, mesmo nos momentos mais difíceis. E aquela doçura e mansidão me cortavam o coração. Eu ainda me pergunto se fizemos o melhor. Entre exames, consultas, internações e cirurgias, pensava, e penso ainda, se foi o certo. Nossa gatinha. Ela queria viver. Lutou bravamente. Entre uma cirurgia e outra, teve uma volta para casa que foi nossa despedida. No seu lugar preferido do mundo, tomando seu solzinho, com seus humanos do lado, ela parecia feliz, apesar de tudo. Nós também tentamos ser.

Ela não gostava de colo. Mas desde quando foi castrada, toda vez que algo a incomodava, deitava do meu lado, encostadinha na minha barriga, embaixo das cobertas.  E foi assim durante meses. Eu não dormia. Sentia o corpinho dela, cada vez mais frágil, ali, naquele calorzinho. Tinha medo de machucá-la. Passei noites em claro. Às vezes, cochilava. Foram meses difíceis, para nós e para ela.

Capitu. Não tem outra igual. Mas carrego uma dorzinha, que hoje, quando ainda estava escuro, a manhã nascendo, voltou a doer. A última vez que nos vimos, foi triste demais. Ela praticamente me pediu para levá-la para algum outro lugar. Seu pelo, durante os piores momentos, ainda brilhava. Ela não desistia. Se lambia, com dificuldade, mas parecia dizer: eu ainda não desisti. Naquele dia, ela já não tinha forças. O pelo embaçado, o cheiro de bichinho de jaula, bichinho sofrendo. Eu a levei para o hospital veterinário. Foi a última vez. Junho de 2023.

De repente senti uma saudade tão aguda. E esse texto brotando em minha mente, ao mesmo tempo que lágrimas quentes escorreram em profusão pelo meu meu rosto. Capitu. A gatinha perfeita. Não pude mais ficar na cama. Nossa cama. Seu corpinho já não se ajeita mais junto ao meu. Mas eu senti, Capitu, como se estivesse lá. E não suportei. Precisei levantar, quando ainda não tinha nascido direito o dia. Ligar o computador. E deixar transbordar essas palavras para a tela. Chorei. Ainda choro. E olho para sua foto. Na cestinha. Olhos doces. Olhos de Capitu.

 


01/05/2025

24 maio 2026

Crônica de uma morte não anunciada (mas previsível)

Mais um feminicídio na cidade. Um agente de segurança pública, na casa dos cinquenta anos, preso em flagrante. Ele nunca disse que iria matá-la. Mas matou. No dia do casamento, durante a festa. Bem na frente da família e dos convidados. Três tiros. Três também é o número de filhos que ela deixou. Três filhos que passaram a fazer parte das estatísticas de órfãos vítimas da violência contra mulher.

Ele não disse que ia matá-la. No entanto, vizinhos relataram que o casal brigava diariamente. Gritos, xingamentos e insultos eram ouvidos quase todas as noites. A mãe da vítima afirma que ele ficava violento quando bebia. “Tentei alertar minha filha”, ela disse, “mas ela estava apaixonada”. E assim o casamento foi marcado.

No cartório do bairro, numa manhã de sábado de maio, ele e ela tornaram-se, oficialmente, marido e mulher.  Um sábado cinzento, que teve ao longo do dia uma garoa insistente. Olhando retrospectivamente, alguns viram sinais dos céus. Na verdade, sinais não faltaram. Mas ela, a vítima, a noiva, não queria enxergar. Tinha 34 anos. Amigos e familiares dizem que era batalhadora e que apostava nos estudos para ter um futuro melhor. Sonhava ser advogada. Mas estava apaixonada. Apaixonada por um homem que, quando bebia, ficava violento. E ele bebia com frequência.

Durante a festa, ela percebeu que ele já tinha bebido demais. Pediu que parasse. Já era tarde. Ele a empurrou. Ela quase caiu. Ele a empurrou novamente. Desta vez ela foi ao chão. Os convidados que dançavam, de repente, ficaram paralisados. Os mais próximos correram para socorrê-la. Os familiares deram um jeito de retirar os filhos dela de perto. Ele saiu do salão. Minutos depois retornou. E sem que alguém percebesse ou  tivesse tempo para impedi-lo, sacou um revolver e disparou.

Ele nunca disse que iria matá-la. Eles quase nunca dizem. Mas gritam, xingam, humilham, batem. Alguns têm crise de ciúmes e dizem que a culpa é delas. Como ele, muitos ficam violentos só quando bebem. Depois se arrependem, pedem desculpas, juram que não irá acontecer de novo. Ele não disse que iria matá-la, mas a morte dela era previsível. Muitas são. E acontecem mesmo assim. Quatro mulheres são mortas por dia no Brasil. Maridos, namorados, companheiros ou ex. Nem todos dizem que vão matá-las. Embora ainda se escute por aí, homens repetindo: “Se não for comigo, não se casa com mais ninguém”; “se não for para ser minha, não será de mais ninguém”.

A vítima foi enterrada dois dias depois do casamento. Os familiares, de outro estado, que não puderam vir para a festa de casamento, vieram para o enterro. "Não é fácil não, meu filho. Só Deus", a fala da mãe ecoava durante o velório.




10 março 2026

Até quando a mãe de alguém vai chorar?

O caso bárbaro de estupro coletivo praticado por cinco jovens de idade entre dezessete, dezoito e dezenove anos no Rio de Janeiro, ganhou contornos ainda mais sombrio esta semana. Um dos estupradores, Vitor Hugo Oliveira Simonin, ao se entregar à polícia no último dia 9, ostentava na camiseta as palavras "regret nothing" - não me arrependo de nada ou sem arrependimento. A afirmação, ao que tudo indica, é um mantra de grupos misóginos e que propagam ódio e violência contra mulheres na internet. 

O jovem, porque sim, um rapaz de 18 anos, em que pese ser maior de idade, é um jovem recém saído do ensino médio, demonstra frieza, insensibilidade diante da violência praticada e falta de condições de viver em sociedade. Certamente essa última constatação nos faz questionar que tipo de educação - informal e formal - esse jovem recebeu até esse momento? Que tipo de valores foram apresentados a ele por sua família? O que a escola fez pela formação desse jovem? Onde estavam os adultos responsáveis por ele enquanto ele era aliciado por criminosos? E essas perguntas servem para os cinco estupradores. Servem também para todos os meninos de dezesseis, quinze, doze, oito anos que estão hoje à mercê de aliciadores no Discord ou outras plataformas. Onde estão os adultos, homens e mulheres, e o que estão fazendo por esses meninos?

No dia seguinte, 10 de março, ficamos sabendo através dos jornais que há vídeos dos cinco estupradores, logo após o crime,  comemorando o ato bárbaro no elevador e dizendo que "a mãe de alguém vai chorar hoje". Eu me recuso a acreditar que esses cinco jovens já nasceram violentos, nasceram estupradores. E por me recusar, não me canso de perguntar como tantas pessoas falharam com eles. Que tipo de pais e mães esses jovens têm? Não estariam essas mães também chorando ao verem o que seus filhos se tornaram? Não sou mãe, mas ouso dizer que se essas mães não estão chorando, se elas não estão sofrendo diante desse fato terrível - são mães de estupradores - elas são péssimas mães e nem mesmo merecem esse nome. Se essas mães não estiverem hoje dilaceradas diante do horror de saberem serem mães de estupradores, ouso dizer que esses jovens não sabem o que é ter uma mãe. 

Para completar o quadro, nem me atrevo a dizer fechar porque ainda estamos no meio da semana, as páginas dos jornais de hoje noticiavam uma trend no TikTok intitulada "Caso ela diga não", na qual homens, de todas as idades, simulavam atos de violência contra mulheres - chutes, facadas, fuzilamento. É urgente a regulamentação das plataformas. É urgente a corresponsabilização das plataformas por conteúdos criminosos que circulam e são disseminados inclusive para jovens e crianças. Se essas plataformas não limitam ou coíbem mensagens que, claramente, colocam vidas em risco, precisam ser multadas. Sim, multa, punição que afeta os cofres, a única linguagem a que essas empresas parecem ser sensíveis.  

O título da trend é mais uma prova de como o machismo faz mal para meninas e meninos. Sim, o medo de levar um não vivido por tantos adolescentes é consequência direta de uma ideia estúpida de que são eles, os meninos, os homens, que precisam tomar a iniciativa para iniciar um relacionamento com uma menina, mulher. Esse peso já deve ter assombrado muitos jovens. Além de "ter coragem" para tomar a iniciativa, eles precisam ter que se preparar para ouvir um "não". Só que esse mesmo machismo diz que homens não podem ser contrariados, não podem escutar um não. Ensina que os homens sempre têm suas vontades satisfeitas. Por isso, quantos jovens, adolescentes, já foram humilhados pelo grupo ao ser "rejeitado" por uma garota? Tudo seria bem diferente se, em primeiro lugar, essa obrigação de "ter coragem" não pesasse sobre ninguém. Que independente do sexo, jovens e adultos pudessem manifestar seu interesse por alguém e, desde muito cedo, fossem ensinados que é perfeitamente normal ouvir um "não". Ser rejeitado por alguém não será uma experiência confortável para ninguém. Mas poderia ser menos traumática. Poderia ser mais democrática - pensando nos relacionamentos heterossexuais. Poderia ser uma fonte a menos de sofrimento e de ressentimento masculino. 

Enquanto insistirmos em reproduzir ideias machistas e sexistas na educação de meninos e de meninas; enquanto continuarmos cobrando, de meninos e de meninas, certos comportamentos baseados em ideais machistas, muitas mães - de meninas e de meninos - ainda irão chorar. 

09 março 2026

Mensagem para os homens neste 8 de março (e para todos os outros dias)


Não queremos flores hoje

Queremos sua coragem todos os dias

para dizer que aquela  piada machista do colega não tem graça

Que aquela foto da ex do seu amigo circulando no grupo de WhatsApp está errado

Que insinuar que a colega foi promovida porque deu pro chefe é asqueroso.

Não queremos chocolates hoje

Queremos seu respeito e reconhecimento todos os dias

Quando temos boas ideias, mas que viram excelentes quando apresentadas por outro homem

Quando realizamos bem tarefas que se fossem realizadas por homens ganhariam destaque na reunião de equipe.

Não queremos elogios hoje

Queremos que você se posicione quando a barbárie estiver estampada nos jornais

Que antes de dizer "nem todo homem", você se esforce em ser exemplo para meninos e adolescentes de como deve se comportar  um ser humano de verdade.

Não precisamos de aplausos ou incentivos para continuar dando conta de tudo

Precisamos de parceiros que dividam as tarefas de casa, o cuidado dos filhos

Parceiros que esperem de nós só o que é justo esperar de seres humanos e não de super-heroinas.

Parceiros de vida, de sonhos, de luta e de conquistas.

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