Dei um grito,
sozinha, dentro do carro. Como se pudesse impedir o que se seguiria. O caminhão
que estava a minha frente era dirigido por uma criatura que já havia merecido
meus xingamentos matinais. Ele me fechou. Não permitiu que eu o ultrapassasse
logo depois da praça de pedágio. Por quê? Eu costumo ter ótimas hipóteses para
esse tipo de comportamento...
Lá estava eu, nove e pouco da manhã, fazendo elogios
à pessoa do motorista do caminhão baú. E aí ele veio. Na hora eu só pude
gritar: Não! E no segundo seguinte o cadáver estava bem na minha frente.
Ele estava completamente
desnorteado. Só podia ser. Por que atravessar a estrada daquele jeito? Quando
ele entrou no meu campo de visão logo antevi o desfecho. Meu coração deu aquela
parada, de susto, e depois acelerou. O que eu poderia fazer?
Mas foi pior,
passei por cima. Quer dizer, o cadáver ficou entre as rodas do meu carro. Não
passei por cima. Mas isso tanto faz. Ele já estava morto. A batida foi muito
forte. Aquele seu corpinho frágil não resistiria. E eu não poderia ter feito
nada. Havia outros carros atrás de mim. Eu não podia simplesmente parar no meio
da rodovia.
Foi muito rápido.
Ele veio da esquerda para a direita. De canto de olho eu o vi. Meus olhos
costumam ser muito bons em identificar pássaros. E eu amo anu-branco. Seu canto
triste, melancólico, nos fins de tarde, me aperta o peito. Já vi vários pássaros
cruzando a estrada pela manhã: tucano, alma-de-gato, anu-preto, bem-te-vi, suiriri.
Aquele anu-branco ia atravessar a estrada. Mas estava voando muito baixo.
| WikiAves |
Eu fui testemunha
ocular do acidente. Ou teria sido um suicídio? Será que anu-branco comete
suicídio? Será que aquela morte, trágica, diante dos meus olhos, nove e pouco
da manhã, foi planejada por ele? O que levaria um anu branco a se matar?
Eu sei, a vida
anda difícil. O noticiário rouba a cada edição as migalhas de esperança
que ainda restam em nós. Graças aos efeitos do El Niño, num mesmo dia temos primavera-verão-outono-inverno e primavera. E tudo isso tem
me causado dores nas articulações dia sim e outro também. Mas o anu-branco? Que
motivos teria para desejar findar seus dias de modo tão trágico?
Eu segui meu
caminho, um pouco mais triste. Fiquei pensando no quanto as estradas são
perigosas, até para os anus. Pensei naquela criatura, no seu corpinho estendido
no asfalto, o dia todo. Resolvi eternizá-lo nessas linhas, registrando sua
morte na estrada. Querendo acreditar que foi só um acidente, que um anu, por
mais triste que seja seu canto, não teria motivos para se matar.
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