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25 junho 2020

Como Schopenhauer e Nietzsche nos ajudam a entender a série Dark - Parte 2

" Não podemos fugir do nosso destino. Nem eu, nem você."
“A dor é seu navio, o desejo é sua bússola.”
Adam

Em "Como Schopenhauer e Nietzsche nos ajudam a entender a série Dark- Parte 1", finalizei o texto com a pergunta: Jonas poderá mudar o rumo da sua história ou está condenado a se tornar  Adam? Depois de pensar mais um pouco e de ver alguns vídeos, principalmente esse vídeo do canal Montoch, estou bastante inclinada a pensar que não formulei a pergunta correta. E se Adam não for Jonas? Na verdade, quando Adam apareceu e se apresentou como sendo o Jonas mais velho, eu não fiquei convencida. Ao ver a série pela primeira vez, minha intuição dizia que Mikkel/Michael seria o Adam (os dois personagens, Jonas e Michael, têm a marca no pescoço, como o Adam, e isso pode ter sido justamente para nos despistar...). Ao rever as duas temporadas, acabei me resignando com a ideia de que Jonas e Adam seriam a mesma pessoa. No entanto, neste momento tenho muitas dúvidas. Minha intuição me fez perceber, logo no começo da primeira temporada, que Mikkel seria Michael, então, talvez eu devesse confiar mais nela... E, talvez, a pergunta correta seja: Qual o destino de Jonas?

Crítica | 3ª temporada de Dark a transforma na melhor série da ...
Jonas e 'Martha' do mundo dois. Imagem de divulgação.

Com o final da segunda temporada e a revelação da existência de um mundo paralelo ou espelhado, de onde vem a "outra" Martha, pode ser que tenhamos na terceira temporada um confronto entre dois mundos, como eu havia sugerido no texto anterior, um mundo schopenhaueriano e outro nietzschiano. No entanto, a personificação desse confronto pode não ser Adam e Noah, como eu havia sugerido, mas Adam e algum personagem do mundo 2, que tenha uma relação com Martha 2, semelhante a que vemos entre Adam e Jonas. Aparentemente a nova Martha assumirá o protagonismo na última temporada e pode ser que ela encarne o espírito nietzschiano em oposição ao Adam-Schopenhauer. Sendo ela responsável por dizer "Sim" à vontade de potência, enquanto Adam busca uma forma de negação definitiva da vontade. Uma das coisas que me faz pensar nessa teoria, Martha-Nietzsche, é o teatro da escola da primeira temporada, no qual Martha interpreta Ariadne num monólogo cheio de simbologia e forte carga emocional. Espero que essa minha hipótese possa fazer algum sentido no final desse texto! Certamente muitas coisas podem mudar com as revelações da terceira temporada e minhas especulações podem se mostrar completamente equivocadas. De todo modo, há vários elementos que já foram exploradas nas duas primeiras temporadas e que pretendo desenvolver nesse segundo texto.

Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será sempre desvirada outra vezes e sempre se escoará outra vez, – um grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reúnam outra vez no curso circular do mundo. E então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e cada inimigo e cada esperança e cada erro e cada folha de grama e cada raio de sol outra vez, a inteira conexão de todas as coisas.”    Nietzsche, Vontade de Potência

Logo que a ideia de repetição e de um tempo circular aparecem na série, quem conhece alguma coisa de Nietzsche, nem que seja só de orelhada, é levado a pensar na doutrina do eterno retorno. Mas, também na filosofia de Schopenhauer, encontramos a ideia de repetição, e de um tempo circular, que parece nos colocar diante de um presente eterno:
"Podemos comparar o tempo a um círculo que gira incessantemente: a metade sempre a descer seria o passado, a outra sempre a subir seria o futuro; porém, acima, o ponto indivisível que toca a tangente seria o presente inextenso; (...) Ou, o tempo é uma torrente irresistível, e o presente é uma rocha contra a qual aquela se quebra, sem no entanto poder arrastá-la" Schopenhauer, O mundo como vontade e como representação, Vol. 1.
Dentro da concepção de mundo de Schopenhauer, o indivíduo é fruto de uma ilusão.Tudo que existe, todos os indivíduos, todos os seres, toda a natureza, são, em essência, uma coisa só, são Vontade. A vontade é o em si do mundo, a verdadeira realidade. Mas a vontade é cega e irracional, é vontade de vida, livre e sem direção, que quando se objetiva num indivíduo, quando é representação, está sujeita ao principio de causalidade, ao espaço e ao tempo, sendo, portanto, determinada. A existência individual é marcada por dor e sofrimento, uma vez que a vontade é puro querer, é sempre uma ausência, é sempre insatisfação e é infinita. A possibilidade de escapar desse sofrimento está associada a possibilidade de negar a vontade. Nessa negação da vontade residiria a liberdade do ser humano, porém não como indivíduo, pois como tal é determinado, dado que é a manifestação objetiva da Vontade. Para Schopenhauer, tal liberdade é possível, momentaneamente, através da contemplação ou fruição da obra de arte ou, definitivamente, através da atitude do asceta ou do santo. Aqui encontramos indícios de que Mikkel/Michael possa ser Adam. Várias vezes vemos Adam diante de um quadro na sede do sic mundus como se estivesse em contemplação. Por outro lado, Michael é um artista e a cena do suicídio se dá justamente no seu ateliê, onde encontramos diferentes pinturas abstratas. Aqui teríamos uma conexão importante entre os dois personagens. Além disso, Mikkel, fã do mágico Houdini, demonstra grande interesse pelo controle do tempo, sendo que sua fala é emblemática na primeira temporada: a questão não é como, mas quando.

Com Schopenhauer vemos uma repetição na espécie, que busca preservar-se eternamente, repetindo o mesmo ciclo, geração após geração, sendo o indivíduo apenas um meio, um instrumento, da espécie, já em Nietzsche, é a vida do indivíduo que pode se repetir uma e um milhão de vezes. Para Nietzsche, a vontade de potência, longe de indicar um princípio metafísico da realidade, é a própria realidade, é o próprio corpo do indivíduo. Nesse sentido, a filosofia nietzschiana é uma filosofia da imanência opondo-se a toda e qualquer forma de transcendência, considerada a fonte do niilismo passivo tão combatido por Nietzsche. O niilismo passivo é a negação da vida em favor do além mundo;  é a fuga na direção do transcendente, da alma, do pós-morte, do paraíso, de um consolo metafísico. O niilismo passivo deve ser vencido, substituído pelo niilismo ativo, com o surgimento do super-homem, fruto da liberdade do indivíduo capaz de afirmar, de dizer Sim, com todas as suas forças, à vontade de potência, tornando-se aquilo que é e disposto a reviver sua vida quantas vezes for preciso.

Em Schopenhauer e em Nietzsche, encontramos um mundo carente de razão, de sentido ou de rumo, um mundo sem finalidade, onde tudo acontece sem que haja um porquê. Diante dessa falta de sentido, e da necessidade de uma vontade cega e irracional, para Schopenhauer só é possível encontrar no mundo dor e sofrimento. E só a negação da vontade pode por fim a esse sofrimento. Nietzsche, por sua vez, defende a possibilidade de superação dessa falta de sentido através de uma existência criadora e afirmativa, afirmativa daquilo que, de forma imperativa se faz presente no mundo, a vontade de potência.

“O mundo antigo voltou para a assombrar como um fantasma que sussurra em um sonho como construir o mundo novo, pedra por pedra. A partir daí, eu sabia que nada mudaria. Que tudo ficaria como antes. As rodas dentadas giram em um círculo. Um destino ligado ao próximo. O fio, vermelho como o sangue, junta todas nossas ações. Ninguém consegue quebrar os nós. Mas eles podem ser cortados. Ele cortou o nosso, com uma lâmina afiada. Porém algo ficou para trás que não pode ser cortado. Uma ligação invisível." (Fala de Martha no monólogo em que interpreta Ariadne)

"Acho que somos um par perfeito. Nunca duvide disso.” (Jonas para Martha)

No mito grego, Ariadne é a guardiã da porta do labirinto onde está preso seu meio-irmão, o mostro Minotauro. Teseu é o herói que irá, com a ajuda de Ariadne, por ele apaixonada, matar o Minotauro. O fio de Ariadne é que permite ao herói encontrar o caminho até o meio do labirinto e, depois de matar o mostro, retornar para fora do labirinto. Após a vitória, Teseu acaba por abandonar Ariadne. Isso ocorreria, em algumas versões do mito, porque o deus Dionísio teria coagido o herói, em sonho, a abandoná-la.

Quando vemos Martha interpretando Ariadne na primeira temporada, somos levados a imaginar Jonas como Teseu, o herói que se aventura no labirinto-caverna. No entanto, na leitura de Nietzsche do mito grego, o casal Dionísio-Ariadne forma o par-perfeito. Dionísio é, para Nietzsche, o deus da alegria trágica que nos convida a afirmação da vida, através da criação da arte, da poesia, música, da dança. Ariadne ao dizer "Sim" a Dionísio, diz "Sim" a afirmação da vida, à vontade de potência.

Assumirá a Martha do mundo dois essa atitude? Será o Jonas do mundo um o seu Dionísio? Mas quem será o Teseu? E o Minotauro a ser derrotado? Antes da terceira temporada, tudo que posso fazer são hipóteses. Minha hipótese é que Adam, que é Mikkel/Michael, é o Minotauro a ser derrotado (mais uma pista sobre a identidade Adam-Mikkel/Micahel pode estar nos nomes: Adão, o primeiro homem, foi feito à imagem e semelhança de Deus; o significado no nome Michael é "quem é como Deus?"). Martha e Jonas seriam, de fato, um par-perfeito. Esse fim "romântico" poderia ser interpretado como uma vitória de Nietzshe sobre Schopenhauer, da afirmação da vida, fruto de uma escolha da Martha do mundo dois. Mas também poderia ser lido como um fim schopenhauriano, no qual o "amor" não seria mais do que uma ilusão criada pela natureza-vontade a fim de garantir sua perpetuação, ou seja, sua eternidade na reprodução da espécie. De todo modo, acredito que na terceira temporada, veremos a confirmação dessa circularidade e dessa repetição, de um destino que, inexoravelmente, deve se cumprir. Mas como isso acontecerá e qual das perspectivas filosóficas irá prevalecer, só saberemos no dia 27 de junho.

21 junho 2020

Como Schopenhauer e Nietzsche nos ajudam a entender a série Dark - Parte 1

Dark é uma série original alemã da Netflix, e sua primeira temporada foi lançada no dia primeiro de dezembro de 2017, a segunda em 21 de junho de 2019 e a terceira e última temporada irá estrear no dia 27 de junho de 2020. Para quem acompanha a série, as datas de estreia não foram escolhidas ao acaso, como nada em Dark parece acontecer por acaso, afinal, como ouvimos várias vezes, "tudo está conectado". Dark tem sido definida como uma série de drama, suspense e, principalmente, de ficção científica, afinal, na abertura da primeira temporada temos uma citação de Einstein, segundo a qual "a diferença entre passado, presente e futuro é somente uma persistente ilusão". Mas, para a minha leitura de Dark, gostaria de destacar os aspectos filosóficos que se fazem presente de forma bastante consistente nas duas temporadas e que, para mim, darão o ritmo da terceira e última temporada da série.

Quando vi as duas temporadas pela primeira vez, Nietzsche e Schopenhauer ficaram pairando na minha cabeça. Embora Schopenhauer não seja citado diretamente, alguns personagens em diferentes momentos parecem ecoar suas teorias. Ao rever recentemente as duas temporadas, enquanto espero ansiosa a terceira, tive ainda mais certeza de que a série é totalmente influenciada por esses dois filósofos alemães. Mas, aparentemente, eu estou falando obviedades, pois uma das roteiristas, Jantje Friese, já disse em entrevistas que há muitas ideias de Nietzsche e Schopenhauer que foram o ponto de partida para que eles começassem a pensar sobre viagem no tempo. E logo no início da primeira temporada, somos confrontados com uma noção circular do tempo, em oposição a noção de linearidade temporal, sendo que não é só o passado que altera o presente, mas também o futuro pode alterarar o passado. Aos poucos precisamos nos acostumar com a ideia de que passado, presente e futuro estão acontecendo simultaneamente.

Dark se passa em Winden, uma pequena cidade, fictícia, no interior da Alemanha. Coisas estranhas acontecem na aparente pacata Winden: crianças desaparecem. Em 2019, Mikkel Nielsen se perde de seus irmãos, Martha e Magnus Nilsen, e seus amigos, sumindo nos arredores das cavernas de Winden. Trinta e três anos antes, foi o tio dos Nilsen que desapareceu, Mads Nielsen, irmão de Ulrich Nilsen.  Além da família Nilsen, as famílias Kahnwald, Tiedemann e Doppler parecem ter suas histórias entrelaçadas por diferentes motivos. No sumiço de Mikkel Nielsen, além de seus irmãos, estavam presentes Jonas Kahnwald, Bartosz Tiedmann e Franziska Doppler.

Mapa das famílias de Dark disponível em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/um-mapa-das-familias-de-dark-da-netflix-para-voce-nao-se-perder/

Ao longo da primeira temporada, outros dois adolescentes desaparecem e o corpo de um adolescente é encontrado na floresta em condições bastante estranhas. Tudo indica que é o corpo de Mads Nilsen.  Mas como 33 anos depois do desaparecimento esse corpo adolescente seria encontrado como se tivesse sido morto no dia anterior? Mistério! Um dos muitos que envolvem a trama de Dark. Além de mistérios e segredos, há muitos assuntos mal resolvidos entre os membros dessas quatro famílias: traições, ciúmes, mentiras, vinganças, ódios que se repetem ao longo das gerações. Passado e presente parecem mais do que conectados, parecem se repetir...
"Alguém que tenha sobrevivido a duas ou três gerações encontra-se na mesma disposição de espírito que um espectador que, sentado numa barraca de saltimbancos na feira, vê as mesmas farsas repetidas duas ou três vezes sem interrupção: é que as coisas estavam calculadas para uma única representação, e já não fazem nenhum efeito, uma vez dissipadas a ilusão e a novidade." (Arthur Schopenhauer, As dores do mundo).
Como muitos fãs da série já destacaram, em especial esse vídeo do canal Série Maníacos, Dark trabalha com muitos elementos da cultura alemã, seja fazendo referências diretas, como a Eisntein e a Nietzsche, ao artista Rubens e a obra A queda dos anjos rebeldes, na sede do sic mundus, ou ainda através de releitura de obras de artistas alemães. E nessa perspectiva faz todo sentido os filósofos Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche terem influenciado a série. Eles são dois grandes nomes da filosofia alemã do século XIX e desenvolveram uma visão bastante dark do mundo e da humanidade, afinal o primeiro é conhecido como o filósofo do pessimismo e o segundo como aquele que anunciou a morte de Deus. Rompendo com uma tradição racionalista e batendo de frente com a tradição judaico cristã, os dois filósofos nos colocaram diante da falta de sentido da vida e da força avassaladora das paixões e dos desejos.

Embora Nietzsche tenha sido um leitor e, até certo ponto, bastante influenciado pela filosofia de Schopenhauer, diante da falta de sentido da vida, os dois filósofos seguem caminhos distintos. Ao pessimismo metafísico e ao niilismo passivo de Schopenhauer, Nietzsche opõe um fisicalismo e um niilismo ativo: enquanto o primeiro propõe a negação da vontade, o segundo aposta na afirmação da vontade de potência;  se para Schopenhauer o indivíduo está determinado e, embora tenha a ilusão de fazer escolhas, suas ações são fruto de uma necessidade que se faz presente em toda a natureza, o homem torna-se livre quando é capaz de negar essa vontade cega que determina suas ações; para Nietzsche, ao contrário, o indivíduo encontra a  liberdade na afirmação da vida, da vontade de potência.

No último capítulo da segunda temporada, os diálogos entre Adam e Noah parecem um embate entre as duas visões de mundo:

Adam: Não podemos fugir do nosso destino. Nem eu, nem você.
Noah: Você não declarou guerra contra Deus. Mas sim contra a humanidade.
Adam: (...) O tempo está jogando seu jogo cruel conosco. Você acha que é seu destino me matar. Mas esse não é seu destino assim como o meu não é morrer aqui e agora. Somente quando nos livramos de qualquer emoção que somos livres de verdade. Somente quando alguém está disposto a sacrificar o que mais ama. (...) Não existe homem sem culpa. Nenhum deles merece um lugar no seu paraíso. Esse nó só pode ser desfeito ao ser destruído completamente. Não podemos fugir do nosso destino.

Como eu disse no início, a série tem muitos elementos de ficção científica, envolvendo viagem no tempo, buraco de minhoca, relatividade, partícula de Deus. No entanto, para mim, o núcleo duro da série gira em torno de uma das grandes questões da filosofia: somos livres ou nosso destino já está traçado? Jonas poderá mudar o rumo da sua história ou está condenado a se tornar o Adam?

08 abril 2020

Espaço para terraplanistas e negacionistas na imprensa - sempre é o caso de ouvir o "outro lado"?

Jornais, Leeuwarder Courant, Imprensa, Notícias
imagem retirada do Pixaby
 













 
O conhecimento científico e aquilo que é cientificamente cognoscível diferem da opinião e do opinável.  (Aristóteles: Segundos Analíticos I, 30) 

Faz tempo espalhou-se entre nós - acredito que uma herança do espírito iluminista - e tornou-se senso comum a ideia de que "devemos respeitar as opiniões alheias" e junto com essa máxima outras correlatas que dão notícia de que "todo mundo pode ter uma opinião sobre qualquer coisa". Mas será que é assim mesmo? Será que tudo é passível de uma "opinião"? Será que "qualquer um" pode ter opinião "sobre qualquer coisa"? Será que todas as "opiniões" devem ser respeitadas? E, na esfera pública, devemos dar voz a "toda e qualquer opinião"? 

Para começar a conversa, o que será que entendemos por "opinião" nessas ocorrências cotidianas? No senso comum, as opiniões estão, muitas vezes, associadas a juízos de gosto ou preferências, e costumamos dizer que cada um tem "o direito" de ter a opinião que for: sorvete de chocolate é melhor que de baunilha; o jogador x é melhor que o jogador y; o candidato A é melhor que o candidato B. Mas também associam "opinião" a situações "polêmicas" nas quais é preciso assumir "um lado", pois ou seremos a favor ou contra alguma coisa, por exemplo: A é a favor do aborto, mas eu sou contra, essa é minha opinião! Esses tipos de "opiniões" têm pouco ou nenhum interesse para um debate qualificado, seja na filosofia ou na Ciência, ou no bom jornalismo.

Desde a antiguidade, a opinião (doxa, em grego) foi vista como problemática. E a diferença entre ter opinião a respeito de algo e ter conhecimento sobre esse mesmo algo foi muito bem delimitada desde Sócrates. Mas já na Grécia Antiga, ao falar da doxa, Sócrates, Platão e Aristóteles não estavam interessados em juízos de gosto ou em declarações a favor ou contra alguma coisa. A doxa era um tipo de declaração que pretendia ser verdadeira, que pretendia falar sobre um estado de coisas no mundo, dizer como as coisas são. Para os filósofos, a opinião é a pretensão de dizer algo sobre algo, acompanhada da pretensão de que isso seja verdadeiro. Mas aquele que expressa uma opinião não possuí domínio das causas da relação que ele pretende enunciar. Algumas vezes, aquele enunciado acontece de ser verdadeiro, ainda que quem tem a opinião não saiba por que ela é verdadeira. Como disse Aristóteles, saber a causa, ter conhecimento do por que X é Y,  é o que diferencia quem tem ciência (episteme) de quem tem apenas opinião.

Guardadas as devidas proporções, pois a noção de Ciência da época de Aristóteles passou por muitas modificações ao longo do tempo, ainda segue válida a distinção entre o conhecimento científico e a mera opinião. Mas uma vez que um enunciado é reconhecido pelos pares como sendo um enunciado científico, uma opinião que contraria tal enunciado não pode ser tratada como se tivesse o mesmo peso num debate público. A respeito do mundo, do funcionamento do mundo, dos fenômenos que envolvem os seres vivos, e isso inclui uma doença como a Covid-19, devemos nos guiar pela Ciência e pelos resultados obtidos através de testes e estudos rigorosamente guiados pelo método científico. O cenário atual a respeito da Covid-19 é o seguinte: de um lado, dados empíricos e projeções matemáticas a partir das quais é possível desenhar dois cenários: a) aumento de casos de pessoas infectadas numa quantidade que rapidamente levaria os sistemas de saúde ao colapso (sem isolamento social), b)  a redução do número de casos, seguida do achatamento da curva de contaminação, diminuindo a sobrecarga dos sistemas de saúde (com isolamento social); do outro lado, pessoas que afirmam, sem nenhum tipo de evidência ou estudo sério, que o isolamento social aumentou o número de casos de contaminados, ou que a "epidemia", assim como outras, vai seguir seu ritmo com ou sem isolamento social. Será que podemos tratar essas afirmações como sendo equivalentes, como se tratando de "visões" ou "opiniões" distintas sobre o assunto? 

Ao abrir espaço para que o deputado Osmar Terra pudesse defender "sua visão", a Folha de São Paulo cometeu um erro. Ou melhor, a Folha repetiu um erro que já vem cometendo faz tempo: tratar opinião como equivalente ao conhecimento científico na seção "Tendências/Debates". Há alguns meses, nessa mesma seção, a Folha abriu espaço para um defensor do design inteligente, de um lado, e um cientista, do outro. Para alguém desavisado, soa como se as duas posições fossem equivalentes, e que o design inteligente, uma versão pseudocientífica do criacionismo, devesse ser tomada como um contraponto da teoria da evolução. A própria pergunta/tema para o debate em questão - O design inteligente, tido como vertente do criacionismo, é uma teoria científica válida? - poderia ser chamada de misleading ou enganadora. Pois pode levar algumas pessoas a pensarem que esse é um problema legítimo no contexto da ciência hoje. Ao repensar sobre esse exemplo, me parece que o problema estaria no fato de algum cientista se submeter a estar do outro lado, aceitar o debate. Explico: ao promover esse "debate", entre uma posição de fé e uma posição científica, a Folha rebaixa o conhecimento científico ao status de opinião.

O caso de Osmar Terra é mais complexo. Terra é um político, atualmente um deputado federal pelo MDB. A política, mas não a ciência, depende das opiniões. Assim já dizia Hannah Arendt: "o pensamento político é representativo. Formo uma opinião considerando um dado tema de diferentes pontos de vista, fazendo presentes em minha mente as posições que estão ausentes; isto é, eu os represento". Mas se a política se constrói a partir de opiniões, tais opiniões não podem estar descoladas da realidade, dos fatos. Como político, é esperado que Osmar Terra opere no campo das opiniões. Mas também seria esperado que suas opiniões estivessem ancoradas em fatos. Mas em seu artigo na Folha, embora não possa esconder suas aspirações políticas, Terra pretende dar "ares" científicos para sua "opinião". Mas Terra falha em sua empreitada, pois a Ciência, ainda mais do que a política, está ancorada nos fatos. Osmar Terra não tem ao seu lado nem a verdade fatual, nem a verdade racional, própria da Ciência e da Filosofia, para seguir acompanhando Arendt.

Osmar Terra faz afirmações que não correspondem à realidade - houve aumento de contaminação com o isolamento social. Portanto, falta-lhe a verdade fatual e, por pretender dizer o que é, declarando o que não é, podemos afirmar que o deputado mente. Para sustentar sua opinião de que deveríamos acabar com o isolamento social, Terra distorce os resultados de um estudo científico. Ainda que o estudo citado em seu texto tenha conclusões distintas do estudo científico ao qual Terra pretende se opor, os próprios estudiosos não apresentam tais resultados como conclusivos, afirmam que ainda precisam fazer testes e, portanto, não se juntariam ao deputado pedindo o fim do isolamento, como de fato não fizeram no país de origem do estudo, a Inglaterra. Falta verdade racional, pois não há de fato um estudo científico capaz de embasar suas afirmações, e novamente o deputado mente. A mentira e a política, como também já observou Hannah Arendt, têm uma longa história juntas. E por último, mas não menos importante, Arendt nos lembra que "a autêntica qualidade de uma opinião, como de um julgamento, depende de sua imparcialidade". Imparcialidade que não existe no texto de Osmar Terra, que faz questão de manifestar seu total apoio ao presidente Bolsonaro e sua defesa do fim do isolamento social neste contexto de pandemia.

Infelizmente a mentira tem sido tolerada e nos últimos tempos até se transformado em arma e estratégia na política. Hannah Arendt também nos alertou para o importante papel da imprensa como uma das guardiãs da verdade fatual, chamando nossa atenção para os perigos aos quais a impressa estaria sujeita, tanto de sofrer pressão social quanto governamental. Se a imprensa precisa se manter vigilante para não sucumbir às pressões governamentais, também precisa se manter alerta para não ceder às pressões sociais que pretendem reduzir o conhecimento científico a mera questão de opinião. A pressão social nestes tempos estranhos em que vivemos muitas vezes se manifesta numa confusa exigência de se ouvir, sempre, os dois lados. Mas tem horas que "o outro lado" não existe, é só negacionismo ou pseudociência mesmo.

07 maio 2019

Não é a Filosofia ou a Sociologia que estão sob ataque: é a educação pública de qualidade (pela qual ainda lutamos)


O pronunciamento do presidente da república acerca das supostas intenções do MEC de reduzir investimento em Cursos de Humanas, nominalmente Filosofia e Sociologia, é só mais um parágrafo - capítulo exigiria mais do que os caracteres permitidos pelo Twitter e que parecem ser também o limite do presidente - da narrativa anti-intelectualista adotada pelo governo e seus apoiadores.

No entanto, atacar a Filosofia não é bem uma inovação desse governo. A Filosofia, desde suas origens, muitas vezes foi apontada como inimiga pública de governos e governantes - quanto mais autoritários, maior a fúria com que se atiram contra ela. Mesmo em tempos de maior estabilidade e normalidade democrática, uma parcela considerável da sociedade manteve-se sempre desconfiada da Filosofia. Essa desconfiança ora se traduz em certo desdém - a Filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual -, ora num reconhecimento desmedido - Filosofia é coisa de gente muito inteligente - mas que, no fim das contas, tem o mesmo resultado prático: contribui para afastar a maioria das pessoas da Filosofia.

Seja porque é inútil ou porque é algo muito difícil, a verdade é que muitos filósofos também contribuíram com essa fama da Filosofia de senhora estranha ao grande público. Por motivos históricos, a Filosofia também tem sido uma área de grande concentração de homens ricos ou bem-nascidos, tendo sido, ao longo de sua história, pouco receptiva às mulheres ou àqueles que vinham de classes mais baixas. Afinal, ter tempo livre para pensar sobre as grandes questões da vida sempre foi privilégio de uns poucos. A maioria das pessoas esteve sempre preocupada em sobreviver, em ganhar o pão de cada dia, e quando começou sobrar tempo, queria descansar e se divertir.

Mas se a Filosofia nasce encastelada, sendo privilégio de uns poucos, hoje ela vive um momento diferente. Os ambientes universitários, embora não sem resistência, têm cada vez mais percebido a importância de se abrirem às mulheres e aos diferentes grupos da sociedade que antes estiveram apartados da Filosofia. A própria existência de cursos de Filosofia em Universidades Públicos permitiu essa aproximação. Filhos e filhas de trabalhadores que tiveram pouco acesso à Escola - como eu - podem hoje cursar Filosofia. Ainda há muitas barreiras a serem rompidas e muitos espaços a serem conquistados. E na contramão dos esforços de democratização da Filosofia, e dos espaços universitários como um todo, a fala do presidente e as intenções do ministro da educação repisam velhos preconceitos e lugares comum. A declaração do ministro durante a live com o presidente: "Pode estudar Filosofia? Pode. Com dinheiro próprio.", retoma o elitismo da Filosofia e mais uma vez a joga para longe da maioria das pessoas. Ou pior: ao falar em pagar para estudar filosofia, o ministro pode estar pensando no curso online do guru desse governo, astrólogo de profissão e autoproclamado filósofo que, ao que tudo indica, doutrinou bem o ministro. Mas, no limite, o que interessa é que quem não tiver dinheiro próprio para poder se dar ao luxo de estudar Filosofia, vai ter que estudar o que o ministro e o presidente decidirem que é adequado.

Segundo o presidente, "a função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta". Num primeiro momento pode parecer que não há nada de errado com a fala do presidente. Afinal, quem discorda que devemos ensinar leitura e escrita aos nossos jovens? Ou que os jovens precisam aprender matemática? Quem discorda que a educação deve melhorar a sociedade a nossa volta? No entanto, na cabeça do presidente - pelo menos é o que seu Twitter nos permite saber - basta ensinar leitura e escrita e um pouco de matemática. E depois, o essencial é ensinar um ofício, de modo a garantir renda para a pessoa e sua família. A maldade desse pensamento está em limitar os sonhos e potenciais de milhares de jovens. Que para um jovem que nasceu em família pobre e sempre passou necessidades conseguir um emprego é algo maravilhoso, não tenho dúvidas. Sei bem o que é isso. Comecei trabalhar muito cedo, não por necessidade extrema, mas a condição financeira dos meus pais era bastante complicada. Fazer um cursinho, prestar vestibular, entre outras coisas, só foram possíveis porque eu trabalhava desde os 14 anos. E quando eu larguei um emprego de carteira assinada para embarcar para outra cidade, para fazer Filosofia, muitos acharam que eu era louca. Meus pais, sem entenderem bem o que era essa tal filosofia, se orgulhavam da filha que seria professora, mas também sofreram bastante, temendo que eu passasse fome, pois não tinham como me sustentar numa cidade grande como Campinas. Com 19 anos, eu saí otimista de casa, sabendo da existência da Assistência Estudantil, da Moradia e outras bolsas que tornariam meu sonho possível. Mas tudo ao meu redor conspirava para que eu ficasse na minha cidade pequena, na garantia do meu trabalho, com carteira assinada. Pessoas como Bolsonaro e o atual ministro da educação, não veem chances melhores para pessoas que nasceram numa família pobre como eu. Aprender a ler e escrever, um pouco de matemática e ter um ofício que garantisse renda seria o máximo que eu poderia sonhar.

Mas eu queria mais e tenho certeza de que muitos outros jovens, como eu, sonham com mais. Hoje o ministro e o presidente atacam Filosofia e Sociologia, mas amanhã poderão usar o mesmo argumento para atacar Engenharia, Medicina, Veterinária. Durante a campanha eleitoral, o presidente disse que o jovem hoje tem tara por diploma de ensino superior (aqui), e que deveríamos priorizar a formação técnica no ensino médio. Mais uma vez, nenhum problema com o ensino técnico, trabalho hoje no IFSP e sou defensora de um ensino técnico integral e integrado, de qualidade, que forme jovens críticos e atuantes, cidadãos para o mundo e para o mundo do trabalho. O problema é não dar oportunidades para que os jovens possam escolher que caminhos querem seguir. O problema é o governo decidir que jovens pobres, que frequentam a escola pública, têm que ter formação técnica e ponto. Vejam, a fala do presidente é muito mais do que um ataque a essa ou àquela área do conhecimento, a esse ou àquele curso. A fala do presidente nos dá pistas de qual é sua visão da escola pública. O discurso é mais complexo - ou seria falacioso? -, pois defende que se retire recursos e investimentos das Universidades Públicas em favor do ensino básico. De novo, ninguém discorda que o ensino básico precisa de mais investimentos. Mas será que a única opção é retirar dinheiro do ensino superior? Ao falar em investir na educação básica, parece que o presidente está preocupado e comprometido com os mais pobres, afinal são eles que frequentam a escola pública. Mas não é bem assim. O raciocínio do presidente vai no sentido de limitar as possibilidades daqueles que nasceram pobres, condenando-os a serem mãos de obra barata com alguma qualificação técnica (não temos motivos para alimentar ilusões de que irão investir e/ou ampliar um projeto como o dos IFs, estruturado no tripé ensino-pesquisa-extensão, muito pelo contrário.). Se meu pai não pode estudar e eu tenho um curso técnico, parece que aquela responsabilidade do Estado de oferecer um ofício que garanta renda e melhores condições à família foi plenamente cumprida.

Embora formada em Filosofia por uma Universidade Pública, a fala do presidente não me incomoda por atacar a Filosofia. Ela me incomoda porque é parte de um todo muito mais perverso. Ela me incomoda porque não é a Filosofia ou a Sociologia que está sob ameaça nesse (des)governo, é a educação pública de qualidade, em todas as suas etapas, que está correndo riscos. Enquanto professores e parte da sociedade civil têm lutado para garantir educação pública de qualidade para todos, temos um governo cujo principal objetivo é destruí-la. E que não se enganem: a declaração de intenções de corte para a área de Humanas é só o começo. Se conseguirem seguir nessa toada, os cortes não serão seletivos. O caminho é destruir as Universidades Públicas e oferecer educação básica profissionalizante aos moldes dos anos da ditadura: tecnicista, que privilegiava disciplinas técnicas, retirava ou reduzia aulas de História, Geografia e afins. A Reforma do Ensino Médio já adiantou parte do serviço. Resta saber qual será a velocidade da destruição. Vamos pagar pra ver?

Publicado originalmente no Diário do Engenho.














03 maio 2017

Adolescência: hoje e ontem

A adolescência, na medida em que está entre a infância e a vida adulta, pode ser caracterizada como um vazio, uma fase de não-ser. O adolescente, que não-é-criança e não-é-adulto,encontra-se num processo de construção, é um ser-em-construção.
Enquanto processo, a adolescência é marcada por mudanças, físicas e psicológicas, confrontos, negações, busca de autoafirmação e de construção de identidade. É um processo doloroso. Crescer, amadurecer dói. Afinal, trata-se de uma ruptura com o mundo da infância. Como toda ruptura, a adolescência traz, muitas vezes, o sentimento de perda que, por si só, gera sofrimento. O adolescente durante esse processo sente-se sozinho, incompreendido, diferente (dos outros do grupo; da família; daquele eu que lhe era familiar até ontem...).
Reconhecer essa fase como potencial geradora de sofrimento já é meio caminho andado para que nós, adultos, possamos estabelecer um diálogo com o adolescente. É bem verdade que também passamos por isso, mas talvez já não tenhamos condições de lembrar exatamente como nos sentimos. É possível que muitos de nós, ao olhar para trás, por causa do distanciamento, já não possamos mais trazer à memória os sentimentos tão comuns a esta fase: solidão, incompreensão, medo, insegurança, revolta. Mas como seres humanos que somos, em qualquer fase que estejamos, sabemos que todos, em menor ou maior grau, estamos buscando aceitação, carinho, compreensão, respeito. E com o adolescente não é diferente.
Os adolescentes precisam se sentir importantes, amados, cuidados, protegidos, acolhidos. Mesmo quando eles parecem nos dizer o oposto, querendo distância, clamando por liberdade, respondendo de forma grosseira, fingindo não se importar com nada. Não é uma relação fácil, é preciso reconhecer isso também. A relação entre adultos e adolescentes é marcada por desentendimentos, desencontros, por palavras que, muitas vezes, causam feridas em ambas as partes. Mas precisamos lembrar que nós somos os adultos. E se nós, pais e educadores, não nos aproximarmos dos nossos adolescentes, não dermos a atenção, o carinho, a segurança e o acolhimento que eles tanto desejam e precisam, sempre haverá alguém para fazer isso em nosso lugar. Em tempos de facebook e whatsapp, pode ser uma comunidade Baleia Azul ou sei lá quantos outros aparecerão para preencher o espaço que deixamos vazio.
Vivemos numa época de excessos: de muita correria, de muito estresse, de muito egoísmo e de muito consumo. Trabalhamos muito porque temos muitas contas a pagar. Mas essas contas são resultado dos muitos desejos que nos ensinaram que devemos ter: o carro do ano, o último celular lançado no mercado, as roupas de marca mais caras, o corpo mais perfeito...Não percebemos que, lentamente, nós é que estamos sendo consumidos: pelo cansaço, pela insensibilidade, pela superficialidade das relações que estabelecemos, pela solidão... Somos consumidos por nossos medos e frustrações, num mundo onde a ‘felicidade’ é imperativa: no Instagram, no Twiter, no Youtube, é mandatório ser bem sucedido, ser magro, ser bonito, estar na moda, sorrir, ser feliz... Se para muitos adultos já é um grande desafio não espanar diante de tanta cobrança, o que dizer dos adolescentes?
Tudo isso se torna mais um motivo para lembrarmos que eles – os adolescentes – precisam de nós – os adultos. Precisam se sentir amparados. Eles não querem/esperam que nós tenhamos todas as respostas, que saibamos de tudo, que indiquemos o caminho. Eles querem/esperam que tenhamos tempo e paciência para ouvi-los, que suas dúvidas e medos não sejam infantilizados ou menosprezados, que seus passos, ainda que em direção diferente dos nossos, sejam acompanhados com interesse. Os adolescentes esperam que nós tenhamos coragem de assumir nossas fragilidades, que sejamos autênticos! Os adolescentes rejeitam a mentira e a falsidade. Nossos exemplos, muito mais do que nossos sermões, são observados e julgados pelos adolescentes a todo momento. E qualquer sinal de contradição pode significar perda de credibilidade/confiança. O adolescente é muito crítico, mas também é muito radical em seus julgamentos.
Nós, adultos, precisamos estar cientes da nossa responsabilidade, mas é muito mais importante estarmos convencidos da importância de ser e se fazer presente na vida dos adolescentes. Ser e estar presente sem, no entanto, sufocar, reprimir, impedir que eles aprendam a caminhar com as próprias pernas. É preciso estar perto o suficiente para ajudá-los, caso tropecem ou caiam. Perto o suficiente para reconhecer pedidos de ajuda e oferecer um abraço, sem julgar. Perto o suficiente, para que nem baleias nem qualquer outro bicho ocupe o nosso lugar na vida dos adolescentes.

A adolescência, para além das suas dificuldades, deve ser vista por nós, adultos, e pelos próprios adolescentes, como uma fase de alegria, de amizade, de descobertas e conquistas, de paixão e encantamento, de beleza, de amor, de vida, de muita vida!!

06 março 2015

Ser professor ou ser educador?

A questão já é batida, mas me parece um desses falsos dilemas que são criados a fim de ofuscar as questões que realmente são relevantes. Certamente todo professor é também um educador (ou deveria sê-lo), embora nem todo educador seja professor. A condição de educador está atrelada à condição de adultos diante de crianças e adolescentes. Todo adulto tem a responsabilidade de assumir esse papel diante desse outro que o necessita enquanto tal. Suspeito que, com um pouco de bom senso, todos estariam dispostos a aceitar isso como uma verdade. No entanto, as confusões surgem quando nos deparamos com outra questão: de quem é a função de educar?
 Por educar entendo aqui um processo longo de humanização pelo qual todos nós passamos ao longo da vida. Sem dúvidas, os primeiros educadores que temos são nossos pais, ou pelo menos deveriam ser os nossos pais. Mas logo em seguida encontramos os avós, tios, primos mais velhos, amigos dos pais, médicos, tutores de creche, professores, enfim, os adultos que estão ao redor daqueles que necessitam de educação. Nesse sentido é fácil perceber que a educação não está confinada aos muros da escola, mas que inicia-se antes dessa e continuará por toda a vida, pós vida escolar. Portanto, se é função dos professores educar, não é função exclusiva dos mesmos. A escola é responsável apenas por uma pequena parte desse processo.
Educar é um processo que exige compromisso, amor, responsabilidade e, acima de tudo, exige uma vivência daquilo que se quer construir, pois não há melhor método para educação do que o exemplo. As atitudes, as escolhas, a postura do educador, seja ele pai ou mãe, avó ou tia ou professor, são fundamentais na construção de referências para a criança e o adolescente inseridos no processo de educação. Ser um educador é, antes de mais nada, uma busca por coerência na sua vida diária. Ser educador é uma tarefa muito difícil. 
O professor, enquanto guia, mestre do processo de escolarização, muitas vezes não se vê como um educador. A sua formação profissional, na maioria das vezes, não o capacitou para essa função. Ele tem (quando tem de fato) o conhecimento específico de determinada matéria ou área do conhecimento, e boa parte das discussões que teve nas aulas da faculdade, que o prepararam para ser professor, diziam respeito à métodos de ensino, à materiais didáticos e seus usos. O professor-especialista se prepara para entrar na sala de aula e ensinar determinados conteúdos. Num mundo ideal, o professor entrará em sala, os alunos estarão todos disciplinados, sentados em seus lugares, em silêncio, sequiosos pelo saber...Na realidade, no entanto, ao entrar em sala de aula, encontramos jovens cheios de vida, gritando, cantando ou com fones no ouvido, com cara de sono, revoltados por estarem trancados naquela jaula enquanto o dia vai tão bonito lá fora...
Ninguém preparou o aluno para ser aluno. Ele, assim como o professor, não sabe exatamente qual é o seu papel. Alguns dizem que eles devem prestar atenção, ficar quietos, aprender tudo o que o professor tem para ensinar, porque isso será importante para o futuro deles...
O futuro, mas e o presente? Como é possível aguentar todas essas aulas chatas, falando sobre um monte de coisa inútil, enquanto poderia estar aproveitando a vida lá fora? Por que ser obrigado a aprender essas chatices todas para o futuro? Se elas só vão servir no futuro, por que não deixar para aprender isso depois?
Se o professor que entra em sala de aula for capaz de perceber o descompasso que parece reinar nesse ambiente, a sua primeira função, já assumindo um papel de educador porque independe de qual sua formação específica, seria promover uma reflexão sobre o conhecimento, sobre os conteúdos a serem ensinados/apre(e)ndidos, retirando as vendas que foram postas nos olhos dos alunos, ajudando-os a construir um motivo para conhecer que não esteja no futuro, mas que esteja no presente. As aulas, os conteúdos, exercícios, matérias, trabalhos propostos, devem dar às crianças, adolescentes e jovens ferramentas para que eles possam explorar melhor o mundo que os rodeia. O conhecimento, seja ele na área das matemáticas, das ciências da natureza ou na área de humanas, deve refinar os sentidos daqueles que aprendem, deve ampliar as suas capacidades de interagir com o mundo. Os professores devem ensinar ferramentas para que os alunos possam explorar o mundo e aproveitar essa atividade da melhor maneira possível. O conhecimento do professor-especialista deve estar a serviço da humanização de cada indivíduo, deve estar a serviço da educação, entendida como processo que humaniza o indivíduo e o prepara para experimentar a vida. Se esse conhecimento não é desvelado diante do aluno, se esse conhecimento se mantém como caixa-preta, que ainda não foi decodificada, o processo de ensino-aprendizagem fracassa. O desejo de aprender, condição necessária para que haja aprendizagem e, desse modo, efetivo ensino, precisa ser ensinado também. Entendo que o papel de educador dos professores passa muito por esse caminho: educar é lapidar, podar, é preparar aquilo que está em estado bruto para que ele possa adquirir uma nova forma. Não uma forma que lhe será imposta, mas assumir a sua própria forma.
Diariamente, ao encaminhar-me para as minhas aulas, eu tenho consciência de que diante dos meus alunos, enquanto adulto da relação que estabelecemos, além da professora-especialista de filosofia, responsável por um conteúdo específico, construído ao longo da história da humanidade e que as novas gerações têm direito a herdar e dele se apropriar para atuar no mundo, sou também uma educadora, com a difícil tarefa de auxiliar meus alunos nesse processo de humanização que deve fazer deles membros do mundo comum que compartilhamos.

16 junho 2010

Filosofia em ritmo de copa do mundo!

"Um argumento é uma operação que efetuamos com enunciados, um pouco à maneira como um passe é uma operação que efetuamos com uma bola de futebol" (...) "A dicotomia 'ou categórico ou hipotético', embora seja inicialmente esclarecedora, se revela finalmente uma fonte de confusões. O árbitro é um jogador ou um espectador? Ora, ele não é nem um jogador nem um espectador nem, tampouco, jogador e espectador ao mesmo tempo"
(Se, Portanto e Porque - Ryle, G. - Os Pensadores, Vol. LII, p. 79, Editora Abril, 1975)

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