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16 abril 2020

Um registro de quarentena

imagem disponível pixabay
Hoje acordei e não tinha forças para me levantar. Corri os olhos pelas notícias no celular e deu uma vontade de desligar tudo, de parar o mundo e descer! Um mês sem ver meus alunos. Um mês sem poder encontrar amigos, sem sair de casa. Nessas quatro semanas, as saídas foram pontuais: farmácia, supermercado, casa de material de construção - urgência de consertar uma vazamento da caixa de descarga depois de ter passado quase quatro dias sem água, mas esse foi um problema do prédio todo (e me fez pensar em tantas pessoas que convivem com essa realidade de falta de água, falta de saneamento, falta de tantas coisas essenciais, básicas...).

Hoje o coração está apertado. São tantas incertezas e de repente o medo toma conta. Quando vou poder visitar meus pais? Passou um feriado, logo virá o outro e nada de viagem. E as aulas? Quando poderemos retomar? Poderemos? 

De repente levamos uma rasteira tão grande que não é possível levantar e continuar como se estivesse tudo "normal". Normal não estava faz tempo... mas agora, os esforços de uns e outros para criar uma ilusão de normalidade me parecem pura insensatez. 

As notícias, os jornais e revistas parecem ficção, distopia. As mortes, os que fingem não ver as mortes, os que patrocinam as mortes, os que chamam para a morte, os que zombam e fazem piada com as mortes. Será esse o nosso fim? 

Nas redes sociais, nas correntes de WhatsApp, nas hashtag do Twitter, nos vídeos no YouTube, reina a loucura, o egoísmo, o ressentimento, o ódio, a irracionalidade, qualquer coisa que insiste em apagar nossos traços de humanidade. Ou será isso o que restou da nossa humanidade? Que desatino insano é esse que toma conta das pessoas? 

Mas é preciso ser produtivo, a economia não pode parar, viva a tecnologia, aulas EaD, ou remotas, temos que manter as coisas funcionando dentro do possível - e fazer todo o possível para mantê-las -, os que não fazem, estão fazendo corpo mole, não tá fácil pra ninguém, mas temos que continuar, temos que fazer o nosso melhor, temos que nos reinventar, ser inovadores, aproveitar a oportunidade para... são tantos os desatinos, e também não encontro humanidade nessa paranoia da produtividade, da normalidade, da volta à normalidade... Mas que normalidade? 

Queremos retornar ao ponto que estávamos antes da pandemia? aos vergonhosos índices de desigualdade? de violência? de corrupção? de mentiras? de negação da Ciência? O terraplanismo era parte da normalidade? o obscurantismo era parte da normalidade? a exploração do trabalho era normalidade para a qual queremos voltar? a invasão de terras indígenas? as altas taxas de feminicídio? os presídios lotados? a fracassada guerra às drogas era parte da normalidade?  Por que não assumimos nosso fracasso? Por que é tão difícil aceitar que não tinha nada de normal na vida alucinada, pautada por lucros, resultados, degradação da natureza, exploração do outro, aparências, superficialidades e contradições: hiperconexão através da internet sem fio e total falta de verdadeira conexão com o outro que era ignorado nas ruas, no elevador, na fila, na sarjeta, na vala comum? Sim, as valas comuns que se abrem agora para os corpos vítimas da COVID-19, sempre existiram para os outros, os pobres, os negros, os párias, os eternos "suspeitos" que morrem diariamente pelas mãos da polícia... isso era normal? Os milhares de migrantes vagando pelo mundo fugindo de ditadores, de guerras, de perseguição religiosa, isso era normal?

Hoje me sinto mais do que nunca impotente. Dentro de casa, tentando fazer a minha parte, com medo do que vai acontecer com tantas pessoas nas próximas semanas, triste, com saudades de tantas pessoas, desejando ter de volta parte do que dava sentido aos meus dias - minhas aulas, a companhia dos meus alunos e colegas - dominada pelo sentimento de incerteza quanto ao futuro. Estou paralisada. Escrevo, mas sinto que as palavras me escapam. Tenho uma sensação de vazio, oco, na cabeça e no peito. Estou em silêncio, mas tem muito barulho de fundo. Hoje estou precisando me agarrar às boas lembranças, porque, hoje, está difícil ter esperança.

10 abril 2020

Estamos enfrentando uma pandemia, não estamos numa guerra!

Desde que o terror da pandemia causada pelo novo coronavírus se tornou patente, e o número de mortos passou a assustar a todos nas páginas dos jornais e nas telas das TVs mundo afora, políticos, jornalistas e intelectuais começaram a dizer que estávamos em "guerra". No Brasil, o presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia, junto com outros sete deputados, apresentou uma PEC - Proposta de Emenda Constitucional - logo apelidada de PEC do Orçamento de Guerra. Entre outras coisas, essa PEC, já aprovada pela Câmara e que segue para votação no Senado, permitirá ao Banco Central comprar e vender títulos públicos e privados, ampliando assim o papel do BC no combate à crise gerada pelo coronavírus. Mas será que "guerra" é a melhor palavra para nomear o que estamos vivendo? Quais as consequências dessa comparação entre o estado de caos gerado pelo novo coronavírus e um contexto de guerra? Quem pode se beneficiar da narrativa da guerra? 

Enquanto o novo coronavírus se espalhava pelo mundo, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, fingia que tudo não passava de histeria. Acusou a mídia de criar pânico, disse que era só uma gripezinha. Bolsonaro esteve nos EUA e quando voltou, soubemos dias depois, trazia cerca de 25 membros de sua comitiva estavam contaminados pelo novo coronavírus. O próprio presidente era suspeito de estar contaminado. Mesmo assim, na semana em que os primeiros casos eram registrados no país, Bolsonaro foi às ruas encontrar apoiadores do seu governo que haviam marcado atos contra o STF e contra o Congresso. 

Passado o momento da negação - depois de dizer em pronunciamento oficial em cadeia nacional de rádio e tv que tudo não passava de histeria, que ele era um ex-atleta e que se pegasse a doença seria como uma gripezinha ou um resfriadinho, o presidente ativou seu modo obsessivo compulsivo e passou a defender publicamente o uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19. Sem evidências científicas que comprovem a eficácia dos medicamentos no tratamento da COVID-19, Bolsonaro passou a advogar em causa de tais fármacos, iniciando mais uma vez uma pretensa "guerra de narrativas". O deputado Osmar Terra foi um dos grandes porta-voz dessa tentativa de transformar uma questão de saúde pública em "guerra de narrativas". Espalhando fake news e distorcendo dados sobre o comportamento do novo coronavírus mundo afora, pedindo fim do isolamento social e defendendo o uso da cloroquina, o deputado, para se defender de quem o denunciava das redes sociais, cinicamente se perguntava se "não teria direito a ter uma opinião diferente". A resposta deveria ser categórica: não! Ciência não pode ser contraposta por opinião.

Para os que já estão vacinados, fica evidente que não se trata de uma "guerra de narrativas", pois os dois lados não são duas narrativas que se equivalem. De um lado temos estudos científicos sérios em busca de remédios para o combate da COVID-19 que, no entanto, ainda não dispõem de resultados suficientes para comprovar a eficácia das drogas em testes e, portanto, recomendam cautela; de outro, temos pessoas movidas pelos mais diversos interesses - políticos, ideológicos, econômicos e/ou vaidades - atropelando o processo rigoroso da ciência e, de maneira irresponsável, vendendo a salvação da lavoura. Portanto, de um lado temos uma posição baseada nos fatos, em dados empíricos, em resultados de testes clínicos e, de outro, temos "estudos" atropelados, manipulações de dados e discursos altamente ideologizados, forçando a percepção pública a acreditar que trata-se de uma "guerra de narrativas" e até mesmo uma guerra entre quem está a favor do vírus e quem está contra o vírus.

E é aqui que o uso da palavra "guerra" para se referir a pandemia pode não ser ter sido uma boa decisão. Quando se está em guerra, o inimigo é visível, identificado de outro lado do front. Além disso, dos dois lados temos agentes que irão tomar decisões e colocar em prática ações durante o confronto. E no contexto de guerra, suspende-se boa parte das regras válidas para tempos normais, de paz. E mesmo assim, é bom lembrar, que essas decisões e ações, não estão livres de serem julgadas e responsabilizadas depois de cessada a guerra. Nesse momento, o vírus que nos ameaça, ameaça a toda humanidade e não o faz mediante um ato racional, uma escolha de nos atacar e dizimar. No entanto, do lado de cá, da humanidade, a possibilidade de êxito, de sobrevivência, está diretamente ligada às decisões e ações que políticos e demais autoridades envolvidas irão tomar: comprar ou não EPIs para proteger profissionais da saúde, comprar ou não respiradores, comprar ou não testes, seguir ou não o isolamento social a fim de evitar ou, pelo menos retardar, o colapso dos sistemas de saúde. Todas essas ações são de responsabilidade de agentes racionais, que precisam tomar decisões, fazer escolhas e agir. Comparar a pandemia a um estado de guerra pode impedir que essas decisões e ações sejam devidamente julgadas e responsabilizadas, sob a justificativa de que não estamos em tempos de paz, e que, portanto, as regras de antes não valem mais.

É verdade que não podemos dizer que estamos em tempos de normalidade. Mas este fato, esta realidade que temos experimentado nos isolamentos cotidianos, em home office e demais transformações que enfrentamos nas últimas semanas, não é equivalente a dizer que estamos em guerra. Diferente de uma guerra, não estamos entrincheirados, não temos armas apontadas para nossas cabeças, não temos bombas sendo lançadas pelo outro lado, a colaboração entre países não está interditada, nossos pares não são nossos inimigos. Ao contrário, o fato de toda a humanidade estar sob a mesma ameaça, nos torna todos potenciais aliados, ampliando as possibilidades de colaboração e de um esforço coletivo para vencermos o vírus com conhecimento e com todas as ferramentas que dispomos. No entanto, enquanto predomina a "narrativa da guerra", políticos inescrupulosos como Donald Trump passam a agir como se de fato em guerra estivéssemos, e passam a eleger "inimigos", atacar instituições internacionais, racionar medicamento e materiais de segurança para outros países, escolhendo quem deve viver e quem deve morrer. Por outro lado, a "narrativa da guerra" também pode servir para pesquisadores e cientistas tão inescrupulosos quanto Trump, estimularem uma ruptura com as boas práticas científicas, com o que há de mais seguro em termos de metodologia científica, para defender posições ideológicas, como fez Paolo Zanotto em artigo na Folha de São Paulo na última segunda feira (06/04).

No artigo, intitulado "Numa guerra, não faz sentido aguardar a publicação de avaliações científicas antes de salvar vidas", Zanotto usa explicitamente da "narrativa de guerra" para defender o uso da cloroquina combinada com azitromicina no tratamento da COVID-19, ainda que não tenhamos provas da eficácia de tal combinado. Para isso, o pesquisador pretende estabelecer um paralelo entre a decisão de se usar esses e outros fármacos ainda em fase de testes no tratamento de pacientes do coronavírus e a decisão de médicos em campo de batalha, durante a Segunda Guerra Mundial, de usar água de coco como substituto de soro em soldados feridos. A história contada por Zanotto reforçaria a equivalência entre o momento atual e um contexto de guerra. O argumento do infectologista seria o seguinte: num contexto de guerra a ação moralmente correta seria fazer qualquer coisa para salvar vidas e isso seria incompatível com esperar evidências científicas; estamos numa guerra, logo devemos usar a cloroquina e outras drogas, mesmo sem eficácia comprovada, no tratamento de pacientes com COVID-19. No entanto, ainda que estejamos correndo contra o tempo em busca de tratamentos para os pacientes infectados pelo novo coronavírus, não estamos, de fato, numa guerra, e cientistas do mundo todo estão trabalhando e buscando resultados, a fim de não comprometer ainda mais a saúde das pessoas. Não é uma questão de ser contra ou a favor do uso da cloroquina ou outras drogas, mas de termos um mínimo de responsabilidade com as informações e os protocolos a serem usados. Os estudos a que Zanotto e outros têm recorrido para justificar suas opiniões não atendem a requisitos básicos da metodologia científica, o que coloca em xeque a qualidade de seus resultados.

Independentemente de ser verdade ou não que a água de coco possa ser usada como substitua de soro em situações extremas - há alguns poucos estudos científicos nesse sentido -, o que pesou foi a "história" a respeito dos soldados durante a Segunda Guerra Mundial, contada por Zanotto - que carece de confirmação, pois todas as vezes que é citada, o é de maneira superficial e sem fontes que o comprovem. Tanto é assim que imediatamente o presidente Jair Bolsonaro se pôs a contar essa "história bacana" a fim de seguir sua "guerra" contra o bom senso, contra a ciência, contra os fatos. Agindo dessa maneira, Bolsonaro tenta fugir de suas responsabilidades como chefe do executivo do país. Embora tenha tido tempo, o governo brasileiro não se preparou para enfrentar a crise causada pela COVID-19: não comprou insumos para testes, não comprou testes, não comprou respiradores nem EPIs. Ao alimentar uma suposta "guerra de narrativas" e se apoiar na "narrativa da guerra", Bolsonaro tenta se livrar dos julgamentos e da responsabilização por suas decisões e sua falta de ação enquanto presidente da República.

Se há uma guerra em curso, no caso específico do Brasil, ela se iniciou com a entrada de Jair Bolsonaro no cenário eleitoral de 2018 - para ser mais precisa, iniciou-se com aquela lorota do kit gay, ganhou espaço ao longo dos anos e se intensificou na última eleição - uma guerra que pretende suplantar a realidade com as narrativas fantasiosas de Bolsonaro e seus defensores. O que enfrentamos agora, juntamente com o resto do mundo, é uma pandemia. E para vencê-la, dependemos da boa ciência, de testes, de dados seguros e que sigam rigorosos padrões de cientificidade, de jornalismo sério comprometido com os fatos. E, por último, dependemos de que os enunciados de fato não sejam transformados em opiniões e que a verdade fatual não seja substituída por uma autoverdade.  E no caso da Ciência, precisamos de mais Átila Iamarino e menos Paolo Zanotto e quejandos.

06 abril 2020

Má-fé e covardia

Bolsonaro e seus defensores fogem de suas responsabilidades e exploram a miséria e o medo da população mais vulnerável (#PagaLogoBolsonaro) 

O deputado Osmar Terra tem se esmerado nos últimos dias nas redes sociais em atacar a estratégia do distanciamento físico no combate à pandemia do Covid-19 - como deve saber Terra, pois tem usado de sua autoridade de médico para se pronunciar contra o isolamento – trata-se de uma pandemia e não epidemia, como ele escreveu no seu texto. Infelizmente, depois de passar o final de semana propagando fake news e distorcendo dados da doença pelas redes sociais, Osmar Terra ganhou espaço na Folha de São Paulo para ampliar o seu desserviço (Medo e Coragem, 06 de março de 2020).

Ao contrário do que afirma Terra, o estudo do Imperial College, divulgado no dia 16 de março, não inspirou a estratégia de isolamento, mas fez projeções a partir de dados de países que já estavam adotando essa prática, comparando-os com dados de países que não haviam adotado tal prática. Vale lembrar que o isolamento ou distanciamento social foi adotado pela China, onde o surto do Covid-19 teve origem, já em janeiro de 2020. Nesse sentido, os estudos do Imperial College estão sendo usados como evidências da eficácia do isolamento no controle do espalhamento do vírus por autoridades sanitárias de diversos países, inclusive os EUA, que foram inicialmente resistentes à estratégia. 

É verdade que há posições divergentes do Imperial College. Os estudos da epidemiologista da Universidade de Oxford, Sunetra Gupta, partem de pressupostos distintos do estudo do Imperial College e apontam para a possibilidade de que o Reino Unido tenha muito mais pessoas contaminadas do que o estudo prévio considerou. No entanto, conforme foi noticiado na própria Folha de São Paulo (Coronavírus pode ter infectado metade da população britânica, diz estudo de Oxford, de 24 de março de 2020), “ela reluta em criticar o governo por decretar uma quarentena nacional a fim de conter a difusão do vírus, porque a precisão do modelo de Oxford ainda não foi confirmada e, mesmo que ele esteja correto, o distanciamento social reduzirá o número de pessoas que adoecerão seriamente e aliviará a pressão severa sobre o Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês), durante o pico da epidemia.” Ainda segundo a matéria da Folha, “se as constatações forem confirmadas pelos testes, as restrições em vigor poderão ser canceladas muito mais cedo do que os ministros indicaram.” Ou seja, diferentemente do que Osmar Terra pretende, os estudos de Sunetra não são conclusivos e não podem ser utilizados para defender o fim imediato do isolamento como quer o deputado. 

O argumento de Terra em favor do contágio de assintomáticos para imunizar a população é no mínimo irresponsável quando pensamos na realidade brasileira e nas limitações dos sistemas de saúde para atender os casos graves que necessitam de internação e de ventiladores mecânicos. Além disso, as peculiaridades demográficas e também sociais do Brasil – existência de favelas e extensas áreas de aglomeração de pessoas em condições sanitárias precárias - devem ser levadas em consideração. Coisa que o deputado é incapaz de fazer. Apelar para o fato de que “isso ocorre com todas as epidemias” é novamente má-fé e irresponsabilidade, uma vez que o Covid-19 possui características específicas que impedem sua comparação com outras epidemias, conforme tem alertado especialistas como o biólogo Atila Iamarino

As afirmações de Terra de que “a quarentena aumentou o número de casos” e que “não houve achatamento da curva epidêmica” carecem de provas. Infelizmente ele não traz respaldo para suas afirmações. Nas redes sociais, o deputado fez uso de gráficos que estavam em diferentes escalas, distorcendo, portanto, as informações, para "corroborar" suas afirmações, no que foi amplamente questionado por usuários das redes. Ao falar de países que não adotaram o distanciamento social e citar Coreia do Sul, Japão, Israel e Suécia, o senhor Osmar Terra ou está mal informado ou mais uma vez age de má-fé. A testagem massiva da população não é ação complementar, como sugere o deputado, antes é o que permitiu, em especial a Coreia do Sul, adotar isolamento parcial. No caso da Suécia, ontem à noite, tivemos notícia de que o país havia mudado de estratégia e passará a adotar o isolamento. Quanto a Israel, portais de notícias anunciavam há duas semanas que o país estava restringindo a circulação de pessoas para combater o novo coronavírus. A situação do Japão pode ser explicada por hábitos culturais que, por si só, promovem um certo tipo de distanciamento social. Embora não tenha declarado isolamento, o país proibiu eventos com aglomerações e fechou escolas e aconselhou que as pessoas se abstivessem de sair de casa voluntariamente. No entanto, hoje temos notícia de que o país pode declarar estado de emergência em 7 cidades, e que passará a orientar seus cidadãos para que permaneçam em casa.

A partir de um certo momento do texto fica clara a intenção de Osmar Terra, política e não científica, de atacar gestores públicos com os quais ele não concorda. E mais abaixo, quando claramente se posiciona em defesa do presidente Jair Bolsonaro, que não apresenta nenhum respaldo científico para defender o fim do isolamento, alegando apenas que isso irá quebrar o país. Caso o deputado estivesse de fato preocupado com a miséria de milhares de pessoas como ele insinua estar, deveria estar cobrando o presidente Bolsonaro para que agilizasse o pagamento da renda básica emergencial aprovada pelo Congresso a milhares de brasileiros que dependem desse auxílio para poderem se proteger nesse momento. O mesmo vale para os pequenos e microempresários com os quais Terra diz estar preocupado: que cobre do governo medidas que os proteja, e não somente ações em prol de grandes empresários. 

Osmar Terra dá provas de má-fé e covardia ao elogiar a suposta coragem do presidente em contrariar o seu atual ministro da saúde e demais autoridades sanitárias e promover, isso sim, terrorismo com parcela da população que hoje é refém do presidente e do seu governo, pois quanto mais atrasam a liberação da renda básica emergencial, mais forçam essa população a voltar ao trabalho e às ruas em busca de sobrevivência. Pânico é o que estão fazendo Bolsonaro e Osmar Terra divulgando vídeos que exploram a miséria das pessoas, matérias jornalísticas que evidenciam os impactos sofridos por essa população vulnerável e desassistida, enquanto fingem que não têm responsabilidade sobre esse cenário.

24 março 2020

Educação a distância em tempos de pandemia: dúvidas, angústias e algumas reflexões

 Estudante, Ensino, A Distância, Escola

Eu faço parte de um grupo de pessoas privilegiadas. Não sou rica, estou bem longe disso, mas meus privilégios são muitos: tenho formação de nível superior por uma universidade pública de ótima qualidade, sou funcionária pública federal concursada e, nesse contexto de pandemia, estou no conforto da minha casa, enquanto milhares de pessoas por esse país - inclusive parentes meus - seguem suas vidas e seus trabalhos expostos ao vírus. É no conforto da minha casa que abro o meu computador e escrevo esse texto que, posteriormente, irei compartilhar através da internet. 

Mas as coisas não foram sempre assim. Em 2004 quando eu saí da pequena Delfim Moreira para morar em Campinas, minha família achava que era uma loucura. E talvez fosse mesmo. Eu deixei o emprego que eu tinha, com carteira assinada, para vir fazer um curso de Filosofia. Meu pai, que sempre ganhou pouco mais do que um salário mínimo, não tinha como me mandar dinheiro. Eu sabia de tudo isso, mas sabia também que havia na Unicamp programas de assistência estudantil - bolsas, aquelas que o atual ministro da educação se orgulha de nunca ter precisado de nenhuma, mas eu precisava. Tive bolsa moradia, bolsa trabalho e bolsa alimentação. Pouco tempo depois troquei a bolsa trabalho - se não estou enganada, na época era algo em torno de 500,00, por uma bolsa de iniciação científica da Cnpq, que não chegava a R$ 300,00. Foi uma escolha. Eu achava que seria bom para a minha formação. E foi. Depois consegui uma bolsa Fapesp, que pagava melhor, mas foram anos de muita economia. Passei bons anos sem comprar uma calça ou um tênis. Mas deu tudo certo. Me formei, entrei no mestrado, concluí meu mestrado. Eu não tinha computador na moradia, contei com a ajuda e solidariedade de muitos amigos para fazer meus relatórios aos finais de semana e madrugadas afora. Quando essa semana tenho que ler de um colega que "quem quer estudar arruma um jeito", eu tenho que concordar, afinal eu sempre arranjei meus jeitos. Mas minha questão é: será que está certo naturalizar e até romantizar os sacrifícios que algumas pessoas precisam fazer para conseguir estudar? 

Essa reflexão surge num momento muito delicado que enfrentamos essa pandemia do coronavírus. As mortes já ultrapassam 17 mil no mundo. Itália, Espanha, EUA já convivem com centenas de morte diárias. Infelizmente nas próximas semanas essa será a nossa realidade. E dadas as nossas condições sociais de extrema desigualdade e pobreza, temo muito que o cenário seja ainda mais catastrófico que aquele que se vê hoje na Europa. Desde semana passada algumas instituições de ensino, de maneira prudente, optaram por suspender aulas presenciais. E foi aí que começou a panaceia da EaD - Educação a Distância. Algumas decisões tomadas a toque de caixa, com as melhores das intenções - eu realmente acredito e quero acreditar nisso - lançaram vários professores nesse novo cenário. E o desespero não foi só de professores - que nunca pensaram em trabalhar com suas disciplinas na modalidade EaD - este é o meu caso específico -, mas também de muitos alunos que, de repente, foram bombardeados por um sem fim de materiais e ferramentas e lives e afins. Pois muitos professores pareciam já estar com seus cursos totalmente adaptados para a nova modalidade de ensino-aprendizagem. Confesso, não sou eficiente como esses colegas, estou atrasada, me sinto perdida e cobrada por coisas que não estavam nos meus planos.

Os otimistas, aqueles que têm tudo sob controle, eficientes e inovadores, dão notícias: minhas aulas estão sendo um sucesso, os alunos estão adorando! fiz uma live e de uma turma de 40 tinha 31; eu digo, a maioria tem acesso; os alunos se adaptam fácil, na verdade eles já vivem na internet, vai ser muito mais tranquilo; eles vão dar um jeito, é só querer; além do mais, EaD não é só live, tem muitas outras ferramentas; e é muito simples, qualquer um consegue, até as crianças dão conta; na verdade, trabalhar de casa é ótimo, depois poderíamos tentar continuar assim...

Mas também chegam notícias do outro lado, dos mais diversos lugares, e as angústias, dúvidas e questionamentos de repente se encontram: mas os alunos têm acesso à internet? eles têm computador em casa? eles terão condições de estudar? como está a situação familiar desses alunos? os pais continuam trabalhando? já estavam desempregados? e o auxílio estudantil, continuarão recebendo mesmo com as aulas presenciais suspensas? e os celulares, comportam todas essas ferramentas de EaD? os pacotes de dados permitem que participem de lives? têm irmãos menores para cuidar? têm pessoas doentes em casa? estão esgotados e com medo? têm pai alcoólatra e violento em casa? tem um bebê pequeno e a mãe acha que agora que não têm aulas é sua função cuidar do bebê? são tantas coisas...

E entre uma conversa e outra, vemos que não é só entre os alunos que podem existir dificuldades: gente, estou em casa com um adolescente e duas crianças, não é fácil preparar aulas e material desse jeito; nossa, estou com duas crianças em casa e estou ficando louca; eu só tenho uma filha, mas é pequena, não entende que preciso trabalhar; nossa, dispensei a diarista, tenho que cuidar da casa, do almoço, e dar conta dessas crianças que já estão inquietas porque não podem sair de casa; tenho que cuidar da minha casa e dos meus pais; estou cuidando da minha mãe e com a cabeça estourando com essas notícias desastrosas, não consigo me concentrar e tenho que gerenciar essas salas de aula virtuais, com alunos reclamando que estão com dificuldades e alunos justificando que alguns colegas não conseguirão acessar o material porque não têm acesso à internet...

Sim, estamos todos vivendo tempos difíceis. Estamos no meio de uma pandemia, estamos em isolamento, veremos as prateleiras do supermercado se esvaziarem, veremos muitas mortes, ficaremos sem ver pessoas queridas. Não estamos vivendo um período de normalidade - no caso do Brasil, eu diria que faz tempo que não estamos vivendo tempos normais, mas que foram sendo normalizados, infelizmente. Não dá para continuar como se tudo estivesse normal. Não dá para trabalharmos para normalizar essa situação de exceção. 

Eu confesso que as tecnologias não são exatamente meu assunto preferido. Eu não gosto de EaD, como aluna, fiz uma pós por EaD. Eu sou uma pessoa disciplinada, estudar sozinha não foi um problema, mas eu senti muita falta da interação, das discussões, da possibilidade de fazer uma pergunta durante a "aula". Enfim, parecia sempre que estava faltando alguma coisa. Como professora, eu uso o mínimo de tecnologia no meu cotidiano: uso e-mail para me comunicar com alunos, uso o sistema para notas e demais tipos de burocracias necessárias, uso o celular para músicas e pesquisas em sala. O básico mesmo. Não consigo me imaginar dando aulas por videoaulas ou por lives, sem poder ver os alunos. Mas não são apenas meus gostos pessoais por EaD que me colocam na defensiva quando vejo a exaltação dessa modalidade de ensino. Meus problemas são também de ordem pedagógica-metodológica e socioemocional.

Ouço e leio muitas coisas que mostram que há uma grande confusão entre as ferramentas que podem nos auxiliar no processo de ensino-aprendizagem e a metodologia, propriamente dita. Já ouvi muita gente defendendo inovação na educação, falando mal de uma tal metodologia tradicional, e apostando todas as sua fichas na tecnologia. Mas vamos por partes. O que seria uma videoaula ou uma live? Para mim seria um ótimo exemplo de uma metodologia tradicional de ensino, centrada no professor, que figura como fonte do conhecimento, que é despejado no aluno, receptor e folha em branco, que permanece totalmente passivo nesse processo. O fato de dispormos de tecnologia que permita gravar essa aula-palestra e enviá-la para muitas pessoas via internet, não muda em nada a metodologia e a concepção de ensino-aprendizagem que está por trás dessa ação. Eu sei que na live há a possibilidade de interação, mas ela também é comprometida e limitada. E alguém pode dizer: Francine, mas estamos em tempos de exceção. Eu respondo, sim, mas estamos nos esforçando por normalizar esse tempo de exceção e futuramente esse momento poderá ser defendido como o novo normal. Passada a crise, quem garante que não vamos embarcar na defesa pura e simples da EaD para todos os níveis da educação? Durante campanha eleitoral, o então candidato Jair Bolsonaro, defendia em seu programa EaD desde o Ensino Fundamental. O tempo de agora é de exceção, e temos que tomar cuidado para não torná-lo o novo normal. 

Do ponto de vista socioemocional, o tempo de exceção que vivemos, de reclusão, isolamento ou afastamento social - todas essas expressões soam incômodas porque justamente nos falam dessa condição que não nos é nada natural - trará graves consequências emocionais e psicológicas e poderá agravar quadros que já agora são complicados. Isso somado às condições econômicas e sociais que também irão se deteriorar, e muito mais rapidamente entre aqueles que já são normalmente mais fragilizados e penalizados pela desigualdade brutal que assola esse país, nos apontam para um cenário complexo. Se não tivermos um olhar empático, solidário e humano para com nossos alunos e seus familiares, todas as nossas boas intenções poderão se tornar fardos ainda mais pesados para serem carregados por eles. Acho muito precipitado afirmações como: não podemos perder o semestre; não devemos alterar o calendário e outras na mesma direção. Nos próximos meses (abril, maio e junho) deveremos enfrentar o cenário que ora se faz presente na Itália. Não temos como prever quando retornaremos à normalidade nem se haverá essa normalidade. 

Teremos uma sociedade devastada por mortes e privações das mais variadas e uma economia estagnada. O Brasil ainda tem um cenário político desafiador, com um governo incapaz de se ater a realidade, que delira, que vive de fantasias, que cria inimigos e crises para além das que já estão nos afetando. Sinceramente, não sei como ter cabeça para iniciar agora, nesse contexto, uma formação para TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) ou para EaD. 

Do conforto da minha casa, do alto do meu privilégio nesse momento da minha vida, eu me pego pensando naqueles que são tratados como "exceção", que não fazem parte da "maioria" que supostamente terá condições físicas, mentais, emocionais para seguir seus cursos e disciplinas. Aqueles que "depois a gente vê o que faz" ou que "no retorno a gente faz um reforço". Eu estive durante a maior parte da minha vida do outro lado, sendo a "exceção". Durante minha graduação e mestrado fui sempre exceção - vinha de família pobre e de baixa escolaridade, de escola pública, tinha começado a trabalhar bem cedo, não tinha tido acesso a bens culturais como cinema, teatro, museu, era uma mulher num curso predominantemente de homens. E sim, tive que dar meu jeito, que me esforçar, que correr atrás. E não é agora como professora que eu fiquei "folgada" ou "braço-curto" como alguns colegas parecem sugerir ao ignorar todas as dificuldades que os alunos e mesmo alguns colegas irão ter que enfrentar para garantir uma "certa normalidade". A questão é: até quando vamos seguir "normalizando" as situações de exceção? É justo jogar o ônus do "se vira, dá seu jeito" nas costas dos alunos? Sinto que isso passa por um concepção de "meritocracia à brasileira". Valorizamos os esforços do vencedor sem problematizar a ideia de vencedores. Romantizamos os sacrifícios em nome da recompensa. 

Enfim, sei que já me estendi demais, talvez poucos cheguem até o fim desse texto. Eu sigo com minhas angustias e inquietações, sem perder de vista as "exceções". Afinal, nesse momento não se trata de um critério de eleição no qual "a maioria" vence. Se um está ficando para trás, estamos falhando, e é simples assim.

19 março 2020

O que será que nos espera logo ali na frente?

O que será que nos espera logo ali na frente?
Agora, nesse instante passageiro, somos incerteza,
medo e um pouco de solidão?

O que será que nos espera logo ali na frente?
Haverá futuro para nós?
Para todos?

Agora, nesse instante breve e frágil, somos incerteza,
medo e um pouco de solidão. Ou seria silêncio apenas?
Alguns de nós, privilegiados, estamos em nossas casas,
reclusos, assustados, é verdade, mas protegidos.
Mas e os outros? Os tantos outros que não podem parar?
Haverá futuro para eles?
Para todos eles?

Havia futuro para eles antes disso tudo começar?
E se o problema não for a pandemia, o coronavírus?
E se o problema for a desigualdade brutal com a qual nos acostumamos diariamente?
E se o problema formos nós?
Nosso egoísmo, nossa indiferença, nossos ressentimentos, nossa arrogância, 


O que será que nos espera logo ali na frente?
As redes que já nos distanciaram
serão capazes de nos fazer comunidade e trazer união?
As redes pelas quais tantas mentiras e ódio foram disseminadas
poderão agora nos informar e trazer conforto, um pouco de afeto?

O que será que nos espera logo ali na frente?
Estou em casa, faz-se silêncio,
mas ao mesmo tempo tem tanto ruído, tanta linha cruzada,
pessoas falando sozinhas numa imensidão virtual.

Meu coração palpita, as mãos transpiram,
os olhos turvam.
Tenho medo! Ou será que é o medo que me tem?
Vontade de desligar tudo,
de sair caminhando, de encontrar pessoas,
de dançar, não sei!
Está tudo confuso...

O que será que nos espera logo ali na frente?
As mortes já se fazem anunciar.
As projeções, os gráficos, os números,
tudo tão desolador!
Enquanto isso nossas otoridades usam máscaras
e brincam de war num tabuleiro nada virtual.
Entre mentiras, inconsequências e bravatas, 
haverá futuro para nós?


Agora, entre o passado e futuro, nesse intervalo
virtual e potente,
nossa única certeza é que somos. E ser agora
tem uma leveza insustentável.

O que será que nos espera logo ali na frente?

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