Mostrando postagens com marcador Dicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dicas. Mostrar todas as postagens

23 julho 2021

Das vidas possíveis de serem vividas

                                                                                                          

"Nesse corredor
Portas ao redor
Querem escolher, olha só
Uma porta só
Uma porta certa
Uma porta só
Tentam decidir a melhor

Qual é a melhor
Não importa qual
Não é tudo igual
Mas todas dão em algum lugar
E não tem que ser uma única
Todas servem pra sair ou para entrar
É melhor abrir para ventilar
Esse corredor"
Portas, Marisa Monte, Álbum: Portas, 2021.

Quantas vezes nos perguntamos como seria nossa vida, caso tivéssemos feito algo diferente: terminado ou começado um relacionamento; mudado de cidade ou continuado onde sempre esteve; desistido ou insistido num curso; aceitado ou recusado uma oferta de emprego; ido ou não a uma festa; entrado ou não no doutorado; perseverado na aprendizagem de alguma coisa: de violão, de inglês ou alemão. Como estaria nesse momento se tivesse feito diferente do que fiz até agora? Mas não para por aí. Quantos de nós não vamos acumulando arrependimentos ao longo da vida. Um gosto amargo na boca, como se tivéssemos certeza de que estaríamos muito melhor caso tivéssemos seguindo outro caminho. Uma sensação de que seríamos melhores, mais bem-sucedidos (seja o lá o que imaginamos que seria ser bem-sucedido), que poderíamos ter aproveitado melhor "nosso potencial" para qualquer coisa que deixamos para trás. E quantas vezes não desejamos a oportunidade de viver essas outras vidas que parecem tão melhor do que essa que vivemos, com suas rotinas, suas decepções, suas cobranças, nossas limitações, mediocridades e ressentimentos conosco e com os outros. É esse o mote do livro A biblioteca da meia-noite, de Matt Haig. 

Esse livro está longe de poder ser considerado um clássico ou de ter qualidades literárias incomparáveis que o colocariam entre os 10 melhores. Talvez daqui a alguns anos eu não o coloque nem entre os 30 melhores livros que já li. Mas hoje, nesse momento dessa minha vida, era exatamente o livro que eu precisava ler. E ainda bem que nessa vida eu tenho uma amiga que, ao me dar de presente uma assinatura da TAG Livros- Inéditos, me proporcionou essa leitura (Valeu, Aninha!!). Sim, porque dificilmente eu iria chegar a esse livro sozinha. Mas digamos que ele chegou na hora certa. 

Ao mesmo tempo que tenho muitas coisas em comum com a Nora Seed, ela é formada em filosofia, eu também; ela canta, eu também me arrisco; ela gosta de escrever, eu também; ela tem um gato, eu também; ela está na casa dos trinta e pouco, eu também; tem um Dan na vida dela e na minha; há muitas coisas bem diferentes entre nós: ela, embora tenha saído de sua cidade natal, como eu, voltou para ela; não trabalha com filosofia, tem um emprego que em nada parece satisfazê-la; ela sabe nadar, e eu, definitivamente, sou um "martelo sem cabo", como diz meu pai.  

No entanto, há algo no "deslocamento" que Nora vive, na sensação de não pertencimento, na dificuldade de se "encaixar" na sua própria vida, que me é bastante familiar. Que talvez seja algo que todos experimentamos em alguma medida, só pelo fato de sermos humanos, de termos consciência de que estamos existindo e podermos imaginar outras possibilidades de existência diferentes dessa. Mesmo quando acreditamos em destino, quando vivemos descuidadamente sem pensar muito no que estamos vivendo, é possível que compartilhemos uma intuição de que somos responsáveis pelo que nos tornamos a cada escolha que fazemos e o peso dessa consciência, ainda que de forma intuitiva, ainda que sutilmente disfarçada, pode ser grande o suficiente para nos causar um incômodo capaz de nos "deslocar", ainda que momentaneamente. 

Pensar nas vidas que poderíamos ter vivido/estar vivendo pode ser bastante perturbador. Pode nos lançar diante de um abismo, uma vez que, ao contemplar aquilo que poderia(amos) ser e comparar com o que é/somos teremos que encarar as escolhas que nos trouxeram onde estamos e isso pode nos colocar diante de um "eu" covarde, egoísta, irresponsável, acomodado... Mas também pode nos mostrar que aquelas outras vidas e, portanto, aquelas versões de nós que aparecem reluzentes, quase perfeitas, têm tantos outros problemas quantos a nossa versão "raiz" e, em diferentes contextos, poderão ser tão covardes, egoístas, medíocres, acomodadas e tudo aquilo que nos incomoda. Por outro lado, imaginar as muitas vidas que poderíamos ter (e quanto maior for a imaginação, quanto mais pudermos explorar essas vidas virtuais) pode acabar nos mostrando que, no fim das contas, essas potencialidades estão lá, na única versão de nós que está atualizada, que existe

Assim como Nora, depois de experimentar tantas vidas possíveis na biblioteca da meia-noite: sendo estrela de Rock, campeã olímpica, professora universitária, depressiva e viciada, cuidadora de cães, mãe, esposa, de repente percebemos que todas essas "portas" estão bem diante de nós. E que cada uma delas terá a sua própria dose de satisfação, alegria, realização, mas também de dor, medo, angústia, fracasso. Mas o melhor é se dar conta da possibilidade de abrir uma porta nova no meio da caminhada. Eu sei, parece autoajuda barata. Eu não estou dizendo que a vida é um mar de rosas e que podemos fazer qualquer escolha e ser feliz para sempre. Na verdade, o ponto é que ou aprendemos a lidar com a dose de frustração, medo, angústia, tristeza, que cada escolha encerra e, ainda assim, conseguimos olhar para o outro lado de tudo isso, ou não importa quantas possibilidades nos sejam dadas de ter a melhor vida, seguiremos apenas nos arrastando com nossas culpas, arrependimentos e medos, vivendo apenas a pior versão de nós. 

E aí entra uma das coisas que gostaria de escrever depois de ter lido esse livro: a literatura é uma maravilhosa biblioteca da meia-noite. Quantas vidas é possível experimentar através de um bom livro? Quantas oportunidades de fazer acerto de contas com nosso "livro de arrependimentos" não temos ao entrar na vida de Noras, Capitus, Vitórias, Bibianas, Anas, Helenas, Hollys? Além de, mais uma vez, exaltar e convidar a todos para viagens literárias, também queria voltar a um mote sobre o qual havia começado a escrever, antes de ler A biblioteca da meia-noite, e que havia ficado no rascunho do blog: Como parar de gastar a vida para passar a aproveitar a vida? E agora compartilho como um fechamento desse texto, pois me parece que agora o sentido dele está completo.  

É clichê se referir à vida como um dom, um presente. Os religiosos completam que é dom de deus, e muitas são as formas que encontram para nomear essa divindade. Os que não acreditam numa divindade, ainda encontram motivos para se admirarem com o mistério da vida, com a sorte de estar vivo. Mesmo diante de dores, desafios, sofrimentos, tragédias, é grande a nossa disposição de nos agarrarmos à vida, de louvarmos os motivos para permanecermos vivos.

Apesar de tudo isso, no dia a dia, estamos muito mais comprometidos em gastar a nossa vida do que em aproveitá-la. Gastamos nossa vida em horas de trabalho, que se traduzem em algum dinheiro, que nos leva a gastar horas fazendo compras de coisas que, muitas vezes, em nada ou muito pouco irão contribuir para que possamos aproveitar melhor a nossa vida. Com a chegada das redes sociais, gastamos nossa preciosa vida ou maquiando e inventando uma vida para ser exposta para os outros ou observando, com curiosidade doentia, a vida alheia. Quantas horas por dia gastamos vendo como os outros são felizes, bonitos, realizados, perfeitos, enfim, gastamos nossa vida consumindo a vida que outros caprichosamente construiram para exibir. 

O fato é que esse cenário me tem feito pensar muito sobre o que nos faz realmente viver, aproveitar a vida, e não simplesmente gastá-la dia após dia. Desde que me formei e comecei a trabalhar na minha área, trabalho muito, sempre com empolgação, tendo algumas vezes até exagerado. Mas sempre pensava que era algo que me preenchia, para além de ser meu trabalho, faço algo que enche de prazer, que dá significado à minha vida. No entanto, com as mudanças no último ano, o trabalho dentro de casa (ou morando no trabalho), a impossibilidade de estar de fato junto com alunos e colegas, o trabalho passou a pesar. Mais trabalho, mais desafios, e muito menos prazer, muito menos sentido. E fui sentindo crescer em mim a necessidade de me dedicar a outras coisas. A necessidade de encontrar tempo para fazer algo que pudesse de alguma forma suprir o que eu já não encontrava no trabalho. 

Trabalhar é bom. Principalmente quando temos o privilégio de trabalhar com algo que realmente nos preenche, com o qual nos sentimos contribuindo com a sociedade, um trabalho no qual podemos ser criativos, com o qual, ainda que de maneira muito lenta, podemos observar transformações acontecendo em outras vidas por causa do nosso trabalho. Mas nem todo trabalho é assim. A maioria das pessoas não veem a hora de acabar o expediente, para o happy hour, para poder fazer o que realmente gosta ou para fazer nada. Em tempos de pandemia, sequer é possível encontrar os amigos, ir ao cinema. Muitos de nós, privilegiados que somos, trabalhamos de casa, mas já não sabemos onde começa a casa nem onde termina o trabalho. 

Pode parecer bobeira, mas tenho pensado na importância de podermos nos dedicar a criar, dar vida, de certo modo, de exercitar nossa imaginação, de poder variar nossas atividades, para exercitar diferentes partes de nós, para que possamos descobrir facetas ocultas, e ter a oportunidade de nos criarmos e recriarmos através das mais diferentes ocupações. Não gosto da ideia de vocação, ou dom. Acredito que todos nós temos potencialidades infinitas latentes que precisam encontrar condições e estímulos para que venham a florescer. Daí a importância de pensarmos a educação, informal e formal, como esse lugar de explorar e cultivar as diferentes dimensões do humano. Não é necessário que todos nós sejamos músicos profissionais, mas a vida se torna melhor, mais bonita, quando a música se faz presente nela. Cantar, tocar um instrumento, pintar, escrever, esculpir, fazer um jardim ou uma horta, construir a sua própria mesa, tudo isso deveria estar disponível em nossas vidas. E num mesmo dia poderíamos ter a possibilidade de fazer um pouco de cada uma dessas coisas. 

Tenho pensando que uma vida é pouco demais para tantas possibilidades que deveríamos ter o direito de experimentar. Não é de agora, essa sensação me acompanha há muito tempo: são tantos os livros que ainda não li, os filmes que ainda não vi, as músicas que ainda não ouvi, os lugares que não visitei, receitas que não fiz...Mas hoje me peguei pensando em como muitas vezes vivemos limitados. Quantos de nós passam a vida sem a oportunidade de explorar diferentes habilidades e capacidades. Quantos seres humanos passam pela vida (são consumidos por ela ou a consomem das maneiras mais indignas), sem terem tido a chance de ter explorado a música, a poesia, ou cuidar de um quintal, plantar sementes e delas cuidar até poder saborear seus frutos, ou tocar um instrumento musical, ou dançar, ou cantar, ou construir um objeto de madeira com as próprias mãos, ou preparar um bolo ou qualquer outra receita com as próprias mãos e depois saboreá-la na companhia de alguém especial, ou escrever um poema, ou quem sabe um romance, aprender a cortar o cabelo, ou a costurar, fazer bordados ou blusas de tricô.

Para pensar em qualidade de vida, em como viver mais e gastar menos a vida com coisa menores, é preciso repensar as prioridades, os signos de vida bem-sucedida, os objetivos que nos colocamos, os modelos que miramos de felicidade e realização. Não é fácil, mas nenhuma escolha é. Escolher viver e aproveitar a vida em vez de simplesmente gastá-la é um desafio, mas é também um convite a darmos o primeiro passo para fazer diferente no microcosmos, na nossa casa, nas relações de amizade e familiares. Abrir espaços para pequenas ações que nos permitam nos sentir mais vivos é um grande desafio. No meu caso, senti necessidade desses espaços. Ainda não estou conseguindo equilibrar esses espaços que me enchem de vida com as obrigações. Mas o primeiro passo foi dado. Cuidar das plantas, mexer com terra, podar, plantar; brincar com instrumentos musicais, cantar, cozinhar mais, escrever, fazer pequenos consertos pela casa, aprender a manusear diferentes ferramentas: martelo, furadeira, enxada, tesouras de jardim, aprender a costurar. 

A vida que merece ser vivida, como dizia Sócrates, certamente é aquela que é pensada, refletida, mas que também é sentida, encarnada, materializada em obras que criamos na medida em que nos descobrimos como seres criativos e criadores, capazes de dar sentido a essa grandiosidade que é estar vivo. 

07 julho 2020

Dark 3 - o fim foi, de fato, o fim ou só mais um começo?

reprodução Netflix
(Aviso de spoilers da terceira temporada)

Embora muitos tenham considerado a última temporada a consagração da série alemã, ela não me convenceu totalmente. Além de não responder muitas perguntas deixadas pelas temporadas anteriores, a quantidade de informação nova introduzida na terceira temporada faz com que o ritmo da série fique comprometido. Infelizmente a última temporada de Dark não tem a mesma qualidade das duas temporadas anteriores.

Pode-se destacar positivamente as atuações dos atores, que estão muito boas na última temporada. Também a fotografia e a trilha sonora são excelentes e mantêm a qualidade que vinham apresentando nas temporadas anteriores. Outro ponto positivo é a estratégia para marcar a mudança de mundos que funciona muito bem. Os diálogos entre as versões jovem, adulta e velha da Martha do mundo B muitas vezes parecem um repeteco dos diálogos entre Jonas e Adam e entre as versões jovem e adulta de Jonas que vimos na primeira e segunda temporadas. O desfecho de alguns personagens chega a ser extremamente cruel, como é o caso de Katharina, que volta para 1986, encontra Ulrich no hospício e, ao tentar tirá-lo de lá, é morta pelas mãos de sua própria mãe. Com relação ao mundo B, embora ele seja muito semelhante ao mundo A, de Jonas, encontramos muitas mudanças nas relações entre personagens que não chegam a ser devidamente exploradas e, portanto, em vários momentos, alguns desfechos parecem muito superficiais. Um exemplo é a ida do Ulrich do mundo B para o passado seguindo Helge. Como as coisas não acontecem exatamente da mesma maneira nos dois mundos, faltam elementos para dar verossimilhança às sequências que são apresentadas. Além disso, os dois capítulos finais recorrem a informações e elementos novos que foram muito rapidamente apresentados, deixando a sensação de que poderiam ter feito pelos menos um episódio a mais para que essas ideias fossem desenvolvidas a contento. E, apesar da sensação de que muitas referências acabaram perdidas na última temporada, ainda dá pra falar de filosofia, então, vamos ao que interessa.

A última temporada de Dark se inicia com um trecho do filósofo Arthur Schopenhauer (Finalmente!): “O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer”. Embora tenha sido a primeira citação direta ao filósofo, muitas outras ideias de Schopenhauer se fizeram presentes nas falas de Adam ao longo da série, principalmente a ideia de que a vida é dor, sofrimento, causados por desejos que não estariam sob nosso controle. No entanto, o último episódio deixa uma sensação de que perdemos algo pelo caminho ou simplesmente de que mudamos totalmente a perspectiva das temporadas anteriores. De última hora, uma natureza bem mais colorida, cores claras e uma ideia de felicidade pautada na amizade parecem preencher todo o espaço ocupado pelo pessimismo existencial de Adam que perpassa as duas temporadas e que continua em boa parte da terceira temporada, e eis que somos levados a uma espécie de paraíso, como sugere o título do episódio final.

Mas o que seria o paraíso? Um mundo sem Jonas e sem Martha, afinal a existência dos dois seria um erro, como Claudia revela para Adam. Até aí era algo que poderíamos esperar depois do final da segunda temporada. O que não parece fazer muito sentido é o paraíso materializado em meia dúzia aleatória de personagens numa ceia intimista que, na ausência de Jonas e Martha, teriam uma vida feliz (nesse sentido, podemos observar que são justamente os personagens que tiveram as histórias e desfechos mais trágicos nos dois mundos que aparecem, tirando Woller, com certeza uma piada interna da série...). Teriam os produtores de Dark apostado num final mais palatável ao grande público? Será que Dark, no fim, não quis ser tão dark assim? Mas se as duas temporadas, com seu ambiente sombrio, pessimista e com pitadas de tragédia grega tinham feito tanto sucesso, por que mudar? Ou será que não mudou? Será que as referências à mitologia, à religião, à filosofia teriam sido simplesmente jogadas na série? Foram pistas falsas deixadas no caminho para confundir os espectadores? Ou elas podem nos ajudar a entender o final da série?

Pensando nas perguntas que deixei no final do texto "Como Schopenhauer e Nietzsche podem nos ajudar a entender a série Dark - Parte 1", a saber, "somos livres ou nosso destino já está traçado? Jonas poderá mudar o rumo da sua história ou está condenado a se tornar Adam?", parece que a série optou por dizer sim e não para a segunda questão, mas isso não significa dizer que somos livres... Nesse sentido, a pergunta que formulei no texto "Como Schopenhauer e Nietzsche podem nos ajudar a entender a série Dark - Parte 2", como correção das primeiras questões - Qual o destino de Jonas? - não faria sentido, afinal, não haveria um destino pronto, mas algumas possibilidades de destino. Ou talvez fosse melhor dizer: Jonas vai e não vai se transformar em Adam. Mas, de todo modo, tanto numa possibilidade quanto na outra, há cadeias causais determinadas e um desfecho único para cada uma delas: numa, Jonas é resgatado por uma versão da Martha do mundo B, levado para o mundo dela, mas em seguida assassinado por uma outra versão da Martha B e, portanto, não se torna Adam; na outra, a Martha do mundo B não resgata Jonas, uma versão mais jovem de Jonas é conduzido por Claudia ao pós-apocalipse e ele se transforma em Adam. No entanto, a série nos surpreende com uma terceira possibilidade: Jonas se transforma em Adam, mas uma das versões de Claudia conta para ele que descobriu um jeito de impedir que Jonas e Martha e seus respectivos mundos existam. E então somos apresentados a um terceiro mundo ou mundo originário, no qual o velho Tannhaus, ao construir uma máquina do tempo para tentar impedir as mortes de seus filho, nora e neta, acaba criando os mundos de Jonas e Martha. Portanto, esse seria o buscado por Adam e que, uma vez rompido, poderia cessar todo sofrimento de Jonas, Martha e demais personagens.

Uma questão importante é a seguinte: o encontro entre Claudia e Adam no qual ela revela a existência do mundo originário já aconteceu antes? Ou melhor, esse encontro é único ou também irá se repetir? Ao impedir a morte da família de Tannhaus, os mundos de Jonas e Martha serão eliminados e é isso, o fim? Ou estaria esse terceiro mundo conectado aos dois outros de modo que também ele faria parte de um eterno retorno? Afinal, ouvimos tanto que 'o fim é o começo e o começo é o fim' que fica difícil engolir essa de 'paraíso sem Jonas e sem Martha'.  A série só permanece fiel às temporadas anteriores se estiver dizendo, de algum modo, que os ciclos não se encerraram. Poderíamos pensar que o mundo originário, também ele sujeito ao eterno retorno, intercalaria ciclos no qual Jonas e Martha salvam o filho do Tannhaus com ciclos no qual o filho do Tannahus morre e, portanto surgem os dois mundos. Talvez a cada 33 anos, o mundo originário volte, sendo que já no ciclo seguinte os dois mundos o substituem novamente - a triquetra então, não estaria relacionada às três épocas (1953 -1986 -2019), mas sim aos três mundos, que estariam infinitamente conectados e sujeitos à repetição. Não domino os conceitos físicos explorados na série, então, pode ser que eu esteja falando besteira. Essa aparição do terceiro mundo me pareceu forçada e pouco explorada, calcanhar de Aquiles da terceira temporada.

Minha hipótese de que não se tratava de uma briga entre o Bem e o Mal, mas um confronto entre duas visões de mundo, uma schopenhauriana e outra nietzschiana, não parece de todo errada. Eva, a versão anciã de Martha B, de fato pode ser entendida como Ariadne e foi ela quem guiou Jonas-Adam a fim de que garantir o eterno retorno de tudo. Enquanto Adam pensava estar agindo para acabar definitivamente com os dois mundos, Eva garantia que as escolhas dele assegurassem que tudo iria acontecer de novo e de novo. No entanto, na série, podemos ver o Sem-Nome, filho de Martha e Jonas, como sendo o Minotauro, o monstro que Jonas-Adam quer destruir, mas que Ariadne-Martha-Eva escolhe salvar. Jonas-Adam seriam ao mesmo tempo Dionísio e Teseu: enquanto Dionísio, Jonas é o par perfeito de Martha; enquanto Teseu, ele a abandona. Na série, Ariadne conduz Teseu pelo labirinto, mas o engana, e embora Adam-Teseu acredite destruir o Minotauro, Eva-Ariadne cuida para que ele esteja salvo, garantindo assim que tudo aconteça como sempre aconteceu. E sendo assim, enquanto Adam-Schopenhauer recusa a dor e o sofrimento e decide botar fim à vontade/desejo que os originava (abre mão de Martha e tenta por fim ao mundo), Eva-Nietzsche aceita a dor e o sofrimento, assim como as alegrias e diz sim à vida dela e do seu filho, aceitando o eterno devir.

Para quem viu na terceira temporada de Dark a revelação de uma "história de amor", eu diria que trata-se de uma história sobre "egoísmo", do quanto cada um está apegado ao seu próprio querer, uma vez que o amor seria só uma grande ilusão, a maior de todas as peças que a 'vontade cega' prega no ser humano. No limite, não há sentido ou razão para os desejos que estão por trás das nossas ações e que, na maioria das vezes, trazem dor e sofrimento muito mais do que satisfação. Em outras palavras, nossas ações, por mais complexas que pareçam, por mais que sejam resultado de muito raciocínio e cálculo, não seriam outra coisa além do nosso esforço para realizar aquilo que queremos. Mas esse querer está, na maior parte do tempo, oculto para nós mesmos, não temos consciência dele, apenas somos movidos pelo querer ou pelo desejo. Jonas queria/desejava Martha, Hannah desejava alguém que não a abandonasse, Ulrich desejava aventuras, Claudia queria que Regina vivesse ou, talvez, Claudia queria viajar no tempo, mas se sentia culpada por ter abandonado a filha e transformou essa culpa numa motivação para seguir viajando no tempo, Eva desejava que seu filho vivesse... Num determinado momento, Jonas, tomando consciência de que seu desejo só gerava mais dor e sofrimento (“A dor é seu navio,o desejo é sua bússola.”, disse Adam na segunda temporada), abre mão desse querer, porque compreende finalmente que só assim estará livre de toda dor e de todo sofrimento.

"O homem seduzido pela ilusão da vida individual, escravo do egoísmo, só vê as coisas que o tocam pessoalmente, e encontra aí motivos incessantemente renovados para desejar e querer; pelo contrário, aquele que penetra a essência das coisas, que domina o conjunto, chega ao repouso de todo desejo e de todo querer. Dai em diante, a sua vontade desvia-se da vida, repele com susto os gozos que a perpetuam. O homem chega então ao estado de renúncia voluntária, da resignação, da tranquilidade verdadeira, e da ausência absoluta de vontade". Schopenhauer, Arthur. As dores do mundo.

Quanto à cena final, aquele jantar alegre, colorido e nada a ver com Dark,  tendo a interpretá-la como uma provocação, um lembrete de que a felicidade seria algo passageiro e ilusório. De que para cada momento de felicidade haveria dois outros de dor e sofrimento (para cada mundo originário, paraíso, haveria dois mundos de desencontro, dor e sofrimento). Para que aquelas seis pessoas pudessem  estar ali, dúzias de pessoas foram sacrificadas (afinal, como ouvimos no trailer da terceira temporada: "Cada decisão a favor de algo é uma decisão contra outra coisa"). O déjà vu de Hannah, na cena final, é justamente a descrição do cessar da vontade cega e irracional, por trás de cada ação e escolha que levaria a todo tipo de dor e sofrimento experimentado pelos indivíduos, ainda que limitado àqueles que desapareceram com os mundos A e B. Esse seria o verdadeiro paraíso, a não existência, livre de todos os impulsos da vontade, livre, finalmente, de toda dor e todo sofrimento. Só aqueles que não cometeram o maior dos delitos, nascer, não serão castigados...

Afinal, dá para pensar num mundo sem nenhuma dor ou sofrimento? É crível uma existência feliz o tempo todo? Haveria lugar para uma felicidade permanente para esses personagens que restaram em Winden? Ou estaria Winden e seus habitantes condenados a pendular entre esse mundo originário e os outros dois mundos, entre o tédio e o desespero, polos entre os quais, segundo Schopenhauer, a existência humana se alterna? Estaria o paraíso ameaçado? Talvez a ausência momentânea de luz durante o jantar, na cena final, seja um lembrete disso: felicidade é, quanto muito, a ausência de dor e sofrimento, mas isso seria momentâneo. O desaparecimento dos mundos A e B não pode ser considerado um desfecho feliz, uma ruptura com o eterno retorno, mas apenas o início de outro ciclo, interligado com os outros ciclos dos mundos A e B, também ele marcado por dor e sofrimento, ainda que sejam outras dores e outros sofrimentos...


25 junho 2020

Como Schopenhauer e Nietzsche nos ajudam a entender a série Dark - Parte 2

" Não podemos fugir do nosso destino. Nem eu, nem você."
“A dor é seu navio, o desejo é sua bússola.”
Adam

Em "Como Schopenhauer e Nietzsche nos ajudam a entender a série Dark- Parte 1", finalizei o texto com a pergunta: Jonas poderá mudar o rumo da sua história ou está condenado a se tornar  Adam? Depois de pensar mais um pouco e de ver alguns vídeos, principalmente esse vídeo do canal Montoch, estou bastante inclinada a pensar que não formulei a pergunta correta. E se Adam não for Jonas? Na verdade, quando Adam apareceu e se apresentou como sendo o Jonas mais velho, eu não fiquei convencida. Ao ver a série pela primeira vez, minha intuição dizia que Mikkel/Michael seria o Adam (os dois personagens, Jonas e Michael, têm a marca no pescoço, como o Adam, e isso pode ter sido justamente para nos despistar...). Ao rever as duas temporadas, acabei me resignando com a ideia de que Jonas e Adam seriam a mesma pessoa. No entanto, neste momento tenho muitas dúvidas. Minha intuição me fez perceber, logo no começo da primeira temporada, que Mikkel seria Michael, então, talvez eu devesse confiar mais nela... E, talvez, a pergunta correta seja: Qual o destino de Jonas?

Crítica | 3ª temporada de Dark a transforma na melhor série da ...
Jonas e 'Martha' do mundo dois. Imagem de divulgação.

Com o final da segunda temporada e a revelação da existência de um mundo paralelo ou espelhado, de onde vem a "outra" Martha, pode ser que tenhamos na terceira temporada um confronto entre dois mundos, como eu havia sugerido no texto anterior, um mundo schopenhaueriano e outro nietzschiano. No entanto, a personificação desse confronto pode não ser Adam e Noah, como eu havia sugerido, mas Adam e algum personagem do mundo 2, que tenha uma relação com Martha 2, semelhante a que vemos entre Adam e Jonas. Aparentemente a nova Martha assumirá o protagonismo na última temporada e pode ser que ela encarne o espírito nietzschiano em oposição ao Adam-Schopenhauer. Sendo ela responsável por dizer "Sim" à vontade de potência, enquanto Adam busca uma forma de negação definitiva da vontade. Uma das coisas que me faz pensar nessa teoria, Martha-Nietzsche, é o teatro da escola da primeira temporada, no qual Martha interpreta Ariadne num monólogo cheio de simbologia e forte carga emocional. Espero que essa minha hipótese possa fazer algum sentido no final desse texto! Certamente muitas coisas podem mudar com as revelações da terceira temporada e minhas especulações podem se mostrar completamente equivocadas. De todo modo, há vários elementos que já foram exploradas nas duas primeiras temporadas e que pretendo desenvolver nesse segundo texto.

Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será sempre desvirada outra vezes e sempre se escoará outra vez, – um grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reúnam outra vez no curso circular do mundo. E então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e cada inimigo e cada esperança e cada erro e cada folha de grama e cada raio de sol outra vez, a inteira conexão de todas as coisas.”    Nietzsche, Vontade de Potência

Logo que a ideia de repetição e de um tempo circular aparecem na série, quem conhece alguma coisa de Nietzsche, nem que seja só de orelhada, é levado a pensar na doutrina do eterno retorno. Mas, também na filosofia de Schopenhauer, encontramos a ideia de repetição, e de um tempo circular, que parece nos colocar diante de um presente eterno:
"Podemos comparar o tempo a um círculo que gira incessantemente: a metade sempre a descer seria o passado, a outra sempre a subir seria o futuro; porém, acima, o ponto indivisível que toca a tangente seria o presente inextenso; (...) Ou, o tempo é uma torrente irresistível, e o presente é uma rocha contra a qual aquela se quebra, sem no entanto poder arrastá-la" Schopenhauer, O mundo como vontade e como representação, Vol. 1.
Dentro da concepção de mundo de Schopenhauer, o indivíduo é fruto de uma ilusão.Tudo que existe, todos os indivíduos, todos os seres, toda a natureza, são, em essência, uma coisa só, são Vontade. A vontade é o em si do mundo, a verdadeira realidade. Mas a vontade é cega e irracional, é vontade de vida, livre e sem direção, que quando se objetiva num indivíduo, quando é representação, está sujeita ao principio de causalidade, ao espaço e ao tempo, sendo, portanto, determinada. A existência individual é marcada por dor e sofrimento, uma vez que a vontade é puro querer, é sempre uma ausência, é sempre insatisfação e é infinita. A possibilidade de escapar desse sofrimento está associada a possibilidade de negar a vontade. Nessa negação da vontade residiria a liberdade do ser humano, porém não como indivíduo, pois como tal é determinado, dado que é a manifestação objetiva da Vontade. Para Schopenhauer, tal liberdade é possível, momentaneamente, através da contemplação ou fruição da obra de arte ou, definitivamente, através da atitude do asceta ou do santo. Aqui encontramos indícios de que Mikkel/Michael possa ser Adam. Várias vezes vemos Adam diante de um quadro na sede do sic mundus como se estivesse em contemplação. Por outro lado, Michael é um artista e a cena do suicídio se dá justamente no seu ateliê, onde encontramos diferentes pinturas abstratas. Aqui teríamos uma conexão importante entre os dois personagens. Além disso, Mikkel, fã do mágico Houdini, demonstra grande interesse pelo controle do tempo, sendo que sua fala é emblemática na primeira temporada: a questão não é como, mas quando.

Com Schopenhauer vemos uma repetição na espécie, que busca preservar-se eternamente, repetindo o mesmo ciclo, geração após geração, sendo o indivíduo apenas um meio, um instrumento, da espécie, já em Nietzsche, é a vida do indivíduo que pode se repetir uma e um milhão de vezes. Para Nietzsche, a vontade de potência, longe de indicar um princípio metafísico da realidade, é a própria realidade, é o próprio corpo do indivíduo. Nesse sentido, a filosofia nietzschiana é uma filosofia da imanência opondo-se a toda e qualquer forma de transcendência, considerada a fonte do niilismo passivo tão combatido por Nietzsche. O niilismo passivo é a negação da vida em favor do além mundo;  é a fuga na direção do transcendente, da alma, do pós-morte, do paraíso, de um consolo metafísico. O niilismo passivo deve ser vencido, substituído pelo niilismo ativo, com o surgimento do super-homem, fruto da liberdade do indivíduo capaz de afirmar, de dizer Sim, com todas as suas forças, à vontade de potência, tornando-se aquilo que é e disposto a reviver sua vida quantas vezes for preciso.

Em Schopenhauer e em Nietzsche, encontramos um mundo carente de razão, de sentido ou de rumo, um mundo sem finalidade, onde tudo acontece sem que haja um porquê. Diante dessa falta de sentido, e da necessidade de uma vontade cega e irracional, para Schopenhauer só é possível encontrar no mundo dor e sofrimento. E só a negação da vontade pode por fim a esse sofrimento. Nietzsche, por sua vez, defende a possibilidade de superação dessa falta de sentido através de uma existência criadora e afirmativa, afirmativa daquilo que, de forma imperativa se faz presente no mundo, a vontade de potência.

“O mundo antigo voltou para a assombrar como um fantasma que sussurra em um sonho como construir o mundo novo, pedra por pedra. A partir daí, eu sabia que nada mudaria. Que tudo ficaria como antes. As rodas dentadas giram em um círculo. Um destino ligado ao próximo. O fio, vermelho como o sangue, junta todas nossas ações. Ninguém consegue quebrar os nós. Mas eles podem ser cortados. Ele cortou o nosso, com uma lâmina afiada. Porém algo ficou para trás que não pode ser cortado. Uma ligação invisível." (Fala de Martha no monólogo em que interpreta Ariadne)

"Acho que somos um par perfeito. Nunca duvide disso.” (Jonas para Martha)

No mito grego, Ariadne é a guardiã da porta do labirinto onde está preso seu meio-irmão, o mostro Minotauro. Teseu é o herói que irá, com a ajuda de Ariadne, por ele apaixonada, matar o Minotauro. O fio de Ariadne é que permite ao herói encontrar o caminho até o meio do labirinto e, depois de matar o mostro, retornar para fora do labirinto. Após a vitória, Teseu acaba por abandonar Ariadne. Isso ocorreria, em algumas versões do mito, porque o deus Dionísio teria coagido o herói, em sonho, a abandoná-la.

Quando vemos Martha interpretando Ariadne na primeira temporada, somos levados a imaginar Jonas como Teseu, o herói que se aventura no labirinto-caverna. No entanto, na leitura de Nietzsche do mito grego, o casal Dionísio-Ariadne forma o par-perfeito. Dionísio é, para Nietzsche, o deus da alegria trágica que nos convida a afirmação da vida, através da criação da arte, da poesia, música, da dança. Ariadne ao dizer "Sim" a Dionísio, diz "Sim" a afirmação da vida, à vontade de potência.

Assumirá a Martha do mundo dois essa atitude? Será o Jonas do mundo um o seu Dionísio? Mas quem será o Teseu? E o Minotauro a ser derrotado? Antes da terceira temporada, tudo que posso fazer são hipóteses. Minha hipótese é que Adam, que é Mikkel/Michael, é o Minotauro a ser derrotado (mais uma pista sobre a identidade Adam-Mikkel/Micahel pode estar nos nomes: Adão, o primeiro homem, foi feito à imagem e semelhança de Deus; o significado no nome Michael é "quem é como Deus?"). Martha e Jonas seriam, de fato, um par-perfeito. Esse fim "romântico" poderia ser interpretado como uma vitória de Nietzshe sobre Schopenhauer, da afirmação da vida, fruto de uma escolha da Martha do mundo dois. Mas também poderia ser lido como um fim schopenhauriano, no qual o "amor" não seria mais do que uma ilusão criada pela natureza-vontade a fim de garantir sua perpetuação, ou seja, sua eternidade na reprodução da espécie. De todo modo, acredito que na terceira temporada, veremos a confirmação dessa circularidade e dessa repetição, de um destino que, inexoravelmente, deve se cumprir. Mas como isso acontecerá e qual das perspectivas filosóficas irá prevalecer, só saberemos no dia 27 de junho.

21 junho 2020

Como Schopenhauer e Nietzsche nos ajudam a entender a série Dark - Parte 1

Dark é uma série original alemã da Netflix, e sua primeira temporada foi lançada no dia primeiro de dezembro de 2017, a segunda em 21 de junho de 2019 e a terceira e última temporada irá estrear no dia 27 de junho de 2020. Para quem acompanha a série, as datas de estreia não foram escolhidas ao acaso, como nada em Dark parece acontecer por acaso, afinal, como ouvimos várias vezes, "tudo está conectado". Dark tem sido definida como uma série de drama, suspense e, principalmente, de ficção científica, afinal, na abertura da primeira temporada temos uma citação de Einstein, segundo a qual "a diferença entre passado, presente e futuro é somente uma persistente ilusão". Mas, para a minha leitura de Dark, gostaria de destacar os aspectos filosóficos que se fazem presente de forma bastante consistente nas duas temporadas e que, para mim, darão o ritmo da terceira e última temporada da série.

Quando vi as duas temporadas pela primeira vez, Nietzsche e Schopenhauer ficaram pairando na minha cabeça. Embora Schopenhauer não seja citado diretamente, alguns personagens em diferentes momentos parecem ecoar suas teorias. Ao rever recentemente as duas temporadas, enquanto espero ansiosa a terceira, tive ainda mais certeza de que a série é totalmente influenciada por esses dois filósofos alemães. Mas, aparentemente, eu estou falando obviedades, pois uma das roteiristas, Jantje Friese, já disse em entrevistas que há muitas ideias de Nietzsche e Schopenhauer que foram o ponto de partida para que eles começassem a pensar sobre viagem no tempo. E logo no início da primeira temporada, somos confrontados com uma noção circular do tempo, em oposição a noção de linearidade temporal, sendo que não é só o passado que altera o presente, mas também o futuro pode alterarar o passado. Aos poucos precisamos nos acostumar com a ideia de que passado, presente e futuro estão acontecendo simultaneamente.

Dark se passa em Winden, uma pequena cidade, fictícia, no interior da Alemanha. Coisas estranhas acontecem na aparente pacata Winden: crianças desaparecem. Em 2019, Mikkel Nielsen se perde de seus irmãos, Martha e Magnus Nilsen, e seus amigos, sumindo nos arredores das cavernas de Winden. Trinta e três anos antes, foi o tio dos Nilsen que desapareceu, Mads Nielsen, irmão de Ulrich Nilsen.  Além da família Nilsen, as famílias Kahnwald, Tiedemann e Doppler parecem ter suas histórias entrelaçadas por diferentes motivos. No sumiço de Mikkel Nielsen, além de seus irmãos, estavam presentes Jonas Kahnwald, Bartosz Tiedmann e Franziska Doppler.

Mapa das famílias de Dark disponível em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/um-mapa-das-familias-de-dark-da-netflix-para-voce-nao-se-perder/

Ao longo da primeira temporada, outros dois adolescentes desaparecem e o corpo de um adolescente é encontrado na floresta em condições bastante estranhas. Tudo indica que é o corpo de Mads Nilsen.  Mas como 33 anos depois do desaparecimento esse corpo adolescente seria encontrado como se tivesse sido morto no dia anterior? Mistério! Um dos muitos que envolvem a trama de Dark. Além de mistérios e segredos, há muitos assuntos mal resolvidos entre os membros dessas quatro famílias: traições, ciúmes, mentiras, vinganças, ódios que se repetem ao longo das gerações. Passado e presente parecem mais do que conectados, parecem se repetir...
"Alguém que tenha sobrevivido a duas ou três gerações encontra-se na mesma disposição de espírito que um espectador que, sentado numa barraca de saltimbancos na feira, vê as mesmas farsas repetidas duas ou três vezes sem interrupção: é que as coisas estavam calculadas para uma única representação, e já não fazem nenhum efeito, uma vez dissipadas a ilusão e a novidade." (Arthur Schopenhauer, As dores do mundo).
Como muitos fãs da série já destacaram, em especial esse vídeo do canal Série Maníacos, Dark trabalha com muitos elementos da cultura alemã, seja fazendo referências diretas, como a Eisntein e a Nietzsche, ao artista Rubens e a obra A queda dos anjos rebeldes, na sede do sic mundus, ou ainda através de releitura de obras de artistas alemães. E nessa perspectiva faz todo sentido os filósofos Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche terem influenciado a série. Eles são dois grandes nomes da filosofia alemã do século XIX e desenvolveram uma visão bastante dark do mundo e da humanidade, afinal o primeiro é conhecido como o filósofo do pessimismo e o segundo como aquele que anunciou a morte de Deus. Rompendo com uma tradição racionalista e batendo de frente com a tradição judaico cristã, os dois filósofos nos colocaram diante da falta de sentido da vida e da força avassaladora das paixões e dos desejos.

Embora Nietzsche tenha sido um leitor e, até certo ponto, bastante influenciado pela filosofia de Schopenhauer, diante da falta de sentido da vida, os dois filósofos seguem caminhos distintos. Ao pessimismo metafísico e ao niilismo passivo de Schopenhauer, Nietzsche opõe um fisicalismo e um niilismo ativo: enquanto o primeiro propõe a negação da vontade, o segundo aposta na afirmação da vontade de potência;  se para Schopenhauer o indivíduo está determinado e, embora tenha a ilusão de fazer escolhas, suas ações são fruto de uma necessidade que se faz presente em toda a natureza, o homem torna-se livre quando é capaz de negar essa vontade cega que determina suas ações; para Nietzsche, ao contrário, o indivíduo encontra a  liberdade na afirmação da vida, da vontade de potência.

No último capítulo da segunda temporada, os diálogos entre Adam e Noah parecem um embate entre as duas visões de mundo:

Adam: Não podemos fugir do nosso destino. Nem eu, nem você.
Noah: Você não declarou guerra contra Deus. Mas sim contra a humanidade.
Adam: (...) O tempo está jogando seu jogo cruel conosco. Você acha que é seu destino me matar. Mas esse não é seu destino assim como o meu não é morrer aqui e agora. Somente quando nos livramos de qualquer emoção que somos livres de verdade. Somente quando alguém está disposto a sacrificar o que mais ama. (...) Não existe homem sem culpa. Nenhum deles merece um lugar no seu paraíso. Esse nó só pode ser desfeito ao ser destruído completamente. Não podemos fugir do nosso destino.

Como eu disse no início, a série tem muitos elementos de ficção científica, envolvendo viagem no tempo, buraco de minhoca, relatividade, partícula de Deus. No entanto, para mim, o núcleo duro da série gira em torno de uma das grandes questões da filosofia: somos livres ou nosso destino já está traçado? Jonas poderá mudar o rumo da sua história ou está condenado a se tornar o Adam?

17 junho 2020

A onda - a contaminação fascista

encrypted-tbn1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcT...

"Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar que "eles" não podem repetir o que fizeram. Mas quem são "eles"? (Umberto Eco, O fascismo eterno)


Ontem fui "desafiada" por uma amiga, numa rede social, a postar filmes que me impactaram em diferentes momentos da vida. O primeiro que coloquei foi A onda. Várias reações, alguns comentários e senti vontade de rever o filme. Foi um soco no estômago e fiquei feliz com a escolha da postagem. Impossível ver esse filme e não associar com acontecimentos recentes no nosso país e no mundo.

A onda é um filme alemão de 2008, dirigido por Dennis Gansel, que nos fala sobre um "experimento social" feito por um professor com alunos do ensino médio. O experimento em questão aconteceu nos EUA, em 1967, em Palo Alto, Califórnia, e consistia em uma simulação que tinha por objetivo mostrar aos estudantes o que é ter que seguir as instruções de um líder. Em entrevista para a Folha de São Paulo em 2008, o professor Ron Jones, na época com 68 anos, disse: "nunca faria isso de novo, coloquei os alunos em perigo". No filme de Gansel, as consequências são mais trágicas do que uma criança perdendo a mão construindo explosivos, como aconteceu na vida real.

Faz já algum tempo que o termo "fascismo" tem sido recorrente nas redes sociais, em cartazes de manifestações de rua e até mesmo nos jornais de grande circulação. Depois do secretário de cultura do governo ter gravado vídeo claramente de inspiração nazista, escancarou-se os motivos para chamar o atual governo brasileiro de fascista. Bolsonaro sempre foi autoritário, embora tenha passado quase 30 anos como parlamentar, sempre mostrou desprezo pela democracia e pelas instituições democráticas, nunca fez questão de esconder seu racismo, sempre fez questão de exaltar a violência - seu 'herói' é um torturador -, nunca escondeu relações de sua família com a milícia - ele e os filhos, também deputados, empregaram familiares de milicianos e milicianos em seus gabinetes, deram medalhas à milicianos, defenderam publicamente "legalizar" milícia. Os elementos estiveram sempre lá, para que todos pudessem ver.

Bolsonaro e a maioria dos que se identificam com ele poderiam facilmente ser comparados ao garoto Tim: medíocre intelectualmente, solitário, ressentido com o mundo, desejando ser aceito, buscando pertencer a algum grupo, desejando se sentir especial. Encontrou tudo isso na onda. Foi o primeiro a se encantar pela proposta do professor. Desde início demonstrou o quanto havia gostado da ordem, da disciplina imposta pelo professor no experimento. Estava disposto a tudo para fazer parte de algo, para se sentir pertencente a um grupo.

No livro Amanhã vai ser maior, a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que acompanhou por alguns anos jovens da periferia de Porto Alegre, desde as jornadas de junho de 2013 até o período eleitoral de 2018, nos mostra como o bolsonarismo foi capaz de seduzir garotos como Tim. Guardadas as devidas proporções, os garotos que participaram dos rolezinhos no final de 2013 ansiavam pela mesma aceitação, reconhecimento e pertencimento que Tim. Mas em 2016, grande parte daqueles garotos estavam encantados por Bolsonaro: "eles se referiam ao candidato como um símbolo, uma marca juvenil - tal como a Nike operava na época dos bondes" (p.166).

A contaminação fascista pode ter acontecido no Brasil de maneira rápida, mas não dá pra dizer que ninguém avisou que estava acontecendo. Como no filme, tinha muita gente tentando avisar que aquela história não iria acabar bem. A jovem Karo, criada numa família bastante libertária, num primeiro momento sente-se atraída pela onda, afinal, parece que os adolescentes vivem pedindo por limites. No entanto, a garota logo percebe os problemas daquele movimento, mas ela fica só. É angustiante estar no no lugar de Karo, vendo pessoas que amamos se afundando em ódio e violência, tentar avisar, tentar alertar e ser chamada de exagerada, ou acusada de estar com inveja do sucesso do movimento.

Os desfechos trágicos do filme nos colocam em alerta. Quantos terão o fim de Tim? Qual o tamanho do trauma causado por essa aventura fascista que o bolsonarismo trouxe ao país? Porque, sim, o bolsonarismo não é só um fenômeno autoritário, um "populismo de direita" como alguns têm chamado. O bolsonarismo pode, sem medo de errar, ser considerado um movimento fascista, apresentando algumas das características apontadas por Umberto Eco como marcas do Ur-Fascismo ou do fascismo eterno: culto a tradição, irracionalismo, frustração individual e social, racismo, machismo, populismo qualitativo, manipulação da linguagem (uso da novilíngua) (Cf. p.44-59: O Fascismo Eterno).

Estamos num momento dramático da nossa história e a união contra o fascismo se torna urgente. Que tenhamos a coragem de Karo para denunciar e lutar contra essa onda que ameaça nos carregar para mares tenebrosos e cheios de tormentas. Não queremos que "eles" repitam o que fizeram. Ou, prestando atenção no alerta de Umberto Eco e do próprio filme A onda, não queremos ser "eles". Será que ainda estamos em tempo de evitar o pior?

02 fevereiro 2020

Sobre vidas que inspiram a arte e uma arte que alimenta a vida

Era só o último sábado de férias. Mandei uma mensagem para uma amiga para convidá-la para almoçar. Ela não podia, mas me convidou para ir ao teatro mais tarde. Dei uma olhada rápida na proposta do espetáculo: um solo de Denise Fraga a partir de narrativas reais com colaboração do público. Claro, convite aceito!


 
Foto de divulgação

O espetáculo tem uma pegada de humor, mas me fez chorar algumas vezes e espero que tenha feito muita gente pensar sobre tantas coisas que se passam todo dia com a vizinha, com o colega de trabalho, ou que passam diante dos nossos olhos pela janela do carro, mas que nós, muito ocupados com nossos próprios pequenos ou grandes dramas, não damos a atenção devida. 

A interpretação poderosa de Denise Fraga nos leva para tantas outras vidas e até nos convence de que está falando de nós. Sim, algumas vezes me reconheci naquelas palavras e o alívio de um perdão ou a frustração no trabalho falavam de mim. Eu estava lá no palco, era uma parte de mim. 

A atriz está no palco de corpo e alma emprestando sua sensibilidade e sua voz para contar histórias de pessoas anônimas ou que são invisibilizadas no dia a dia. É o extraordinário presente no ordinário. É o amor ou a falta dele. É o amor pelo outro, mas  acima de tudo o amor que só eu posso ter por mim. É o medo que paralisa e que também vira coragem. É a vontade de desistir ou o desejo de mudar tudo, mas é também a capacidade de seguir, por teimosia, só de pirraça. É não aceitar as paredes, os nãos, as portas fechadas ou as mentiras das respostas prontas como palavra final, como limite para os sonhos que trazemos na alma.

O espetáculo é permeado por muitas músicas. Claro, porque todas essas vidas têm uma trilha sonora. Eu tenho a minha, certamente você tem a sua. De repente a lembrança do pai que queria ser cantor e a memória da mãe que só podia ser acessada pelas músicas me fizeram pensar em que lembranças eu quero guardar dos meus pais que aos poucos envelhecem. Pensei na trilha sonora que me faz lembrar deles e da minha infância...E o silêncio que é também comunhão, tão necessário quando tudo é barulho e até as imagens gritam o tempo todo, me comoveu até as lágrimas. Como também me comoveu a narrativa da carta: quantas violências cabem numa vida?

E de repente me dou conta dos privilégios que desfruto hoje em dia: frequentar teatros, cinemas e outros espaços de cultura e arte. Não deveria ser assim. Um espetáculo como Eu de Você faz a gente ser gente melhor, humaniza e deveria ser um direito de todos. A arte nos ajuda a dar o nome correto às coisas. E nunca foi tão urgente poder dar nome ao que sentimos, ao que experimentamos no cotidiano. Só assim poderemos enfrentar e superar ou simplesmente digerir o que nos acontece nesses tempos sombrios que a cultura e a educação viraram inimigos públicos dos homens no poder (e não foi só o amor que eles jogaram fora, a ordem foi substituída pela balbúrdia e o progresso pegou a rota do passado).  

Está difícil imaginar futuros bonitos, ter sonhos, mas saí do teatro com uma pontinha de otimismo. Enquanto existir artistas sensíveis à vida que transcorre silenciosa e despercebida e que façam de seu trabalho uma possibilidade de enriquecer a vida de outras tantas pessoas, ainda há motivos para ter esperança. Saí do teatro com energias recarregadas, estava precisando dessa dose de fé na vida, na possibilidade de se criar vínculos e afetos entre as pessoas. Certamente cada uma das pessoas que estava naquela sala experimentou o espetáculo de um modo singular, fez conexões ou foi afetado pelas histórias de maneira única, mas nós compartilhamos aquele momento, dividimos e experimentamos aquelas vidas, fomos um sendo muitos e fomos muitos sendo um.

A arte pode nos salvar da mediocridade de uma vida que seja só no singular. É através da arte que temos a oportunidade de ser muitos. Enquanto eu chorava, algumas pessoas riam. Mas estávamos juntos, experimentando ser o outro, colocando e tirando máscaras. Obrigada, Denise Fraga, por esse espetáculo-ritual. Obrigada por essa possibilidade de ser com outros. Façamos Arte! Façamos Amor! Sejamos plural! E vamos cantar, porque, querendo ou não, vão ter que nos ouvir!

_________

Obrigada, Fefs, pelo convite! Foi uma noite muito especial!

21 janeiro 2020

Dica de leitura

Acabo de ler "Brasil: construtor de ruínas", de Eliane Brum. Livro fundamental para todos que estão buscando compreender esse Brasil do século XXI. Como nos diz Eliane, esse Brasil de Bolsonaro é resultado de um processo e, para compreendê-lo, é preciso voltar no tempo. É preciso fazer um acerto de contas com as últimas décadas, colocar o Brasil (os Brasis) no divã, prestar atenção nos detalhes que passaram despercebidos, rememorar fatos e decisões que já perderam suas cores em nossa memória.

Com delicadeza e coragem e, acima de tudo, profundo comprometimento com os fatos, Eliane nos convida a nos encarar, a nos colocar diante do espelho e nos desnudar das máscaras que, partidas, já não dão conta de dizer quem somos.  Se essas máscaras geravam uma imagem ilusória, temos agora o desafio de encarar a ausência de imagem e  a necessidade da construção dessa imagem coletiva. A jornalista denuncia a violência cotidiana a que estão submetidos milhares de brasileiros, Ágathas, Amarildos, Guajajaras, Marielles, por séculos invisibilizados nas periferias do Brasil. Violência que se intensificou no último ano, autorizada e estimulada pelo discurso oficial do presidente e de seus apoiadores e seguidores. Eliane também denuncia a perversão que tomou conta da política e do dia a dia do país; perversão que se faz presente numa linguagem que já não significa, em palavras desencarnadas, vazias, que geram confusão e desentendimento, que interditam o diálogo e, finalmente, impossibilitam a democracia. A autora nos conduz às origens desse estado de coisas, nos recorda quem foram os personagens que deram início a essa perversão que agora funciona como estratégia de governo. Nos recorda quando o fascismo e o estado de exceção começaram a fazer parte do nosso cotidiano.

A honestidade da leitura que Eliane Brum faz dos Brasis certamente irá causar desconforto em algumas pessoas e grupos; a dureza de suas críticas poderá ser interpretada como ataque por outros. Mas não se trata de culpar ou flagelar esse ou aquele partido, trata-se de responsabilizar os agentes públicos e políticos que atuaram nas últimas décadas e fizeram parte desse processo. Finalmente, é um livro que nos convida a ação, que nos chama a construção de solidariedade, que nos exorta a estar de corpo e alma na luta pela democracia, uma democracia que não seja apenas um conceito, mas que seja realidade, tecida nesse encontro de corpos e palavras capazes de encarnar a realidade e de dar sentido às diferentes formas de ser brasileiro.

17 outubro 2019

O dia que o Coringa virou político (e não foi de Gothan)

Resultado de imagem para Coringa correndo
(Imagem : Divulgação Warner Bros)
1- A ficção que parece realidade

O filme Coringa (Joker- 2019), dirigido por Todd Phillips e com a impressionante atuação de Joaquin Phoenix, é mais um filme que faz a gente sair do cinema sem rumo e mudo. Para quem não gosta de filmes de super-herói ou desse universo das HQs, ainda vale a pena considerar ver Coringa. Se você é professor/educador e trabalha com adolescentes, mais um motivo para vê-lo. Se você se incomoda com a banalização da violência promovida ultimamente por autoridades públicas, outro bom motivo para ir ao cinema e conferir Coringa. Mas o meu objetivo não é fazer propaganda do filme. Então vamos ao que interessa.  (Aviso: o texto a seguir contém spoilers!)

Na telona vemos o retrato de um indivíduo em sofrimento psíquico e emocional, um loser dentro de uma sociedade totalmente doente e disfuncional. Um palhaço que tenta ganhar a vida fazendo propaganda para comércios de rua. Há lixo por todos os lados, barulho, gente andando feito zumbi por uma cidade suja, escura e muito feia. O protagonista vive num prédio que mais parece um edifício abandonado. Mora com uma mãe adoentada, frágil, que passa os dias diante da TV assistindo a programas de humor e noticiários, uma alternância entre o riso provocado por piadas de qualidade duvidosa e o horror diário da cidade, enquanto espera a chegada do correio, de alguma resposta do ex-patrão para quem trabalhou no passado. Ela acredita que aquele bom homem quando souber como ela e o filho vivem, certamente virá em seu socorro. Entre o cuidado da mãe e o trabalho, o personagem frequenta sessões de terapia num cômodo claustrofóbico, com as paredes tomadas por estantes entulhadas de papéis, onde ele consegue um papel que lhe garante medicamentos de graça. O quadro é desolador. Mas Arthur Fleck quer ser comediante e numa espécie de diário anota seus rascunhos para um show de stand-up. A vida, por sua vez, insiste em bater no personagem: adolescentes roubam sua placa de anúncio, ele tenta recuperá-la e leva uma surra dos moleques que acabam por quebrar a placa. O chefe chama Arthur e diz que tem muitas reclamações dos clientes, o dono da loja reclama a placa que ele perdeu, Arthur tenta se justificar e leva bronca. Os colegas de trabalho, outros palhaços, riem e zombam de Arthur. Um deles tem a brilhante ideia de oferecer uma arma ao personagem, para que ele se defenda de bandidos e moleques que roubam tudo e fazem maldades. Entre muitas coisas ruins que lhe acontece, Arhtur é mandado embora do emprego e é avisado de que o programa de saúde que frequentava semanalmente foi cancelado: não teria mais reunião nem remédios. Na volta para casa, três homens bem vestidos (de terno e gravata) e bêbados, depois de importunarem uma jovem, partem para cima de Arthur e mais uma vez ele é espancado.

A cidade tomada pela sujeira - montanhas de sacos de lixo pelas ruas e muita pichação - e pela miséria é o cenário perfeito para que a revolta e a violência se alastrem e junto com eles o ódio aos ricos, uma pequena parcela daquela sociedade decadente que segue imune a todos os dramas vividos pela massa. Uma elite que vai ao teatro e ao cinema com suas roupas e chapéus elegantes, confiantes de que desfrutam daquilo que merecem porque se esforçaram para ter aquela vida. O sonho de Fleck é participar do famoso programa de humor da TV. Um dia, um vídeo seu, de um stand-up, vai parar na TV. Mas ele é ridicularizado e humilhado pelo apresentador. Em meio a tudo isso, cresce o motim na cidade, principalmente depois que três homens são assassinados no metrô por um sujeito vestido de palhaço. A cidade está fora de controle. Arruaceiros tomam conta de cada esquina: roubam, pilham, matam, botam fogo em tudo. E todos vestidos de palhaço. Pois, um sujeito da elite, Thomas Wayne, que pretendia estrear na política, apareceu na TV chamando toda aquela multidão de insatisfeitos e revoltados que de certa maneira, haviam comemorado o assassinato dos três homens de bem no metrô, de palhaços. 

 2- A realidade 

Foi também através das telas de TV que um sujeito medíocre e sem graça ganhou notoriedade num programa de humor. Ele não queria ser comediante, mas os comediantes do programa achavam que daria uma boa piada o discurso destemperado daquele político sem brilho e rejeitado pelos próprios colegas. Achavam que seus ataques preconceituosos e sua defesa descabida da ditadura poderiam ser motivos de risadas (e de pontos de audiência). Funcionou, muita gente teve notícia de um deputado sem noção, racista, homofóbico e machista. Mas não acharam graça. Levaram a sério. Acharam que ele representava bem suas próprias insatisfações. Suas falas grotescas e violentas encontraram eco numa população sofrida e cansada de sentir feita de palhaço por uma classe política que finge bons modos, que faz discurso politicamente correto, mas que não sente nenhum pudor em aceitar suborno, em participar de esquemas ilícitos, em se sentar na mesa dos poderosos e fazer acordos indecorosos. 

Mas o deputado-comediante era diferente. Ele era sincero, dizia exatamente o que todos queriam dizer. E foi assim, fazendo sinal de arminha com as mãos, defendendo o armamento da população, a pena de morte, negando a história e mentindo descaradamente, que esse sujeito virou presidente. Embora chamado de mito por seus seguidores, o que pode nos remeter a figura do herói tal qual nos mitos gregos, o sujeito em questão nada tem de herói. E se quisermos reduzir o mundo ao maniqueísmo das HQs, certo mesmo seria chamá-lo de vilão. No entanto, como nos mostra o filme Coringa, a personalidade do vilão pode ser muito complexa. De modo que, ao contar a história da construção dessa personalidade de vilão, cai por terra o próprio maniqueísmo herói-vilão. Diferente do que esbravejava o deputado-comediante, bandido não é uma condição de nascença. Não se nasce bandido, não se nasce vilão. Mas muitos fatores podem nos ajudar a entender como alguém se torna um vilão ou um bandido. E contar essa história, ao contrário das acusações feitas ao filme Coringa, não é justificar suas ações de vilão, nem retirar sua responsabilidade pelas ações cometidas. Mas pode ser uma maneira de evitarmos que outros vilões apareçam. Humanizar o vilão, mostrar a complexidade de ser humano, pode servir como vacina ou antídoto num mundo sujo e tão propício a espalhar sua sujeira aos quatro ventos. 

3- A realidade que parece ficção

O deputado-comediante-sem-graça que virou presidente teve uma infância pobre numa região que, como muitas outras de seu país, era dominada por uma elite, um coronel ou coisa do tipo. Ele, quando menino, experimentou esse sentimento de revolta, tão comum a quem em sua condição se vê diante da fartura de uns poucos. Não parece fazer sentido, os perrengues diários de muitos versus a abundância e excessos de uns poucos: casas luxuosas, carros, piscinas, crianças que podem tomar sorvetes, enquanto se vive numa pequena casa de dois quartos, com mais cinco irmãos e é preciso trabalhar desde garoto para que a família tenha como sobreviver. Dá raiva mesmo. Sentimos que é injusto. Essa talvez tenha sido a primeira e mais profunda experiência do nosso personagem com o sentimento de 'ódio aos ricos'.

O deputado-comediante quando adolescente assistiu a uma caçada, de mocinhos contra bandido, e desde então, achou que o mundo era assim, divido entre bons e maus. E ele decidiu que estaria do lado dos 'bons'. Foi para o exército. A guerra entre mocinhos e bandidos, heróis e vilões, foi cultivada na sua curta inteligência. Misturando esse episódio com aquele ´ódio aos ricos' da infância, nosso personagem escolheu como seu inimigo um dos herdeiros daquela família poderosa da pequena cidade de sua meninice. E a ditadura que prendeu e matou seu inimigo, se transformou em sua grande heroína. A ditadura fez justiça contra aquela família mesquinha de ricos da sua infância pobre. 

Mas não era bem no exército que ele queria ficar - talvez lhe faltasse destreza com as armas, embora devote a elas certa fixação fálica, pois mesmo armado, certa vez foi assaltado e levaram sua moto. E foi depois de quase liderar um motim no exército por aumento de soldo e de um plano frustrado de explodir bombas em quartéis do Exército que ele se tornou político. 

Se o Exército era o lugar dos mocinhos, ao se rebelar contra o exército, nosso personagem estaria indo para o outro lado, o dos bandidos? E foi na condição de político que ele defendeu bandidos sem nenhuma cerimônia: fez apologia às milícias (e, hoje sabemos, manteve amizade próxima com milicianos, inclusive empregando familiares deles no seu gabinete). Diz o ditado que filho de peixe, peixinho é, e no caso do nosso personagem, os três filhos são políticos e também empregaram milicianos e familiares em seus gabinetes. Que fique claro, não acredito que seja uma questão de natureza ou essência. Mas não duvidamos que o exemplo e o hábito tenham forjado na prole os mesmos maus comportamentos do progenitor.

Nosso personagem, assim como o Coringa, talvez tenha uma dificuldade em discernir entre realidade e imaginação. Pior, talvez tenha sérios problemas em aceitar que a realidade não se submete à sua imaginação. Essa insubordinação o deixa muito contrariado, e é preciso atacar a realidade, violentá-la a fim que de que se adeque aos seus desejos.

O que não falta são pessoas dizendo que nosso personagem, tal qual Arthur Fleck, sofre de algum transtorno mental. Mas até hoje essas acusações são só boatos. Mas quem se dispõe a analisar as falas do nosso personagem, rapidamente encontra: sinais claros de ressentimento; uma insegurança mal disfarçada que aparece na forma de ataques a tudo e a todos; alguns temas recorrentes em seus discursos e ataques que revelam possíveis traumas de infância ou baixa autoestima; uma mania de grandeza e ao mesmo tempo de perseguição, comportamentos tipicamente paranoicos. 

Muito provavelmente nosso personagem, da mesma maneira que Arthur Fleck, precisou de ajuda e, é bem provável, também se viu abandonado e sozinho. Não sabemos bem quem foram seus algozes, mas é possível arriscar que aquela família rica da sua infância personificou o alvo do seu ódio ao mesmo tempo que figurava como culpada por sua pobreza e as mazelas que certamente viveu junto de sua família na infância. Talvez de maneira até inconsciente, seu objetivo sempre tenha sido ocupar o lugar dos seus inimigos. A sua ganância foi observada durante a passagem pelo exército. Hoje, na pequena cidade da sua infância, é o seu sobrenome que se destaca no comércio local. Hoje sua família é a dona da cidade. Chegar à presidência era tão impossível, que ainda hoje, claramente, nosso personagem não consegue lidar com a realidade e vive no eterno papel do candidato, no palanque, fazendo promessas e bravatas, instigando as massas à violência e ao caos.

Com um palhaço na presidência, lendo as notícias a gente ri, mas é de puro desespero, de nervoso. Estamos experimentando a doença de Fleck. Porque o presidente-palhaço continua sem graça, o país cada dia mais parece aquela cidade feia e suja da telona, a miséria cresce, o número de desempregados e da violência também, enquanto partes do país ardem em fogo, tal qual a cena final do filme. E quando o presidente abre a boca, como seu discurso tresloucado na ONU, o que se ouve é uma piada de mau gosto. Ninguém ri. Mas é bem possível que o mundo vire as costas para esse país. E como não se trata de um enredo de HQ, não adianta esperar um herói para nos salvar. Uma coisa é certa: só o caos é a garantia de que ele continuará reinando, e por isso também nosso personagem não pode abandonar seu papel: o de palhaço que põe fogo no circo.

Campanha

Campanha
Saiba mais sobre a campanha clicando na imagem

Sobre o que se fala

opinião cotidiano Poesia política Dicas utilidade pública Rapidinhas atualidade atualidades crônica Campinas educação Conto Minas Gerais São Paulo cinema observações coisas da vida Brasil escola música Delfim Moreira Dica de leitura Misto Bolsonaro Literatura democracia divulgação Barão Geraldo eleições Filosofia da vida coisas que fazem bem passeios Comilança clã Bolsonaro debate público redes sociais 8 de março amigos coronavírus ensino paixão revoltas séries Dark Futebol amor coisas de mineiro coisas do mundo internético criança do eu profundo façamos poesia; infância pandemia preconceito; atualidades sobre fake news Ciência Violência; Educação; utilidade pública de irmã pra irmã final de ano; início de ano; cotidiano; lembranças política; ser professor (a) tecnologia virada cultural adolescência autoritarismo comunicação consumo consciente desabafo distopia economia fascismo férias história impressa livros manifestação mau humor mentira mulheres mágica pós-verdade quarentena reforma da previdência sobre a vida violência música Poesia 15 de outubro 20 de novembro 2021 8 março precisa ser todo dia; Anima Mundi EaD Eliane Brum Fora Bolsonaro Itajubá Moro Oscar Passarinho; Poesia; Vida Posto Ipiranga aborto amizade amor felino animação; autoverdade balbúrdia baleia azul. bolsonarismo cabeça de planilha consciência negra conto; continho corrupção coti covid-19 crime crônica felina crônica ficcional curtas; concurso; festival curtas da vida; defesa democracia liberal descobrindo o racismo desinformação direitos discurso divulgação; atualidades divulgação; blogs; poesia documentário família feminismo filosofia de jardim fim das sacolinhas plásticas final de ano; início de ano; cotidiano frio férias; viagens; da vida; gata guerra de narrativas hipocrisia humor ideologia informação; utilidade pública infância; jabuticaba jornalismo lei de cotas leitura minorias morte mídia música Poesia novidades para rir poema próxima vida racismo estrutural racismo institucional rap resenha; atualidade; interesse público; educação saudade saúde sentimentos tirinhas universidade utopia verdade verdade factual viagem

Amigos do Mineirices