10 março 2026

Até quando a mãe de alguém vai chorar?

O caso bárbaro de estupro coletivo praticado por cinco jovens de idade entre dezessete, dezoito e dezenove anos no Rio de Janeiro, ganhou contornos ainda mais sombrio esta semana. Um dos estupradores, Vitor Hugo Oliveira Simonin, ao se entregar à polícia no último dia 9, ostentava na camiseta as palavras "regret nothing" - não me arrependo de nada ou sem arrependimento. A afirmação, ao que tudo indica, é um mantra de grupos misóginos e que propagam ódio e violência contra mulheres na internet. 

O jovem, porque sim, um rapaz de 18 anos, em que pese ser maior de idade, é um jovem recém saído do ensino médio, demonstra frieza, insensibilidade diante da violência praticada e falta de condições de viver em sociedade. Certamente essa última constatação nos faz questionar que tipo de educação - informal e formal - esse jovem recebeu até esse momento? Que tipo de valores foram apresentados a ele por sua família? O que a escola fez pela formação desse jovem? Onde estavam os adultos responsáveis por ele enquanto ele era aliciado por criminosos? E essas perguntas servem para os cinco estupradores. Servem também para todos os meninos de dezesseis, quinze, doze, oito anos que estão hoje à mercê de aliciadores no Discord ou outras plataformas. Onde estão os adultos, homens e mulheres, e o que estão fazendo por esses meninos?

No dia seguinte, 10 de março, ficamos sabendo através dos jornais que há vídeos dos cinco estupradores, logo após o crime,  comemorando o ato bárbaro no elevador e dizendo que "a mãe de alguém vai chorar hoje". Eu me recuso a acreditar que esses cinco jovens já nasceram violentos, nasceram estupradores. E por me recusar, não me canso de perguntar como tantas pessoas falharam com eles. Que tipo de pais e mães esses jovens têm? Não estariam essas mães também chorando ao verem o que seus filhos se tornaram? Não sou mãe, mas ouso dizer que se essas mães não estão chorando, se elas não estão sofrendo diante desse fato terrível - são mães de estupradores - elas são péssimas mães e nem mesmo merecem esse nome. Se essas mães não estiverem hoje dilaceradas diante do horror de saberem serem mães de estupradores, ouso dizer que esses jovens não sabem o que é ter uma mãe. 

Para completar o quadro, nem me atrevo a dizer fechar porque ainda estamos no meio da semana, as páginas dos jornais de hoje noticiavam uma trend no TikTok intitulada "Caso ela diga não", na qual homens, de todas as idades, simulavam atos de violência contra mulheres - chutes, facadas, fuzilamento. É urgente a regulamentação das plataformas. É urgente a corresponsabilização das plataformas por conteúdos criminosos que circulam e são disseminados inclusive para jovens e crianças. Se essas plataformas não limitam ou coíbem mensagens que, claramente, colocam vidas em risco, precisam ser multadas. Sim, multa, punição que afeta os cofres, a única linguagem a que essas empresas parecem ser sensíveis.  

O título da trend é mais uma prova de como o machismo faz mal para meninas e meninos. Sim, o medo de levar um não vivido por tantos adolescentes é consequência direta de uma ideia estúpida de que são eles, os meninos, os homens, que precisam tomar a iniciativa para iniciar um relacionamento com uma menina, mulher. Esse peso já deve ter assombrado muitos jovens. Além de "ter coragem" para tomar a iniciativa, eles precisam ter que se preparar para ouvir um "não". Só que esse mesmo machismo diz que homens não podem ser contrariados, não podem escutar um não. Ensina que os homens sempre têm suas vontades satisfeitas. Por isso, quantos jovens, adolescentes, já foram humilhados pelo grupo ao ser "rejeitado" por uma garota? Tudo seria bem diferente se, em primeiro lugar, essa obrigação de "ter coragem" não pesasse sobre ninguém. Que independente do sexo, jovens e adultos pudessem manifestar seu interesse por alguém e, desde muito cedo, fossem ensinados que é perfeitamente normal ouvir um "não". Ser rejeitado por alguém não será uma experiência confortável para ninguém. Mas poderia ser menos traumática. Poderia ser mais democrática - pensando nos relacionamentos heterossexuais. Poderia ser uma fonte a menos de sofrimento e de ressentimento masculino. 

Enquanto insistirmos em reproduzir ideias machistas e sexistas na educação de meninos e de meninas; enquanto continuarmos cobrando, de meninos e de meninas, certos comportamentos baseados em ideais machistas, muitas mães - de meninas e de meninos - ainda irão chorar. 

09 março 2026

Mensagem para os homens neste 8 de março (e para todos os outros dias)


Não queremos flores hoje

Queremos sua coragem todos os dias

para dizer que aquela  piada machista do colega não tem graça

Que aquela foto da ex do seu amigo circulando no grupo de WhatsApp está errado

Que insinuar que a colega foi promovida porque deu pro chefe é asqueroso.

Não queremos chocolates hoje

Queremos seu respeito e reconhecimento todos os dias

Quando temos boas ideias, mas que viram excelentes quando apresentadas por outro homem

Quando realizamos bem tarefas que se fossem realizadas por homens ganhariam destaque na reunião de equipe.

Não queremos elogios hoje

Queremos que você se posicione quando a barbárie estiver estampada nos jornais

Que antes de dizer "nem todo homem", você se esforce em ser exemplo para meninos e adolescentes de como deve se comportar  um ser humano de verdade.

Não precisamos de aplausos ou incentivos para continuar dando conta de tudo

Precisamos de parceiros que dividam as tarefas de casa, o cuidado dos filhos

Parceiros que esperem de nós só o que é justo esperar de seres humanos e não de super-heroinas.

Parceiros de vida, de sonhos, de luta e de conquistas.

08 março 2026

Coisas de mulher (até quando?)

1

O nome dela é Luciana, mas podia ser Maria, Joana, Teresa ou Cristina. Ela acorda todo dia às cinco da manhã. Prepara o café. A marmita para o marido. Os lanches para os filhos. Enquanto eles tomam o café, ela já varreu a casa, tirou o lixo, colocou comida para o cachorro. Já lavou parte da louça. Às sete horas ela sai de casa com os dois filhos. Deixa o de três anos na creche às 7h30. Ás 7h50 entrega a filha de dez anos na escola. Oito e meia entra no trabalho. O marido é pedreiro. Nunca sai de casa antes das oito.  Ela é faxineira num escritório de engenharia. Passa o dia esvaziando lixeiras, limpando banheiros, mesas, fazendo café. Sai do trabalho às 17h00. Vai correndo pegar os filhos. Primeiro a filha. Foi uma luta convencer a diretora a deixar a menina ficar ali, esperando pela mãe. As atividades da escola de período integral se encerram às 16h00. Explicou que não conseguia chegar antes. Viria o mais rápido que conseguisse. Com muito custo, a diretora aceitou que a menina ficasse ali na guarita, esperando pela mãe. Não sem antes fazê-la assinar um documento dizendo se responsabilizar pelo que acontecesse com a menina depois das 16h00. Depois corria pegar o filho, já que a creche funciona até às 18h00. Chegam em casa por volta das 19h00. A depender do trânsito. Normalmente o marido já está em casa, de banho tomado. Ela vai direto para cozinha, preparar o jantar. Às 21h00 as crianças precisam estar alimentadas, de banho tomado, dentes escovados e na cama. Ela lava a louça e já adianta a mesa do café do dia seguinte. É sempre a última a tomar banho e ir se deitar. O marido, às vezes reclama. Ela deveria ter ido pra cama mais cedo...

2

- Você acredita que ele teve a cara de pau de dizer que iria me promover porque eu custaria mais barato que o Pedro? 

- E o que você disse?

- Eu? O que eu iria dizer? Você sabe que eu preciso desse aumento. 

- Por que você não disse que você merecia receber bem mais, já que faz o seu trabalho e o do Pedro...

- Você sabe que não é simples assim...

- Não, não é nada simples. É um absurdo... E um absurdo você não reagir...

- Reagir? E correr o risco de ser demitida? E quem vai pagar as contas no final do mês? Você se esqueceu de que eu sou mãe solo? O pai do Joaquim não está pagando a pensão... Alegou que está desempregado e, portanto, não consegue pagar. 

- Mas é outro absurdo! E você não processou?

- Bem que vontade não faltou, mas ele me implorou para não fazer... E me prometeu que assim que conseguir um emprego fixo volta a pagar...

- E você aceitou? 

- E você queria que eu fizesse o quê? Além do mais, você sabe que ele tem outro filho... Mais velho que o Joaquim. A outra precisa mais do que eu. O Marcelo precisa de acompanhamento de psiquiatra, terapeuta... Graças a deus o Joaquim é perfeito!

- E você vai para o céu, amiga... E se não se cuidar, vai acabar indo logo. Aí quero ver quem vai cuidar do Joaquim...

3

Abigail. Esse é o seu nome de batismo e registro. Mas no trabalho todos a chamam de Abi. Enfermeira. Com muito orgulho. A primeira de sua família a ter um diploma de ensino superior. Apesar de amar o que faz, o dia a dia no hospital não é fácil. Já ouviu muito desaforo de médico. Mas com os pacientes também já passou por situações difíceis. Principalmente nos plantões durante a madrugada. Homens. Que chegam bêbados. Que se envolveram em acidentes ou brigas. Já teve cidadão passando a mão na sua bunda enquanto administrava medicação ou fazia curativos. Abi se revoltava. Reclamava. Até se cansar de ouvir seus colegas ou médicos - todos homens! - dizer que ela estava exagerando. Que hospital era assim mesmo. Era assim mesmo para elas, claro. Nada do tipo acontecia com eles. Então, era fácil dizer que ela estava exagerando...

4

Carmem trabalhou como técnica de enfermagem por muitos anos. Agora, aos 56, já aposentada, trabalha como cuidadora de idosos. A aposentadoria é baixa, ela tem pais idosos, filhos terminando a faculdade, o marido, que tem 65 anos, também é aposentado e recebe um salário mínimo. Ele tem a saúde debilitada. Já sofreu AVC e ficou com algumas sequelas. Ela precisa complementar a renda da família. Primeiro trabalhou com uma senhora. Dona Divina. Foram dois anos tranquilos. Mas, infelizmente, dona Divina partiu aos 89 anos. Carmem acabou sendo indicada para cuidar de um parente da dona Divina. Um primo que estava na casa dos 97 anos. Os filhos dele queriam que ela dormisse na casa do pais durante a semana. No final de semana eles se revezavam e ficavam com ele. Seu Artur. O marido de Carmem não gostou muito da ideia. Mas acabou aceitando. Estavam passando por um momento delicado. As contas não estavam fechando. No começo as coisas estavam tranquilas. Carmem tinha um quartinho, perto da lavandaria. O quartinho de empregada. Era mal ventilado, mas ela tinha uma cama, um armário e um pequeno banheiro só pra ela. Passados alguns meses, depois que seu Arthur sofreu um acidente durante a noite, ao se levantar para ir ao banheiro, os filhos pediram que ela passasse a dormir no quarto do pai. Ele não se opôs. Ela se sentiu desconfortável. Mas teve que aceitar. Já na segunda noite, Carmem foi surpreendida no meio da madrugada. Acordou com seu Arthur a apalpando. Levou um susto. Ele disse que precisava ir ao banheiro. Disse que estava confuso. Que não encontrava a porta. Carmem não conseguiu mais dormir depois do ocorrido. Mantinha-se alerta. A cena se repetiu. Seu Arthur vinha em direção a cama que haviam colocado para Carmem, no canto do quarto, claramente para apalpá-la. Carmem, em constante alerta, ao sentir que ele se aproximava, acendia a luz. Percebia nele uma irritação incontida. Um dia ele perguntou se ela não dormia. Ela disse que não estava acostumada a dormir fora de sua casa, que perdia o sono com frequência. As situações foram ficando piores. Ela começou a notar que qualquer aproximação que fazia, era motivo para que a "mão boba" dele roçasse o corpo dela: os seios, as coxas, a bunda. Carmem resolveu conversar com os filhos de seu Artur. Não esperava a reação que tiveram. Inclusive a filha. Deram a entender que ela estava querendo tirar alguma vantagem. Que ele era um idoso, que não faria aquele tipo de coisa de propósito. Um homem com quase cem anos, que maldade podia haver? Ela estava exagerando. Querendo se aproveitar deles. Deixaram claro que se ela insistisse naquela história, iriam mandá-la embora. Ela pediu as contas. Precisava do dinheiro? Precisava. Mas não estava disposta a ser humilhada daquela maneira. 

5

Gostava de jogar futebol e de andar de skate. Mas disseram que aquilo não era coisa de menina. A mãe, o pai, professoras, todos tentaram convencê-la de que era melhor fazer balé. Nos aniversários, Janaina pedia presentes que fossem interessantes. Queria os jogos que os primos ganharam no último aniversário e no natal. Adorava videogame, jogos de tabuleiro, lego. Mas só ganhava bonecas, e uma porção de objetos rosa e sem graça: fogãozinho, geladeirinha, vassourinha, estojo de maquiagem. Com dez anos, lembra-se muito bem, resolveu fazer uso dos batons coloridos que ganhara aos oito: escreveu nas paredes da casa que não queria presente nenhum de aniversário, que estava cansada de ganhar bonecas e que já tinha uma casinha inteira. Disseram que ela daria trabalho. Perfil de mulher difícil. Aos doze, ela ganhou um vestido rosa que parecia vestido de princesa dos filmes da Disney. Filmes que ela nunca teve paciência para assistir. Protestou. Disse que não usaria aquela roupa ridícula. Não gostava de vestidos, não gostava de rosa. Será que ela não era uma menina, começaram a especular. E se ela fosse um menino? Janaina sabia muito bem que era uma menina. Uma menina que invejava a liberdade dos meninos. Uma menina que gostava de futebol, de videogame, de andar de skate. Uma menina que gostava de aventura, de liberdade. Uma menina. Que não queria ter sua vida limitada por objetos rosa, que estar presa entre o fogão e a pia. Janaina gostava de cozinhar. Fazia bolos, tortas. Mas aos poucos foi perdendo a vontade, pois, sempre que fazia algo gostoso, ouvia que já podia se casar. Ela não sabia se queria casar algum dia. Naquela época só queria viver. Não quis festa de quinze anos. Os pais sofreram. Se perguntaram onde tinham errado na educação da filha. Aos dezesseis ela cortou os cabelos e começou a namorar. E foi convidada para treinar pelo time de futebol feminino da cidade. Os pais nem sabiam que isso existia. Resistiram. Mas o namorado de Janaina insistiu. Ela joga muito bem. É a melhor. Vocês deveriam ir vê-la no próximo jogo. Foram. Viram. Não acreditaram. Ela só podia ser um menino...

6

Ela foi atraída para uma armadilha. Não por um desconhecido. Era alguém que ela conhecia bem. Um convite para ir até um apartamento. Ela aceitou. Lá chegando encontrou os outros. Talvez também conhecidos. Não eram estranhos. Jovens. Quase da mesma idade que ela. Colegas de escola. Ela entra no quarto com ele, que a chamou. Havia consentimento. De repente, entram os outros. Ela disse não. Mas eram cinco contra uma. E o que se seguiu foi pura brutalidade. Crueldade. Violação. Que só continuaram depois que ela saiu daquele covil. Ela denunciou. E seguiu sendo vítima. Nos comentários nas páginas de internet: mas por que ela aceitou? Como assim num apartamento com cinco homens? Ela disse não mesmo? Crueldade, violência, brutalidade...

7

Há dias sentia-se indisposta, com dor de cabeça, o corpo pesado. Durante a noite perdia o sono. Ondas de calor invadiam seu corpo. Comentou com o marido. Ele resmungou qualquer coisa. Não deu atenção. Achava que a mulher reclamava demais. E agora que estava envelhecendo, estava piorando. Coisa de mulher. Ela tentou conversar com uma amiga. Ouviu dela que era assim mesmo. Depois dos quarenta e cinco só ladeira abaixo. Tinha ido ao médico, com aqueles mesmos sintomas. O médico nem se deu ao trabalho de examiná-la. Encheu a receita de vitaminas. Não vai pedir nenhum exame, tinha perguntado. Ele disse que nem precisava. Pela idade e os sintomas relatados, era coisa normal. Levantou o rosto e estendeu a mão com a receita. A senhora sabe, é a idade. Costuma ser assim para as mulheres. Pois é, devia ser isso. Melhor nem procurar o postinho de saúde. Se era para ouvir aquilo, que era coisa de mulher, melhor nem ir. Oh, sina...

8

Oito de março. Abre o jornal. E lá estão as chamadas: "74% das mulheres afirmam já ter sofrido assédio, diz pesquisa"; "Mulheres ainda sofrem pressão por não querer ter filhos ";  "Mulheres avançam no mercado, mas seguem mais afetadas por desemprego e baixos salários"; "Por que as mulheres são mais vulneráveis ao burnout". Todo ano é a mesma coisa. Chega março e as notícias sobre mulheres pipocam. Dados sobre violência doméstica, estupros, feminicídios, desigualdade salarial, assédios. Claro, é importante noticiar. Mas só em março? A proximidade do oito de março tem virado uma época de cansaço profundo para nós, mulheres. Mas o pior é que parece que esses assuntos, esses problemas, seguem sendo tratados como "coisas de mulher". Quer dizer, coisas que só interessam a nós, mulheres. E não é! É de interesse e responsabilidade de toda a sociedade. Dos homens sobretudo! Os homens precisam assumir suas responsabilidades. Precisam sair da zona de conforto. Precisam se posicionar. Não só porque são homens os assediadores, os assassinos, mas também porque são homens os chefes, os que contratam e demitem. Sim, ainda vivemos numa sociedade dominada, liderada, dirigida por homens. São homens que sentam nas cadeiras de diretor, CEO, presidente de empresas. São homens que fazem as leis - são maioria nas casas legislativas; são homens que julgam, condenam e absolvem os perpetradores de violência contra meninas e mulheres - pois ainda são maioria no judiciário
Até quando? Até quando? 



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