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14 julho 2026

Data centers: tê-los ou não tê-los, eis a questão!


 "O Brasil discute hoje um incentivo para data centers. Isso funcionaria?

Não acho errado, mas daria errado sem capacidade energética e planejamento. Quando se vê a capacidade de geração de eletricidade chinesa, o gráfico é de assustar.

Uma empresa que tem data centers no Brasil que me procurou disse que está quase desistindo de trazer investimentos em IA para o país. Isso porque é muito caro e não há capacidade energética. Assim, os provedores nacionais não conseguem competir em custo com os grandes provedores de nuvem internacionais. É mais sério do que um simples incentivo fiscal.

É possível conseguir acordos de transferência tecnológica das big techs interessadas em instalar data centers no Brasil?
Tendo energia, o resto vem. O país dá energia barata e pede computadores, qualificação de pessoal e dados. Os dados precisam estar no Brasil. Os datasets são o novo petróleo, são extremamente valiosos para os criadores de modelos de IA."

Trecho da entrevista de Mat Velloso para Folha de São Paulo, publicado em 14/07/2026.. 

Mat Velloso liderou times de IA no Google, onde foi vice-presidente, e foi parte do superlaboratório de inteligência artificial da Meta. Ele deixou a big tech de Zuckerberg em fevereiro para orientar empresas brasileiras.

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"De acordo com a Agência Internacional de Energia dos Estados Unidos, cada consulta ao ChatGPT consome, em média, cerca de dez vezes mais eletricidade do que uma pesquisa típica no Google. 

Até recentemente, os maiores data centers eram projetados para operar com cerca de 150 megawatts, o que significa consumir anualmente tanta energia quanto aproximadamente 122 mil residências nos Estados Unidos. Hoje, desenvolvedores e empresas de serviços públicos se preparam para megacampi de IA que poderão exigir de mil a 2 mil megawatts. Um único deles poderia usar, em um ano, de cerca de uma vez e meia a três e meia a quantidade de energia consumida pela cidade de São Francisco. 

Existem poucos lugares no planeta capazes de produzir e fornecer tanta energia para um único local. Os desenvolvedores estão trabalhando com empresas de serviços públicos ao redor do mundo para construir mais usinas de energia e ampliar as opções disponíveis.  (...) As empresas de serviços públicos estão adiando a desativação de usinas a gás e carvão, assim como a transição para energia renovável. A Microsoft reativou a Three Mile Island, uma usina nuclear perto de Middletown, Pensilvânia, que sofreu um acidente nuclear no final da década de 1970, o pior acidente nuclear comercial da história do país. Até 2030, no ritmo atual de crescimento, estima-se que os data centers usarão 8% da energia dos Estados Unidos, em comparação com 3% em 2022; mundialmente, a computação de IA poderá consumir mais energia do que toda a Índia, o terceiro maior consumidor de eletricidade do mundo."

Karen Hao, O Império da IA: por dentro da corrida irresponsável pela dominação total, trad. Ananda Alves e André Sequeira, Rio de Janeiro: Rocco, 2026.

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Discursos como o de Mat Velloso são exemplos do que Karen Hao identificou como parte do modus operandi do Vale do Silício: a inevitabilidade. Sutskever, um dos fundadores da OpenAI, afirmou ao repórter do New York Times, Cade Metz:

"Acho bastante provável que não demore muito para que toda a superfície da Terra fique coberta por data centers e usinas de energia." Segundo Sutskever, "haveria um tsunami de computação... quase como um fenômeno natural". A IAG (Inteligência Artificial Geral) e os data centers necessários para sustentá-la seria "útil demais para não existir" (HAO, 2026, p.87). 

No entanto, ao longo das mais de 400 páginas do seu livro, Hao nos conta que, diferente da inevitabilidade alardeada por Sam Altman e seus sócios, "a história da IA revela que seu desenvolvimento sempre foi moldado por uma elite poderosa" (HAO, 2026, p.99). Segundo Karen, à medida que comunidades do sul global, mais vulneráveis às investidas das grandes empresas de tecnologia, vão tomando consciência da ameaça que esse desenvolvimento desenfreado significa para seus territórios, a questão central por elas colocadas é: "como imaginar um caminho diferente para o desenvolvimento da IA que não esteja enraizado na extração". 

Poderíamos complementar: como imaginar um caminho diferente para o desenvolvimento da IA que não implique na devastação da Terra? Universidades, centros de pesquisas independentes, governos e políticos dos países que estão sendo "cortejados" e "assediados" por essas empresas precisam urgentemente focarem nessa questão. Nos colocar simplesmente como fornecedores de matéria-prima e energia em troca de "transferência tecnológica" é apenas nos render a um modelo destrutivo que pode custar a sobrevivência da maioria de nós. Pois, enquanto se empenham em enganar e trapacear governos e comunidades mundo afora, esses bilionários também investem em Planos B e C de sobrevivência própria, seja na Lua ou em Marte

As notícias de estados brasileiros dispostos a atrair data centers para seus territórios precisam fazer soar alarmes em toda a sociedade. O que realmente temos a ganhar com isso? A expansão de data centers pelo mundo está a serviço de um modelo de tecnologia que não beneficia a todos. É um modelo extrativista, colonialista, exploratório e completamente descontrolado.  Estamos sendo convencidos de que "precisamos" desses data centers porque "precisamos" das IAs, mas não estamos nos perguntando: Precisamos mesmo? Precisamos para quê? Qual IA? 

Nunca foi tão importante a capacidade de pensar, de se questionar, de interpretar textos e contextos. Enquanto tantos de nós são ludibriados e, encantados pelas demonstrações dos avanços tecnológicos que nos fazem acreditar que vivemos em cenários de filme de ficção científica, se tornam incapazes de olhar para o que acontece a nossa volta, o planeta sofre as consequências do desatino de bilionários mimados, narcisistas, com perfis que oscilam entre psicopatia e sociopatia. 

Karen Hao apresenta em seu livro a experiência de uma comunidade indígena na Nova Zelândia que usou IA para revitalizar uma língua tradicional do povo maori. Uma IA específica, criada com e para a comunidade, desenvolvida a partir de três princípios fundamentais: consentimento, reciprocidade e soberania maori em todas as etapas. A diferença de perspectiva aqui é fundamental:

            "Enquanto a OpenAI busca criar modelos únicos, massivos e capazes de realizar inúmeras tarefas, um objetivo que exige o máximo de dados possível, a Te Hiku concentrou-se simplesmente em desenvolver um modelo pequeno e especializado, excelente para uma função específica. Além disso, beneficiou-se da comunidade transfronteiriça e de código aberto: tomou como ponto de partida o DeepSpeech, um modelo gratuito da Fundação Mozilla, ele próprio fruto de uma visão distinta de desenvolvimento em IA. (HAO, 2026, p.400)

Não se trata de negar a tecnologia e seus potenciais benefícios. Trata-se de colocar cada coisa no seu devido lugar. O tipo de uso banal que se faz hoje de ChatGPT e afins, inclusive correndo o risco de atrofiar ou não desenvolver capacidades e habilidades humanas básicas que nos trouxeram até o atual estágio de desenvolvimento tecnológico, é um erro que pode custar muito caro. Empresas como Google, OpenAI, Microsoft, Meta e Anthropic, e aqueles que estão a serviço da mesma visão de mundo que norteia essas empresas, seguirão dizendo que é preciso ampliar a produção de energia, que os países precisam se adequar a nova era da IA, que os países que não seguirem o roteiro, escrito por eles, ficarão para trás. 

Mas o verdadeiro perigo não é "a gente voltar para 1500", e sim o planeta ser sugado até a última gota, sem haver chances de retorno. 

08 maio 2025

O povo brasileiro precisa de mais 18 deputados em Brasília?

Na última terça-feira, 06/05, a câmara dos deputados votou e aprovou o projeto de lei complementar - PLP 177/2023, de autoria da deputada Dani Cunha (União Brasil - RJ), filha do Eduardo Cunha - que altera de 513 para 531 o número de deputados federais. A votação foi uma resposta da casa após determinação do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre o tema. A pedido do Pará, em agosto de 2023, o STF determinou a readequação do número de deputados federais por unidade federativa à população medida pelo Censo de 2022. A corte determinou ainda que o Congresso deveria editar lei sobre o tema até 30 de junho de 2025. Caso o prazo não fosse cumprido, a decisão do Supremo previa que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) estabeleceria o número de deputados por unidade da federação até 1º de outubro de 2025 para a legislatura que se iniciará em 2027.

De acordo com a Constituição Federal, o número de deputados por estado deve ser proporcional à população, respeitando o limite mínimo de oito e o máximo de 70 por unidade da federação. O cálculo deve ser feito com base nos dados do Censo Demográfico do IBGE, atualizado a cada dez anos. No entanto, essa atualização foi feita pela última vez em 1993. 

Conforme os dados analisados pelo STF, para que a readequação do número de deputados fosse feita, sete estados perderiam cadeiras, são eles: Alagoas (1), Bahia (2), Paraíba (2), Pernambuco (1), Piauí (2), Rio de Janeiro (4) e Rio Grande do Sul (2); enquanto outros sete ganhariam: Amazonas (2), Ceará (1), Goiás (1), Minas Gerais (1), Mato Grosso (1), Pará (4) e Santa Catarina (4). Mas, como em Brasília, ninguém quer perder, todo mundo quer ganhar e a conta sempre vai parar no bolso do cidadão, com o prazo do STF vencendo, a câmara aprovou proposta para aumentar o número de deputados dos estados que hoje estariam sub-representados. De acordo com o projeto, 9 estados ganharão cadeiras na câmara federal: Pará (4), Santa Catarina (4), Amazonas (2), Mato Grosso (2), Rio Grande do Norte (2), além de Goiás, Ceará, Paraná e Minas Gerais, cada um deles com um representante a mais na Câmara.

O projeto contou com o apoio de deputados da maioria dos partidos, sendo que apenas PSOL, Cidadania, Novo e Rede orientaram voto contra a proposta. O placar final foi de de 270 votos favoráveis a 207 contra.

Conforme cálculos da própria câmara, o aumento de 18 deputados no Congresso custaria R$ 64,6 milhões por ano aos cofres públicos. Além disso, a decisão, caso confirmada pelo Senado, terá efeito cascata nas Assembleias Legislativas dos estados. Pois, de acordo com a Constituição Federal:

“O número de deputados à Assembleia Legislativa corresponderá ao triplo da representação do Estado na Câmara dos Deputados e, atingido o número de 36, será acrescido de tantos quantos forem os deputados federais acima de 12”.

Sendo assim, o estado do Amazonas que ganharia 2,  deputados federais, caso o PLP 177/2023 seja aprovado pelo senado, passaria de 24 para 30 deputados estaduais. O aumento em 18 cadeiras na Câmara não parece, a rigor, comprometido com uma melhor representação da população na Casa do Povo. O próprio critério da Constituição ao estabelecer mínimos e máximos de deputados por estado já cria possibilidades de sub e super-representação. Parece que os únicos interesses que estão bem representados nesse projeto são os dos partidos e dos próprios deputados. 

O que esperar do Senado?

Sinceramente, com Davi Alcolumbre na presidência do Senado, não espero muita coisa. Mas a reação do senador Fabiano Contarato (PT-ES) à aprovação do PLP 177/2023 é sinal de lucidez e racionalidade num ambiente que, no mais das vezes, carece dos dois. O senador disse estar “estarrecido” com o projeto e afirmou que os parlamentares deveriam ter foco no bem-estar da população e na redução das desigualdades [sociais]. 

— Isso é um escárnio com a população brasileira. Acho que o Senado precisa fazer uma reflexão e dar uma resposta. Eu defendo que o número deveria ser reduzido e que os parlamentares deveriam trabalhar mais — afirmou o senador. (fonte: Agência Senado)

Essa proposta descabida e vergonhosa merecia uma mobilização da população nas ruas. No mínimo, seria muito importante que nós, cidadãos, nos mobilizássemos nas redes, lotássemos as caixas de correio dos senadores nos posicionando Contra o PLP 177/2023. Serão mais 18 deputados para disputar o butim das emendas parlamentares. Mais 18 deputados para avançar sobre o já combalido orçamento púbico. O mesmo legislativo que cobra responsabilidade fiscal do executivo, faz a farra das emendas sem prestar nenhuma satisfação a ninguém. O poder legislativo brasileiro já está sofrendo de um inchaço que compromete o equilíbrio dos três poderes. Precisamos diminuir o número de deputados e não aumentar! 

05 maio 2025

Pelo direito à leitura!

Uma amiga me envia um vídeo através do qual fico sabendo que no topo dos livros mais vendidos em abril de 2025 no Brasil estão livros para colorir para adultos. Seguidos por livros de autoajuda e religiosos. Trocamos algumas mensagens de indignação. Professoras que somos, lamentamos. O que está acontecendo? Livros de colorir para adultos? Cadê os livros de literatura?

Uma notícia na Folha de São Paulo ajuda a entender o cenário: Desde 2018, quase 1/3 do Brasil tem dificuldade de entender um texto simples ou de fazer contas, diz a chamada na página principal do diário. Segundo estudo coordenado pela Ação Educativa, o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional), que entrevistou 2.544 pessoas em todas as regiões do país, o Brasil estagnou na redução do analfabetismo funcional e a condição atinge 29% da população de 15 a 64 anos. Ainda segundo o estudo, a maioria dos analfabetos funcionais seriam pessoas mais velhas, 65% deles têm entre 40 e 64 anos. No entanto, há ainda uma proporção significativa entre os jovens de 15 e 29 anos e com os que têm entre 30 e 39 anos, ambos com 17%.

E a questão me parece mais grave: 17% da população que concluiu o ensino médio ainda está no nível do analfabetismo funcional; e  12%  dos que concluíram o ensino superior, ainda estão nessa condição. Esses números nos levam mais uma vez a encarar o sério problema que é a qualidade da educação em nosso país. E com o agravante da ampliação do acesso da população à internet: quanto menos alfabetizado, maior os riscos de cair em golpes, em ser enganado por desinformação.

Além do prazer que pode nos proporcionar, da possibilidade de nos humanizar através das páginas de bons livros de literatura, de ampliar nossa visão de mundo, a leitura é também uma questão de necessidade. Alguém que não é capaz de compreender um texto simples, uma notícia, um manual, não poderá exercer sua cidadania plenamente. Terá sua liberdade cerceada.

Mas sempre que o assunto é o hábito de leitura da população, nos vemos em debates pouco frutíferos. Fala-se da falta de uma cultura leitora, dos altos preços dos livros, da falta de tempo da maioria dass pessoas, tão atribuladas e esgotadas por jornadas de trabalho massacrantes (Pelo fim da escala 6x1 já!), do impacto das redes sociais... Tudo isso são pontos importantes e que merecem ser discutidos seriamente. Mas a grande questão é como formar leitores? Como estimular as crianças a iniciarem sua jornada de leitores? Como não perder esses leitores quando se tornarem adolescentes, jovens?

Imagem retirada do Pixabay.com

E parece que estamos num ciclo vicioso: penso que a formação dos pequenos leitores depende de exemplo. Portanto, de adultos leitores que possam partilhar esse hábito – melhor seria, essa paixão – com os pequenos. Se isso é difícil em casa, a escola deveria cumprir essa função. Mas quantos professores leem por prazer, por amor? Quantos têm tempo para se dedicar a leitura que não sejam aquelas obrigatórias – documentos, relatórios, e-mails, etc? 

Entender que isso também impacta na qualidade da educação e no êxito ou fracasso das nossas práticas de alfabetização pode ser um caminho para fazermos algo diferente. Políticas públicas que contemplem a formação e o cultivo de professores leitores e que estimulem as famílias e a sociedade, de maneira geral, a reconhecerem a leitura – principalmente a leitura literária – como uma necessidade e um direito de todos os seres humanos, podem nos ajudar a mudar os números tristes do estudo noticiado hoje.

15 janeiro 2021

Não faltam crimes, mas faltam coragem e pressão

Bolsonaro acumula mais de 50 pedidos de impeachment. Esses pedidos, motivados por crimes de responsabilidade cometidos pelo presidente, estão parados nas mãos do Rodrigo Maia, presidente da Câmara. Muitas figuras públicas, inclusive o próprio Rodrigo Maia e algumas pessoas de oposição, alegam que não haveria número suficiente de votos para um impeachment e, por isso, não faria sentido abrir o processo. Dizem também que abrir o processo sem esses votos poderia beneficiar Bolsonaro. 

Impeachment no Brasil, como ficou evidente no processo de Dilma Rousseff, depende muito mais de "clima" do que de crime. Os crimes Bolsonaro já garantiu. E segue a cada dia cometendo os mesmos ou novos. Mente sobre remédios que não têm eficácia contra a Covid-19. Faz campanha deliberada contra vacina. Usa instituições e órgãos públicos para benefício próprio ou de seus filhos. O clima cabe a nós, cidadãos, criar. E sabe como a gente cria clima de impeachment? Pressionando os parlamentares. 

O Brasil está vivendo um caos sanitário, mas o Congresso está em recesso até 1º de fevereiro. Isso faz sentido para você? Para mim não faz. Temos que exigir o fim do recesso parlamentar imediatamente. Mas temos também que exigir abertura imediata de CPIs para apurar responsabilidades pelos crimes que estamos vendo, pelo caos em Manaus, pelo atraso do país na corrida pelas vacinas, pela insistência em manter o ENEM nos próximos finais de semana e por todos os outros crimes cometidos por esse governo, por Bolsonaro e seus cúmplices. CPIs para investigar deputados como Bia Kicis, Osmar Terra, Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro, Daniel Silveira, que além de ódio disseminam mentiras pelas redes sociais e atuam como verdadeiros agentes do caos, colocando a população contra autoridades que tentam medidas para conter o caos sanitário. 

A situação da pandemia no Brasil nesse momento, de segunda onda, como foi alertado por cientistas, epidemiologistas e demais autoridades com juízo e bom senso, está muito grave e poderia ter sido evitada. Ou seja, esse caos que Manaus e, infelizmente, outras cidades em breve podem viver, não é questão de incompetência, é fruto de decisões deliberadas de autoridades negacionistas que escolheram deixar pessoas morrer.  Bolsonaro e seus ministros têm agido para ampliar o caos. Bolsonaro no final do ano causou aglomerações, quando muitos avisavam que essas datas mereciam atenção, cuidado, que não era hora de aglomerar. Bolsonaro é responsável diretamente pelo comportamento de risco assumido por milhares de pessoas que resolveram levar a sério o presidente da república. Como chefe de Estado, tudo, absolutamente tudo, que Bolsonaro fala e faz importa, tem consequências, por isso ele é responsável! Não é hora de aglomerar, mas precisamos sair de nossas casas ou fazer barulho de nossas casas. Não é possível mais ficar assistindo a todo esse horror sem agir. 

Sábado, 23/01/2021, precisamos pressionar o Congresso Nacional. Deputados e senadores precisam ouvir nossas vozes dizendo #ChegaDeBolsonaro! #ChegaDeMortes! #ChegaDeTolerarCrimes. Quem puder ir para as ruas de carro em suas cidades, fazer carreatas e buzinaços, colocar faixas de suas janelas, bater panela quando a carreata passar, encher as redes sociais de #ImpeachmentDeBolsonaroUrgente, entrar nos perfis de deputados e senadores e pedir o #FIMDORECESSOJA e abertura imediata de CPIs. Precisamos nos unir e pressionar, criar o clima para nos livrar desses assassinos. Precisamos fazer pressão para que os deputados e senadores criem coragem para botar um fim nessa tragédia. Como eu disse, os crimes Bolsonaro já cometeu, e segue cometendo diariamente. 

ATENÇÃO: Se você for para a rua, MESMO QUE de moto ou de carro, não se esqueça de USAR MÁSCARA! Temos que continuar dando exemplo, mantendo distanciamento e tomando todos os cuidados para conter a transmissão do vírus. 



12 janeiro 2021

O caso da Vacina do Butantan e a importância de uma boa comunicação científica

 Comunicação não é marketing. A ciência e os cientistas precisam tomar cuidado com armadilhas politiqueiras

Que João Doria, governador de São Paulo, aposta no marketing para rebaixar a política, isso é sabido desde sua eleição para a prefeitura de São Paulo em 2016. O João trabalhador, usando uniforme dos funcionários da limpeza pública na primeira semana de seu mandato, foi personagem criado para sustentar suas narrativas antipolíticas. Num cenário em que Bolsonaro é presidente, Dória parece civilizado, parece melhor, mas é importante lembrar que a distância entre essas duas figuras é bem pequena, eu diria, irrelevante. A maneira como Dória se apropriou dos estudos do Instituto Butantan me pareceu irresponsável e perigosa, podendo mesmo virar desserviço para a ciência como um todo. 

Diante dos dados apresentados pelo Buntatan hoje (12/01/2021), é bem provável que tenha havido um atropelo na divulgação dos dados. Na semana passada, as eficácias anunciadas, de 100% para casos graves e moderados (que necessitam UTI ou hospitalização) e 78% para casos leves (que necessitam alguma intervenção ambulatorial) gerou expectativas altas em relação à vacina. No entanto, logo pesquisadores e jornalistas especializados em divulgação científica apontaram a ausência de dados sobre a eficácia geral da vacina. 

É bom que se diga que os números inicialmente apresentados pelo Butantan não são falsos ou errados, mas que representam recortes específicos do estudo. No entanto, aparentemente, acompanhamos uma estratégia atabalhoada da divulgação dos dados, que pode ter sido influenciada por interesses políticos do governador de São Paulo, na sua guerra particular contra o cavaleiro da ignorância que desgoverna o nosso país. Mas reforço: não é porque Bolsonaro é o pior presidente que Doria se torna o melhor governador. E mesmo reconhecendo quão delicada é a situação que vivemos, os ataques de má-fé feitos por figuras como o deputado Osmar Terra e outras criaturas trevosas, os cientistas não estão imunes a críticas nem podem estar acima do bem e do mal. Os questionamentos feitos ao Butantan, os burburinhos que surgiram após a primeira divulgação de dados, devem servir de alerta aos cientistas. Não podemos incorrer no erro de achar que a ciência é neutra, com isso querendo dizer que ela está livre de influências políticas e econômicas, mas não é de bom tom ter cientista falando mais em linguajar político do que científico. Quando isso acontece, é importante também ter humildade para reconhecer as escolhas equivocadas e que podem afetar toda a ciência. 

Em tempos de negacionismo científico, de disseminação do movimento antivacina no mundo todo, com um presidente que está em plena campanha contra a vacina, faz-se fundamental estratégias de comunicação cuidadosas e responsáveis. Diferente de meras estratégias marketeiras ou com intenções politiqueiras, uma boa comunicação, nesse caso, deveria levar em consideração impactos psicológicos em apresentar um "número" maior de eficácia num primeiro momento, para depois apresentar um "número" menor de eficácia. Como frisou a pesquisadora Natália Pasternak durante a coletiva de hoje, "temos uma boa vacina", não é a melhor do mundo, mas é uma boa vacina. Desse modo, teria sido muito melhor apresentar os dados sobre a eficácia geral da vacina que, embora baixos, 50,38%, se comparado com outras vacinas que já apresentaram seus dados, atendem os requisitos necessários para que uma vacina seja liberada para uso, e então depois se apresentassem os dados mais animadores, nos recortes do estudo. 

Mas vamos ao que interessa! Temos vacina. Essa vacina é boa e é segura. Agora o que precisamos é combater o negacionismo, as desconfianças, e ampliar as vozes pedindo #vacinaçãojá! 


Em tempo: Viva a Ciência! Viva as instituições públicas de pesquisa! Viva o SUS! e Fora Bolsonaro! 

30 dezembro 2020

Não é comemorar o aborto, mas sim a conquista do direito das mulheres de decidir

 "Durante séculos a sociedade encerrou as mulheres, privou-as de sua liberdade e de sentido, conseguiu enlouquecê-las."Monteiro, Rosa, Nós, mulheres: Grandes vidas femininas, Todavia.

Depois de uma longa e histórica sessão do senado argentino, o país vizinho deliberou pelo direito das mulheres de decidir sobre a interrupção voluntária da gestação. A luta das mulheres argentinas certamente se torna exemplo para as demais mulheres da América Latina. Infelizmente o machismo estrutural segue firme e forte no Brasil e muitos homens e mulheres reproduzem falácias sobre o tema. Acusam as mulheres e militantes pelo direito de decisão das mulheres de assassinos, apelam para a sensibilidade religiosa, insistem em culpabilizar a mulher como se a gravidez fosse apenas sua responsabilidade. Mas é preciso colocar as coisas no seu devido lugar. Tratar o aborto pelo viés moralizante - questão de certo ou errado / bem versus mal - não ajuda em nada. É preciso tratá-lo como questão de saúde pública e de justiça. E, muitas vezes, o que é urgente é colocar o debate nos termos corretos, afastando formulações que, seja por ignorância ou má-fé, acabam levando o debate para o caminho errado.

Uma questão muito simples, mas que todos que se posicionam contra o direito das mulheres de decidir ignoram ou fingem ignorar, é que a despenalização e a legalização do aborto, como previstos na Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez recém aprovada na Argentina, não irão obrigar ninguém a abortar. Ao contrário de quem está confortável em impor suas convicções às mulheres - sejam suas convicções religiosas ou simplesmente fruto do machismo que tem prazer em castigar as mulheres -  nós, que defendemos o direito de decisão das mulheres, entendemos que as mulheres precisam ser acolhidas e amparadas em suas decisões - seja para seguir com uma gestação, seja para interrompê-la. Nesse sentido, muito interessante observar que a redação final do projeto aprovado na Argentina também "garante assistência plena do Estado às gestantes de baixa renda, do pré-natal até os 3 anos da criança, fundamental para evitar que a interrupção da gravidez se dê por falta de perspectiva de sobrevivência econômica", conforme apontou Ana Prestes, em artigo publicado no portal O Cafezinho. É muito importante entender - e deixar claro - que a luta pelo direito das mulheres de decidir pressupõe outros direitos como o acesso a educação sexual de qualidade, acesso a contraceptivos e, por fim, acesso a um sistema de saúde preparado para acolher as mulheres em suas decisões.

A grande verdade é que, muitas vezes, os mesmos moralistas que condenam o aborto, estão na primeira fila para jogar pedras na mulher que é "mãe solteira", para responsabilizá-la pela má educação de seu filho ou filha. Quando questionados sobre o "aborto" largamente praticado por homens que não assumem suas responsabilidades, uma vez mais são ligeiros em dizer que as mulheres deveriam escolher melhor com quem transam sem camisinha. Defender o direito das mulheres de decidir não é lutar para que as mulheres possam cometer os mesmos erros que os homens (outra desculpa esfarrapada da qual o machismo costuma se valer). As realidades enfrentadas pelas mulheres, inclusive dentro do casamento, com maridos que se recusam a usar camisinha e jogam a responsabilidade da prevenção toda para suas esposas, são tão diversas e complexas. Mas isso não é empecilho para muitos homens e mulheres que, de bom grado, tomam para si a função de juiz e fiscal da vida alheia. 

Outra falácia, que tem virado modinha, é homens, ou em geral pessoas contrárias ao direito das mulheres, se escondendo atrás de supostas mulheres de periferia - que seriam contra o aborto - para atacar as feministas, as mulheres de classe média, que são "abortistas". Em primeiro lugar, é bem difícil encontrar por aí mulheres "defensoras do aborto". Isso acontece quando perguntas são formuladas justamente para se criar ou fortalecer essa narrativa. Sempre que alguém lhe perguntar se "você é a favor do aborto" é importante pensar em como irá responder. Caso você entenda que as mulheres devam ter assegurado o direito de decidir levar uma gestação adiante ou não, responda: eu sou a favor do direito das mulheres de decidir.  Em segundo lugar, muitas vezes na periferia - onde o número de mulheres vítimas do aborto clandestino, de clínicas irregulares ou de tentativas desesperadas de aborto em casa, é muito grande -, encontramos muitas mulheres que se dizem contra o aborto (como de resto, eu diria, a maioria das mulheres são!), ainda que já o tenham praticado. E não é porque elas são hipócritas. A pressão social e religiosa - o estigma que as mulheres que já fizeram aborto encaram numa sociedade conservadora, machista e hipócrita - muitas vezes explica porque muitas delas ao serem questionadas sobre o aborto e o direito das mulheres de decidir se declaram contrárias a eles. Mas quando perguntadas se já abortaram, essas mesmas mulheres respondem afirmativamente. Entre aquilo que sentimos ou que nos foi ensinado a pensar que é o certo e a realidade que se impõe há, muitas vezes, um abismo que apenas cada mulher, na sua individualidade, conhece e é capaz de julgar o que lhe convém.

Nós, mulheres, somos diversas, somos diferentes, temos discordâncias, enfrentamos realidades tão distintas e não podemos ser tratadas em bloco, como se as "mulheres classe média" ou "as mulheres da periferia" pensassem e agissem do mesmo jeito apenas porque são "mulheres classe média" ou "mulheres de periferia". 

Aos homens e mulheres que se dizem contrários ao aborto, fiquem em paz, ninguém irá obrigá-los a fazer um aborto, ninguém está pedindo que vocês mudem de ideia. Se sua namorada ou você engravidou por descuido - acontece nas melhores famílias - vá em frente, siga com a gestação. Vocês terão seu direito de escolha respeitado. Tudo o que queremos é que também seja garantindo o direito de escolha de outras pessoas que discordam de vocês. Pensem bem qual das posições é autoritária, qual das posições é impositiva, antes de saírem por aí atacando quem luta por direitos. E lembre-se: você concordando ou não, há mulheres fazendo aborto todo dia. A diferença é que algumas delas terão apoio e cuidado e outras não, e por isso podem ter complicações graves de saúde ou morrer. 

Imagem
Imagem divulgada nas redes sociais de @brumelianebrum

18 outubro 2020

Dica de leitura dois em um: A máquina do ódio - notas de uma repórter sobre fake news e violência digital e Populismo: uma breve introdução

A máquina do ódio, de Patrícia Campos Mello, deveria ser leitura obrigatória para todos os estudantes de jornalismo do país. Mas não é só para futuros jornalistas que a leitura é necessária. Também os profissionais do jornalismo na ativa e todos os cidadãos que se preocupam com o presente e o futuro da democracia deveriam ler. Como professora, estou convencida de que para nós, em especial professores de língua portuguesa, de sociologia e filosofia, o livro de Patrícia é fundamental. Afinal, passou da hora de levarmos a sério a alfabetização digital das novas gerações e discutirmos seriamente nas salas de aula fenômenos como fake news e pós-verdade.

Patrícia nos apresenta diferentes exemplos de como em todo mundo líderes populistas têm feito uso de táticas e estratégias muito parecidas para minar a credibilidade da imprensa tradicional e para viabilizar projetos de censura e controle da mídia tradicional ao mesmo tempo em que atuam de modo bastante similar também nas novas mídias digitais, espalhando fake news e teorias conspiratórias.

Campos Mello joga luz numa prática que, me parece, tem passado despercebido na cobertura local das sandices do atual presidente: Trump e outros líderes que, claramente, são inspiração para Bolsonaro, se apossaram da expressão "fake news" e a usam para se referir a tudo que contraria suas narrativas. Desse modo, os fatos, quando contrariam os interesses desses autocratas e são noticiados pela imprensa, são logo tachados de fake news. A mesma tática tem sido reproduzida por canais de apoiadores desses líderes, como é o caso do Terça Livre e similares no Brasil.

Mais importante do que desvelar as estratégias que Trump, Duterte, Bolsonaro, Orbán e outros têm adotado com relativo sucesso para sufocar o trabalho da imprensa, são as reflexões que a jornalista faz sobre a própria responsabilidade da imprensa para que chegássemos a esse estado de coisas:

"A imprensa precisa fazer uma autocrítica: ela foi um dos fatores que possibilitaram o surgimento dessa era. Primeiro, ao praticar a "falsa equivalência". A mídia tradicional se pauta pela obrigação de sempre ouvir os dois lados e (tentar) ser equilibrada, mas às vezes incorre no que se convencionou chamar de falsa  equivalência. O On the Media, programa da National Public Radio americana, deu um bom exemplo: "O presidente Obama afirma que nasceu nos Estados Unidos e, portanto, pode ser presidente do país; seus críticos discordam". Isso é falsa equivalência. O certo seria dizer: "Barack Obama nasceu no Havaí em 1961; o movimento birther nega esse fato". 

Ou, para circunscrevermos a nossas fronteiras: "O presidente Jair Bolsonaro afirma que a cloroquina cura pacientes com covid-19. Especialistas divergem". Não, não tem nada de dois lados aqui. O correto seria: "O presidente Jair Bolsonaro afirma que a cloroquina cura pacientes com covid-19. Vários médicos e estudos afirmam que não há dados comprovando a eficácia da cloroquina, e alguns pacientes têm problemas cardíacos por causa do remédio. Não saiam de casa para comprar cloroquina"."

Em outra excelente passagem na qual Patrícia fala da importância e da urgência de autocrítica por parte da imprensa, a autora chama nossa atenção para o fato de que "boa parte da população pegou ojeriza pela categoria [de jornalistas]". Isso segundo ela, em parte, "devido aos inúmeros erros e incompreensões da imprensa em relação à situação de uma massa de pessoas que se viram cada vez mais excluídas pela globalização." Mas apesar disso, nas palavras de Campos Mello, a mídia tradicional continua "a escrever reportagem após reportagem exaltando os méritos da imigração, fronteiras abertas, comércio internacional - sem ao menos levar em conta as queixas legítimas de populações afetadas por esse processo."

A passagem acima me parece uma contribuição muito importante para o atual debate. Como já falou várias vezes Rosana Pinheiro-Machado, é preciso ouvir, exercitar uma escuta sincera das queixas, dos anseios, dos medos de uma parte considerável da população que, ao que tudo indica, tem encontrado na extrema-direita mundo afora um amplificador para suas vozes. Ainda que de maneira distorcida e manipuladora, muitas vezes, foram líderes como Trump, Duterte, Bolsonaro, que souberam ouvir um clamor que, por muitos motivos, vinha sendo ignorado pela mídia tradicional e por parte da classe política

Em Populismo: uma breve introdução, Simon Tormey nos provoca a pensar sobre o que estaria por trás do sucesso das fake news e da pós-verdade e, ao mesmo tempo, o que estaria por trás do aparecimento de figuras populistas como Duterte, Trump e afins a partir de 2016.

"Nos últimos cinquenta anos, a ideologia dominante  tem insistido que mercados abertos, migração transnacional, desregulamentação bancária, privatização de serviços públicos e nova gestão pública são a melhor maneira de organizar nossas sociedades. A crise, no entanto, não só perfurou a bolha financeira, como também perfurou a bolha ideológica dominante. Seguiram-se raiva e descontentamento, encorajando o desprezo pela visão de mundo da elite.

Desse ângulo, o populismo se parece menos com a imposição de uma nova ideologia que com o retorno a valores e opiniões que pareciam ter sido desacreditados esquecidos ou deslocados. O consenso sobre valores e crenças cosmopolitas, transnacionais, "de qualquer lugar", é contestado pelo retorno a crenças nativistas, "de algum lugar" que se concentram em restaurar um senso de identidade e uma cultura comuns. (...) Talvez a faísca para o populismo seja menos a pós-verdade e mais a "verdade do outro", um conjunto de valores, crenças e princípios em desacordo com pontos de vista da elite e do mainstream."

Não sei se porque li os dois livros mais ou menos ao mesmo tempo, mas considero que os dois podem nos ajudar nessa busca por respostas e compreensão de fenômenos contemporâneos, seja no campo do  jornalismo, em particular, ou como sociedade de maneira mais ampla. Certamente o fenômeno que se faz sentir pelo mundo, a saber, a ascensão de líderes populistas, tem incontáveis camadas e algumas delas são próprias de cada país, no entanto, parece que de algum modo, há um sentimento de insatisfação, de ressentimento, de revolta e de desprezo por certos valores e crenças que até então vinham sendo tratados como universais pela mídia tradicional, pelas academias, por especialistas diversos e por parte considerável da classe política, o que agora faz com que essas mesmas instituições, profissionais e figuras públicas sejam identificados como inimigos. Enquanto não fizermos um esforço coletivo de escuta sincera dessas "verdades dos outros", sem arrogância, sem a pretensão de sabermos o que eles querem e precisam, talvez não tenhamos sucesso em encontrar estratégias eficazes de combate a Bolsonaros e Trumps sem continuar sendo megafone de caça-cliques e mesmo ajudando a eleger esse tipo de populista (Mello, p.165).



27 setembro 2020

Um ministro pastor e a urgência de escaparmos das armadilhas perversas do bolsonarismo

No dia 24 de setembro, Milton Ribeiro, atual ministro da educação, em entrevista ao Estadão, deu vazão ao festival de obscurantismo, preconceito e reacionarismo típicos desse desgoverno. Entre as muitas barbaridades ditas por Milton Ribeiro, foi a fala homofóbica, criminosa é bom lembrar, que logo causou alvoroço nas redes sociais. Entendo a indignação, a revolta, principalmente de membros da comunidade LGBTQI+, mas gostaria de fazer uma reflexão sobre o ocorrido que talvez possa soar como falta de empatia, então peço paciência e que acompanhem o meu raciocínio. 

Pergunto honestamente: qual a surpresa, a novidade, de um pastor conservador que foi escolhido para fazer parte deste governo justamente por ter esse perfil, se manifestar de maneira homofóbica? Já não era previsível uma postura preconceituosa e obscurantista? Já não era de conhecimento de todos que essa era a sua posição sobre o tema? Repito, qual a novidade de sua declaração associando homossexualidade à famílias desajustadas? Foi ofensivo? Por óbvio que sim. Mas é mais do que isso: desde que o STF equiparou atos de homofobia e transfobia ao racismo, trata-se de crime. E é nesse território que a declaração do senhor Milton Ribeiro deveria estar sendo tratada. 

No entanto, a maneira como jornalistas, políticos de oposição e militantes nas redes sociais passaram a dar destaque a essa fala, fez parecer que nada mais havia de problemático na fala do ministro. Além disso, ao jogar todo o foco da entrevista para a declaração homofóbica, pareciam não entender que aquela declaração tinha alvo certo e não éramos exatamente nós - independente de inclinação partidária, que somos comprometidos com uma sociedade mais justas, igualitária e democrática -, mas a base fundamentalista de apoio do bolsonarismo, suscetível aos apelos desse tipo de discurso moralista e criminoso, hipocritamente disfarçado sob uma suposta liberdade religiosa. 

E com isso não estou repetindo o argumento de cortina de fumaça, pois não creio que seja o caso. Essa pauta moralista, obscurantista, fundamentalista é o coração do bolsonarismo. Damares, Ribeiro e tantos outros que hoje compõem este governo estão onde estão justamente por serem homofóbicos, machistas, racistas. Portanto, quando jornalistas, políticos de oposição e militantes das mais variadas causas de minorias reagem de maneira contundente a essas falas - e certamente eu entendo os motivos e razões dessas reações - parece que caímos numa armadilha. Quanto maior for a reação, quanto mais repetimos que essas figuras são homofóbicas, transfóbicas, e tudo que, de fato, são, mais eles conseguem mobilizar suas bases em sua suposta cruzada contra o mal

Na mesma entrevista em que Milton Ribeiro é terrivelmente homofóbico, ele também dá declarações, estas sim surpreendentes, na medida em que atestam contra o próprio ministro, e que deveriam ter sido motivo suficiente para pedirmos o impeachment desse senhor. Segundo o ministro, a desigualdade no contexto escolar, escancarada pela pandemia, não é de responsabilidade do MEC. Também não seria responsabilidade do MEC garantir acesso à milhares de alunos hoje sem internet e equipamentos adequados para seguir no ensino remoto. Além disso, as discussões sobre o retorno às aulas presenciais não seriam tema para o MEC. Insisto: enquanto a declaração homofóbica era o esperado do pastor, escolhido a dedo por representar essa pauta cara ao bolsonarismo, dizer que o ministério que comanda não tem nenhuma responsabilidade com os principais temas relacionados a esse ministério, além de demonstrar total desprezo pela Constituição Federal e pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases) parece ser uma confissão de que o ministro não está cumprindo suas funções. 

Infelizmente os pedidos de impeachment que foram encaminhados na sequência da publicação da entrevista não foram por esse caminho, preferiram justificar o pedido no crime de homofobia. Considero um equívoco estratégico que pode custar muito caro. Parece que não entendemos ainda que não estamos lidando com um governo como outros que o precederam em anos recentes. Estamos diante de um governo que espezinha os direitos humanos, que faz apologia a torturadores e ditadores, que despreza a democracia, que não respeita as constituições, que flerta com golpe dia sim e outro também. 

A base extremista de apoio a Bolsonaro já pediu o fechamento do STF em diversas ocasiões. Bolsonaro já disse que devera indicar um juiz terrivelmente evangélico para ocupar a vaga de Celso de Melo, que se aposenta agora no final de outubro. Fico imaginando as consequências de um possível pedido de impeachment do ministro da educação por homofobia passar no STF. Seria a desculpa perfeita para o setor mais obscurantista do governo se radicalizar ainda mais. Gabinete do ódio, teorias conspiratórias e afins cairiam matando sobre o STF. 

Por outro lado, um pedido de impeachment justificado em confissão de que o ministro não está disposto a cumprir o que a legislação educacional e a Constituição Federal o obriga, a saber, coordenar as políticas educacionais, garantir auxílio técnico e financeiro para estados e municípios no enfrentamento da pandemia, garantir condições de acesso e permanência para alunos na escola, não daria espaço para que a base fundamentalista pudesse fazer o seu discurso de perseguição - o ministro-pastor estaria sendo sofrendo impeachment porque desafiou a doutrinação da esquerda marxista gayzista e sei lá mais quanta besteira são capazes de elencar. É só dar uma olhada nos comentários nas redes sociais dos apoiadores radicalizados e fundamentalistas do governo às manchetes que deram destaque à declaração homofóbica do ministro. No meio da confusão, mesmo quando se tentou mostrar o absurdo do ministro da educação se eximir de qualquer responsabilidade com a educação, seus defensores já estavam no modo ataque aos ateus, gayzistas, destruidores da família, perseguidores de cristãos. Não foi por acaso que Bolsonaro saiu com aquela história de cristofobia no discurso da ONU, essa será a frente a ser explorada nas eleições de 2020 e 2022 e figuras como Damares e Milton Ribeiro serão peças chaves dessa cruzada

Certamente nós enfrentamos um dos momentos mais difíceis da política brasileira desde o fim da ditadura civil-militar que teve início com o golpe de 1964. E neste momento, além de escolhermos o lado correto a estar é necessário também saber escolher quais batalhas devemos lutar, sem perder de vista a guerra na qual estamos. Engana-se quem ainda acredita que o governo Bolsonaro age sem uma estratégia. Engana-se quem pensa que a pauta moralista fundamentalista obscurantista é cortina de fumaça. Mas engana-se também quem ainda não entendeu que aceitar as batalhas nos termos que eles colocam é deixá-los jogar em campo favorável. 

Entre todas as mentiras pronunciadas por Bolsonaro no discurso da ONU, uma verdade, por mais que nos desagrade, não pode passar despercebida: a sociedade brasileira é conservadora. O crescimento exponencial do número de pessoas que se declaram evangélicos - das mais variadas denominações evangélicas - não pode ser ignorado por aqueles que buscam uma sociedade mais inclusiva, mais justa, mais igualitária. Ou nos esforçamos para entender o jogo de palavras que hoje é feito pelo bolsonarismo, ou vamos continuar perdendo terreno e perdendo direitos que foram tão difíceis de serem conquistados. Na boca de bolsonaristas, estado laico é sinônimo de estado ateu. Ditadura - principalmente os 21 anos de ditadura civil-militar no Brasil - é a verdadeira democracia. Povo, é quem  se identifica com o credo bolsonarista. Quem luta contra homofobia é defensor de pedófilo e assim por diante. O grau de perversão da linguagem operado pelo bolsonarismo é proporcional a perversão moral e ideológica que eles pretendem estabelecer na sociedade. É nesse contexto que as reações contra a fala homofóbica do ministro, de jornalistas, políticos de oposição e ativistas, me preocuparam. Mais do que identificar qual de suas declarações foi pior ou mais ultrajante, é questão de sobrevivência identificar qual a melhor estratégia para enfrentarmos o retrocesso que eles representam, sem cairmos nas armadilhas bolsonaristas.

Quanto à declaração criminosa de Milton Ribeiro e tantas outras já feitas por Damares e pelo próprio Bolsonaro, caberia a justiça fazer cumprir nossas leis. Se esse fosse o entendimento de todos, Bolsonaro teria saído preso do Congresso Nacional o dia em que defendeu Brilhante Ustra, um torturador, ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff. Mas em falta da justiça, aquele dia mais do que viabilizar a eleição de Bolsonaro, me parece que a garantiu. Muito pouco, desde então, nos restou. E se não ficarmos atentos, em breve nem mesmo as palavras poderão nos socorrer.

06 setembro 2020

Dependência e morte: quando a pátria é golpeada diariamente por uma mula manca

Em março, em texto com título O Golpe já está em curso, eu escrevi: "até quando o país aguenta os desmandos de Bolsonaro, seus filhos e ministros aloprados? Até quando o parlamento terá energia para apagar os incêndios e limpar a lambança que MPs e Decretos têm causado dia sim e outro também? Até quando decisões isoladas do STF terão condições de barrar o crescente autoritarismo mal disfarçado de Bolsonaro?"  

 
Desde então as coisas pioraram consideravelmente. Henrique Mandetta, que naquele momento virava colaboracionista do negacionismo de Bolsonaro, deixou o cargo de ministro da saúde. Entrou Nelson Teich. Saiu em menos de 30 dias. E seguimos sem ministro da saúde, com o ministério ocupado por militares despudorados, insensatos e ignorantes, que se prestam ao ridículo papel de sustentar o desgoverno delirante e delinquente de Bolsonaro. Ultrapassamos a marca de 125 mil mortos por Covid-19. Assistimos na TV e nas redes sociais à perseguição descarada de opositores do governo por órgãos oficiais, sejam eles jornalistas, humoristas ou mesmo governantes eleitos, como o caso do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Eleito com apoio da família Bolsonaro, o governador se transformou em desafeto do clã e agora sofre as consequências das ações desconcertantes de uma PGR ajoelhada aos desejos sádicos e criminosos da familícia que tomou o Planalto de assalto. Os desatinos e rompantes autoritários de Bolsonaro já não encontram resistência institucional. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, depois de assinar incontáveis e inúteis notas de repúdios, afirmou no programa Roda Viva, não ver crimes nas ações de Bolsonaro e, por isso, parece repousar em paz sobre a pilha de pedidos de impeachments que chegaram nos últimos meses em suas mãos. Dias Toffoli, ministro do STF, afirmou essa semana não ter visto nenhuma ação contra a democracia por parte de Bolsonaro. Parece que para o ministro, o presidente da república está liberado para apoiar atos que atentam contra o estado democrático de direito e pedem a instauração de uma ditadura, isso no meio de uma pandemia, promovendo aglomeração.  A mais nova tentativa de Bolsonaro de se igualar a seus pares autoritários mundo afora foi enfiar no texto da Reforma Administrativa proposta de alterar artigos da Constituição de modo a ampliar consideravelmente seus poderes de destruir o Estado brasileiro, extinguindo autarquias, fundações e cargos com uma canetada. A Secretaria de Comunicação da Presidência (SECOM) que em março promovia a campanha o #BrasilNaoPodeParar, agora reproduz e promove falas antivacinas do maníaco do Planalto. Imitando o chefe supremo, mente diariamente nas redes sociais, e cada dia torna mais difícil a tarefa da imprensa de separar fatos de ficção. Se não fosse a cafonice estética e a ausência completa de senso de humor das postagens do perfil oficial da secom, não teríamos critérios para escapar da narrativa ficcional bolsonarista. 

Como bem disseram Daniel Ziblat e Steven Levitsky, as democracias contemporâneas não são golpeadas com tanques nas ruas. O processo se dá de modo silencioso. Mas isso também não deveria ser novidade para ninguém. O fascismo italiano e nazismo também foram se consolidando de forma silenciosa, conformando os espíritos, anestesiando, enquanto a vida seguia. Em Léxico familiar, romance de Natalia Ginzburg, cujo pano de fundo é a ascensão e consolidação do regime fascista de Mussolini, somos confrontados com o modo sorrateiro que o terror vai mostrando seus dentes. Assim Natalia nos conta que os pais da cunhada foram presos "como muitos judeus infelizes que não acreditaram na perseguição. (...) -Nós somos pessoas pacatas! Ninguém faz nada contra pessoas pacatas! (...) -Quem vai bulir com a gente? Somos pessoas pacatas. Desse modo, os alemães os levaram, ela, a mãe, baixa, simples e alegre, doente do coração, ele, o pai, pesado, pacato." E em outro trecho, de forma mais dura, lemos o seguinte:

"Nós achávamos que a guerra iria virar e revirar imediatamente a vida de todos. Durante anos, ao contrário, muita gente permaneceu sem ser incomodada em sua casa, continuando a fazer o que sempre fizera. De repente, quando cada um já achava que no fundo se livrara por pouco e não haveria nenhum transtorno, nem casas destruídas, nem fugas ou perseguições, explodiram bombas e minas por toda parte e as casas desabaram, as ruas se encheram de ruínas, de soldados e de fugitivos. E não havia mais ninguém que pudesse fingir que nada estava acontecendo".

Até quando vamos seguir fingindo que nada está acontecendo? Bolsonaro não é incompetente, não podemos seguir chamando-o de despreparado, apesar de toda sua limitação intelectual e de toda sua decrepitude moral, ele se mostra cada dia mais confortável e mais livre para colocar em prática o seu projeto autoritário de destruição. Bolsonaro pode ser uma mula manca, um político insignificante que veio do baixo clero, que por muito tempo foi um peso morto na política brasileiro. Mas hoje é essa mula manca que está sentada na cadeira da presidência golpeando diariamente a nação. Bolsonaro apequena o Brasil, apequena as instituições, envergonha o povo. Mas os coices diários do antipresidente são provas irrefutáveis dos muitos problemas que, como nação, nunca fomos capazes de superar: o racismo, o patrimonialismo, a promiscuidade entre interesses privados e públicos, uma elite com síndrome de viralatismo que nos fazem reféns de uma condição de dependência e morte.  

Até quando?

27 agosto 2020

É preciso parar de chamar Bolsonaro e seus ministros de incompetentes

 "Nunca tivemos um governo tão inepto no Brasil. Pastas essenciais, como Educação, Saúde, Relações Exteriores, Meio Ambiente e Direitos Humanos foram confiadas a pessoas incompetentes." (Janine, Renato, Diálogos urgentes, Revista Piauí)

Assim começa o artigo do Renato Janine, publicado ontem (26/ago/2020) na Revista Piauí. E para mim começa errado. Não podemos mais, principalmente depois de revelada aquela trágica reunião ministerial de 22 de abril, insistir em chamar de incompetente esse bando. Ali, naqueles diálogos torpes, com linguajar baixo, parecendo conversa de penitenciaria, deveria ter ficado claro para todos que se opõem a esse desgoverno, que não se trata de incompetência. Ricardo Salles, Damares Alves, Weintraub, Ernesto Araújo e agora Eduardo Pazuello, não são incompetentes. Podem ser certamente acusados de mau-caratismo, de ser limitados intelectualmente, em alguns casos, antiéticos, hipócritas, mentirosos, mas não incompetentes. 

                                   Imagens da Reunião de 22 de abril - jornal O Globo
 

Devemos nos lembrar da fala de Bolsonaro nos EUA, quando disse que sua missão era desconstruir muita coisa. Os seus ministros, todos eles, são tarefeiros colocados em seus postos com a clara missão de desconstruir. Podemos entender também esse "desconstruir" como "destruir", "desmantelar", "aniquilar". Salles tem sido extremamente competente em desmantelar os órgãos de proteção ambiental. Damares, competentíssima em destruir e aniquilar projetos e ações em prol dos direitos das mulheres. Quer competência maior do que a de Pazuello em deixar morrer centenas de milhares de brasileiros? Precisamos parar de chamar Bolsonaro e seus ministros de incompetentes e entender de uma vez por todas que o único projeto que Bolsonaro tem é o de destruição do Estado brasileiro

Bolsonaro é despreparado para governar? É verdade, mas também não é. Explico. Se mantivermos o sentido originário das palavras - que tem sido dia após dia atacado pelo ministério da verdade bolsonarista, a Secretaria Especial de Comunicação do Governo - então, sim, Bolsonaro é despreparado para governar. Mas entendendo que Bolsonaro criou, como bem disse Eliane Brum, a antipresidência, e por extensão poderíamos dizer o antigoverno, sua atuação tem sido muito competente nos últimos meses. Seus ataques à imprensa e aos profissionais do jornalismo têm contribuindo consideravelmente para minar a credibilidade que restava desse importante setor. Suas mentiras constantes tem estimulado na população uma incapacidade de distinguir fatos de ficção. Seu linguajar xucro continua sendo usado para aproximá-lo do homem comum, cidadão médio, desacreditado da política e de seus agentes falando difícil e, no fim do dia, todos acusados de corrupção. Bolsonaro é corrupto? É, mas o cidadão comum o vê com um igual, apenas mais um cidadão comum, cansado do sistema e que quando pode, tira sua vantagenzinha, sonega imposto, enfia a mãe, a sogra no imposto de renda, nada de mais, coisa de cidadão de bem...

Mas o artigo de Janine também comete outro erro. Prefere deixar "para outra oportunidade a discussão sobre o que levou uma maioria de eleitores a escolher tal caminho", a saber, votar em Bolsonaro, em nome da prioridade do dia, que seria a questão de "saber que possibilidades há de escapar dessa rota que colocou o Brasil na vanguarda da barbárie". Nesse tema, acredito que Ciro Gomes está certo ao dizer que não dá para sair dessa encalacrada sem entender por que caímos nela. Nesse sentido, a autocrítica dos governos e partidos que estiveram no poder no passado recente torna-se urgente, e não dá para deixar para depois. Essa autocrítica, no meu entendimento, tem muito pouco a ver com autoflagelo em praça pública e muito mais a ver com lavagem de roupa suja em casa. Ou seja, essa autocrítica deve ser feita da porta para dentro dos partidos que se viram embolados nas denúncias de corrupção. Mas só vale para partidos que abertamente condenavam corrupção. Ninguém espera que (P) MDB ou PP, embora sejam os campeões de corruptos e condenados, façam isso.

Que a Lava-Jato extrapolou todos os limites legais e razoáveis  na sua sanha por fama - sim, porque a essas alturas do campeonato também não dá continuar acreditando que Moro, Dallagnol e afins eram caçadores de corruptos - deveria ser consenso. Mas mesmo assim, não é possível fingir que não aconteceu nada. Não é possível seguir querendo que a população aceite a "narrativa" da perseguição pura e simples contra um partido. O erro do petismo em 2013 se repete ainda hoje: chamar o cidadão médio, despolitizado e que até então havia votado no PT, e que em 2018 votou em Bolsonaro, de fascista. Janine, em seu artigo, prefere dividir a responsabilidade do PT com todo o campo democrático*. Janine faria bem em ler o excelente livro da Rosana Pinheiro-Machado, Amanhã será maior, no qual ela analisa os acontecimentos de junho de 2013, e como o partido que então governava o país, não entendendo o que estava acontecendo - ou preferindo não entender, isso é por minha conta - optou por culpar os protestos pelo que se seguiu. Rosana faz um trabalho muito interessante de ouvir e tentar entender os motivos que levaram jovens, homens e mulheres de periferia a votar em Bolsonaro. Entender as falhas e brechas que o modelo de gestão petista deixou, dando espaço para que um sujeito como Bolsonaro pudesse se despontar como alternativa ou como um antissistema, não significa ignorar ou jogar fora os méritos dessa mesma gestão. Mas se não tivermos maturidade para enfrentar fatos como o de Lula dizendo que nunca banqueiros ganharam tanto dinheiro como em seu governo, talvez não haja saída para nós. 

Concordo com Janine, e também com Rosana Pinheiro-Machado, quando alertam para a importância do campo progressista, as Esquerdas, perderem o medo de falar sobre corrupção. De que essa seja uma pauta cara à esse campo político. Não dá mais para deixar a direita agir como se tivesse monopólio sobre essa pauta. Outro tema que precisa deixar de ser tabu no campo progressista é a Segurança Pública. Bolsonaro foi eleito se ancorando também nessa queixa da população, e o que está fazendo? É preciso ser hábil em mostrar para a população que as soluções de Bolsonaro não resolvem o problema. Que liberar venda de armas e munição não é solução para a questão da Segurança Pública. 

Também concordo com a urgência do diálogo, de uma frente ampla, que vá além dos limites da centro-esquerda, que seja uma frente democrática, contra o autoritarismo e a barbárie que Bolsonaro hoje encarna. Não sei se por mero desejo e necessidade de esperança, mas tendo a concordar com Janine que o núcleo duro de apoiadores de Bolsonaro está em torno de 15% da população e que, portanto, é o caso encontrarmos os outros 15%, que não são fiéis devotos do antipresidente, para o diálogo. Mas esse diálogo precisa, urgentemente, ser pautado por propostas concretas para as demandas reais da população. E é preciso ouvir a população. E se ouvirmos reclamações legítimas, se ouvirmos críticas que nos desagradem, precisamos aprender a aceitar e acolher, reclamações e críticas, e não empurrar quem fala para outro campo. 

Bolsonaro forjou sua eleição se apresentando como uma resposta para uma crise do sistema político brasileiro. Mais do que nunca, precisamos fazer política. Mas não a rasteira, dos ataques, das acusações, que puxa o tapete de quem está no mesmo campo. Precisamos de uma Política com P maiúsculo. Com projetos, com propostas factíveis, que saiba ouvir os anseios da população mais do que imaginar que sabe o que a população deseja. Os partidos são fundamentais numa democracia representativa, mas não podem ser fins em si mesmos; não podem colocar seus interesses acima dos interesses do povo, ou caducam. Lá em 2013, no início, as manifestações apartidárias, que foram erradamente apontadas como antipartidárias ou mesmo como apolíticas, manifestavam uma insatisfação com os partidos políticos que precisa ser ouvida. Desde a redemocratização do Brasil, muitos partidos se encastelaram, perderam qualquer conexão com as ruas - mesmo partidos que historicamente estiveram ancorados nas ruas - e passaram a servir  aos seus próprios interesses. É hora de sair dos gabinetes, das respostas prontas, do que se imagina que a sociedade quer e estar entre as pessoas, no dia a dia, a fim de representá-las de fato. 

A formação política do cidadão médio precisa ser levada a sério. A construção de uma nova ordem política, no meu entender, passa por uma valorização do poder legislativo, de uma compreensão mais ampla de sua função. Os partidos do campo progressista precisam entender que não adianta focar em eleger quadros no executivo - seja municipal, estadual ou federal - deixando o legislativo a deriva. A reforma política no Brasil é assunto para antes de ontem. Precisamos oferecer opções para a população, para que novamente se possa acreditar na política e em seus agentes como capazes de transformar a realidade. 

 

*"O campo democrático tende a achar que todos os seguidores de Bolsonaro são fascistas ou idiotas."

16 agosto 2020

Torto Arado é aqui e agora no Quilombo Campo Grande

“Se eu for para a cidade eu morro logo, a minha natureza é trabalhar na terra. Quem é nascido e criado na roça não serve para a cidade não”. 

A afirmação acima poderia bem estar na boca de algum dos personagens de Torto Arado, mas é de um dos moradores do Quilombo Campo Grande, na cidade de Campo do Meio em Minas Gerais. Nos últimos dias, mais de 450 famílias vem sofrendo com a ação violenta da PM de MG, do governador do Novo, Romeu Zema, a fim de cumprir ação de reintegração de posse da área da antiga Usina Ariadnópolis, que faliu em 1996 sem pagar os direitos trabalhistas de seus funcionários. Segundo reportagem do Repórter Brasil, de novembro de 2018, há ainda uma dívida de quase R$ 400 milhões com a União, referentes a contribuições previdenciárias, FGTS e impostos federais, que foi negociada e parcelada por meio do Refis, programa do governo que facilita o refinanciamento de dívidas.

O empresário Jovane de Souza Moreira é quem pede o despejo das famílias. Segundo o advogado do empresário, o Jovane é um sujeito religioso, frequentador da Igreja Congregação Cristã no Brasil, que dá uma cesta-básica para algumas pessoas e faz trabalho voluntário em Alfenas. Já o filho, Jovane de Souza Moreira Junior, menos discreto que o pai, é apoiador de Bolsonaro e foi coordenador de campanha de Marcelo Álvaro Antonio - aquele do laranjal do PSL mineiro, atual ministro do turismo, defensor da regularização de cassinos no Brasil, conforme revelado na reunião ministerial de 22 de abril. E, segundo a página do Facebook de Jovane de Souza Moreira Junior,  ele é hoje pré-candidato a prefeito de Alfenas, pelo Avante

Segundo a matéria do Repórter Brasil, "o  principal argumento da família de Jovane para o pedido de urgência de despejo das famílias da área é um contrato firmado há dois anos com a empresa Jodil Agropecuária e Participações Ltda., cujo proprietário é João Faria da Silva, que já foi chamado de “maior produtor e exportador individual de café do país” por publicações especializadas. Entre os principais compradores dos produtos do empresário estão a Nestlé e a holandesa Jacobs Douwe Egberts (JDE), dona das marcas Pilão, Café do Ponto, Cacique, Café Pelé e Damasco. A JDE afirma que “não está comprando” café da marca Terra Forte, de João Faria." 

Boicote às marcas que compram grãos do João Faria da Silva - Terra Forte - iria bem, em tempos de ativismo digital. Afinal, "maior produtor e exportador individual de café do país" está patrocinando a ação de despejo das mais de 450 famílias. Por outro lado, também iria bem, em tempos de ativismo digital, a divulgação da produção das famílias do Quilombo Campo Grande. Uma delas é o Café Guaií, produção orgânica e agroecológica. Segundo informações do site de divulgação do café: "a produção orgânica de café em nossas áreas já é uma realidade, graças as parcerias com a Professora Leda do Instituto Federal do Sul de Minas e a Christian Aid, muitas famílias vem aprendendo na condução das lavouras orgânicas e, para romper com o uso de adubos de síntese química e produzir agroecologicamente hoje, a cooperativa organiza a compra de micronutrientes para o preparo de caldas naturais, e a compra de adubos orgânicos como torta de leguminosa, farinha de osso, composto orgânico, fosfato natural, potássio natural e esterco de gado para aplicação nas lavouras e produção de adubos vivos como o Bokashi e, além de viabilizar o retorno da palha do café da agroindústria para a lavoura."
 
Além da ação truculenta da PM-MG -  jogaram bomba de gás, atearam fogo no mato seco ao redor,  usaram helicóptero para jogar para cima das pessoas, levantar poeira, voando baixo para assustar, segundo relato de assessora de comunicação do movimento à Agência Brasil -, a reintegração se dá durante uma pandemia. Conforme também noticiou a Agência Brasil, "a Defensoria Pública de Minas Gerais avalia que a execução da ordem de reintegração de posse durante a pandemia colocou em risco os moradores do acampamento. “Fizemos todos os esforços para tentar suspender essa operação. Não é possível considerar, do ponto de vista até constitucional, com o princípio da dignidade humana, que, em um tempo dessa natureza, com mais de 100 mil mortos pela covid-19, uma crise sanitária de alta gravidade, seja realmente sensato fazer uma operação policial dessa natureza”, disse a defensora pública Ana Cláudia Alexandre Storch, da Defensoria Especializada em Direitos Humanos, Coletivos e Socioambientais. Segundo ela, é “inconcebível” imaginar que tenha havido urgência que justificasse a ação."  
Imagem de Gean Gomes-MST - no site do MST

O caso do Quilombo Campo Grande é só mais um exemplo da realidade retratada por Itamar Vieira Junior em Torto Arado. Seja no sertão da Bahia ou no Sul de Minas Gerais, a questão da terra permanece uma chaga aberta no Brasil. Enquanto o valor social da terra não for maior do que os interesses econômicos, enquanto a indecente exploração de centenas e milhares de trabalhadores rurais for tolerada em nome do lucro de meia dúzia de famílias, esse país está condenado e seguir sendo esse retrato da desigualdade, da violência e da desesperança. Se a dívida de 400 milhões com a União não é motivo para desapropriar essas terras e entregá-las àqueles que hoje as tornam produtivas, tiram delas seu sustento e, portanto, delas vivem, me pergunto o que seria.

Todo apoio às famílias do Quilombo Campo Grande. Enquanto a injustiça nesse país não for vencida, Severos e Zezés precisam continuar fazendo as perguntas incômodas:

 "Por que não éramos também donos daquela terra, se lá havíamos nascido e trabalhado desde sempre. Por que a família Souza Moreira, que não morava na fazenda, era dita dona. Por que não fazíamos daquela terra nossa, já que dela vivíamos, plantávamos as sementes, colhíamos o pão. Se dai retirávamos nosso sustento." (Junior, Itamar Vieira, Torto Arado, com adaptação minha).

11 julho 2020

É possível ter esperança no milagre político?

Imagem de divulgação do livro.

Em seu novo livro "Projeto Nacional: o dever da esperança" (LeYa, 2020), Ciro Gomes convoca os brasileiros ao dever da esperança e à luta contra o projeto de destruição nacional que está sendo implementado por esse governo. Mas seu livro é também, em muitos momentos, entre a apresentação de números e fatos históricos, um convite à revolta, à indignação e à ação coletiva, única capaz de gerar o "milagre político". Nesse sentido, o Projeto Nacional apresentado por Ciro é uma tentativa de resgatar a dignidade da política e afirmar que será apenas através dela que poderemos encontrar esperança para o nosso país. Só por isso o livro de Ciro já é uma grande contribuição ao debate público, uma vez que atravessamos um momento tão delicado da nossa vida política, no qual quem hoje ocupa a presidência se elegeu com um discurso antipolítica.

Ciro fala a partir da sua experiência de ex-prefeito, ex-governador, ex-deputado, ex-ministro, mas também a partir de suas incursões pelo mundo acadêmico e ainda como alguém que foi presidente da Transnordestina Logística S.A. Ou seja, une à bagagem prática do homem público e que enfrentou as urnas, uma bagagem do homem que também é capaz de pensar sobre essa prática e está aberto ao debate e à produção de conhecimento, portanto, não está preso a visões dogmáticas. Por mais que recorra às suas experiências como político, aos êxitos seus e de seu grupo político no Ceará, especialmente em Sobral, se coloca também aberto ao diálogo, ciente de que suas propostas não são verdades absolutas, mas fruto de reflexões, estudos e que podem, portanto, ser criticadas, ampliadas, modificadas.

Na introdução Ciro apresenta o método que pretende seguir ao longo do livro e que consiste em três partes: definição do problema, seguida de um diagnóstico da situação atual e oferta de uma proposta de solução. Divido em seis capítulos, o livro não traz grandes novidades para quem tem acompanhado entrevistas, palestras e intervenções públicas de Ciro Gomes nos últimos anos, mas traz detalhamentos muito importantes sobre propostas fundamentais para a construção de um futuro com mais justiça social, menos desigualdade, mais soberania e desenvolvimento econômico, tais como as propostas de  reforma política e de reforma tributária. Quanto à reforma política, talvez o ponto que mereça destaque seja a proposta de eleições em três turnos: no primeiro, a eleição de presidente e governadores; no segundo, concluiria as eleições majoritárias não resolvidas no primeiro; e, no terceiro, se realizaria as eleições para os legislativos federais e estaduais (p.177). Uma das vantagens apresentada para essa mudança é que ela "resolve um grande problema de nosso sistema que é a falta de tempo e de discussão das questões legislativas nas eleições, o que gera o famoso fenômeno da falta de memória em relação ao deputado votado nas eleições passadas" (p.177).

Como professora, vejo com muito bons olhos o destaque que Ciro dá à educação e à ciência dentro de um Projeto Nacional. Ciro nos fala da necessidade de uma revolução educacional, mas aqui tenho alguns incômodos com os termos que ele usa, com a imagem de professor que ele idealiza, e me preocupam algumas das referências e talvez parcerias que ele venha a fazer nessa área. O aprender a aprender, invocado por Ciro como sendo uma das habilidades fundamentais a ser desenvolvida nas escolas, esteve desde os anos 1990 diretamente associado a projetos neoliberais. A denúncia insistente de Ciro em relação ao fracasso do neoliberalismo não pode deixar de reconhecer esse parentesco entre as pedagogias do aprender a aprender e o neoliberalismo. Não é por outro motivo que fundações como a de Paulo Lemann tanto louvam o aprender a aprender. Como observa Demerval Saviani (História das Ideias Pedagógicas do Brasil, 2013, p.431-434), autores que abraçaram o lema aprender a aprender a partir dos anos 1990, depois do Relatório Jacques Delors, estão preocupados em adaptar os futuros trabalhadores a nova realidade de insegurança do mundo do trabalho. O aprender a aprender anda de mãos dadas com o mito do empreendedorismo, não aquele defendido por Ciro, mas aquele do neoliberalismo que hoje vende ilusões para motoristas de Uber e entregadores de Ifood.

É verdade que o aprender a aprender tem origem nos teóricos escolanovistas, dos anos 1920-30, sendo Anísio Teixeira a maior referência daquele movimento. Mas também esse movimento, bastante influenciado por seu correlato nos EUA, cujo maior expoente era John Dewey, foi bastante criticado já no final da primeira metade do século XX por ter sido responsável por uma transformação das escolas em centros vocacionais, voltados para habilidades e pouco comprometidos com conteúdos, esvaziando o próprio papel da escola (Cf. A crise na educação, Hannah Arendt). Como professora, esse discurso neoescolanovista que transforma professores em tutores ou mediadores e que aposta em habilidades e competências não me deixa confortável, ainda mais quando esse discurso é feito por Fundação Lemann  e afins.  A influência que tais fundações têm nas decisões de políticas públicas educacionais nos últimos anos sempre é motivo de alerta ou deveria sê-lo, afinal, a educação crítica da qual elas falam seria a mesma que o Projeto Nacional anseia? Uma educação emancipadora? Ou estariam interessados apenas no caráter adaptativo de uma educação das habilidades, capaz de formar mão de obra sempre pronta para se adaptar às demandas do mercado? Com relação à Fundação Lemann, basta vermos o perfil dos jovens por eles apadrinhados para atuar na política para termos dimensão de qual é seu limite de compromisso com uma educação emancipadora e crítica ou com mudanças estruturais.

Ao falar de educação, Ciro recorre sempre ao seu case de sucesso, Sobral (CE). Nada mais justo. Mas aqui tenho outra preocupação: a proposta de valorização dos professores através de programas de meritocracia. Ainda que Sobral, em particular, e o Ceará, de forma geral, tenham resultados louváveis e invejáveis na educação, tenho muitas dúvidas acerca de programas de meritocracia, baseados em resultados de avaliações internas ou externas. As experiências que de fato vivenciei como professora da rede estadual de São Paulo foram desastrosas; políticas de bonificação que acabam, por um lado, servindo para punir professores e escolas, mais do que valorizar e, por outro, incentivos bastante pífios do ponto de vista financeiro. Mas, claro, não estou dizendo que é isso o que é feito no Ceará, apenas que é importante termos um olhar crítico a esse tipo de proposta.

Acerca dos números do Brasil no PISA, Ciro em nenhum momento fala dos Institutos Federais. Acredito que seria importante olhar para essas instituições e reconhecer seus resultados. Conforme reportagem do The Intercept, de 8 de dezembro de 2016, "se a rede federal de ensino fosse um país, em ciências — a matéria escolhida como foco da análise desta edição — o “país das federais” ficaria em 11º lugar no ranking internacional, um ponto acima da tida como exemplar Coreia do Sul, que teve uma média de 516 pontos". Em dezembro de 2019, agora no jornal Gazeta do Povo, lemos que "o desempenho médio dos estudantes de 12 institutos federais e de um colégio militar que participaram da avaliação é comparável ao de jovens de nações que figuram entre as 20 melhores classificadas no ranking mundial." Espero que Ciro olhe mais para os Institutos Federais ao pensar sobre Educação e sobre a revolução tão desejada e tão necessária para essa área em nosso país. Talvez ela já tenha começado, talvez os exemplos já estejam aqui mesmo, só precisando ser ampliada. 

Em que pese o heroísmo que algumas vezes vemos Ciro atribuir a Getúlio Vargas (p.250) - será que precisamos de heróis? Não seriam eles tão perigosos como os salvadores e os mitos (p.256)? - e sua linguagem mais emocional e carregada de paixão ao final do livro - "E para ajudar nosso povo a entender isso dedicarei até o último dia de minha vida" (p.256) -, na maior parte do tempo o tom do livro é racional, é, de fato, um convite ao debate de ideias. No geral, ao ler o novo livro de Ciro Gomes, pode-se questionar se os problemas que ele apresenta como sendo aqueles aos quais deveríamos voltar nossa atenção de fato têm a urgência por ele invocada; pode-se discordar dos diagnósticos oferecidos por ele e pode-se até mesmo rejeitar suas propostas de soluções. Mas não é possível fazer isso sem apresentar uma contraproposta, sem ter um projeto para oferecer no lugar. Aqui temos outra contribuição importantíssima de Ciro Gomes para o debate público: forçar todos aqueles que, como ele, têm pretensão de disputar a presidência do Brasil, a apresentar um projeto de país - que país querem construir - dizer como enxergam o Brasil hoje - que desafios, problemas vislumbram a frente - e como pretendem enfrentar esses problemas e desafios.

Apoiei Ciro Gomes nas eleições de 2018, estudei e acompanhei as discussões e a proposta de reforma da previdência do PDT, e depois de ler esse livro tenho ainda mais motivos para acreditar que Ciro hoje representa um projeto de Brasil com o qual eu me identifico. Como todo projeto, está sujeito a aprimoramentos e ajustes. E é também no desejo de contribuir com esse projeto que escrevo este texto e que convido a todos a lerem "Projeto Nacional: o dever da esperança". Penso que é um dever de todo aquele que se identifica como democrata acreditar no "milagre da política" e, portanto, diante de um projeto como o apresentado por Ciro, ter esperança num futuro mais justo, mais solidário, menos desigual, mais feliz para todos. Pois, como disse Hannah Arendt, "se o sentido da política é a liberdade, isso significa que nesse espaço - e em nenhum outro - temos de fato o direito de esperar milagres. Não porque fôssemos crentes em milagres, mas sim porque os homens, enquanto puderem agir, estão em condições de fazer o improvável e o incalculável e, saibam eles ou não, estão sempre fazendo" (O que é política?, Bertrand Brasil, p.44).

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