- Sabe quem me deu a ideia de comprar esse carro? – indaga um homem entre trinta e quarenta anos, todo orgulhoso, diante de um Audi preto, estacionado numa rua tranquila de um bairro de uma metrópole, num domingo ensolarado. O senhor de traços orientais, com quem ele conversava, analisava o carro com interesse, e balançou a cabeça em negativa. Então ele continuou: - Foi a IA. Eu perguntei qual carro comprar e ela me deu três opções…
Não pude ouvir o resto da conversa. Mas o que ouvi foi suficiente para encher a minha cabeça de ideias. Péssimas ideias sobre o dono do Audi. Ideias bem pessimistas sobre o nosso futuro, como espécie.
Já é possível afirmar que o experimento humanidade deu muito errado. O sujeito tem dinheiro para comprar um Audi e está convencido de que a IA tem ideia. Pior: trata a IA como um quem. Que outras ideias a IA anda dando para tipos como aquele?
Segundo dados da Agência Internacional de Energia dos Estados Unidos, cada consulta ao ChatGPT consome, em média, cerca de dez vezes mais eletricidade do que uma pesquisa típica no Google. Mas eu duvido que o dono do Audi faça ideia disso. Tenho certeza que o sujeito também não faz ideia de como essas geringonças funcionam.
Imagem retirada deste site, cujo artigo também pode interessar a quem está lendo está crônica
Os papagaios estocásticos ou modelos de IA generativa são modelos estatísticos, alimentados por uma quantidade imensa de dados – textos criados por nós, humanos, sobre os mais diversos temas e problemas, basicamente todo o conhecimento produzido até hoje pela espécie humana e mais um monte de besteira que se produz diariamente nas redes sociais – que funcionam a partir da probabilidade de uma determinada palavra se seguir a outra numa frase e de uma frase se seguir a outra num parágrafo. Ou seja, quando alguém pergunta para uma IA “Que carro devo comprar?” ou qualquer outra coisa, o sistema percorre uma quantidade imensa de textos em busca de uma resposta. E não dá para dizer que isso é igual a pensar ou ter uma ideia.
Numa versão otimista, dá para dizer que a IA é boa em se apropriar das ideias que nós humanos tivemos algum dia e nos devolver como resposta fresquinha. Não é possível falar em originalidade no que a máquina nos entrega. Além do mais, essas traquitanas alucinam bastante. Se elas não encontram uma resposta, inventam. Quer dizer, juntam um monte de palavras, ao melhor estilo gerador de lero-lero, e entregam de forma muito confiante àqueles que estão dispostos a cultuarem essas engenhocas como os oráculos do século XXI.
Que o rapaz dono do Audi se refira à IA com um quem, portanto, de modo antropomórfico, diz menos sobre a inteligência dele e muito mais sobre como as big techs estão sendo bem-sucedidas em suas empreitadas. Em artigo publicado em 2021, “Sobre os perigos dos papagaios aleatórios: os modelos de linguagem podem ser grandes demais?”, a pesquisadora etíope, Timnit Gebru, já fazia um alerta: na medida em que os resultados dos modelos ficassem cada vez melhores, as pessoas poderiam facilmente confundir suas produções estatisticamente calculadas com linguagem dotada de significado e intenção reais, tornando-as propensas a, não apenas acreditar que a informação do texto era factual, mas também, considerar o modelo um conselheiro competente.*
Ao que tudo indica, OpenAI, Google, Anthropic e afins estão conseguindo convencer os seres humanos de que suas geringonças pensam, tem ideias próprias, são mais inteligentes que nós. Pior: conseguiram convencer uma boa parcela de desavisados de que esses papagaios digitais são bons amigos e até mesmo uma boa opção para parceiro romântico.
Parece que já não fazemos ideia do que seja ser humano...
***
* Conferir texto na íntegra em: Karen Hao, O Império da IA: por dentro da corrida irresponsável pela dominação total, trad. Ananda Alves e André Sequeira, Rio de Janeiro: Rocco, 2026, p.170-171.
Nenhum comentário:
Postar um comentário