20 janeiro 2026

Sempre tem uma primeira vez

Eu estava com medo, confesso. Tinha ouvido e lido diversos relatos de mulheres que falavam do desconforto, da dor. Mas eis que, passado dos quarenta, chegou a minha vez. Desde que a minha ginecologista fez o pedido, eu estava me preparando psicologicamente para a tortura. Agendei o exame sem nenhum entusiasmo. Mas, é janeiro, férias, época de fazer o que precisa ser feito: médicos, exames de rotina, dentista. Tem sido assim nos últimos anos. Então, o jeito foi encarar a bendita mamografia. 

A mamografia é um exame fundamental para o rastreamento do câncer de mama, o tipo mais frequente de câncer entre as mulheres brasileiras e uma das principais causa de mortalidade feminina por câncer. Segundo estudo do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Instituto Nacional de Câncer (INCA), lançado em 2025, só no ano de 2023, o Brasil teve mais de 20 mil óbitos por câncer de mama. Ou seja, a coisa é séria. 

Símbolo da campanha de conscientização e combate ao câncer de mama

Às nove da manhã, lá estava eu na clínica. Como já havia agendado por WhatsApp, fui encaminhada logo para a salinha de espera do exame. Quando a responsável pelo exame me chamou, deu aquela gelada na espinha. Entrei na sala e, antes dela fazer qualquer pergunta, fui dizendo que eu era minha primeira vez e que eu estava com medo. Camila, esse era o nome dela, foi extremamente gentil e paciente comigo. Disse para que eu ficasse tranquila, que as pessoas exageram um pouco. Fez as perguntas obrigatórias e me explicou com muita tranquilidade como seria o procedimento do exame. 

Não vou dizer que é agradável. Mas, de fato, as pessoas exageram. Foi bem tranquilo todo o procedimento. Senti um incômodo, mas nada mais que isso. Bem longe da "dor" e do "sofrimento" que eu estava projetando na minha mente. Certamente já passei por exames muito mais invasivos e incômodos. Acredito, como fiz questão de dizer a ela, que o profissionalismo e o cuidado da Camila também fizeram toda a diferença na minha experiência de hoje. É muito bom encontrar profissionais preparados, não só tecnicamente, mas também para lidar com nossos medos e inseguranças. Por mais profissionais como a Camila, que soube me acolher hoje de modo muito gentil e humano. 

Mulherada, não tenham medo da mamografia. Bora nos cuidar! 

03 janeiro 2026

Primeira viagem do ano

Cema morreu. Tomei conhecimento do acontecido assim que o ônibus começou a se movimentar. Também soube que ela estava internada. E que passou alguns dias no hospital. Descansou. E foi tranquila. Aparecido, seu companheiro de toda a vida, esteve com ela até o último momento. Cuidou dela com muito amor. E não foi nada fácil. Nos últimos anos, o diabetes complicou. E ele aplicava os remédios, fazia curativos. 

Cema morreu. Foi um descanso. Ela estava conversando com Deus. Um pouco antes, ela estava agitada, desatinada. Foi o que Aparecido contou. Precisou chamar as enfermeiras. Fizeram uns remédios na veia. Ela se acalmou. Ele estava lá, segurando as mãos dela. Percebeu que, de repente, o semblante dela mudou. Correu chamar as enfermeiras novamente. Vieram. Examinaram Cema e disseram que ela estava entrando em óbito.

Entrando óbito. Que jeito mais estranho de falar. Mas Marlene repetiu essa mesma frase umas três vezes durante a viagem. Ela estava tentando se conformar com a partida de Cema. Repetiu, também para se convencer, umas três vezes, que Cema aproveitou bem a vida, os filhos e os netos. Oitenta e quatro anos. Viveu bastante. E agora Deus chamou. Ela descansou. 

A viagem até o aeroporto de Guarulhos durou cerca de duas horas e meia. Marlene não parou de falar nem um minuto. E cada vez que ela repetia "Cema morreu", tenho certeza de que ela o fazia para se convencer daquele fato. Eu estava indo para o Aeroporto. Meu vôo para Salvador sairia às 22h30. Marlene é baiana. O sotaque. O vocabulário. Mas ela não estava indo pra Bahia. Pegou aquele ônibus porque era melhor que descer no Tietê e pegar outra condução até sua casa. Ela tinha ido pro velório de Cema. Marlene precisava repetir para que aquela verdade se tornasse menos absurda: Cema morreu. Cema entrou em óbito enquanto conversava com Aparecido que segurava as mãos dela. Eles estavam rezando. 

Eu não faço a menor ideia de quem foi Cema. Mas estou convencida de que ela viveu uma boa vida. Aproveitou os filhos e os netos. Teve um companheiro que ficou ao seu lado até o último minuto. Ela descansou. Marlene, que durante a viagem de ônibus, ligou para pelo menos três pessoas diferentes para repetir a narrativa sobre os últimos momentos de Cema, também não faço ideia de quem seja. Certamente nunca mais a verei. Ouvi seu relato, porque ela falava alto, ao celular. E porque eu tenho esse mal hábito de ficar muito curiosa pelas histórias alheias.   

Meu vôo pra Salvador se atrasou bastante. Escrevo enquanto estamos decolando. Espero que Marlene encontre conforto em sua perda. Cema morreu. E eu fui convencida por Marlene de que ela descansou. A vida segue. O ano está só começando. Cema morreu. Mas nós, eu, você que lê esse texto, Marlene, estamos vivos e precisamos fazer a vida valer a pena. Aproveitá-la. Como Cema aproveitou.

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