As mensagens
coletadas no celular do ex-banqueiro e maior vigarista da história recente
desse país, Daniel Vorcaro, não deixam dúvidas: o homem era irresistível.
| Imagem retirada de: https://www.itatiaia.com.br/politica/almoco-vip-daniel-vorcaro-alexandre-de-moraes-campos-do-jordao-pf/ |
Eu. Eu não
gostaria. Mas ele também não teria interesse em mim. Não sou ministra de estado
nem de nenhum tribunal muito menos da suprema corte; não sou governadora, nem
dona de nenhum partido, não sou presidente do senado, nem da câmara. Eu não
teria nada a oferecer para o tipo de amizade que Vorcaro costumava cultivar.
Mas sejamos
justos: o sujeito era mesmo boa praça e não fazia distinção entre direita ou
esquerda, conservadores ou progressistas, centrão, executivo, legislativo ou
judiciário. O critério era um só: poder. Poder para influenciar decisões a
favor dos interesses do banqueiro. Poder para blindar o “irmão” quando fosse
preciso. E ele sabia que iria precisar. Poder para garantir clientes – ou seria
melhor dizer “vítimas”? – e lucro em suas transações feitas por debaixo dos
panos ou nem tão às escondidas assim, e ainda regada a uísque e incensada por
fumaça de charutos.
Vorcaro era
especialista em criar laços profundos. Mandou umas tantas mensagens para
ministros e políticos afirmando ter para com eles “dívida de vida” e “gratidão
eterna”. Fico pensando o que esses nobres senhores fizeram ao sujeito para
merecer tanta deferência. As mensagens obtidas do celular do ex-banqueiro e
analisadas pela Polícia Federal nos permite dizer que Daniel Vorcaro é o Dom
Juan de Brasília. Seduziu geral. Lendo as mensagens, sinto um pouco de pena –
ou seria vergonha alheia? - das esposas dessas figuras que andaram declarando
amor e fidelidade ao ex-banqueiro.
Como bem disse
Aristóteles, em seu livro Ética a Nicômaco, nas amizades por utilidade, os
amigos se amam não por si mesmos, por serem quem são, mas por causa da sua
utilidade; daí esse tipo de amizade se dissolver facilmente, uma vez que o útil
não é permanente, mas muda constantemente. Preso, sem poder bancar festinhas,
nem oferecer garotas de programa de luxo, tendo se tornado uma ameaça – dada a
possibilidade de assinar uma delação premiada – Daniel Vorcaro, o irresistível,
talvez esteja se sentindo neste momento abandonado pelos seus grandes amigos.
De
irresistível a indesejável. É bem verdade que os amigos de Vorcaro ainda não
lhe viraram as costas, mas certamente isso se deve à autoproteção, à amizade
que devotam a si mesmos, e não ao laço que os unia ao ex-banqueiro - e que agora
ameaça enforcá-los. A amizade entre os maus, já dizia Aristóteles, tem vida
curta, visto que eles ambicionam mais do que seu quinhão justo de vantagens e
vivem “procurando coagir uns aos outros sem que ninguém se disponha a fazer o
que é justo”.
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