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23 maio 2016

É lei da mordaça, sim

O assunto é sério e, pelo andar da carruagem, também muito preocupante. De repente uma onda de Projetos de Leis invade Câmaras de vereadores, Assembleias Legislativas e chega até o Congresso Nacional: Projetos Escola Sem Partido ou Escola livre. Notícias têm pipocado na mídia, como podemos ver aqui, aqui e aqui
Por que considero o assunto sério? De fato, o professor que usa do seu lugar de autoridade dentro de uma sala de aula para fazer doutrinação ou para fazer apologia a este ou aquele partido político ou ainda para impor uma crença ou a não crença a seus alunos está agindo de maneira errada. A partir do momento que isso seja comprovado por pais e/ou alunos, o professor deve responder pelos seus atos. Ações como perseguição, chantagem, assédio moral ou qualquer outra que tenha motivação política, religiosa ou ideológica em geral e que venha a causar danos aos alunos devem ser denunciadas e coibidas nas escolas. 
No entanto, o que estamos vivenciando é uma forte onda conservadora que, em nome de alguns direitos, tem claras intenções de impedir discursos que contrariam suas verdades, ao mesmo tempo que reforça posturas e ideias preconceituosas, disfarçadas sob o título de valores e crenças morais. Basta prestar um pouco de atenção nos discursos que movimentos como o Escola sem partido têm produzido para percebermos que o desconforto deles é com certos partidos e com certas ideologias e religiões. O grande problema dessa galera é com o discurso de esquerda, de professores que se identificam ou militam em favor de certas causas sociais. Não estou dizendo que esses professores têm o direito de doutrinar seus alunos. No entanto, estando numa escola, pois sou professora, sei bem que há professores que se identificam com partidos de direita e que também usam a sala de aula para defenderem e difundirem suas ideias. Mas com esses não estão muito preocupados. Alardeiam apenas a doutrinação de esquerda. Outra coisa que incomoda bastante essa galera que quer uma Escola insípida e professores neutros é o que eles resolveram chamar de Ideologia de Gênero. Essa bizarra expressão surgiu entre aqueles que se recusam a aceitar que há machismo na sociedade em que vivemos, para os quais não seria necessário buscar igualdade entre homens e mulheres. Mas o que mais assusta esse povo é falar em direitos iguais para todos, independente da orientação sexual ou de qual a identidade de gênero do indivíduo. É importante esclarecer que essa expressão, "ideologia de gênero", não faz parte do vocabulário acadêmico-científico, mas foi forjada com sentido pejorativo para desqualificar debates que visam promover igualdade, respeito e tolerância. Mas isso é assunto para outro post. Outro tema muito caro para boa parte dos que defendem esse tipo de lei diz respeito a religião ou crença. Na fala de alguns, tratar de religiões de matriz africana, trazer seus mitos e rituais para materiais didáticos seria proselitismo. Valorizar traços da cultura de um dos povos que está na raiz do povo brasileiro e que sempre foi hostilizado e vítima de uma visão distorcida e preconceituosa não é visto como política de reparação e de equiparação, mas como privilégio, contra a religião dos outros agarra-se na defesa do Estado Laico...Mas quantas escolas (inclusive a minha) ostentam símbolos cristãos ou mesmo católicos, e ninguém lembra que o Estado é Laico. 
Quanto ao professor em sala de aula, precisamos pontuar algumas coisas. Primeiro, algumas disciplinas necessariamente terão que trabalhar com temas considerados espinhosos ou controversos, como é o caso de Filosofia, Sociologia, História, Biologia. Segundo, não parece que seja crime um professor expressar sua opinião sobre um assunto qualquer, ainda menos se esse assunto faz parte dos conteúdos abordados por sua disciplina. Expressar uma opinião não é o mesmo que impor sua opinião. O discurso da neutralidade muitas vezes será questionado pelos próprios alunos. Adolescentes são curiosos, gostam do enfrentamento e, claro, também estão em busca de referências e tudo isso contribui para que eles muitas vezes sejam incisivos ao quererem saber a opinião do professor sobre determinados temas. Expor essa opinião não torna um professor um doutrinador, nem está imediatamente influenciando os alunos. É importante que fique claro que se trata de uma opinião entre outras, que o professor não espera que os alunos concordem com ele. 
No entanto, parece que estamos caminhando para situações mais complicadas, quando vemos pessoas questionando os Direitos Humanos, ou questionando valores como o respeito, a igualdade e a tolerância. O debate em sala de aula deve seguir alguns parâmetros e, ainda que os alunos devam se sentir livres para expressarem suas opiniões, essas opiniões não podem ferir direitos alheios ou servir para propagar preconceitos. Um professor que interfira numa fala que faça apologia a violência contra homossexuais, por exemplo, não pode ser acusado de estar defendendo uma ideologia. Se algum aluno se manifesta de maneira machista ou racista numa sala de aula, não devemos tolerar tais falas em nome da liberdade de expressão. 
Mas do jeito que a coisa anda, tudo isso pode virar crime logo, logo. Se depender da patrulha que essa galera tem feito, ai do professor que manifestar até mesmo qual seu time do coração, ou ousar expressar sua opinião sobre o último filme que viu no cinema. Afinal, como defende essa galera, o papel do professor é passar sua matéria e ponto. 
Assusta-me muito nesses discursos a ausência de consciência de vida em sociedade, de que existem divergências, ideias diferentes, gostos diferentes e de que é através do debate que as ideias são construídas. A defesa que se faz do indivíduo e de valores individuais se sobrepondo ao coletivo, ao grupo, denuncia posturas que atacam as bases que possibilitam a vida em sociedade. Acusam professores de serem doutrinadores, mas defendem o pensamento único como sendo um direito do cidadão. 
Se não pudermos discutir temas polêmicos numa sala de aula, onde mais poderemos fazê-lo? Se a política for rechaçada das escolas, quando os jovens terão a oportunidade de formarem suas opiniões? 
Infelizmente, nas entrelinhas de projetos como o que foi aprovado em Alagoas podemos perceber uma censura e uma caça às bruxas que tende a favorecer o obscurantismo e a intolerância. 
Tempos difíceis esses em que vivemos, mas parece que ainda podem piorar bastante...

22 junho 2013

Acordamos!? Será??

A melhor maneira de começar esse texto seria dizendo: Muita calma nessa hora! Difícil analisar tudo o que aconteceu no Brasil nas últimas semanas e ainda está acontecendo. 
Inicialmente, as manifestações que ganharam as ruas tiveram um objetivo bem pontual: redução das tarifas do transporte coletivo em muitas cidades do país. Em São Paulo, as primeiras manifestações foram organizadas pelo MPL (Movimento Passe Livre), pedindo a revogação do aumento de R$0,20 nas tarifas de ônibus, trem e metrô. Mas depois de cenas de exagero e descontrole da polícia terem ganhado as principais páginas de jornais de todo país e, principalmente, terem corrido aos quatro ventos via facebook e youtube, as pessoas saíram às ruas não só de São Paulo, mas do Brasil inteiro, não mais por R$0,20. Os cartazes levantados pelos manifestantes colocavam na ordem do dia uma série de problemas: Corrupção; Impunidade; Serviços básicos de má qualidade - saúde, educação, transporte e segurança; Falta de transparência nos gastos públicos; superfaturamento nas obras da Copa; PEC 37 e por aí vai. 
Manifestações que, assim como o próprio MPL, são apartidárias. O que está longe de significar apolíticas. Tenho lido alguns artigos nos quais, por ignorância ou desonestidade intelectual, tem-se afirmado a co-extensão entre os termos. É preciso fazer algumas diferenciações: primeiramente, apartidário não é necessariamente igual a anti-partidário. Ao dizer que as manifestações são apartidárias, os manifestantes não estão necessariamente pedindo o fim dos partidos políticos, mas poderíamos dizer que estão afirmando que não se sentem representados por nenhum dos partidos que aí estão. Em décadas os partidos políticos brasileiros conseguiram a proeza de despertar em grande parte da população o sentimento de que eles não nos representam. Muitos políticos que agora tentam desqualificar as manifestações nas ruas dizendo que elas são despolitizadas, deveriam repensar o que fizeram durante essas três décadas de democracia no Brasil para politizar essa juventude que agora toma as ruas. Vale a ressalva de que politizar é bem diferente de doutrinar!
Ainda tenho dúvidas se despolitizada é uma boa palavra para qualificar a multidão que ganha as ruas. Sinceramente, apolítica é algo que nem sequer consigo compreender...Quando milhares de pessoas saem às ruas gritando por melhoria na qualidade de serviços públicos, pelo fim da corrupção e da impunidade, não vejo outra coisa nisso tudo que não uma ação política. 
Mas, se por despolitizada entendemos a falta de uma pauta clara, de conhecimento sobre o fazer político no país, e até mesmo desconhecimento das figuras carimbadas da nossa política que outrora lutaram pela democracia, ok, eu concordo, temos uma grande massa despolitizada no Brasil ganhando suas ruas. Mas isso é culpa de quem? Durante essas três décadas de democracia o que temos visto é uma terceirização da política no Brasil. O que eu quero dizer com isso? A grande maioria dos 'cidadãos' só exercem sua cidadania na hora de votar e eleger os seus 'representantes'. Mas não tinham (e não têm) a menor ideia de para que serve um senador ou deputado, ou da diferença entre poder judiciário, legislativo ou executivo. E poucos tinham reclamado da despolitização do brasileiro até então. 
Depois que foram anunciadas as reduções de tarifas nas principais capitais e em várias cidades do país, ficou o sentimento de "E agora José?".
O que estou percebendo é que estão todos perdidos. É novidade, e não há parâmetros para se enquadrar o que estamos vivendo. Também não estou afirmando que estamos vivendo uma grande revolução. Qualquer afirmação desse tipo (vide capa da VEJA da semana) deve ser considerada com muita ressalva. Os velhos grupos acostumados a 'representar' o povo brasileiro,  e que podemos classificar - e eles mesmo fazem questão de assim se afirmarem -   como direita e esquerda, estão agora desbaratinados. A direita (leia-se setores conservadores representados por partidos como PSDB e grande mídia) vê numa movimentação apartidária uma crítica direta ao PT e incita a bandeira do 'fora Dilma'.  A esquerda (sei lá quem botar nesse saco, mas vamos fazer de conta que o PT ainda é esquerda,  e põe aí junto PSOL, PCO, PCdoB e cia), por sua vez, vê a manifestação apartidária como um perigo fascista conservador de ultra direita, quando as bandeiras vermelhas são proibidas de serem erguidas em meio a multidão. Que fique bem claro: NÃO SOU A FAVOR DA VIOLÊNCIA que, infelizmente, ocorreu em alguns lugares contra os militantes de partidos ou movimentos sociais. Mas é preciso tentar entender o que está acontecendo. E enquanto continuarem, esses e aqueles, apenas tentando pegar carona nas manifestações, não vamos ganhar absolutamente nada. E pior, corre-se o risco de perder toda essa força que, talvez, o povo tenha descoberto que lhe pertence. 

De tudo que aconteceu até agora, parece que podemos tirar algumas lições:
i) Se parece que o povo acordou, os políticos e seus partidos ainda não acordaram, no máximo estão experimentando um terrível pesadelo.
ii) Ir para as ruas é fazer política, e o apartidarismo dessas manifestações, se bem direcionado, tem um potencial muito grande de cobrar mudanças em todos os níveis de governo (municipal, estadual e federal), independente de qual partido estiver no poder.
iii) Vândalos e bandidos se aproveitando de momentos de grandes manifestações há em todos os lugares. Isso não deve justificar os prejuízos que estamos tendo, mas NÃO PODE DESQUALIFICAR as manifestações. Além disso, para os criminosos, que venha a polícia!
iv) Se queremos que essas manifestações tenham um fim digno, faz-se urgente criar espaços de discussões e politização dos que estão indo para as ruas. É preciso ir para a rua com objetivos claros. Antes de sair de casa as pessoas devem se perguntar: Por que estou indo às ruas? O que eu quero? Usemos as mídias sociais, usemos as salas de aula, façamos política!! Só assim poderemos dizer, talvez daqui alguns anos, que acordamos!

15 março 2011

Mosaico urbano

No ônibus, as senhoras conversam sobre os cobradores que não rodam a roleta quando elas ficam na parte da frente no transporte coletivo. E uma dizia fazer questão de passar pela roleta! Depois falaram sobre viagens. Aposentados têm direito de viajar de graça, e uma delas dizia gostar muito de viajar e que uma outra colega não aproveitava a chance, mas estava estudando, fazendo faculdade, e se formaria aos 71 anos.

No ponto de ônibus, o pai sentado com a mochila da filha entre as pernas. A menina, sentada ao lado, mas sem sinal de interação entre eles, usava um tênis que parecia ser uns 10 números a mais do que o dela, com uma língua verde limão, a menina usa uma blusa rosa, com um lenço, também rosa amarrado no pescoço. Estavam lá, um do lado do outro, em silêncio, como se um ignorasse a presença do outro...

Muitas bitucas de cigarro lançadas ao chão. Um trabalhador varre, junta as bitucas, ajeita para dentro da pá. No mesmo momento, dois, três arremessam novas bitucas no chão.
Uma pessoa entra no ônibus, com um vestido azul longo e um lenço, também azul, amarrado na cabeça. A pessoa é grande e chama atenção. Alguns fazem cara de nojo, outros de reprovação, outros de zombaria. Ela, que nasceu ele, mas que deveria ser respeitada por aquilo que é, por escolha ou não (porque também não escolhemos nascer meninos ou meninas), andou de cabeça erguida, mas com certeza sentia o peso e a indelicadeza daqueles olhares curiosos, preconceituosos, impiedosos por onde passava.

Estudantes imersos em seus fones de ouvido. Papeis de bala descuidadamente caem no chão. Um jovem recém chegado pede informações. O cobrador de ônibus não sabe. O mesmo cobrador dá informação errada minutos depois a uma senhora. É corrigido pelo colega. Parece não conhecer os trajetos dos ônibus...
Não são só os jovens que estão conectados aos fios que saem do ipod ou do celular. Ela, cabelos grisalhos, caminhando para os 60 anos, com os fones no ouvido, está distraída apertando botões de um celular vermelho. 

Eu observo e vou juntando cada imagem num único quadro. Um quadro complexo que muda de minuto em minuto. E mudo eu de uma impressão a outra, de uma ideia a outra, de um sentimento a outro. E sou eu o pano de fundo desse Mosaico Urbano.


10 fevereiro 2011

Cabelos, cobras e bons modos

Eu estava tomando banho e pensando de onde teria vindo esse meu pavor por fios de cabelo espalhado pelo chão, mas principalmente por fios de cabelo no chão do banheiro e, pior ainda, fios de cabelo no ralo do banheiro! Sim, é nojento! Eu também acho. Mas não é só isso. Fios de cabelo no ralo do banheiro me dão arrepio na espinha. Fico histérica! É uma coisa que eu não consigo controlar...

Vida de estudante, sabe como é. Durante quase 6 anos eu morei em casa de estudantes (moradia estudantil da unicamp). Tenho super ótimas lembranças desse tempo! Amigos, festas, cafés, almoços, festas, risadas, amigos, filmes, imagem e ação, máfia, tudo de bom! Mas também tive os meus dias mais difíceis por lá! Imagina você morando com mais 3, 4 ou 5 meninas numa casa que só tem um banheiro! Eu não queria fazer tempestade num copo d'água... Não queria parecer louca ou coisa do tipo. Mas quantas vezes eu chorei, quando ia tomar banho. Sim, chorei de nojo, de raiva, de tristeza. Eu sempre, religiosamente, retiro o meu cabelo do ralo do banheiro depois que tomo banho! E ODEIO entrar num banheiro que tenha cabelos no ralo! Então, eu ia lá, retirava aquele monte de cabelo que não era meu (até porque eu tenho cabelos curtos, bem curtos, que jamais formariam aqueles bolos de cabelo no ralo!), e depois tomava meu banho. (verdade seja dita, não foi sempre assim!) Mas, de qualquer forma - aff!- aquele tempo passou! Agora no meu banheiro não acontece isso...

Mas depois de tanto sofrimento, eu ainda me perguntava de onde teria vindo todo esse pavor. E acho que descobri hoje. Enquanto tomava banho, como que num estalo, eu lembrei da minha mãe dizendo, quando eu era criança, que os fios de cabelo que a gente deixava por aí, e principalmente aqueles que viessem a ficar na água, viravam cobras! Meu deus! que horror! eu tinha tanto medo de cobra. Eu sempre me lembrava disso quando pequena. E sempre, desde então, retirava todo fio de cabelo do ralo do banheiro. Naquele tempo eu tinha cabelos longos e ficava imaginando o tamanho das cobras que nasceriam deles... Se a intenção da minha mãe era me deixar neurótica, ela foi bem sucedida. Eu lembro que ela falava de uma passagem da Bíblia que dizia pra gente cuidar de cada fio de nosso cabelo que caísse, não lembro o que isso tinha a ver com a história deles virarem cobras, mas servia pra sustentar o argumento de que eu devia retirar o cabelo do ralo...

Pena que as mães das outras meninas não contaram essa história pra elas. Se eu algum dia eu tivesse  uma filha (coisa que não está nos meus planos de vida!) eu contaria essa história pra ela, ah contaria! E do jeito que essas crianças estão hoje em dia (nascendo num mundo virtual...), acho que até seria fácil convencê-la disso...

10 agosto 2010

No ônibus

Ela devia estar na casa dos 60. Mas, a considerar pela roupa, teria um espírito mais jovem do que o meu, no auge dos meus 25 anos.

Eu toda vestida de preto - sapato, blusa, bolsa e calça jeans. Acessório apenas um minúsculo brinco. Na mão esquerda - inchada e dolorida - livros. A mão direita me sustentando naquele ônibus que atravessa o tapetão a quase 100, numa tarde de terça-feira. Tinha dado duas aulas. Estava cansada e com fome.

Ela, uma blusa vermelha que combinava com os sapatos, também vermelhos. Acessórios? Muitos: colar, brinco, anéis, uns quatro. As unhas bem feitas, com uns brilhantezinhos reluzindo. A bolsa era colorida, listras amarelas, vermelhas e azuis.

Eu me equilibrava ao lado dela. A cada curva eu era arremessada pra lá ou pra cá. Ela não deve ter percebido que minhas mãos estavam inchadas, portanto nem poderia imaginar que elas estavam doendo... Mas ela deve ter percebido que era difícil me manter equilibrada, segurando apenas com uma das mãos. Mas ela não se ofereceu para levar os meus livros. Eram pequenos, nem pesavam tanto. No momento apenas me impediam de me segurar decentemente dentro daquele ônibus alucinado.

Fiquei observando aquela mulher que, embora de cabelos tingidos, teria sido motivo suficiente para que eu me levantasse, caso estivesse sentada, e oferecesse o lugar para ela, como fez a moça que ocupava aquele lugar. Fiquei observando e pensando o que custaria ela ter se oferecido para carregar os meus livrinhos...

30 julho 2010

Traição e futebol

Faz tempo que penso sobre isso. Mas nunca tinha me arriscado a escrever sobre e, ainda agora, quando começo a escrever, não sei se isso vai chegar a algum lugar. Mas vamos lá.

Primeiramente, isso não é uma defesa da traição, nem uma defesa das mulheres. O ponto é que nossa sociedade machista costuma ter como pressuposto que (i) homens trair mulheres é algo normal e, ao mesmo tempo, que (ii) as mulheres não entendem as razões masculinas para suas escapulidas.

Comecemos pelo segundo ponto. É difícil dizer exatamente quais são as razões masculinas. Na verdade, talvez devêssemos dizer as "intenções masculinas para suas escapulidas". Melhor ainda, dizer o que eles, os homens, "não querem" quando dão suas escapulidas. A maioria deles diz, jura de pé junto, que não queria abandonar a esposa/namorada/ seja lá o nome que se queira dar a companheira que ele tem num relacionamento "sério". Mas dizem que as mulheres não entendem, precisamente, isso.

A primeira questão é saber se eles aceitariam o fato de que suas respectivas companheiras/esposas/namoradas tivessem tido um caso/uma noite com outro e, então, lhes dissessem: Olha, eu não pensava em te abandonar. Não era essa minha intenção. Os machistas sem conserto dirão que isso é inadmissível. E a justificativa, já ouvi isso por aí, é que mulher não tem relação casual, que ela se envolve e se chega a consumar o fato é porque está apaixonada ou porque tem algum sentimento pelo cidadão. Bom, com esses não há conversa...

Mas, se a resposta for que as mulheres não aceitam mudar as regras do jogo, então temos que conversar. Aí é o seguinte: quantos homens já discutiram abertamente a mudança das regras? Ao começar um novo relacionamento, quantos esclareceram suas namoradas/esposas/ companheiras acerca do tipo de jogo que pretendiam jogar?

Pensa: se alguém chega e diz: Vamos jogar futebol? E não diz nada a respeito das regras, você imagina que terão uma quantidade x de jogadores, que vão usar um campo, ou uma quadra, que o objetivo do jogo será fazer gols, chutando a bola. Que colocar a mão na bola é falta e esse tipo de coisa. Então você aceita. Mas, no meio do jogo, um dos participantes, aquele que te convidou, resolve pegar a bola com as mãos e jogar dentro do gol. Você reclama e diz: Mas não era assim! Isso não pode. Isso não é futebol! O cara responde, com a maior naturalidade do mundo: é futebol sim, só que vale fazer gol com as mãos também. Você insiste. Diz que não era esse o combinado. Que ninguém te avisou que seria assim. O cara, calmamente, responde que para ele sempre foi assim. Que desde o começo, quando te convidou para jogar futebol, estava pensando nesse jogo, no qual vale jogar a bola com as mãos. E que isso não mudava nada o fato do jogo ser futebol. Você pode, com toda razão, dizer que foi enganado, que ele te chamou para jogar outro jogo, e não futebol. Futebol, para você, é uma coisa na qual não cabe fazer gol com as mãos. Vocês se desentendem. E você resolve ir embora.

Agora imagine: no lugar do convite para o futebol, pense que o cara - ou a mulher, por que não? -, enfim, alguém chega e diz para outra pessoa: Acho que estamos saindo há um tempo, gosto de você, podemos namorar, o que acha? A outra pessoa, que também parece interessada, pode ser a mulher ou o cara, responde que sim. Ok. Estão namorando. Sem discutir o que isso significa, eles acabaram de assumir um compromisso que, socialmente falando, implica num conjunto de regras. Se essas regras não foram discutidas e ajustadas para aquele caso particular, não há nada de errado de que uma das partes tenha entendido que as regras que estão valendo são aquelas "tradicionais". Se, no meio do relacionamento, assim como no meio do jogo, alguém "muda" as regras ou põe em prática regras/ou direitos que não tinham sido devidamente explicitados no começo, isso é traição. A outra parte pode dizer que foi enganada. E, ainda que ela tivesse alguma disposição a aceitar essas novas regras, com toda razão pode reclamar o fim do "compromisso". Afinal, as regras não tinham sido discutidas, e ela (ou ele) levou gato por lebre.

O que estou querendo com toda essa história? Simples: estou dizendo que, mas posso estar enganada, na maioria dos casos de traição, quando não estamos diante de machismo incurável, o que acontece é a falta da discussão das regras do jogo. Então, tenho uma crítica que é para homens e mulheres: precisamos esclarecer os termos dos compromissos. Dizer o que entendemos por namoro, casamento, ou compromisso em geral. O que estamos dispostos a fazer pelo outro e por nós mesmos. Não há nada de errado com a poligamia, (talvez esse não seja o termo mais adequado. Deveria dizer com as escapulidas?) desde que ela seja um acordo que vale para ambas as partes. Assim como não há nada de errado com a monogamia, desde que seja um acordo de ambas as partes. Não sei se acredito nessa história de diferenças entre homens e mulheres quando o assunto é relação amorosa/sexual. Acredito, sim, que os estereótipos aprisionam as pessoas. Tem muito homem por aí que não faz o tipo garanhão, pegador, putão, enfim, e que é cobrado pela sociedade, porque é assim que um homem tem que ser. Todo homem que se preza tem que ter tido pelo menos uma amante, ou uma escapulida. Por outro lado, a mulher, se trai, é porque é vagabunda, safada, puta. Em nenhum dos casos as expectativas são justas. Mulher não tem que ser santa, homem não tem que ser garanhão.

Existem as mais diversas combinações. Pessoas com e para todos os tipos de gosto. Mas essas amarras com as quais temos nos prendido só têm dificultado a vida e disseminado a hipocrisia. Tudo seria mais fácil se as pessoas se permitissem ser sinceras com elas mesmas, e se pudessem dizer sem medo o que lhes apetece e quais as regras que vão valer em suas vidas. Num mundo desse jeito, nem sobraria espaço para o ponto (i) que foi enunciado nesse texto. Traição, não de homens que traem mulheres, é normal hoje. Traímos nós mesmos, antes de qualquer coisa, quando não dizemos o que realmente queremos. Trair o outro, nessas condições, não é nada...

(texto escrito em abril/2010)

29 junho 2010

Nas escadas da vida


e a vida é assim, uns choram enquanto outros riem.
Na mesma escada onde amores começam, amores terminam.
Na mesma hora que um namoro começa, ali, logo do lado, um namoro termina.
Com palavras não ditas dizendo mais do que o coração suportaria ouvir. Um tempo. Depois das provas nos falamos. Lágrimas, tentativas de dizer o que só se pode sentir. E justamente nos momentos em que mais se precisa de um ombro amigo, de companheirismo. Talvez fosse um sinal, mas ela não percebeu. Ele estava abandonando o barco. Era demais para ele. Namoro bom é namoro de festas, cervejas, pegação. Quando chega o estresse, o cansaço, as provas, ele põe na boca dela palavras que ela nem pensava em dizer. Diz aceitar a sugestão que ela, chorando, nega ter feito, de que se vejam depois das provas.

A cena é rápida. Passo por eles, eles não devem nem ter me percebido. Não sei se continuam namorando. Não sei se deram um tempo. Mas fiquei pensando: Como faria as provas com o coração despedaçado? Com aqueles olhos cheios de lágrimas? Que maneira estranha de dar apoio...

Acabei de me lembrar de uma música que fala de escada, do Cogumelo Plutão. E acho que combina com o clima do post de hoje.

18 junho 2010

Ano de eleição, Murphy e essas coisas da vida do cidadão comum

Recebi o texto abaixo por email. A pessoa que escreveu me disse que foi num momento de revolta. E nem preciso entrar em detalhes sobre os motivos de tal sentimento. Lendo o texto, que eu até ousaria dizer tem uma boa pitada de humor, vocês vão entender. Agora, realmente, é difícil entender como é que muitas pessoas, todas as pessoas, não ficam revoltadas vendo as propagandas que esses senhores fazem na TV, no rádio e em todos os lugares que conseguem, de um Brasil que está cada dia mais parecendo um paraiso. Onde tudo funciona: transporte coletivo, saúde pública, educação. São tantos números e mais números de investimento nisso e naquilo, que parece mesmo que ninguém tem motivo pra reclamar de nada. Mas, para algumas pessoas, talvez aquelas pelas quais Murphy tem um carinho especial e, nesse caso, o senhor Murphy parece ser um cara de coração bem grande, esses benefícios todos não são assim tão generosos quanto as estátisticas dos horários políticos...


Caros amigos,

Quinta-feira, 17 de junho. Estou voltando ao trabalho e ainda mantenho o rádio ligado, mesmo com o horário eleitoral. Mantenho ligado para perceber que eu sou mesmo muito azarada. Onde eu vivo? Em que mundo? Por que as coisas ruins têm que acontecer justo comigo?

Agora está passando o currículo do presidenciável José Serra, com todos seus feitos como ministro da Saúde, prefeito de cidade de São Paulo e governador do estado. Ele fez tanto pela população, principalmente no que diz respeito à saúde. Pela forma que foi dito, nada mais precisa ser feito, agora é só manter! Não existe mais espera de meses e até anos para simples consultas, temos vários laboratórios especializados, AMEs que funcionam maravilhosamente bem!

E é aqui que mora o meu problema, estou ficando desesperada. Como Murphy pode cair em cima de mim de tal forma? Sempre que procuro por algum serviço de saúde não sou bem sucedida. Se não é comigo, é com meu irmão, minha mãe ou algum familiar – teria vários casos para contar, mas vou poupar vocês desta parte enfadonha.

Pessoal, eu estou precisando de ajuda! Por favor, mandem bastante energia para que eu saia deste azar astrológico, karmico, geográfico, ou sei lá o que, e consiga ver o Brasil maravilhoso que esses políticos pintam. Sem contar que eu preciso de um dermatologista, e tentarei marcar na semana que vem, pois eu também tenho direito a um sistema de saúde de qualidade!


Energia, não se esqueçam!


Beijos e um ótimo final de semana

(texto escrito por Ana Paula Rocha - Mestre em Demografia pela Unicamp e minha amiga querida!)

10 junho 2010

Viajar é preciso!

Feriado (com um pouco de atraso): Amparo/ Serra Negra
(atualizado!)

Aproveitando o feriado prolongado, resolvemos explorar as vizinhanças de Campinas. Fomos conhecer Amparo e Serra Negra. Ficamos hospedados em Amparo, uma simpática cidade, cuja simpatia das pessoas no trânsito nos deixou bastante impressionados. Com poucos semáforos e muitos carros nas ruas, as pessoas são gentis, não buzinam, e quando vêem alguém na faixa de pedestre, param o carro e se você, como nós, hesita em atravessar, assustado com a rapidez que eles pararam, lhe dão sinais com a mão, confirmando que a passagem está liberada.

Numa tarde andamos por quase toda a cidade. Fomos até o Cristo de onde se tem uma vista muito bonita da cidade. Visitamos uma fonte, de Nossa Senhora de Amparo, e passeamos pelo Parque Linear ao longo do qual encontramos quiosques, parquinhos, quadra de futebol, pista de skate e uma academia ao ar livre. À tarde tomamos um chopp e comemos um pastel muito bom (pastel de queijo com queijo de verdade), na Pastelaria Copa de Ouro.
À noite foi difícil encontrar algum lugar pra comer, mas descobrimos, lá perto da Matriz, uma pizzaria bacana, Rovigo, com uma pizza muito boa.

Sábado e domingo foram dias de passear em Serra Negra. Subimos a Serra com um pouco de neblina e um dia fechado, com cara de chuva. Mas tivemos sorte, e a cara feia do tempo foi embora, e nos permitiu passar bons momentos em Serra Negra. O forte da cidade é o comércio de malhas e de couro. Muitas lojas, muita gente e muitas sacolas. Mas, novamente, surpresa: sem nenhum semáforo, o trânsito funciona na base da gentileza. Mas é lento. A melhor opção é encontrar um canto pra estacionar e andar a pé. A cidade é pequena. E tem várias coisinhas bacanas para se fazer. Andamos no miniférico, que vai do centro da cidade, próximo a rodoviária, até o Cristo (sim, outro Cristo!). E é alto, e tava um friozinho.. E eu com medo de perder meu sapato. Imagina se ele cai lá de cima, no meio do mato... Ia ser uma beleza. Como disse meu namorado, eu teria uma desculpa para comprar outro sapato, já que opções é que não faltavam naquelas lojas de artigos em couro.. Mas o sapato não caiu!

Também fizemos um passeio de 'trenzinho' pela cidade. E fomos conhecer o Parque Sto. Agostinho, com duas fontes de água mineral.
Próxima parada foi a Disneilândia dos Robôs, um lugar super interessante, principalmente para criança, ou para adultos que ainda cultivam sua criança interior. Ele é quase um Castelo Ra-Tim-Bum. Robôs pedalando, bolinhas que sobem e descem, e umas bugigangas engraçadas. Se forem para Serra Negra, recomendo que passem pela Disneilândia dos Robôs.

E o friozinho pedia, então fomos tomar um capuccino na Brazillian Coffe. Que delícica de capuccino cremoso. Estava lotado, mas fomos bem atendidos. O café deu aquela aquecida, e continuamos andando.
No fim da tarde, fomos tomar um chopp acompanhados de uma amiga, que é de Serra Negra, e o namorado dela. Conversa agradável num ambiente tranquilo, com som baixinho, mas que estava lotado. Um dos points da praça da prefeitura, o Café-Boteko é um lugar muito bacana, atendimento bom, chopp Brahma bom, e mandioca frita muito boa!

Voltamos para Amparo, estava um super friozinho. Estávamos cansados, mas planejando mais passeios para o dia seguinte. Voltamos cedo no domingo para Serra Negra. Assistimos a apresentação de uma bandinha no palco da praça da prefeitura. Muito agradável. Depois fomos até o Alto da Serra. Nossa, amei o lugar, que vontade de ficar lá em cima! Aquela vista é muito bonita. Ver as cidadezinhas lá longe, tudo pequenininho...

Já era hora de almoçar e voltar pra casa. Resolvemos ir conhecer um lugar chamado Lago dos Macacaquinhos ou Macaquinhos Turismo, como algumas placas indicavam. No entanto, infelizmente, não foi uma experiência muito legal. O lugar tem algumas atrações: passeios de cavalo - num espaço bem reduzido-, uma pequena tirolesa, uns pedalinhos, alguns animais- coelhos, gansos, e os macaquinhos, numa pequenininha ilhazinha. Mas a decepção foi com a comida... Bom, o lugar é bonitinho, mas não aconselho ninguém a ir almoçar lá não...

No balanço geral, o feriado foi uma delícia. Infelizmente não tínhamos uma máquina fotográfica.. Mas aproveitamos bastante. E outra, viajar com boas companhias, no caso, como meu namorado, é sempre muito bom e divertido. Já estamos planejando o próximo passeio.

09 junho 2010

Fragmentos

Já não sei onde encontrar a menina dos versinhos e que sempre tinha uma palavra otimista; Já não sei onde encontrar aquela menina que tinha fé e esperança. Já não sei onde buscar aquela menina que tinha grandes sonhos e gostava de multidão.
Hoje, dia sim e outro também, encontro uma moça séria e que gosta de silêncio. Que já não dá gargalhadas. Uma moça que não sabe fazer planos que envolvam o 'para sempre'. Uma moça que se agarra ao presente como se o amanhã já estivesse fugindo...


[Setembro/2009]

21 abril 2010

Primeira impressão numa enésima vista

Nessa cidade barulhenta
tão cheia de todas as gentes,
de carros, skats e apitos.
Nessa cidade me perco,
não me reconheço,
sempre olho,
sempre esqueço.

Nessa cidade cinza
com seus pontos verdes,
são praças e largos
e suas ruas cheias de vidas estreitas
e suas janelas altas
de onde tantos estão a espreita...

Nessa cidade louca
me vejo pequena,
quase insana,
são tantas tribos
são tantos planos,
ou simplesmente vidas,
sem rumos...

Nessa cidade suja - Ah, pobre cidade de gente que te suja!
são latas, papéis, paredes,
pensamentos..
Nessa cidade grande,
nessa grande cidade,
meus olhos ardem,
respiro com dificuldade,
a boca seca,
e tudo isso não é emoção,
apenas,
mas é poluição,
que pena!

28 abril 2008

Virada

Uma cidade muito simpática e alegre. Cheia de vida, de música, de arte em geral, com direito a arco-íris num céu limpo, muito azul, numa manhã de domingo. Foi mágico...


Dificilmente terei palavras para descrever os maravilhosos momentos que passei em São Paulo nesse último fim de semana. Infelizmente não passei sem presenciar uma briga, ou sem dar com os olhos em dezenas de homens, mulheres e crianças que tiveram "suas casas", as ruas do centro histórico de São Paulo, invadidas por milhares de pessoas barulhentas, que caminhavam de um palco para outro, despreocupadamente... pelo menos era o que parecia, atras das muitas atrações que tomaram conta da cidade mais agitada do Brasil.


Os metrôs, que trem massa! A caipira que me habita e que sou ainda, tão pouco acostumada com ruas tão movimentadas, com aquele fluxo de gente passando catracas de um lado para outro, subindo e descendo escadas, ficou deslumbrada com a eficiência e a buniteza dos metrôs de São Paulo. Não foi a primeira vez que os vi, mas o encantamento foi grande como se fosse...


"Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João, é que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi (...)"

é, acho que só dá pra entender o Caetano passando lá mesmo! Nem preciso dizer que fiquei emocionada...


E o Mercado Municipal? O que dizer daquele lugar? Não resisti ao famoso pão com mortadela, e fiz bem em não ter resistido... É preciso experimentar (...) não dá pra passar por lá sem o fazer. O melhor de tudo foi ouvir Pena Branca, cantando Cuitelinho, e depois Mocinhas da Cidade. Eita, esse coração mineiro derreteu-se em lágrimas. Foi bonito demais.



Deu até pra dar uma espiadinha na igreja do Mosteiro de São Bento, com direito a ouvir o raro som do orgão. De repente parecia que estavamos em outro mundo, cada detalhe, cada palavra...


Não foi dessa vez que entrei no Teatro Municipal. Só mesmo a grandeza e a imponência da arquitetura ficou registrada. Mas ainda volto lá...


Piano na praça! Dá pra acreditar?? Claro que dá! O que não dá pra acreditar é que não se faça muitas outras vezes se repetir isso... Como não seria melhor a vida das pessoas se mais vezes fosse invadida pela beleza da arte em suas mais diversas expressões... Não havia medo ou insegurança nos rostos que encontrei pelas ruas. As pessoas sorriam. As pessoas conversavam com os que chegavam ao seu lado nas filas... pediam informações sem receio para os que circulavam a sua volta... Talvez, e eu ficaria feliz que assim o fosse, todas essas coisas sejam mais comum do que eu imagine. Talvez seja apenas minha ignorância, meu "pre-conceito" com a cidade de São Paulo, pelo medo que a sua grandiosidade me desperta, porque ainda agora me disperta tal sentimento, que tenha criado uma imagem sombria, fantasmagórica, fria... Mas agora quando eu pensar em São Paulo essa primeira imagem será apenas a sombra de uma cidade receptiva, bonita, quente...


Aos amigos que me proporcionaram esse encontro tão saboroso, meu muito obrigada!!! Com toda certeza vocês contribuiram para que esse fim de semana fosse muito especial!!
(escrito em 28/04/2008)

25 fevereiro 2008

Passeio de sábado


O centro de uma cidade como Campinas pode se tornar muito interessante quando se tem uma boa companhia, nenhuma pressa, e a manhã de um sábado de fevereiro sem sol e sem chuva. Acordamos cedo. Talvez não tão cedo como havíamos planejado. Levantamos, preparamos o café. Comemos e deixamos a louça suja na pia. Descemos a rua e ficamos no segundo ponto de ônibus. Demorou mais do que gostaríamos. Mas, no fim das contas, deu tudo certo. As dez horas estávamos em frente ao sebo da Rua 11 D'Agosto. Entramos e nos perdemos lá dentro, entre um monte de tantas coisas e risadas e um ou outro beijinho, que somente os livros foram testemunhas.

Foi na sala de literatura e poesia brasileira que nos perdemos mesmo. Uma lembrança, uma promessa de leitura, uma troca de impressões - Capitu traiu ou não Bentinho? Um soneto de Camões, uma poesia de Pessoa, um conto da Clarice. Livros com cheiro de saudade. "Esse eu li no colégio!" "Eu também." "E esse aqui, você já leu?" "Não, esse não." "Mas esse eu li!" "Ah, esse eu não li não.."

Sebo é um lugar fantástico. É um dos meus lugares favoritos! Bom, às vezes, me divirto bastante também numa livraria. Mas os livros velhos, que trazem histórias em suas páginas amareladas, dedicatórias e alguns marca-páginas são muito mais interessantes. Muitas vezes fico viajando, pensando nas pessoas que possuíram aqueles exemplares. Nas histórias de suas vidas. Eu gosto de escrever nos livros. Nos meus, e nos que faço presente para amigos. Colocar nome, data e local onde comprei. Sei lá, um dia alguém poderá ter os meus livros em mãos e ter o mesmo prazer que tenho em ficar imaginando quem seria Francine, e o que teria sentido naquele dia em que comprou ou ganhou aquele livro, onde estaria. Nos livros que comprei, só no "Tempus Fugit" do Rubem Alves tem uma assinatura e uma data, no entanto, não fui capaz de decifrar o nome, nem mesmo de compreender a data, é uns vinte e pouco de junho de noventa e alguma coisa... Eu comprei três livros do Kundera: "A insustentável leveza do ser", " A brincadeira" e "Risíveis Amores". Esse último eu comecei a ler ontem. Também trouxe pra casa um dos Pensadores, do Wittigeinstein. Livro que esteve na minha cara e não pude ver... tem horas que tudo que precisamos em nossas vidas é um olhar estranho, que chega assim, pára do seu lado, e te mostra o que estava, literalmente, na sua cara...

Ele também comprou um livro do Rubem Alves; Também trouxe pra casa o "Viva o povo brasileiro", quero ver quando vai ler esse tijolinho, como ele mesmo classificou o grosso livro de capa dura vermelha. Nossa, não me recordo quais foram os outros dois livros que ele comprou. Tinha alguns em suas mãos, e quando fomos convidados a nos retirar, porque já era meio dia e estavam fechando o Sebo, ele separou rapidamente os que compraria. Fiz o mesmo. Também tinha separado mais livros do que de fato eu trouxe. Mas, além do fato de não querer gastar muito de uma vez só, temos a desculpa de fazer esse passeio mais vezes...

Saindo do Sebo D'Agosto, ficamos caminhando, um pouco sem rumo, pelo centro de Campinas. Eu tinha listinhas de outros Sebos, que aquela hora provalmente já estariam fechados, caso eles existissem de fatos! É, chegamos em dois endereços e.. Cadê o número que deveria ser um Sebo? Não existia! Mas foi divertido. Numa dessas procuras em vão, descobrimos o MIS - Museu de Imagem e Som. Entramos. Foi bem divertido. Tinha uma exposição sobre Biotecnologia e a exposição fixa do museu. Nossa, descobrimos que estamos ficando velhos. Os aparelhos de TV que fizeram parte de nossas infâncias já viraram peça de museu...Também as câmeras filmadoras, dos casamentos e festa de aniversários de tios e primos, já estão lá...

Depois do MIS, fomos até o Mercado Municipal. Meu deus, eu "so" boba mesmo, adorei o mercado! Comemos uma pamonha muito gostosa lá. A princípio tive medo de experimentar. Sei lá, às vezes sou muito fresca com alimentação. Mas estava uma delícia, quentinha e muito saborosa. O preço das coisas é uma ótima justificativa para voltarmos lá outros sábados...

Bom, demoramos mais do que havíamos planejado. No fim das contas estávamos os dois com os pés cansados. Mas acho que a mesma carinha de feliz que ele tinha era a minha. Rimos bastante caminhando pelas ruas.

Em meio a um monte de gente estranha, eram só mais duas pessoas passando pelas ruas de Campinas. Duas pessoas que não tinham pressa, que tinham todas as horas daquele sábado de fevereiro, sem sol nem chuva, para passarem um do lado do outro. Rindo das mais insignificantes coisinhas: por terem tomado a rua na direção errada, e foi duas vezes que fizeram isso; por chegarem no lugar onde deveria ter um Sebo e sequer achar o número que estava anotado na listinha... Que sorriam um para o outro com graça e felicidade. Se misturavam entre as muitas pessoas que iam e vinham pelas ruas sob aquele céu cinzento no centro da cidade. No fim, a promessa de que fariam aquele passeio mais vezes, porque tinham muitas coisas para conhecer ainda...




28 janeiro 2008

Dica do dia

Nossa, tenho que fazer isso!! Esse meu amigo escreve muito bem! o último texto que ele postou no blog dele está muito bom! Uma leitura muito agradável! Nobre Ordinário:Leiam!Não vão se arrepender!

25 setembro 2007

Rodoviária


Rodoviária é um ótimo lugar para observarmos as pessoas. Faltam 35 minutos para o meu ônibus Itajubá-Campinas as 15:30h. Hoje é domingo, muita gente está voltando para sua rotina.
Mulheres, homens, velhos ou crianças...jovens que se beijam, casais abraçados. Nos rostos às vezes cansaço, sono, tristeza, alegria...vai saber o que cada um está sentindo.
Aqui sempre tem música, acho legal, ajuda o tempo passar, música é sempre bom...
Eu já me acostumei com essa correria, nem bem chego e já estou voltando. Vim para o casamento da minha amiga Mariana, que foi lindo...
Chegou um ônibus, as pessoas se levantam, olham suas passagens, pegam suas malas, os motores de outros ônibus, que estão parados, são ligados, estão partindo...
Rodoviária é um retrato do que acontece na vida. Uns chegam, outros partem... as vezes estamos acompanhados, as vezes sozinhos...Durante a vida levamos várias malas... Tem tempo em que elas são mais pesadas, outros são mais leves. De repente ficam grandes, e no mesmo de repente voltam a ser pequenas...vamos de um lugar ao outro, e sempre tem uma ‘música’ de fundo...Cada um com um destino, mas partindo de um único lugar (...) ou com um destino comum, mas saindo de lugares tão diferentes, como os passageiros de beira de estrada, ou das paradas obrigatórias...
É sempre assim, uns indo outros vindo... Que bonita é a vida, pena que na maioria das vezes não temos tempo pra ficarmos observando essa dinâmica...
Agora passou um cara estranho, talvez estivesse bêbado, gritando e dizendo impropérios (...). A passagem dele foi como as coisas desconcertantes que acontecem diariamente e que nem nos damos ao trabalho de perguntar por que, ou então elas são tão desconcertantes que não perguntamos por que, para evitar qualquer desgaste maior...
E o que dizer dos que estão observando (como eu)? Talvez agora eu esteja no lugar daqueles que deixam a vida passar e só ficam olhando...Mas não, acho que não. O fato de estar escrevendo me coloca no lugar dos que na vida, mais do que apenas viver ou apenas olhar a vida passar, vivem e olham, olham e vivem...Três e quinze, acho que o meu ônibus já chegou...é hora de levantar, pegar minhas malas e preparar-me para voltar à minha vida...

Itajubá/ MG
28/11/04

As pessoas passam...


As pessoas estão sempre passando,
Algumas passam sem que tenhamos tempo para percebê-las,
Outras não conseguem prender nossa atenção,
Mas as pessoas estão sempre passando...
Algumas pessoas, quando passam, não contentam só em passar,
Então elas ficam por um tempo paradas,
Como se quisessem realmente marcar presença,
Ai, quando ela resolve continuar sua caminhada nós sentimos falta...
Outras pessoas, quando passam, deixam pegadas fortes,
Deixam um cheiro no ar, deixam uma sombra atrás delas...
E mesmo passando rápido, nós lembraremos por um bom tempo que ela, em algum momento, passou...
E as pessoas estão sempre passando...
Mas tem algumas pessoas que de repente param, e não passam mais, se fazem presentes, ficam...
Mas então, depois de um tempo, você percebe que ela continuou passando, só que junto com você, no mesmo ritmo, andando na mesma direção...
e as pessoas estão sempre passando...



10/11/2004

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