̶ Bom dia, Ana.
̶ Bom dia, Tom. Você já tomou seu café? Estamos
começando mais cedo hoje.
̶ Você está cada vez mais observadora, Ana. Vou
tomar café no escritório. Preciso de uma ajuda.
̶ Claro. Pode falar.
̶ Envie uma mensagem para o meu cardiologista.
Desmarque a consulta. Invente uma desculpa. Ou melhor, diga que estou indo
viajar e entro em contato quando retornar. Faça o mesmo com o psiquiatra.
̶ Entendi. Gostaria que acrescentasse que você
não tem data para retornar?
̶ Ótimo! Ana, outra coisa. Preciso que você analise
minha agenda do mês. Desmarque todas as reuniões que não forem extremamente
importantes.
̶ Certo. Já estou trabalhando nisso.
(silêncio)
̶ Tom, estou pensando. Qual o critério para “extremamente
importante”?
̶ Repita o padrão dos últimos dois meses.
̶ Ok. Entendi.
Ele está terminando de se
trocar. Coloca alguns papéis numa pasta. Pega o relógio e o celular.
̶ Tom, tarefas cumpridas. Enviei para o seu
e-mail apenas as reuniões extremamente importantes que foram mantidas.
̶ Obrigado, Ana. Só mais uma coisa. Entre no
meu app e chame um Uber. Vou para o escritório.
Tom pega uma pequena
mochila preta e a pasta. Abaixa a tela do notebook. Sai do apartamento. Entra
no elevador às 7h06. O elevador chega ao térreo.
̶ Bom dia, seu Tom.
Tom apenas balança a
cabeça. Estava ocupado olhando para a tela do celular. O porteiro abre o
portão. Em frente, um Uber já está esperando por Tom. Ao entrar no carro, diz de
modo seco:
̶ Procure fazer o caminho mais rápido. Estou
com muita pressa.
Não ouviu o que o motorista
respondeu, pois já havia enfiado os fones de ouvido sem fio nas orelhas.
Pensava por que o condomínio ainda mantinha aqueles porteiros. Já tinha passado
da hora de substituí-los por porteiros virtuais. Seria muito mais barato e mais
eficiente. A humanidade ainda perdia tempo com gente. Não via a hora de ter
carros autônomos com piloto automático circulando pela cidade. Tinha certeza de
que o trânsito seria muito melhor.
De repente sente seu corpo
deslocar-se violentamente para frente. O motorista freou bruscamente. Tom
levantou os olhos da tela. O que era aquilo? Um punhado de gente no meio da
avenida. Tudo parando nos dois sentidos. O que estava acontecendo? Ele sentiu o
coração palpitando. Era algum tipo de manifestação. Pessoas gritando qualquer
coisa que ele não ouvia. Ainda se fazia esse tipo de coisa? Cartazes. Vários
cartazes erguidos. Leu escrito em letras garrafais: "Não queremos Data Center em
nosso bairro”.
Ficou furioso. Sentiu o
coração acelerar. As mãos gelaram. Um zumbido tomou conta da sua cabeça. Retirou
os fones de ouvido e gritou com o motorista: “Atropele, passe por cima! Essa
gente é o atraso! Se dermos ouvidos a esses idiotas, corremos o risco de voltarmos
a 1500!”
O motorista, atônito, não
sabia o que fazer nem o que dizer. O passageiro parecia fora de si. Espumava.
Tinha os olhos arregalados. Estava visivelmente alterado. Parecia que ia
explodir.
̶ Senhor!... o senhor está
bem?
Notou que ele tinha
dificuldades para respirar.
̶ Senhor, devo chamar um médico?
Com muito esforço ele
conseguiu dizer:
̶ Não. Fale com Ana. Ela saberá o que fazer…
̶ Sua esposa? Sua secretária? Qual o número?
Ele apertava o peito. Tentava
desabotoar a camisa. Transpirava. De repente tinha ficado completamente pálido.
O motorista ainda tentou:
̶ Senhor, quem é Ana?
Depois de alguns
segundos, ele balbuciou:
̶ Minha assistente...
E estendeu a mão entregando
o celular ao motorista…
| Image by DAMIAN NIOLET , do Pixabay |
Nenhum comentário:
Postar um comentário