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05 maio 2025

Pelo direito à leitura!

Uma amiga me envia um vídeo através do qual fico sabendo que no topo dos livros mais vendidos em abril de 2025 no Brasil estão livros para colorir para adultos. Seguidos por livros de autoajuda e religiosos. Trocamos algumas mensagens de indignação. Professoras que somos, lamentamos. O que está acontecendo? Livros de colorir para adultos? Cadê os livros de literatura?

Uma notícia na Folha de São Paulo ajuda a entender o cenário: Desde 2018, quase 1/3 do Brasil tem dificuldade de entender um texto simples ou de fazer contas, diz a chamada na página principal do diário. Segundo estudo coordenado pela Ação Educativa, o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional), que entrevistou 2.544 pessoas em todas as regiões do país, o Brasil estagnou na redução do analfabetismo funcional e a condição atinge 29% da população de 15 a 64 anos. Ainda segundo o estudo, a maioria dos analfabetos funcionais seriam pessoas mais velhas, 65% deles têm entre 40 e 64 anos. No entanto, há ainda uma proporção significativa entre os jovens de 15 e 29 anos e com os que têm entre 30 e 39 anos, ambos com 17%.

E a questão me parece mais grave: 17% da população que concluiu o ensino médio ainda está no nível do analfabetismo funcional; e  12%  dos que concluíram o ensino superior, ainda estão nessa condição. Esses números nos levam mais uma vez a encarar o sério problema que é a qualidade da educação em nosso país. E com o agravante da ampliação do acesso da população à internet: quanto menos alfabetizado, maior os riscos de cair em golpes, em ser enganado por desinformação.

Além do prazer que pode nos proporcionar, da possibilidade de nos humanizar através das páginas de bons livros de literatura, de ampliar nossa visão de mundo, a leitura é também uma questão de necessidade. Alguém que não é capaz de compreender um texto simples, uma notícia, um manual, não poderá exercer sua cidadania plenamente. Terá sua liberdade cerceada.

Mas sempre que o assunto é o hábito de leitura da população, nos vemos em debates pouco frutíferos. Fala-se da falta de uma cultura leitora, dos altos preços dos livros, da falta de tempo da maioria dass pessoas, tão atribuladas e esgotadas por jornadas de trabalho massacrantes (Pelo fim da escala 6x1 já!), do impacto das redes sociais... Tudo isso são pontos importantes e que merecem ser discutidos seriamente. Mas a grande questão é como formar leitores? Como estimular as crianças a iniciarem sua jornada de leitores? Como não perder esses leitores quando se tornarem adolescentes, jovens?

Imagem retirada do Pixabay.com

E parece que estamos num ciclo vicioso: penso que a formação dos pequenos leitores depende de exemplo. Portanto, de adultos leitores que possam partilhar esse hábito – melhor seria, essa paixão – com os pequenos. Se isso é difícil em casa, a escola deveria cumprir essa função. Mas quantos professores leem por prazer, por amor? Quantos têm tempo para se dedicar a leitura que não sejam aquelas obrigatórias – documentos, relatórios, e-mails, etc? 

Entender que isso também impacta na qualidade da educação e no êxito ou fracasso das nossas práticas de alfabetização pode ser um caminho para fazermos algo diferente. Políticas públicas que contemplem a formação e o cultivo de professores leitores e que estimulem as famílias e a sociedade, de maneira geral, a reconhecerem a leitura – principalmente a leitura literária – como uma necessidade e um direito de todos os seres humanos, podem nos ajudar a mudar os números tristes do estudo noticiado hoje.

03 junho 2020

Sobre a necessidade de compreeder o hoje para que amanhã possa ser maior

Amanhã vai ser maior, de Rosana Pinheiro-Machado, é um livro fundamental para compreendermos como chegamos onde chegamos, mas também para apontar caminhos e possíveis saídas desse buraco no qual nos encontramos. O que aconteceu - e o que está acontecendo - com o Brasil, são perguntas que têm atormentado muitos brasileiros desde 2013. Do gigante acordou para a eleição de Bolsonaro, passando por um impeachment pra lá de questionável, esse é o itinerário que a autora nos convida a percorrer.

A leitura de Pinheiro-Machado das jornadas de 2013, bem como de outros eventos e fenômenos que deixaram muitos de nós sem fôlego e incrédulos, é potente e muito fértil. Ela foge dos caminhos fáceis, encara a complexidade e a contradição que permeiam movimentos como aqueles de junho de 2013, mas também os Rolezinhos de 2014, as ocupações secundaristas das escolas em 2016 e a greve dos caminhoneiros de 2017. Fugindo do maniqueísmo, traz indivíduos, com suas histórias, suas vidas, com suas incoerências, frustrações e esperanças. Do começo ao fim, somos chamados a ouvir o outro, mais do que julgar e rotular, a entender os motivos que levaram o outro às suas escolhas.

Como intelectual, Rosana Pinheiro-Machado convida aqueles que se identificam com o campo da esquerda ou com o campo progressista a abandonar o olhar elitista que parece, muitas vezes, buscar um 'povo' idealizado e que quando encontra o povo real, em suas contradições, tende a culpabilizá-lo por ele não se adequar às suas idealizações, ou mesmo ridicularizá-lo, preferindo virar as costas a esse povo real, tratando-o como ignorantes ou manipulados que, por terem cedido ao inimigo, merecem mesmo é sofrer. Nas palavras da autora, "chamar o trabalhador pobre que votou em Bolsonaro de fascista e coxinha não ajuda em nada nessa batalha ideológica que estamos perdendo feio" (p.128). Se queremos vencer o Bolsonarismo, precisamos de um projeto claro, um projeto capaz de apresentar soluções para os problemas concretos do dia a dia das pessoas. E alguns podem se perguntar: mas que problemas são esses? E Rosana nos dá dicas: falta de comida, compra de votos, assaltos sofridos na parada de ônibus, emprego precário (p.131).

Mais do que apontar erros e acertos de figuras públicas, partidos e grupos ao longo dos últimos anos, Pinheiro-Machado nos chama a um olhar realista, desapegado de paixões, mas capaz de perceber o surgimento de novos afetos, novas maneiras de fazer política. Se durante a leitura somos tomados, em certos momentos, pelo desânimo diante da lembrança de que saiu vitorioso das urnas em 2018 um não-projeto muito bem empacotado num discurso moralista, que mal disfarçava preconceitos de todas as ordens, num discurso violento e autoritário cuja resposta para a crise de segurança vivida pelo país era a promessa de armar a população, Rosana joga luz nas transformações que podem ser percebidas apesar desse resultado. Foca o nosso olhar para a mudança que está em construção, na potência encontrada nas falas de meninas e adolescentes da periferia, nas ocupações secundaristas, mas principalmente no #EleNão em 2018.

                                   "O momento mais emocionante para mim foi encontrar uma aluna que levava sua mãe e sua avó. Elas eram de um município muito pequeno e moravam no campo. Nunca haviam participado de uma manifestação antes. Minha aluna me contou que elas seguiam o voto do homem na família, que não gostavam de política e que agora seguiriam uma mulher pela primeira vez. A avó, com muita dificuldade de caminhar, estava maravilhada com o ato, e me disse: "Que beleza isso daqui. É a força das mulheres." (p.173)

É nessa "força das mulheres de uma nova geração" que Rosana encontra respaldo para sua esperança. Mulheres como Marielle Franco que mesmo tendo sido vítima do racismo, do machismo, da violência, do ódio e da milícia, segue sendo exemplo e dando frutos. Segundo a antropóloga, "existe toda uma nova geração de feministas, e elas foram fundamentais na contenção do crescimento de Bolsonaro no bairro em que moram." (p.174) E, como diz a autora, "é uma questão de tempo, as adolescentes feministas vão crescer, e o mundo institucional terá que mudar para recebê-las." (p.176)

Minha questão é: por onde faremos essa mudança institucional? Se Rosana está certa, e há bons motivos para acreditarmos que ela está, o bolsonarismo é a expressão de uma geração que cada vez mais perde espaço, que luta "em vão para barrar o futuro" (p.181), que se sente ameaçada diante das mudanças pelas quais a sociedade passa. No entanto, é fato que essa "geração que resiste ao futuro" continuará votando, continuará influenciando políticas públicas e devem ser levadas em consideração na política institucional, pelos partidos e nas próximas eleições. Como não sucumbir nas urnas? Para mim, a resposta também está dada no livro de Rosana Pinheiro-Machado: no parlamento. Ao falar da deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, a autora afirma:

"ela encarna as lutas das minorias ao mesmo tempo que resgata uma linguagem dos laços de amor da família e da comunidade. A deputada também produz um discurso mais universalista que dialoga diretamente com os anseios da classe trabalhadora, com frequência saqueada: tiram dela emprego, segurança, sistema de saúde e educação. Em suma ao falar do amor e das dificuldades da vida cotidiana, ela atinge temas básicos que tocam no âmago dos anseios populares - assuntos que, apesar de essenciais, no Brasil têm sido deixado de lado pela grande narrativa da esquerda."(p.175-176).

Ainda que a potência desse amanhã que, esperamos, será maior, esteja sendo construído hoje por mulheres, mulheres negras, movimentos negro e indígena, movimento LGBTQI+, o Brasil de hoje precisa de um projeto amplo, capaz de abraçar as reivindicações das minorias, mas principalmente capaz de oferecer uma proposta universalista que dialogue com os anseios da classe trabalhadora, precarizada e saqueada cotidianamente. No plano institucional, para disputar cargos no executivo, principalmente na esfera federal, o foco nessas propostas universalistas deve ser a tônica dos projetos a serem construídos: empregos de qualidade, educação, saúde, segurança, combate à corrupção. Já para disputar as cadeiras dos legislativos, nas três esferas, temos que seguir os exemplos exitosos da Bancada Ativista, investindo na construção de bancadas feministas, bancadas indígenas, enfim, levar as discussões das pautas de minorias para o parlamento, ajudando a construir uma nova sensibilidade popular para grupos historicamente excluídos e marginalizados. Tornar o parlamento verdadeiramente a casa do povo, dando voz a diversidade que compõe o povo brasileiro. Os partidos que aceitarem o desafio de construir esse amanhã, devem começar a mudar hoje as suas prioridades, abrindo espaços e apoiando e construindo um legislativo que seja de fato a cara do povo brasileiro. Fortalecer candidaturas de mulheres, de indígenas e negros, de pessoas LGBTQI+.  Assim, acredito que, num futuro próximo, poderemos ter um país maior.

24 março 2020

Educação a distância em tempos de pandemia: dúvidas, angústias e algumas reflexões

 Estudante, Ensino, A Distância, Escola

Eu faço parte de um grupo de pessoas privilegiadas. Não sou rica, estou bem longe disso, mas meus privilégios são muitos: tenho formação de nível superior por uma universidade pública de ótima qualidade, sou funcionária pública federal concursada e, nesse contexto de pandemia, estou no conforto da minha casa, enquanto milhares de pessoas por esse país - inclusive parentes meus - seguem suas vidas e seus trabalhos expostos ao vírus. É no conforto da minha casa que abro o meu computador e escrevo esse texto que, posteriormente, irei compartilhar através da internet. 

Mas as coisas não foram sempre assim. Em 2004 quando eu saí da pequena Delfim Moreira para morar em Campinas, minha família achava que era uma loucura. E talvez fosse mesmo. Eu deixei o emprego que eu tinha, com carteira assinada, para vir fazer um curso de Filosofia. Meu pai, que sempre ganhou pouco mais do que um salário mínimo, não tinha como me mandar dinheiro. Eu sabia de tudo isso, mas sabia também que havia na Unicamp programas de assistência estudantil - bolsas, aquelas que o atual ministro da educação se orgulha de nunca ter precisado de nenhuma, mas eu precisava. Tive bolsa moradia, bolsa trabalho e bolsa alimentação. Pouco tempo depois troquei a bolsa trabalho - se não estou enganada, na época era algo em torno de 500,00, por uma bolsa de iniciação científica da Cnpq, que não chegava a R$ 300,00. Foi uma escolha. Eu achava que seria bom para a minha formação. E foi. Depois consegui uma bolsa Fapesp, que pagava melhor, mas foram anos de muita economia. Passei bons anos sem comprar uma calça ou um tênis. Mas deu tudo certo. Me formei, entrei no mestrado, concluí meu mestrado. Eu não tinha computador na moradia, contei com a ajuda e solidariedade de muitos amigos para fazer meus relatórios aos finais de semana e madrugadas afora. Quando essa semana tenho que ler de um colega que "quem quer estudar arruma um jeito", eu tenho que concordar, afinal eu sempre arranjei meus jeitos. Mas minha questão é: será que está certo naturalizar e até romantizar os sacrifícios que algumas pessoas precisam fazer para conseguir estudar? 

Essa reflexão surge num momento muito delicado que enfrentamos essa pandemia do coronavírus. As mortes já ultrapassam 17 mil no mundo. Itália, Espanha, EUA já convivem com centenas de morte diárias. Infelizmente nas próximas semanas essa será a nossa realidade. E dadas as nossas condições sociais de extrema desigualdade e pobreza, temo muito que o cenário seja ainda mais catastrófico que aquele que se vê hoje na Europa. Desde semana passada algumas instituições de ensino, de maneira prudente, optaram por suspender aulas presenciais. E foi aí que começou a panaceia da EaD - Educação a Distância. Algumas decisões tomadas a toque de caixa, com as melhores das intenções - eu realmente acredito e quero acreditar nisso - lançaram vários professores nesse novo cenário. E o desespero não foi só de professores - que nunca pensaram em trabalhar com suas disciplinas na modalidade EaD - este é o meu caso específico -, mas também de muitos alunos que, de repente, foram bombardeados por um sem fim de materiais e ferramentas e lives e afins. Pois muitos professores pareciam já estar com seus cursos totalmente adaptados para a nova modalidade de ensino-aprendizagem. Confesso, não sou eficiente como esses colegas, estou atrasada, me sinto perdida e cobrada por coisas que não estavam nos meus planos.

Os otimistas, aqueles que têm tudo sob controle, eficientes e inovadores, dão notícias: minhas aulas estão sendo um sucesso, os alunos estão adorando! fiz uma live e de uma turma de 40 tinha 31; eu digo, a maioria tem acesso; os alunos se adaptam fácil, na verdade eles já vivem na internet, vai ser muito mais tranquilo; eles vão dar um jeito, é só querer; além do mais, EaD não é só live, tem muitas outras ferramentas; e é muito simples, qualquer um consegue, até as crianças dão conta; na verdade, trabalhar de casa é ótimo, depois poderíamos tentar continuar assim...

Mas também chegam notícias do outro lado, dos mais diversos lugares, e as angústias, dúvidas e questionamentos de repente se encontram: mas os alunos têm acesso à internet? eles têm computador em casa? eles terão condições de estudar? como está a situação familiar desses alunos? os pais continuam trabalhando? já estavam desempregados? e o auxílio estudantil, continuarão recebendo mesmo com as aulas presenciais suspensas? e os celulares, comportam todas essas ferramentas de EaD? os pacotes de dados permitem que participem de lives? têm irmãos menores para cuidar? têm pessoas doentes em casa? estão esgotados e com medo? têm pai alcoólatra e violento em casa? tem um bebê pequeno e a mãe acha que agora que não têm aulas é sua função cuidar do bebê? são tantas coisas...

E entre uma conversa e outra, vemos que não é só entre os alunos que podem existir dificuldades: gente, estou em casa com um adolescente e duas crianças, não é fácil preparar aulas e material desse jeito; nossa, estou com duas crianças em casa e estou ficando louca; eu só tenho uma filha, mas é pequena, não entende que preciso trabalhar; nossa, dispensei a diarista, tenho que cuidar da casa, do almoço, e dar conta dessas crianças que já estão inquietas porque não podem sair de casa; tenho que cuidar da minha casa e dos meus pais; estou cuidando da minha mãe e com a cabeça estourando com essas notícias desastrosas, não consigo me concentrar e tenho que gerenciar essas salas de aula virtuais, com alunos reclamando que estão com dificuldades e alunos justificando que alguns colegas não conseguirão acessar o material porque não têm acesso à internet...

Sim, estamos todos vivendo tempos difíceis. Estamos no meio de uma pandemia, estamos em isolamento, veremos as prateleiras do supermercado se esvaziarem, veremos muitas mortes, ficaremos sem ver pessoas queridas. Não estamos vivendo um período de normalidade - no caso do Brasil, eu diria que faz tempo que não estamos vivendo tempos normais, mas que foram sendo normalizados, infelizmente. Não dá para continuar como se tudo estivesse normal. Não dá para trabalharmos para normalizar essa situação de exceção. 

Eu confesso que as tecnologias não são exatamente meu assunto preferido. Eu não gosto de EaD, como aluna, fiz uma pós por EaD. Eu sou uma pessoa disciplinada, estudar sozinha não foi um problema, mas eu senti muita falta da interação, das discussões, da possibilidade de fazer uma pergunta durante a "aula". Enfim, parecia sempre que estava faltando alguma coisa. Como professora, eu uso o mínimo de tecnologia no meu cotidiano: uso e-mail para me comunicar com alunos, uso o sistema para notas e demais tipos de burocracias necessárias, uso o celular para músicas e pesquisas em sala. O básico mesmo. Não consigo me imaginar dando aulas por videoaulas ou por lives, sem poder ver os alunos. Mas não são apenas meus gostos pessoais por EaD que me colocam na defensiva quando vejo a exaltação dessa modalidade de ensino. Meus problemas são também de ordem pedagógica-metodológica e socioemocional.

Ouço e leio muitas coisas que mostram que há uma grande confusão entre as ferramentas que podem nos auxiliar no processo de ensino-aprendizagem e a metodologia, propriamente dita. Já ouvi muita gente defendendo inovação na educação, falando mal de uma tal metodologia tradicional, e apostando todas as sua fichas na tecnologia. Mas vamos por partes. O que seria uma videoaula ou uma live? Para mim seria um ótimo exemplo de uma metodologia tradicional de ensino, centrada no professor, que figura como fonte do conhecimento, que é despejado no aluno, receptor e folha em branco, que permanece totalmente passivo nesse processo. O fato de dispormos de tecnologia que permita gravar essa aula-palestra e enviá-la para muitas pessoas via internet, não muda em nada a metodologia e a concepção de ensino-aprendizagem que está por trás dessa ação. Eu sei que na live há a possibilidade de interação, mas ela também é comprometida e limitada. E alguém pode dizer: Francine, mas estamos em tempos de exceção. Eu respondo, sim, mas estamos nos esforçando por normalizar esse tempo de exceção e futuramente esse momento poderá ser defendido como o novo normal. Passada a crise, quem garante que não vamos embarcar na defesa pura e simples da EaD para todos os níveis da educação? Durante campanha eleitoral, o então candidato Jair Bolsonaro, defendia em seu programa EaD desde o Ensino Fundamental. O tempo de agora é de exceção, e temos que tomar cuidado para não torná-lo o novo normal. 

Do ponto de vista socioemocional, o tempo de exceção que vivemos, de reclusão, isolamento ou afastamento social - todas essas expressões soam incômodas porque justamente nos falam dessa condição que não nos é nada natural - trará graves consequências emocionais e psicológicas e poderá agravar quadros que já agora são complicados. Isso somado às condições econômicas e sociais que também irão se deteriorar, e muito mais rapidamente entre aqueles que já são normalmente mais fragilizados e penalizados pela desigualdade brutal que assola esse país, nos apontam para um cenário complexo. Se não tivermos um olhar empático, solidário e humano para com nossos alunos e seus familiares, todas as nossas boas intenções poderão se tornar fardos ainda mais pesados para serem carregados por eles. Acho muito precipitado afirmações como: não podemos perder o semestre; não devemos alterar o calendário e outras na mesma direção. Nos próximos meses (abril, maio e junho) deveremos enfrentar o cenário que ora se faz presente na Itália. Não temos como prever quando retornaremos à normalidade nem se haverá essa normalidade. 

Teremos uma sociedade devastada por mortes e privações das mais variadas e uma economia estagnada. O Brasil ainda tem um cenário político desafiador, com um governo incapaz de se ater a realidade, que delira, que vive de fantasias, que cria inimigos e crises para além das que já estão nos afetando. Sinceramente, não sei como ter cabeça para iniciar agora, nesse contexto, uma formação para TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) ou para EaD. 

Do conforto da minha casa, do alto do meu privilégio nesse momento da minha vida, eu me pego pensando naqueles que são tratados como "exceção", que não fazem parte da "maioria" que supostamente terá condições físicas, mentais, emocionais para seguir seus cursos e disciplinas. Aqueles que "depois a gente vê o que faz" ou que "no retorno a gente faz um reforço". Eu estive durante a maior parte da minha vida do outro lado, sendo a "exceção". Durante minha graduação e mestrado fui sempre exceção - vinha de família pobre e de baixa escolaridade, de escola pública, tinha começado a trabalhar bem cedo, não tinha tido acesso a bens culturais como cinema, teatro, museu, era uma mulher num curso predominantemente de homens. E sim, tive que dar meu jeito, que me esforçar, que correr atrás. E não é agora como professora que eu fiquei "folgada" ou "braço-curto" como alguns colegas parecem sugerir ao ignorar todas as dificuldades que os alunos e mesmo alguns colegas irão ter que enfrentar para garantir uma "certa normalidade". A questão é: até quando vamos seguir "normalizando" as situações de exceção? É justo jogar o ônus do "se vira, dá seu jeito" nas costas dos alunos? Sinto que isso passa por um concepção de "meritocracia à brasileira". Valorizamos os esforços do vencedor sem problematizar a ideia de vencedores. Romantizamos os sacrifícios em nome da recompensa. 

Enfim, sei que já me estendi demais, talvez poucos cheguem até o fim desse texto. Eu sigo com minhas angustias e inquietações, sem perder de vista as "exceções". Afinal, nesse momento não se trata de um critério de eleição no qual "a maioria" vence. Se um está ficando para trás, estamos falhando, e é simples assim.

19 março 2020

O que será que nos espera logo ali na frente?

O que será que nos espera logo ali na frente?
Agora, nesse instante passageiro, somos incerteza,
medo e um pouco de solidão?

O que será que nos espera logo ali na frente?
Haverá futuro para nós?
Para todos?

Agora, nesse instante breve e frágil, somos incerteza,
medo e um pouco de solidão. Ou seria silêncio apenas?
Alguns de nós, privilegiados, estamos em nossas casas,
reclusos, assustados, é verdade, mas protegidos.
Mas e os outros? Os tantos outros que não podem parar?
Haverá futuro para eles?
Para todos eles?

Havia futuro para eles antes disso tudo começar?
E se o problema não for a pandemia, o coronavírus?
E se o problema for a desigualdade brutal com a qual nos acostumamos diariamente?
E se o problema formos nós?
Nosso egoísmo, nossa indiferença, nossos ressentimentos, nossa arrogância, 


O que será que nos espera logo ali na frente?
As redes que já nos distanciaram
serão capazes de nos fazer comunidade e trazer união?
As redes pelas quais tantas mentiras e ódio foram disseminadas
poderão agora nos informar e trazer conforto, um pouco de afeto?

O que será que nos espera logo ali na frente?
Estou em casa, faz-se silêncio,
mas ao mesmo tempo tem tanto ruído, tanta linha cruzada,
pessoas falando sozinhas numa imensidão virtual.

Meu coração palpita, as mãos transpiram,
os olhos turvam.
Tenho medo! Ou será que é o medo que me tem?
Vontade de desligar tudo,
de sair caminhando, de encontrar pessoas,
de dançar, não sei!
Está tudo confuso...

O que será que nos espera logo ali na frente?
As mortes já se fazem anunciar.
As projeções, os gráficos, os números,
tudo tão desolador!
Enquanto isso nossas otoridades usam máscaras
e brincam de war num tabuleiro nada virtual.
Entre mentiras, inconsequências e bravatas, 
haverá futuro para nós?


Agora, entre o passado e futuro, nesse intervalo
virtual e potente,
nossa única certeza é que somos. E ser agora
tem uma leveza insustentável.

O que será que nos espera logo ali na frente?

18 julho 2019

Amaral pode estar certa. Tábata errou e continua errando.

Enquanto cientista política formada por Harvard, ex aluna de Steven Levitsky, um dos autores de Como as democracias morrem, Amaral pode ter bons motivos para insistir na urgência de construirmos pontes para o diálogo na política. Pode ter bons motivos para dizer que a polarização é perigosa e ameaça a democracia. É provável que Amaral tenha lido O povo contra a democracia, de Yascha Mounk, outro harvardiano, e por isso tenha outros tantos bons motivos para se preocupar com as brechas que essa polarização abre para a ascensão e permanência no poder de populistas, como Bolsonaro. Afinal, como afirma Mounk, "na maioria dos países, os populistas só alcançaram o cargo máximo porque seus adversários fracassaram em concluir um pacto eleitoral" (p.12). Levitsky e Ziblatt são categóricos: "a polarização extrema é capaz de matar democracias" (p.20). 

Na condição de cientista política, Amaral faz bem em se afastar de "amarras ideológicas" para buscar compreender o cenário brasileiro. Na condição de cientista, a busca por neutralidade é saudável e até recomendável. Como cientista política, Amaral está bem acompanhada ao afirmar que parte da esquerda se afastou da sociedade e que seria importante resgatar esse diálogo. Para Mounk, o abismo crescente entre classe política e sociedade, entre representantes e representados, é um dos elementos chave para entendermos a ascensão de populistas mundo afora (p.287-288). 

No entanto, na condição de deputada eleita por um partido de esquerda (ou centro-esquerda, não vou entrar no mérito dessa discussão), Tábata errou ao votar a favor da PEC 06/2019. Errou ao contrariar a decisão do seu partido. E seu maior erro foi justamente ignorar seus eleitores. Eu faço parte desses eleitores ignorados e venho observando, pelas reações em redes sociais, que não estou sozinha em minha discordância com o voto da deputada. Tábata ludibriou seus eleitores com um discurso ambíguo - agora tenho certeza disso. Durante o processo de discussão da PEC 06/2019 - erroneamente chamada de Reforma da Previdência (conforme discuto aqui), a deputada afirmou diversas vezes ser favorável a uma reforma, mas não àquela apresentada pelo governo. Esse discurso me pareceu coerente, uma vez que o PDT foi o único partido a apresentar uma proposta séria de Reforma da Previdência no período eleitoral, proposta esta que se converteu em um substitutivo apresentado pelo partido na Comissão Especial da Reforma da Previdência. O PDT não negou a necessidade de uma reforma. No entanto, desde março o partido fechou questão contra a PEC 06/2019 na sua XXV Convenção Nacional. O Carlos Lupi, presidente do PDT, foi muito claro na ocasião: "nós temos que discutir com o povo brasileiro, o que o Ciro fez na campanha e nós temos que aprofundar e aprimorar, a nossa reforma da previdência. Mas dar legitimidade a essa, é rasgar a nossa história" (fala completa aqui). 

As justificativas apresentadas por Tábata para seu "voto de consciência" não são coerentes. No mínimo mostra que ela não prestou atenção nas incansáveis análises feitas por Ciro Gomes durante os últimos meses. Ignorou as análises técnicas feitas pelo seu partido. Onde estava Tábata durante as discussões feitas pelo partido? Se ela não concordava, por que não falou? Por que não se manifestou? Por que não foi mais clara com seus eleitores? Por que não contribuiu com a divulgação de dados e informações que pudessem justificar seu posicionamento? Por que fazer isso apenas algumas horas antes da votação? 

Apresentar emendas ao texto base da PEC 06/2019 para mim fazia parte do diálogo. Tentar construir consensos a respeito de injustiças mais gritantes, como as mudanças do BPC, a aposentadoria dos rurais, das mulheres, dos professores, dentro de bancadas com partidos que são da base do governo, como a bancada das mulheres ou a bancada da educação, isso para mim fazia parte do processo de diálogo. Mas em nenhum momento passava pela minha cabeça um voto a favor do texto base. É verdade que o texto votado sofreu mudanças no Congresso, que o relatório do deputado Samuel Moreira diverge do texto original do governo. Mas é inegável o DNA do governo e do Paulo Guedes nessa PEC. Um DNA de quem só enxerga números, obcecado com a economia de 1 trilhão; um DNA de desmonte da Seguridade Social e demais políticas sociais, como a do abono salarial. Em essência o texto base aprovado no Congresso, com o voto favorável de Tábata e outros deputados do PDT, mancha a história do partido e seu compromisso com os trabalhadores. É grave, muito grave o que esses 8 deputados fizeram. Mas agora isso é um problema para o PDT (e para o PSB que teve 11 deputados contrariando a orientação do partido). Uma decisão muito delicada, na minha opinião, que pode beneficiar outros partidos, ao promover o aumento de suas bancadas com a filiação dos expulsos, caso se decida pela expulsão. 

Mas Tábata continua errando. Seu artigo de hoje na Folha de São Paulo fala de ousadia, mas parece que estamos diante de uma jovem inteligente e talentosa que está deslumbrada com o recente sucesso que sua atuação no  Congresso alcançou nas mídias sociais e na imprensa em geral. É bem verdade que ela mereceu esse sucesso. Fez a lição de casa direitinho e derrubou um ministro incompetente e despreparado. Mas agora, a jovem deputada se acha no direito de enfrentar o partido que a acolheu, reclama por mais democracia interna, reclama de perseguição política, ataques a sua honra, falta de diálogo. Minha dúvida: por que essas diferenças com o partido não apareceram há meses atrás? Onde estava Tábata quando o PDT estava discutindo a proposta do governo? Por que ela não reclamou da falta de democracia interna em março, durante a Convenção Nacional do PDT? Estaria a Tábata reunida com seus outros partidos? O Acredito? Ou o RenovaBR? Ou ainda, estaria ela reunida com empresários como Paulo Lemann enquanto o PDT discutia os problemas da proposta do governo?

Relutei muito em aceitar essa possibilidade, já aventada por amigos durante as eleições. Eu pensei que era a velha esquerda tentando desacreditar uma nova forma de fazer política que se apresentava. As divergências teóricas entre Tábata e a esquerda brasileira nunca me passaram despercebidas. A formação em Harvard a colocaria, de partida, mais à direita dos partidos tradicionalmente de esquerda no Brasil. Uma Democrata, ao estilo estadunidense. Mas acho que me enganei feio. Não se tratava só de uma questão teórica. Pode até ser que Amaral, a cientista política, de fato esteja onde eu pensei que ela estivesse. Mas Tábata, a deputada, está navegando por outras águas. Ao eleger os 'partidos' como seu alvo nesse último artigo, Tábata corre o risco de contribuir para que o descrédito com eles só aumente e com isso o descrédito da população com a democracia representativa. E nesse sentido, Tábata se afasta de Amaral, e abre ainda mais as brechas para populistas e oportunistas que se aproveitam muito bem desse descrédito da população com o nosso sistema político. Diminuir a influência do dinheiro no sistema político é um dos remédios apontados por Mounk para salvamos a democracia (p.288). Temo que a influência do dinheiro - e não falo de voto comprado no Congresso nem de nenhuma outra forma de corrupção - tenha falado mais alto em Tábata. O triste "episódio Tábata Amaral" é um alerta para pensarmos a influência de Fundações e Instituições, aparentemente cheias de boas intenções e nobres causas, financiadas por grandes empresários, nesse tabuleiro, já complexo, da política brasileira. Não duvido que Tábata tenha votado com convicção. A questão é: como essa convicção foi construída? Qual o papel da Fundação Lemann na construção dessa convicção? Qual a influência da Fundação Lemann nos ideais de iniciativas como o Movimento Acredito?

Pode ser que a formação de Amaral esteja diretamente conectada com os caminhos trilhados por Tábata. No entanto, isso não me parece suficiente para negar a possibilidade de outras formas de agir por parte da esquerda, do campo progressista. Continuo acreditando na importância do diálogo como caminho para vencer os riscos do populismo à democracia. Mas, ao contrário de Amaral, entendo que esse diálogo deveria ser, prioritariamente, dentro do campo progressista. Por outro lado, ao contrário de parte da esquerda, acredito que é preciso dialogar com a direita sim. Mas esse governo não é a direita. É a extrema direita. O DNA dessa reforma, aprovada com o voto de Tábata Amaral, é da extrema direita. Amaral pode estar certa, quando ecoa os argumentos de Levtisky em favor do diálogo e da coalizão para além dos nossos aliados naturais (p.207), mas o Brasil não é os EUA. E embora Bolsonaro se esforce em ser um arremedo de Trump, o cenário político brasileiro tem contornos próprios que a jovem deputada parece ignorar nesse momento. A reforma que ora se encaminha vai aprofundar desigualdades. Esse cenário no curto e no médio prazo tende a aumentar a insatisfação da população com a política e torná-la ainda mais suscetível ao discurso  redentor e às soluções simplistas. Em breve a população verá que essa reforma não trará empregos como seus defensores alardeavam. E o que virá depois? A retórica bolsonarista tentará canalizar a revolta da população contra algum inimigo: o congresso? o STF?  Talvez o mais provável mesmo seja que Tábata Amaral não tenha lido Yascha Mounk. Acredito que essa leitura lhe cairia bem. Tanto Como as democracias morrem como O povo contra a democracia me parecem leituras obrigatórias para aqueles que estão preocupados com a sobrevivência da democracia num momento de ascensão populista pelo mundo. Ambos oferecem chaves de leitura muito interessantes para o mundo contemporâneo. Mas como já disse, o Brasil não é os EUA. Como política, como deputada, Tábata poderia ter prestado um pouco mais de atenção em Ciro Gomes, para entender um pouco melhor o cenário brasileiro, as peculiaridades da política local. Talvez esse tenha sido o meu erro: apostar que no PDT, junto de Ciro Gomes, ela pudesse ampliar seu olhar para além da pauta da educação - tão cara a mim - enxergando um cenário mais complexo. Talvez essa possibilidade nunca tenha existido. Pode ser que eu tenha errado na minha aposta, me negando a enxergar o que já estava claro para outros, só por querer acreditar (veja a ironia) que havia alternativas para o campo progressista.

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Algumas sugestões de vídeos interessantes a respeito do "episódio Tábata Amaral"

Henry Bugalho
Eduardo Moreira

 Obras citadas:
Levitsky, Steven, Ziblatt, Daniel, Como as democracias morrem, tradução Renato Aguiar, Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

Mounk, Yascha, O povo contra a democracia, tradução Cássio de Arantes Leite e Débora Landsberg, São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


16 julho 2019

A escola, a capacidade de se sonhar e a urgência de políticas públicas eficientes na Educação

Quatro convicções acerca da Educação

Mais um mês de julho, mais um início de férias. Eis que me pego perguntando por que tenho tanta dificuldade de descansar, de parar, de aproveitar “as férias”. Na maioria das vezes, inicio o mês de julho com uma lista de coisas a fazer e dessa vez não foi diferente: livros para ler, textos para escrever, projetos para o próximo semestre escolar, rever planos de aula, etc. Durante esta tarde me pus a pensar sobre os motivos para esse comportamento. Tirando o fato de que a maioria dessas atividades me são imensamente prazerosas, cheguei a uma possível explicação. Por vota dos meus 13 anos, o mês de julho e também os meses de dezembro e janeiro – meses de férias escolares – começaram a significar período de trabalho. Comecei trabalhar no comércio, cobria férias de funcionários de uma loja ou simplesmente era chamada para cobrir maior demanda de período de natal. Julho, dezembro e janeiro passaram a ser sinônimo de período de trabalho! Depois, durante a faculdade, os meses de férias coincidiam com os períodos de entrega de relatório, portanto, mais trabalho. Talvez no meu subconsciente essa informação tenha permanecido até hoje – quando finalmente parece que passou ao nível da consciência – fazendo que, como observou certa vez meu companheiro, eu tivesse um sentimento de culpa que me impedisse de desfrutar minhas férias. Quem sabe, daqui pra frente as coisas mudem. Como mudou minha vida, desde que eu tinha lá meus 13 anos. Já naquela época, eu tinha sonhos de frequentar uma faculdade, de morar em outra cidade, de fazer coisas que ninguém até então havia feito na minha família. Lembro bem que, naquela época, eu queria ser advogada. Depois, quis ser jornalista, psicóloga, historiadora e eis que estou aqui, professora de filosofia, de férias! 

Foto gentilmente cedida pela dona Nenê
De onde vieram os sonhos?  Como eles puderam se tornar realidade? E o quanto isso mudou minha vida? É sobre isso que gostaria de escrever hoje. Foi na Escola Estadual Marques de Sapucaí, em Delfim Moreira, que descobri a existência das Universidades Públicas. Mais precisamente, nas aulas de matemática, ministradas pelo professor João Viana, que desde a 6ª série nos falava dessas instituições (EFEI – hoje UNIFEI, ITA, USP e tantas outras). Ao longo da nossa trajetória escolar – João Viana acompanhou minha turma da 6ª série até a formatura no Ensino Médio – foram muitos os exercícios desafios dessas instituições inseridos em nossas provas, listas de exercícios, pontos extras durante as aulas. E não eram só os exercícios. Eles eram acompanhados de discursos de um velho professor – que havia dado aulas para minha mãe – rígido e apaixonado pelo que fazia, que sempre falava da imensa satisfação que sentia quando um de seus alunos passava no vestibular. Certa vez, já estava no Ensino Médio, durante a aula, um ex-aluno apareceu na porta da sala de aula, todo sujo de ovo e trigo para dizer que havia sido aprovado na EFEI, no curso de engenharia elétrica. A alegria do João não podia ser mais sincera. Eu alimentei o sonho de um dia fazer o mesmo: ir até o professor contar que havia sido aprovada no vestibular. E pude fazê-lo anos mais tarde, quando ele já estava aposentado. Infelizmente, no dia que sai meu resultado de aprovação na Unicamp, ele estava internado, mas fiz questão de ligar para sua casa e pedir para sua esposa que lhe contasse a novidade. Mas esse sonho só se tornou realidade, porque além do professor João eu tive muitos outros professores e professoras que, de maneiras distintas, me ensinaram a sonhar com uma realidade que, por muitos motivos, teria sido impossível sem eles. Preciso recuar um pouco. 

Meus pais estudaram muito pouco, mas foram muito além do que as gerações anteriores de suas famílias. Meus avós, maternos e paternos, eram semianalfabetos, não frequentaram escolas. Meu pai tem a 4ª série primária – ensino fundamental I. Minha mãe estudou até a 7ª série (fundamental II incompleto). Meus tios e tias, mais velhos que ela, não passaram da 4ª série, como meu pai, que é um dos filhos mais velhos. Minha mãe só pode chegar até a 7ª série, porque com 10 anos passou a morar na cidade, para cuidar do meu avô que fora trabalhar numa pedreira. Enquanto minha avó permaneceu na roça, cuidando de meus tios e dos serviços da lavoura, do leite, minha mãe, uma criança, lavava, cozinhava, cuidava de uma casa e do meu avô, e pôde estudar. Mas quando meu avô decidiu voltar para a roça, minha mãe foi obrigada a parar de estudar.
Minha casa não tinha livros. Minha casa era muito simples. Felizmente não passamos necessidade, mas tive uma infância pobre (eu tive consciência disso precocemente, aos 10 anos eu sabia que éramos pobres, isso me gerou alguma revolta e também vergonha da nossa condição). Eu convivia, na escola, com pessoas que tinham uma situação muito melhor que a nossa: filhos de professores, dos donos de comércio da cidade, filhos do prefeito. Hoje sei o quanto essa convivência contribuiu para enriquecer minhas experiências, apesar do sofrimento, do desconforto e revolta que por vezes experimentei. Para alguém que nem TV tinha em casa durante parte da infância, conviver e frequentar casas que tinham vídeo cassete, tv parabólica e muitos livros, era algo que gerava sentimentos confusos para uma criança e depois uma adolescente. Mas graças a esse convívio, tive acesso a coisas que, de outra maneira, não saberia da existência. E tudo porque em Delfim Moreira só existia uma escola, pública, e todas as crianças, fossem filhas de trabalhadores pobres ou filhos do prefeito, ali iriam estudar. Dessa experiência vem uma das minhas convicções mais radicais a respeito da Educação: i) a educação básica deveria ser unicamente pública. Se não está claro, reformulo: não deveria existir escola privada de ensino básico, deveria existir um único sistema e ele deveria ser totalmente público.
A escola Marquês de Sapucaí dos anos 90, hoje tenho certeza disso, era uma escola inovadora. Tive professores maravilhosos: criativos e que gostavam de desafios. Eram tantos projetos e atividades realizadas ao longo do ano letivo: feiras de ciência, feiras culturais, projetos comemorativos, como dos 500 anos do descobrimento do Brasil, as semanas comemorativas, com música, apresentações de dança, teatro, torneios esportivos, participação em concursos de redação. Tenho muitas lembranças boas da minha vida escolar. E tudo isso era feito ao mesmo tempo que tínhamos aulas bem tradicionais – lousa e giz, listas de exercícios, provas, aulas expositivas – tudo junto e misturado. Dessa experiência vem outra das minhas convicções sobre Educação: ii) a disputa entre escola tradicional x novas metodologias é um falso problema. O maior erro que se pode cometer em Educação é querer estabelecer um caminho único quando a questão é metodologia. Uma educação de sucesso muitas vezes é resultado de mesclas; há espaço para professores com aulas expositivas, com projetos e tantas outras possibilidades de metodologias ativas, com listas de exercícios e provas ou com avaliações orais. Quanto mais diversificada, maior o ganho para o aluno. João Viana era um professor tradicional; Elenice Lorena também; Ana Paiva, Stela Mara gostavam de projetos, de feiras, teatro. E eu aprendi com todos (e são tantos professores, se não os cito nominalmente a todos é porque não haveria espaço. Mas meus professores terão sempre minha gratidão, meu respeito e a maior de todas as homenagens: me tornei uma de vocês!).
             A jovem deputada federal Tábata Amaral (que tem uma história de vida inspiradora e com a qual muito me identifico) outro dia publicou em sua coluna no Nexo Jornal um texto com título polêmico: A escola pública é cemitério de sonhos no Brasil. Muito gente, inclusive professores, ficou brava com a deputada. Uma pena. O texto vai no coração de um dos nossos maiores problemas: os jovens que frequentam as escolas públicas, em sua maioria, não aprendem a sonhar, a se sonhar. Em 2012, depois de passar num concurso público, iniciei meu trabalho como professora de filosofia na rede pública estadual de São Paulo em Campinas. Foi um baque. Meu ideal de escola era a Marquês de Sapucaí dos anos 90. Mesmo depois de fazer estágio, eu permanecia apegada àquela ideia de escola. Mas Campinas não é Delfim Moreira e a escola pública hoje está cada vez mais distante daquela escola da minha memória. Escola pública em Campinas – hoje sei que essa é a realidade da maioria do país – não tem aquela heterogeneidade que eu experimentei. O filho do prefeito não passa nem perto do portão de uma escola estadual. Os filhos dos professores, com raras exceções, também não. Há um distanciamento muito grande entre professores e alunos. Explico: distanciamento social; os alunos muitas vezes são vistos como “um tipo de gente” com o qual se perde tempo, pois “eles não têm jeito”, “não querem saber de nada” e, com sorte, “serão caixas de supermercado”.
            Antes de concluírem que os professores da escola pública são pessoas abomináveis, preciso dizer que a realidade é muito mais complexa e que não é tão fácil assim. Tive um choque inicial que me faz carregar a tinta desse quadro – hoje estou consciente disso. Quando comecei a lecionar, era jovem demais (como muitas vezes colegas me disseram em tom de reprovação em relação as minhas atitudes de revolta e insatisfação com a maneira como as coisas funcionavam – ou não funcionavam, na maioria das vezes). Era otimista e inconformada. Acreditava que as coisas podiam e deveriam ser diferentes. Muitas vezes fiz julgamentos duros em relação aos meus colegas. Depois de um tempo, pude entender melhor, não aceitar, nem compactuar com atitudes que continuo entendo como erradas. Vinte anos, trinta anos sendo maltratado, com salários baixos, com condições de trabalho ruins, sem reconhecimento da sociedade, sendo apenas cobrado por resultados e atacado como único responsável por um alardeado ‘fracasso’ da Educação brasileiro, o resultado não poderia ser outro. Cinco anos na rede estadual me convenceu de que a escola pública é um cemitério de sonhos não só para alunos, mas também para os professores. Há exceções! Há muitos exemplos de professores e alunos que apesar da realidade massacrante fazem coisas maravilhosas e sonham e realizam sonhos. No entanto, essas conquistas, que têm muito mérito, são feitas a custas de muitos esforços, hercúleos, eu diria. Que não podem ser usados como regra. Tábata Amaral, eu mesma, e tantos outros, inclusive ex-alunos meus, somos exceções. E seria muita irresponsabilidade não lembrarmos isso quando querem nos usar como exemplos de que basta se esforçar. Dessa experiência extrai outras duas convicções sobre a Educação: iii) não podemos naturalizar os esforços louváveis que tantos professores e professoras fazem hoje, apesar das condições a que estão submetidos, para realizarem trabalhos de excelência e fazer a diferença na vida de tantos jovens; de forma resumida, o magistério não pode ser encarado como uma profissão de fé ou exercício vocacional;  e iv) não é justo exigirmos que tantos jovens, porque nasceram em famílias pobres, em famílias não letradas, sem acesso à bens culturais, tenham que se esforçar cem, duzentas, mil vezes mais do que outros para ter direito a sonhar e a realizar sonhos. Em outras palavras, a alardeada meritocracia só faz sentido quando, de fato, as pessoas têm oportunidades iguais.
            Um debate sério sobre Educação, um compromisso verdadeiro com a qualidade da Educação brasileira hoje passa muito longe dos espantalhos criados por esse governo, principalmente, pelo atual ministro da educação. Em primeiro lugar, é preciso encarar a urgência de se dar dignidade aos professores; discutir plano de carreira, salário e qualificação não pode ser tabu. Em segundo lugar, as disputas metodológicas não podem se dar na direção do ou isto ou aquilo; demonizar a escola tradicional, as aulas expositivas, como se fez no âmbito das discussões da reforma do ensino médio e da BNCC, não irá resolver nossos problemas. Em terceiro lugar, palavras como gestão e eficiência não podem ser rotuladas como sendo de um espectro político (coisas da direita, como parece ser o caso atualmente); defendo o aumento dos investimentos em Educação, mas defendo também a racionalidade dos usos desses investimentos, a criação de mecanismos de acompanhamento das equipes gestoras, inclusive com maior autonomia financeira e administrativa para diretores de escola.
Para finalizar, retomo minhas convicções sobre a Educação apresentadas nesse já longuíssimo texto: i) a educação básica deveria ser unicamente pública; ii) a disputa entre escola tradicional x novas metodologias é um falso problema; iii) o magistério não pode ser encarado como uma profissão de fé ou exercício vocacional; iv) a alardeada meritocracia só faz sentido quando, de fato, as pessoas têm oportunidades iguais.
É julho. Metade de um ano muito difícil para a Educação já se foi. Mas não temos tempo a perder, nem tempo para lamentar. É preciso seguir firme em nossas convicções em prol de uma Educação Pública de qualidade para todos. Seja na sala de aula, no dia a dia da escola, ou no Congresso, na Assembleia, com aqueles que se apresentam como nossos aliados no trabalho incessante pela construção de outra realidade. É julho, é férias, e para mim é tempo de estudar mais, ler mais e me preparar melhor para os desafios do próximo semestre. 

Texto originalmente publicado no Diário do Engenho

Esse texto foi escrito antes da votação da reforma da previdência, portanto, antes da deputada Tábata Amaral votar a favor da mesma, contrariando seu partido, o PDT, e contrariando também a minha compreensão do assunto. Em breve esse blog terá um texto sobre a questão. 

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