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17 outubro 2025

Outros outubros

No início de outubro, escrevi uma crônica e, como costumo fazer, enviei para alguns amigos. O Alê Bragion, um querido, logo me respondeu que aquele meu texto, cujo título é Coincidência, o havia recordado um texto da Marina Colasanti: Para que ninguém a quisesse. Eu não conhecia. Fui procurá-lo. Gostei. Vi que o tal texto estava publicado no livro Contos de amor rasgado. Corri buscar pelo livro nos sebos virtuais. Comprei. O livro chegou, mas não tive tempo de saboreá-lo. Semanas puxadas, muito trabalho, final de bimestre, conselhos pedagógicos. Passou o dia 15 de outubro. Hoje, depois de uma última reunião, preparatória para um evento na próxima semana, resolvi tirar um tempinho para ler. Abri o livro da Marina Colasanti e me dei com uma dedicatória encantadora. Uma professora, de nome Elza, ganhou esse livrinho da amiga Janice, que se autodeclara, na dedicatória, uma "fã de carteirinha" da autora. Descreve o presente como "light, leve, gostoso" e "ideal para quem tem tão pouco tempo como você...". Posso dizer que estou completamente convencida de que Elza tinha pouco tempo. Porque também sou professora. A dedicatória, tão delicada e sincera, foi feita em 15/10/03. 

Em outubro de 2003 eu estava no cursinho, dando meus primeiros passos para me tornar, oficialmente, professora. Foi um ano difícil. Eu trabalhava o dia todo. Era uma viagem, todo dia, para outra cidade, para estudar à noite. Deu certo. E em outubro do ano seguinte eu estava numa crise tremenda, querendo desistir daquele curso. Uma disciplina - ou seria o professor? - ou melhor, um filósofo estava me tirando o sono e a paz: Hegel. Lembro-me bem de uma cena, que até poderia ter acontecido num 15 de outubro, depois de mais uma aula na qual eu não entendi nada, sentei-me na escada da saudosa M4A, na Moradia Estudantil, e chorei. Chorei copiosamente. 

Mas eu não desisti. Vieram outros outubros. Outras dificuldades. E eu persisti. Sigo persistindo. Sou professora desde 2010. Quer dizer, com carteira assinada, contrato, salário. Bem antes disso eu já era professora. Às vezes me pergunto se teve algum momento em que não fui professora. Exagero? Não sei. Eu ganhei uma lousa verde, com tripé de madeira, uma gracinha de lousa, e uma caixa de giz, quando eu tinha por volta de cinco, seis anos. Alfabetizei todas as minhas bonecas! Irmãos, primos, qualquer criança menor que aparecesse logo virava minha vítima e eu já botava na sala de aula. 



Nesse último dia 15, eu trabalhei, recebi alguns abraços e cumprimentos de alunos queridos. Ganhei alguns mimos, daqueles que aquecem o coração. Recebi mensagens carinhosas de amigos e colegas. Foi um dia gostoso. E agora, lendo a dedicatória da Janice à Elza, muitas coisas se passaram pela minha cabeça. Onde estará Elza? Ainda em sala de aula? Aposentada? Será que ela foi feliz como professora? Janice e ela seguem amigas? Será que esse ano Janice deu algum presente à Elza?

A letra da Janice na folha amarelada do livro me fez também desejar escrever sobre os avanços tecnológicos e as perdas que eles acarretam. Afinal, um livro digital, as telas de modo geral, jamais poderiam proporcionar a experiência que tive esta tarde. Como é especial abrir um livro antigo, um livro que já passou por outras mãos, e descobrir pedaços de outras vidas espalhados entre suas páginas. Uma dedicatória, uma foto, um marcador, um bilhetinho. Já encontrei algumas dessas preciosidades. Amo sebos. Gosto muito de comprar livros de segunda - terceira e sabe-se lá quantas - mãos. Gosto de buscar essas marcas de histórias cruzadas. 


Eu espero que muitos outros outubros ainda possam me trazer momentos de alegria, satisfação e esperança como essa tarde de outubro de 2025. Que outros outubros possam ecoar em mim através de outros livros. E que as minhas palavras possam viajar por muitos outros outubros. Que muitos caderninhos possam ser preenchidos pela minha letra, por muitos outros outubros. 


P.S. Como eu não tive tempo durante a semana, aproveito para dedicar este texto aos meus eternos professores, aos colegas e amigos de caminhada, que diariamente experimentam as alegrias e as agruras desta profissão que eu tanto respeito e amo. 

11 maio 2020

Reflexões sobre tecnologias, EaD, pandemia e os paradigmas de produtividade e desempenho

Por se tratar de um exercício reflexivo, o texto a seguir não se propõe a trazer respostas definitivas sobre os temas abordados. A ideia é apresentar cenários, problematizar e conceituar alguns termos que estão sendo amplamente utilizados nesse momento, bem como problematizar atitudes e propostas que têm circulado nesse contexto, principalmente na Educação, com a modesta pretensão de contribuir com uma discussão democrática, tão urgente nesse momento, e que fuja das superficialidades.

Gostaria de começar narrando um episódio que ocorreu em 2004, quando eu estava no primeiro ano da minha graduação em Filosofia, durante uma aula de História e Filosofia da Educação. O "professor" responsável pela disciplina era um entusiasta da tecnologia, passava horas falando de suas experiências nos EUA, no Instituto Ayrton Senna e no Instituto Microsoft. Criou uma lista de e-mails na qual nós, alunos de diversas licenciaturas da Unicamp, deveríamos interagir a partir dos textos disponibilizados pelo "professor". Depois de algumas semanas de aula, eu, no auge dos meus 19 anos, pergunto: Professor, não entendi o que estamos fazendo nessas aulas, falando de tecnologia o tempo todo. Aqui, a maioria vai se formar e trabalhar em escolas públicas que não têm tecnologia, em que muitas vezes falta carteira, giz, têm vários problemas de infraestrutura. O que vamos fazer? (foi mais ou menos assim, depois de ter dito que, de História da Educação, não vimos nada e, de Filosofia da Educação, passávamos longe...). E eis que vem a resposta que, desde então, nunca consegui esquecer: "ESSAS PESSOAS NÃO FAZEM O MUNDO GIRAR". (A "aula" virou um caos, alunos se revoltaram, eu tive uma crise nervosa de riso e o  "professor" disse que eu era maluca, mas tudo isso não vem ao caso). O que importa é que, certamente, vem deste episódio minha desconfiança com "soluções tecnológicas para a educação”. Sempre tenho a impressão  de que tais soluções se baseiam na premissa de que há uma parcela considerável da população que "não faz o mundo girar" e que, portanto, não precisa ser levada em consideração, se queremos manter o "mundo girando".

A primeira questão aqui a se fazer é que "mundo" queremos que continue "girando"? Desde o final de fevereiro, o Brasil entrou no mapa da pandemia do novo coronavírus. Em março, com o registro da primeira morte por covid-19, instituições de ensino, juntamente com empresas e muitos outros setores da sociedade suspenderam atividades presenciais, dando início a um plano de isolamento físico, a fim de retardar o espalhamento do vírus e, assim, evitar ou postergar o colapso dos sistemas de saúde do país. Na medida do possível, tiveram início trabalhos remotos e home offices. Não demorou e, no caso da Educação, a EaD passou a ser louvada como a solução para tentar retomar as atividades e manter "alguma normalidade". Logo, muitas pessoas começaram a falar de paliativos até "retornarmos à normalidade". E temos agora outra pergunta: que "normalidade" é essa à qual queremos voltar? Seria a mesma "normalidade" daquele mundo que precisa continuar girando enquanto milhares permanecem às margens? A mesma "normalidade" que convivia muito bem com a galopante e vergonhosa desigualdade social do nosso país? A mesma "normalidade" que gerava milhares de desempregados por dia, ao mesmo tempo que empurrava outros milhares de trabalhadores para a informalidade? O "mundo que gira" e que era a nossa "normalidade" antes da pandemia seria aquele que condenava milhares de jovens brasileiros à subempregos, a atividades exploratórias em nome da mera sobrevivência?

disponível em: https://pixabay.com/pt/

No Brasil, temos hoje cerca de 48 milhões de estudantes e 41% desse total estão nas escolas públicas. Segundos dados do IBGE, cerca de 25% da população brasileira não tinha acesso à internet em 2018. No afã de mostrar serviço, ainda mais em ano eleitoral (e, no Brasil, parece que nunca saímos de ano eleitoral), prefeitos e governadores saíram anunciando EaD - Ensino a distância. Mas anunciar é fácil, difícil é dar as condições necessárias para que os alunos possam ter acesso às aulas remotas. Não falta gente para dizer: ah, mas os alunos têm celular... E muitos quando dizem isso parecem mesmo acreditar que aí estaria a salvação para todos os nossos problemas. Vou deixar de lado a questão da internet, porque os pacotes de dados, quando os alunos os têm, não permitem acompanhar aulas síncronas, lives e afins. Mas parece que muita gente, professores e gestores inclusive, ou ignoram completamente esse fato ou, por conveniência, fingem ignorá-lo. Vou passar a outro ponto: a tela de um celular seria adequada para deixarmos alunos expostos por 8 horas diárias, em média, lendo textos e fazendo exercícios? Isso porque os levantamentos mais rasteiros feitos por escolas evidenciam que boa parte dos alunos não tem computador em casa. Mas aquelas famílias que possuem um computador estão nesse momento com pais trabalhando remotamente, muitas vezes, utilizando o computador e filhos - sim, às vezes mais do que um - que terão aulas e atividades online para serem realizadas. Mas para falar de EaD, é preciso também pensar que a acessibilidade não se resume a ter um aparelho e internet. Haverá nos lares espaço adequado para estudo? Ou estariam adolescentes assumindo o cuidado de irmãos menores bem como tarefas domésticas enquanto pais seguem trabalhando? E nos lares onde os pais estão desempregados, há clima para seguir estudos remotos?

Mas vamos falar da EaD. Ensino ou Educação a distância? Ah, isso não faz diferença, já posso ouvir algumas vozes e ver algumas caras tortas. Faz sim! Se, para prefeitos, governadores e gestores não faz; para nós, professores e educadores deveria fazer. Normalmente, quando falamos em Educação temos em mente algo bem mais amplo do que o termo 'ensino' é capaz de abranger. Segundo a nossa Constituição, "A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho" (Art. 205). Como podemos observar, a Educação não está restrita ao ambiente escolar. Por outro lado, ao ser descrita em termos de "pleno desenvolvimento da pessoa", Educação não pode ser reduzida a processos de Ensino-Aprendizagem, diretamente associados a conteúdos e que podem ser medidos e quantificados de alguma maneira. A filósofa Hannah Arendt nos apresenta uma diferença entre Educação e Aprendizagem que pode nos ajudar a entender as limitações de se falar em "ensino a distância",  principalmente pensando na Educação Básica. Segundo a autora, "não se pode educar sem ao mesmo tempo ensinar; (...). É muito fácil, porém, ensinar sem educar, e pode-se aprender durante o dia todo sem por isso ser educado" (ARENDT, H., Entre o passado e o futuro, São Paulo: Perspectiva, 2016). Pensar que, através das tecnologias hoje disponíveis, podemos substituir as aulas presenciais sem perdas, dando conta de cumprir o nosso compromisso de Educação, de "pleno desenvolvimento da pessoa" é simplificar uma discussão complexa e de extrema importância para a sociedade.

Mas, além disso, para que possamos falar em EaD, conforme a legislação brasileira mais recente* a entende, faz-se necessário falar em: i) formação do professor para trabalhar nessa modalidade; ii) adaptação dos cursos presenciais para a modalidade a distância, entendo que as duas modalidades possuem características específicas em termos de ferramentas e métodos; iii) preparação dos alunos para a nova modalidade, além, é claro, iv) da infraestrutura material tecnológica para viabilizar o adequado desenvolvimento de um curso EaD. Para resumir: qualquer coisa que venha a ser feita neste momento, ainda que mediada por tecnologia, não pode ser chamada de EaD. Caso contrário, corremos o risco de estarmos rebaixando o trabalho sério e responsável que Instituições e profissionais de cursos EaD realizam hoje e contribuindo para um rebaixamento da qualidade do ensino em geral, diante da possibilidade de que "experiências" desse período de pandemia se tornem o "novo normal" posteriormente.

Que o mundo não será o mesmo depois dessa pandemia, parece uma verdade incontestável, embora muitos sigam no modo negação. Só que o "novo normal" já está sendo gerado agora. E se depender das respostas imediatistas, que seguem os mesmos princípios da "normalidade pré-pandemia", não terá muita novidade. Para o filósofo coreano Byung-Chul Han, vivemos numa sociedade marcada pela busca do "desempenho", da "produtividade" ou, talvez diria o "professor" que tive o desprazer de conhecer, num mundo que precisa se manter girando, e cada vez mais rápido, de preferência. Para Byung-Chul, a sociedade do século XXI é a sociedade do desempenho, formadas por sujeitos de desempenho e produção, empresários de si mesmos. No contexto da pandemia, parece que esses traços da sociedade do desempenho se acentuam e aceleram. Por um lado, o discurso do empreendedorismo tem alimentado a ilusão de que cada um é empresário de si mesmo, que o sucesso depende única e exclusivamente do esforço individual, que os fracassados e perdedores do mundo - talvez aqueles que não fazem o mundo girar - são totalmente responsáveis pelo lugar que ocupam na sociedade. Por outro lado, no meio da pandemia, é grande o número de profissionais, também da educação, preocupados em ser produtivos, em mostrar desempenho, em ser proativos. Talvez porque, como nos fala Byung-Chul, a mudança de paradigma para essa sociedade do desempenho já habite o inconsciente social. Na sociedade do desempenho, explorado e explorador colapsam no mesmo sujeito; predomina a autoexploração, disfarçada de liberdade, de autonomina. Todo esse processo de autoexploração é potencializado pelas mídias digitais. E nada melhor do que a pandemia para tornar isso evidente para todos que queiram ver. "O aparato digital torna o próprio trabalho móvel. Todos carregam o trabalho consigo como um depósito de trabalho. Assim não podemos mais escapar do trabalho" (Byung-Chul Han, No enxame: perspectiva do digital, Petrópolis,RJ: Vozes, 2018). Será esse o "novo normal" para o qual nos dirigimos? Se antes eram apenas os trabalhadores por aplicativos - Uber e afins - que na ilusão da liberdade e de serem empresários de si mesmos - se autoexploravam diariamente, quem poderá estar salvo dessa dinâmica pós-pandemia? Depois que provarmos que é possível manter a "normalidade" de casa e, no caso da Educação, que podemos seguir, graças a redes sociais, zoom, Instagram, WhatsApp, Moodle entre tantos outros, o nosso processo de Educação ou de Ensino, cumprir nossos Planos de Ensino, alcançar nossas metas, nos adaptar, nos superar, nos reinventar, quem poderá nos salvar de nós mesmos?

Contrariamente aos pressupostos otimistas que afirmam que o aparato tecnológico reduz e até supre a distância, o que seria extremamente positivo no caso da Educação, Byung-Chul afirma que as mídias digitais nos afastam cada vez mais do outro, ao mesmo tempo que nos conduz a um processo de narcisificação. A mídia digital opera na lógica da adição, do acúmulo, não por acaso falamos de "sociedade da informação". Mas informação não é sinônimo de conhecimento, nem de aprendizagem. Se por um lado, as ferramentas digitais e tecnológicas facilitam processos de pesquisa, busca, de informação, por outro, ela nos afasta do real, dos fatos, da temporalidade, nos prendendo num presente eterno. A percepção do mundo passa a ser plana, perde profundidade, perde-se o outro, e nos tornamos mais do mesmo. Perde-se a dimensão histórica, do passado, e perde-se a dimensão dos sonhos, de se pensar /imaginar o futuro.

Quaisquer que sejam as saídas trilhadas pelas instituições de ensino - principalmente as públicas - nesse momento de crise gerada pela pandemia do coronavírus, não podem se furtar a refletir sobre qual é o "novo normal" que queremos construir. Abraçar EaD, sem problematizar os pontos acima levantados, todos eles, é apostar num mundo que seguirá girando enquanto milhares estarão sendo deixados de lado, porque, como me disse aquele "professor", elas estão de fora, não fazem o mundo girar. A questão é  se queremos ampliar ainda mais o número de gente que estará nessa situação, de não fazer o mundo girar, em nome da produtividade e do desempenho, encantados com as ilusões de liberdade e autonomia que as tecnologias digitais colocam ao alcance das nossas mãos, ou melhor, dos nossos dedos, bastando deslizar o dedo pela tela para descartar candidatos, como no Tinder, ou num clique deletar, como no Facebook, amigos indesejáveis. 

*****
Para saber mais e pensar melhor

*Legislação da EaD

-Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (LDB)

-Decreto 9.057, de 25 de maio de 2017 (novo marco regulatório para EaD)

-Portaria n.11, de 20 de junho de 2017.


Artigos e podcast

- Como o ensino a distância pode agravar as desigualdades agora: nexo jornal;

- A educação a distância não é para todos: Café da manhã, podcast da Folha de São Paulo;

 - Coronavírus e a "volta às aulas": Le Monde Diplomatique;

- Ensino a distancia na quarentea esbarra na realidade de alunos e professores: BBC Brasil

16 julho 2019

A escola, a capacidade de se sonhar e a urgência de políticas públicas eficientes na Educação

Quatro convicções acerca da Educação

Mais um mês de julho, mais um início de férias. Eis que me pego perguntando por que tenho tanta dificuldade de descansar, de parar, de aproveitar “as férias”. Na maioria das vezes, inicio o mês de julho com uma lista de coisas a fazer e dessa vez não foi diferente: livros para ler, textos para escrever, projetos para o próximo semestre escolar, rever planos de aula, etc. Durante esta tarde me pus a pensar sobre os motivos para esse comportamento. Tirando o fato de que a maioria dessas atividades me são imensamente prazerosas, cheguei a uma possível explicação. Por vota dos meus 13 anos, o mês de julho e também os meses de dezembro e janeiro – meses de férias escolares – começaram a significar período de trabalho. Comecei trabalhar no comércio, cobria férias de funcionários de uma loja ou simplesmente era chamada para cobrir maior demanda de período de natal. Julho, dezembro e janeiro passaram a ser sinônimo de período de trabalho! Depois, durante a faculdade, os meses de férias coincidiam com os períodos de entrega de relatório, portanto, mais trabalho. Talvez no meu subconsciente essa informação tenha permanecido até hoje – quando finalmente parece que passou ao nível da consciência – fazendo que, como observou certa vez meu companheiro, eu tivesse um sentimento de culpa que me impedisse de desfrutar minhas férias. Quem sabe, daqui pra frente as coisas mudem. Como mudou minha vida, desde que eu tinha lá meus 13 anos. Já naquela época, eu tinha sonhos de frequentar uma faculdade, de morar em outra cidade, de fazer coisas que ninguém até então havia feito na minha família. Lembro bem que, naquela época, eu queria ser advogada. Depois, quis ser jornalista, psicóloga, historiadora e eis que estou aqui, professora de filosofia, de férias! 

Foto gentilmente cedida pela dona Nenê
De onde vieram os sonhos?  Como eles puderam se tornar realidade? E o quanto isso mudou minha vida? É sobre isso que gostaria de escrever hoje. Foi na Escola Estadual Marques de Sapucaí, em Delfim Moreira, que descobri a existência das Universidades Públicas. Mais precisamente, nas aulas de matemática, ministradas pelo professor João Viana, que desde a 6ª série nos falava dessas instituições (EFEI – hoje UNIFEI, ITA, USP e tantas outras). Ao longo da nossa trajetória escolar – João Viana acompanhou minha turma da 6ª série até a formatura no Ensino Médio – foram muitos os exercícios desafios dessas instituições inseridos em nossas provas, listas de exercícios, pontos extras durante as aulas. E não eram só os exercícios. Eles eram acompanhados de discursos de um velho professor – que havia dado aulas para minha mãe – rígido e apaixonado pelo que fazia, que sempre falava da imensa satisfação que sentia quando um de seus alunos passava no vestibular. Certa vez, já estava no Ensino Médio, durante a aula, um ex-aluno apareceu na porta da sala de aula, todo sujo de ovo e trigo para dizer que havia sido aprovado na EFEI, no curso de engenharia elétrica. A alegria do João não podia ser mais sincera. Eu alimentei o sonho de um dia fazer o mesmo: ir até o professor contar que havia sido aprovada no vestibular. E pude fazê-lo anos mais tarde, quando ele já estava aposentado. Infelizmente, no dia que sai meu resultado de aprovação na Unicamp, ele estava internado, mas fiz questão de ligar para sua casa e pedir para sua esposa que lhe contasse a novidade. Mas esse sonho só se tornou realidade, porque além do professor João eu tive muitos outros professores e professoras que, de maneiras distintas, me ensinaram a sonhar com uma realidade que, por muitos motivos, teria sido impossível sem eles. Preciso recuar um pouco. 

Meus pais estudaram muito pouco, mas foram muito além do que as gerações anteriores de suas famílias. Meus avós, maternos e paternos, eram semianalfabetos, não frequentaram escolas. Meu pai tem a 4ª série primária – ensino fundamental I. Minha mãe estudou até a 7ª série (fundamental II incompleto). Meus tios e tias, mais velhos que ela, não passaram da 4ª série, como meu pai, que é um dos filhos mais velhos. Minha mãe só pode chegar até a 7ª série, porque com 10 anos passou a morar na cidade, para cuidar do meu avô que fora trabalhar numa pedreira. Enquanto minha avó permaneceu na roça, cuidando de meus tios e dos serviços da lavoura, do leite, minha mãe, uma criança, lavava, cozinhava, cuidava de uma casa e do meu avô, e pôde estudar. Mas quando meu avô decidiu voltar para a roça, minha mãe foi obrigada a parar de estudar.
Minha casa não tinha livros. Minha casa era muito simples. Felizmente não passamos necessidade, mas tive uma infância pobre (eu tive consciência disso precocemente, aos 10 anos eu sabia que éramos pobres, isso me gerou alguma revolta e também vergonha da nossa condição). Eu convivia, na escola, com pessoas que tinham uma situação muito melhor que a nossa: filhos de professores, dos donos de comércio da cidade, filhos do prefeito. Hoje sei o quanto essa convivência contribuiu para enriquecer minhas experiências, apesar do sofrimento, do desconforto e revolta que por vezes experimentei. Para alguém que nem TV tinha em casa durante parte da infância, conviver e frequentar casas que tinham vídeo cassete, tv parabólica e muitos livros, era algo que gerava sentimentos confusos para uma criança e depois uma adolescente. Mas graças a esse convívio, tive acesso a coisas que, de outra maneira, não saberia da existência. E tudo porque em Delfim Moreira só existia uma escola, pública, e todas as crianças, fossem filhas de trabalhadores pobres ou filhos do prefeito, ali iriam estudar. Dessa experiência vem uma das minhas convicções mais radicais a respeito da Educação: i) a educação básica deveria ser unicamente pública. Se não está claro, reformulo: não deveria existir escola privada de ensino básico, deveria existir um único sistema e ele deveria ser totalmente público.
A escola Marquês de Sapucaí dos anos 90, hoje tenho certeza disso, era uma escola inovadora. Tive professores maravilhosos: criativos e que gostavam de desafios. Eram tantos projetos e atividades realizadas ao longo do ano letivo: feiras de ciência, feiras culturais, projetos comemorativos, como dos 500 anos do descobrimento do Brasil, as semanas comemorativas, com música, apresentações de dança, teatro, torneios esportivos, participação em concursos de redação. Tenho muitas lembranças boas da minha vida escolar. E tudo isso era feito ao mesmo tempo que tínhamos aulas bem tradicionais – lousa e giz, listas de exercícios, provas, aulas expositivas – tudo junto e misturado. Dessa experiência vem outra das minhas convicções sobre Educação: ii) a disputa entre escola tradicional x novas metodologias é um falso problema. O maior erro que se pode cometer em Educação é querer estabelecer um caminho único quando a questão é metodologia. Uma educação de sucesso muitas vezes é resultado de mesclas; há espaço para professores com aulas expositivas, com projetos e tantas outras possibilidades de metodologias ativas, com listas de exercícios e provas ou com avaliações orais. Quanto mais diversificada, maior o ganho para o aluno. João Viana era um professor tradicional; Elenice Lorena também; Ana Paiva, Stela Mara gostavam de projetos, de feiras, teatro. E eu aprendi com todos (e são tantos professores, se não os cito nominalmente a todos é porque não haveria espaço. Mas meus professores terão sempre minha gratidão, meu respeito e a maior de todas as homenagens: me tornei uma de vocês!).
             A jovem deputada federal Tábata Amaral (que tem uma história de vida inspiradora e com a qual muito me identifico) outro dia publicou em sua coluna no Nexo Jornal um texto com título polêmico: A escola pública é cemitério de sonhos no Brasil. Muito gente, inclusive professores, ficou brava com a deputada. Uma pena. O texto vai no coração de um dos nossos maiores problemas: os jovens que frequentam as escolas públicas, em sua maioria, não aprendem a sonhar, a se sonhar. Em 2012, depois de passar num concurso público, iniciei meu trabalho como professora de filosofia na rede pública estadual de São Paulo em Campinas. Foi um baque. Meu ideal de escola era a Marquês de Sapucaí dos anos 90. Mesmo depois de fazer estágio, eu permanecia apegada àquela ideia de escola. Mas Campinas não é Delfim Moreira e a escola pública hoje está cada vez mais distante daquela escola da minha memória. Escola pública em Campinas – hoje sei que essa é a realidade da maioria do país – não tem aquela heterogeneidade que eu experimentei. O filho do prefeito não passa nem perto do portão de uma escola estadual. Os filhos dos professores, com raras exceções, também não. Há um distanciamento muito grande entre professores e alunos. Explico: distanciamento social; os alunos muitas vezes são vistos como “um tipo de gente” com o qual se perde tempo, pois “eles não têm jeito”, “não querem saber de nada” e, com sorte, “serão caixas de supermercado”.
            Antes de concluírem que os professores da escola pública são pessoas abomináveis, preciso dizer que a realidade é muito mais complexa e que não é tão fácil assim. Tive um choque inicial que me faz carregar a tinta desse quadro – hoje estou consciente disso. Quando comecei a lecionar, era jovem demais (como muitas vezes colegas me disseram em tom de reprovação em relação as minhas atitudes de revolta e insatisfação com a maneira como as coisas funcionavam – ou não funcionavam, na maioria das vezes). Era otimista e inconformada. Acreditava que as coisas podiam e deveriam ser diferentes. Muitas vezes fiz julgamentos duros em relação aos meus colegas. Depois de um tempo, pude entender melhor, não aceitar, nem compactuar com atitudes que continuo entendo como erradas. Vinte anos, trinta anos sendo maltratado, com salários baixos, com condições de trabalho ruins, sem reconhecimento da sociedade, sendo apenas cobrado por resultados e atacado como único responsável por um alardeado ‘fracasso’ da Educação brasileiro, o resultado não poderia ser outro. Cinco anos na rede estadual me convenceu de que a escola pública é um cemitério de sonhos não só para alunos, mas também para os professores. Há exceções! Há muitos exemplos de professores e alunos que apesar da realidade massacrante fazem coisas maravilhosas e sonham e realizam sonhos. No entanto, essas conquistas, que têm muito mérito, são feitas a custas de muitos esforços, hercúleos, eu diria. Que não podem ser usados como regra. Tábata Amaral, eu mesma, e tantos outros, inclusive ex-alunos meus, somos exceções. E seria muita irresponsabilidade não lembrarmos isso quando querem nos usar como exemplos de que basta se esforçar. Dessa experiência extrai outras duas convicções sobre a Educação: iii) não podemos naturalizar os esforços louváveis que tantos professores e professoras fazem hoje, apesar das condições a que estão submetidos, para realizarem trabalhos de excelência e fazer a diferença na vida de tantos jovens; de forma resumida, o magistério não pode ser encarado como uma profissão de fé ou exercício vocacional;  e iv) não é justo exigirmos que tantos jovens, porque nasceram em famílias pobres, em famílias não letradas, sem acesso à bens culturais, tenham que se esforçar cem, duzentas, mil vezes mais do que outros para ter direito a sonhar e a realizar sonhos. Em outras palavras, a alardeada meritocracia só faz sentido quando, de fato, as pessoas têm oportunidades iguais.
            Um debate sério sobre Educação, um compromisso verdadeiro com a qualidade da Educação brasileira hoje passa muito longe dos espantalhos criados por esse governo, principalmente, pelo atual ministro da educação. Em primeiro lugar, é preciso encarar a urgência de se dar dignidade aos professores; discutir plano de carreira, salário e qualificação não pode ser tabu. Em segundo lugar, as disputas metodológicas não podem se dar na direção do ou isto ou aquilo; demonizar a escola tradicional, as aulas expositivas, como se fez no âmbito das discussões da reforma do ensino médio e da BNCC, não irá resolver nossos problemas. Em terceiro lugar, palavras como gestão e eficiência não podem ser rotuladas como sendo de um espectro político (coisas da direita, como parece ser o caso atualmente); defendo o aumento dos investimentos em Educação, mas defendo também a racionalidade dos usos desses investimentos, a criação de mecanismos de acompanhamento das equipes gestoras, inclusive com maior autonomia financeira e administrativa para diretores de escola.
Para finalizar, retomo minhas convicções sobre a Educação apresentadas nesse já longuíssimo texto: i) a educação básica deveria ser unicamente pública; ii) a disputa entre escola tradicional x novas metodologias é um falso problema; iii) o magistério não pode ser encarado como uma profissão de fé ou exercício vocacional; iv) a alardeada meritocracia só faz sentido quando, de fato, as pessoas têm oportunidades iguais.
É julho. Metade de um ano muito difícil para a Educação já se foi. Mas não temos tempo a perder, nem tempo para lamentar. É preciso seguir firme em nossas convicções em prol de uma Educação Pública de qualidade para todos. Seja na sala de aula, no dia a dia da escola, ou no Congresso, na Assembleia, com aqueles que se apresentam como nossos aliados no trabalho incessante pela construção de outra realidade. É julho, é férias, e para mim é tempo de estudar mais, ler mais e me preparar melhor para os desafios do próximo semestre. 

Texto originalmente publicado no Diário do Engenho

Esse texto foi escrito antes da votação da reforma da previdência, portanto, antes da deputada Tábata Amaral votar a favor da mesma, contrariando seu partido, o PDT, e contrariando também a minha compreensão do assunto. Em breve esse blog terá um texto sobre a questão. 

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