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05 fevereiro 2024

Labirinto 2.0


Como é fácil se perder
Nas telas.
Vendo a vida dos outros,
Propagandas, intrigas
E tantas outras bagatelas.

São tantas cores,
Tantos movimentos,
Tanta informação (e desinformação)
Que a gente se ilude
E até pensa que tem o mundo
Na palma da mão.

Tento ficar longe,
Não ser seduzido por elas.
Mas como é difícil,
Até parece
Que já sou dependente das telas.

Reduzo os riscos, tento enfrentar
os danos e as tentações:
Desligo o celular, deleto perfis.
Boa mesmo é vida dos meus gatos
Que nada sabem de redes sociais,
Sites, apps e afins.

Nesse mundo digital,
De senhas e touch screen,
Quem dera estivesse
na ponta dos nossos dedos
o poder de acabar com a ignorância,
a fome, a pobreza e a violência,
Que desfilam diante de nossos olhos,
Nas telas,
numa pornográfica exibição, dia e noite,
De tragédias anunciadas e sem fim.

Dizem que somos
Uma sociedade conectada.
Mas será?
As redes mais parecem
Teias-armadilhas
Que nos predem e sugam nossas almas,
E, de repente,
Parecemos robôs,
e os algoritmos decidem
nosso almoço,
nosso sucesso ou fracasso,
e até nosso próximo amor:
é só fazer a selfie, fazer login,
postar, arrastar pro lado,
e o match foi dado!
É só curtir.

Como é fácil se perder
Nas telas.
Labirintos luminosos
De belas imagens,
Corpos perfeitos.
Narcisos enfeitiçados
Por rostos irreais.
Tudo coisa de deepfake,
nada mais.

O que sobrou daquela velha realidade
são lembranças de uma época
Cada vez mais distante.
Vivemos o fim:
Dos encontros offline,
Do olho-olho,
Do abraço,
Da algazarra no jardim,
Do piquenique no parque,
Da amarelinha na rua,
Dos almoços de família,
Dos jornais, das notícias e afins.

Hoje tudo acontece
No deslizar da tela:
Compra, trabalho, estudo,
Lazer, esporte e paquera.
Até meus versos,
Ora vejam,
Já nascem numa tela.
E logo mais estarão nas redes
visualizados, lidos,
curtidos e compartilhados,
Ou simplesmente ignorados,
entre dezenas de milhares
de outros tantos textos
que, talvez, não passem
de mais um pixel
insignificante,
Nessa tela gigante,
Na qual figuramos
Você e eu,
Nossos filhos e nossos pais,
Como bobos da corte:
Somos distrações distraídas,
Inconsequentes e perdidos
Numa busca,
Fadada ao fracasso,
De satisfação, completude,
Glamour e tudo mais.

Como é fácil se perder
Nas telas,
Nas janelas que se abrem,
Nas vitrines e nos palcos,
Nos quais novos indivíduos estreiam na vida
Num exibicionismo incessante,
Que vai do nascimento até a morte
E não para um instante.

Como é fácil se perder
Nas telas,
Que nos consomem
Enquanto nos convencem a consumir.
Que nos vendem
Enquanto pensamos comprar.
Que nos vigiam
Enquanto nos deliciamos em espiar
Subcelebridades e anônimos,
Todos personagens de uma
comédia duvidosa
ou de um drama chinfrim.

Como é fácil se perder
Nas telas.
De repente me pergunto:
Será que eu ainda estou
Do outro lado
Ou já fui completamente
Tragada, engolida, enredada?
E se estou do lado de lá,
Ainda sou humana
ou sou só mais um holograma,
mais um arremedo de sujeito?
Serei também eu
Um perfil assujeitado,
Mais um boot programado
Para parecer gente de verdade?

Ei, você, que lê meus versos:
Cuidado!
É muito fácil se perder
nas telas.
Mas você ainda pode escapar,
É só desligar o celular,
o computador, o notebook,
e sair por aí.

Vá, não perca mais nenhum segundo,
Tire seus olhos desta página,
Abra a janela,
Sinta o cheiro deste dia.
Respire fundo,
sorva a poesia
que brota numa folha.
Diga um oi
Para alguém.
Ou abra um livro,
um caderno e
faça seus próprios versos
sua própria rima.

Se você conseguir fechar a tela,
Se conseguir escapar do labirinto,
Boa sorte!
E lembre-se:
Você não está num jogo,
Aqui não tem roteiro pronto,
Também não tem como editar,
É uma live de verdade,
E você vai ter que improvisar,
Aprender com os próprios erros,
Assumir os riscos,
A vida está acontecendo agora!
Mas, acredite, vale a pena!
Como já dizia Pessoa:
Tudo vale a pena
Se alma não é pequena.


11 maio 2020

Reflexões sobre tecnologias, EaD, pandemia e os paradigmas de produtividade e desempenho

Por se tratar de um exercício reflexivo, o texto a seguir não se propõe a trazer respostas definitivas sobre os temas abordados. A ideia é apresentar cenários, problematizar e conceituar alguns termos que estão sendo amplamente utilizados nesse momento, bem como problematizar atitudes e propostas que têm circulado nesse contexto, principalmente na Educação, com a modesta pretensão de contribuir com uma discussão democrática, tão urgente nesse momento, e que fuja das superficialidades.

Gostaria de começar narrando um episódio que ocorreu em 2004, quando eu estava no primeiro ano da minha graduação em Filosofia, durante uma aula de História e Filosofia da Educação. O "professor" responsável pela disciplina era um entusiasta da tecnologia, passava horas falando de suas experiências nos EUA, no Instituto Ayrton Senna e no Instituto Microsoft. Criou uma lista de e-mails na qual nós, alunos de diversas licenciaturas da Unicamp, deveríamos interagir a partir dos textos disponibilizados pelo "professor". Depois de algumas semanas de aula, eu, no auge dos meus 19 anos, pergunto: Professor, não entendi o que estamos fazendo nessas aulas, falando de tecnologia o tempo todo. Aqui, a maioria vai se formar e trabalhar em escolas públicas que não têm tecnologia, em que muitas vezes falta carteira, giz, têm vários problemas de infraestrutura. O que vamos fazer? (foi mais ou menos assim, depois de ter dito que, de História da Educação, não vimos nada e, de Filosofia da Educação, passávamos longe...). E eis que vem a resposta que, desde então, nunca consegui esquecer: "ESSAS PESSOAS NÃO FAZEM O MUNDO GIRAR". (A "aula" virou um caos, alunos se revoltaram, eu tive uma crise nervosa de riso e o  "professor" disse que eu era maluca, mas tudo isso não vem ao caso). O que importa é que, certamente, vem deste episódio minha desconfiança com "soluções tecnológicas para a educação”. Sempre tenho a impressão  de que tais soluções se baseiam na premissa de que há uma parcela considerável da população que "não faz o mundo girar" e que, portanto, não precisa ser levada em consideração, se queremos manter o "mundo girando".

A primeira questão aqui a se fazer é que "mundo" queremos que continue "girando"? Desde o final de fevereiro, o Brasil entrou no mapa da pandemia do novo coronavírus. Em março, com o registro da primeira morte por covid-19, instituições de ensino, juntamente com empresas e muitos outros setores da sociedade suspenderam atividades presenciais, dando início a um plano de isolamento físico, a fim de retardar o espalhamento do vírus e, assim, evitar ou postergar o colapso dos sistemas de saúde do país. Na medida do possível, tiveram início trabalhos remotos e home offices. Não demorou e, no caso da Educação, a EaD passou a ser louvada como a solução para tentar retomar as atividades e manter "alguma normalidade". Logo, muitas pessoas começaram a falar de paliativos até "retornarmos à normalidade". E temos agora outra pergunta: que "normalidade" é essa à qual queremos voltar? Seria a mesma "normalidade" daquele mundo que precisa continuar girando enquanto milhares permanecem às margens? A mesma "normalidade" que convivia muito bem com a galopante e vergonhosa desigualdade social do nosso país? A mesma "normalidade" que gerava milhares de desempregados por dia, ao mesmo tempo que empurrava outros milhares de trabalhadores para a informalidade? O "mundo que gira" e que era a nossa "normalidade" antes da pandemia seria aquele que condenava milhares de jovens brasileiros à subempregos, a atividades exploratórias em nome da mera sobrevivência?

disponível em: https://pixabay.com/pt/

No Brasil, temos hoje cerca de 48 milhões de estudantes e 41% desse total estão nas escolas públicas. Segundos dados do IBGE, cerca de 25% da população brasileira não tinha acesso à internet em 2018. No afã de mostrar serviço, ainda mais em ano eleitoral (e, no Brasil, parece que nunca saímos de ano eleitoral), prefeitos e governadores saíram anunciando EaD - Ensino a distância. Mas anunciar é fácil, difícil é dar as condições necessárias para que os alunos possam ter acesso às aulas remotas. Não falta gente para dizer: ah, mas os alunos têm celular... E muitos quando dizem isso parecem mesmo acreditar que aí estaria a salvação para todos os nossos problemas. Vou deixar de lado a questão da internet, porque os pacotes de dados, quando os alunos os têm, não permitem acompanhar aulas síncronas, lives e afins. Mas parece que muita gente, professores e gestores inclusive, ou ignoram completamente esse fato ou, por conveniência, fingem ignorá-lo. Vou passar a outro ponto: a tela de um celular seria adequada para deixarmos alunos expostos por 8 horas diárias, em média, lendo textos e fazendo exercícios? Isso porque os levantamentos mais rasteiros feitos por escolas evidenciam que boa parte dos alunos não tem computador em casa. Mas aquelas famílias que possuem um computador estão nesse momento com pais trabalhando remotamente, muitas vezes, utilizando o computador e filhos - sim, às vezes mais do que um - que terão aulas e atividades online para serem realizadas. Mas para falar de EaD, é preciso também pensar que a acessibilidade não se resume a ter um aparelho e internet. Haverá nos lares espaço adequado para estudo? Ou estariam adolescentes assumindo o cuidado de irmãos menores bem como tarefas domésticas enquanto pais seguem trabalhando? E nos lares onde os pais estão desempregados, há clima para seguir estudos remotos?

Mas vamos falar da EaD. Ensino ou Educação a distância? Ah, isso não faz diferença, já posso ouvir algumas vozes e ver algumas caras tortas. Faz sim! Se, para prefeitos, governadores e gestores não faz; para nós, professores e educadores deveria fazer. Normalmente, quando falamos em Educação temos em mente algo bem mais amplo do que o termo 'ensino' é capaz de abranger. Segundo a nossa Constituição, "A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho" (Art. 205). Como podemos observar, a Educação não está restrita ao ambiente escolar. Por outro lado, ao ser descrita em termos de "pleno desenvolvimento da pessoa", Educação não pode ser reduzida a processos de Ensino-Aprendizagem, diretamente associados a conteúdos e que podem ser medidos e quantificados de alguma maneira. A filósofa Hannah Arendt nos apresenta uma diferença entre Educação e Aprendizagem que pode nos ajudar a entender as limitações de se falar em "ensino a distância",  principalmente pensando na Educação Básica. Segundo a autora, "não se pode educar sem ao mesmo tempo ensinar; (...). É muito fácil, porém, ensinar sem educar, e pode-se aprender durante o dia todo sem por isso ser educado" (ARENDT, H., Entre o passado e o futuro, São Paulo: Perspectiva, 2016). Pensar que, através das tecnologias hoje disponíveis, podemos substituir as aulas presenciais sem perdas, dando conta de cumprir o nosso compromisso de Educação, de "pleno desenvolvimento da pessoa" é simplificar uma discussão complexa e de extrema importância para a sociedade.

Mas, além disso, para que possamos falar em EaD, conforme a legislação brasileira mais recente* a entende, faz-se necessário falar em: i) formação do professor para trabalhar nessa modalidade; ii) adaptação dos cursos presenciais para a modalidade a distância, entendo que as duas modalidades possuem características específicas em termos de ferramentas e métodos; iii) preparação dos alunos para a nova modalidade, além, é claro, iv) da infraestrutura material tecnológica para viabilizar o adequado desenvolvimento de um curso EaD. Para resumir: qualquer coisa que venha a ser feita neste momento, ainda que mediada por tecnologia, não pode ser chamada de EaD. Caso contrário, corremos o risco de estarmos rebaixando o trabalho sério e responsável que Instituições e profissionais de cursos EaD realizam hoje e contribuindo para um rebaixamento da qualidade do ensino em geral, diante da possibilidade de que "experiências" desse período de pandemia se tornem o "novo normal" posteriormente.

Que o mundo não será o mesmo depois dessa pandemia, parece uma verdade incontestável, embora muitos sigam no modo negação. Só que o "novo normal" já está sendo gerado agora. E se depender das respostas imediatistas, que seguem os mesmos princípios da "normalidade pré-pandemia", não terá muita novidade. Para o filósofo coreano Byung-Chul Han, vivemos numa sociedade marcada pela busca do "desempenho", da "produtividade" ou, talvez diria o "professor" que tive o desprazer de conhecer, num mundo que precisa se manter girando, e cada vez mais rápido, de preferência. Para Byung-Chul, a sociedade do século XXI é a sociedade do desempenho, formadas por sujeitos de desempenho e produção, empresários de si mesmos. No contexto da pandemia, parece que esses traços da sociedade do desempenho se acentuam e aceleram. Por um lado, o discurso do empreendedorismo tem alimentado a ilusão de que cada um é empresário de si mesmo, que o sucesso depende única e exclusivamente do esforço individual, que os fracassados e perdedores do mundo - talvez aqueles que não fazem o mundo girar - são totalmente responsáveis pelo lugar que ocupam na sociedade. Por outro lado, no meio da pandemia, é grande o número de profissionais, também da educação, preocupados em ser produtivos, em mostrar desempenho, em ser proativos. Talvez porque, como nos fala Byung-Chul, a mudança de paradigma para essa sociedade do desempenho já habite o inconsciente social. Na sociedade do desempenho, explorado e explorador colapsam no mesmo sujeito; predomina a autoexploração, disfarçada de liberdade, de autonomina. Todo esse processo de autoexploração é potencializado pelas mídias digitais. E nada melhor do que a pandemia para tornar isso evidente para todos que queiram ver. "O aparato digital torna o próprio trabalho móvel. Todos carregam o trabalho consigo como um depósito de trabalho. Assim não podemos mais escapar do trabalho" (Byung-Chul Han, No enxame: perspectiva do digital, Petrópolis,RJ: Vozes, 2018). Será esse o "novo normal" para o qual nos dirigimos? Se antes eram apenas os trabalhadores por aplicativos - Uber e afins - que na ilusão da liberdade e de serem empresários de si mesmos - se autoexploravam diariamente, quem poderá estar salvo dessa dinâmica pós-pandemia? Depois que provarmos que é possível manter a "normalidade" de casa e, no caso da Educação, que podemos seguir, graças a redes sociais, zoom, Instagram, WhatsApp, Moodle entre tantos outros, o nosso processo de Educação ou de Ensino, cumprir nossos Planos de Ensino, alcançar nossas metas, nos adaptar, nos superar, nos reinventar, quem poderá nos salvar de nós mesmos?

Contrariamente aos pressupostos otimistas que afirmam que o aparato tecnológico reduz e até supre a distância, o que seria extremamente positivo no caso da Educação, Byung-Chul afirma que as mídias digitais nos afastam cada vez mais do outro, ao mesmo tempo que nos conduz a um processo de narcisificação. A mídia digital opera na lógica da adição, do acúmulo, não por acaso falamos de "sociedade da informação". Mas informação não é sinônimo de conhecimento, nem de aprendizagem. Se por um lado, as ferramentas digitais e tecnológicas facilitam processos de pesquisa, busca, de informação, por outro, ela nos afasta do real, dos fatos, da temporalidade, nos prendendo num presente eterno. A percepção do mundo passa a ser plana, perde profundidade, perde-se o outro, e nos tornamos mais do mesmo. Perde-se a dimensão histórica, do passado, e perde-se a dimensão dos sonhos, de se pensar /imaginar o futuro.

Quaisquer que sejam as saídas trilhadas pelas instituições de ensino - principalmente as públicas - nesse momento de crise gerada pela pandemia do coronavírus, não podem se furtar a refletir sobre qual é o "novo normal" que queremos construir. Abraçar EaD, sem problematizar os pontos acima levantados, todos eles, é apostar num mundo que seguirá girando enquanto milhares estarão sendo deixados de lado, porque, como me disse aquele "professor", elas estão de fora, não fazem o mundo girar. A questão é  se queremos ampliar ainda mais o número de gente que estará nessa situação, de não fazer o mundo girar, em nome da produtividade e do desempenho, encantados com as ilusões de liberdade e autonomia que as tecnologias digitais colocam ao alcance das nossas mãos, ou melhor, dos nossos dedos, bastando deslizar o dedo pela tela para descartar candidatos, como no Tinder, ou num clique deletar, como no Facebook, amigos indesejáveis. 

*****
Para saber mais e pensar melhor

*Legislação da EaD

-Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (LDB)

-Decreto 9.057, de 25 de maio de 2017 (novo marco regulatório para EaD)

-Portaria n.11, de 20 de junho de 2017.


Artigos e podcast

- Como o ensino a distância pode agravar as desigualdades agora: nexo jornal;

- A educação a distância não é para todos: Café da manhã, podcast da Folha de São Paulo;

 - Coronavírus e a "volta às aulas": Le Monde Diplomatique;

- Ensino a distancia na quarentea esbarra na realidade de alunos e professores: BBC Brasil

02 agosto 2019

Atualizar, editar, deletar e a emergência de sujeitos-perfis


De todas as redes sociais, hoje tão difundidas entre nós, o Facebook, lançado em fevereiro de 2004, talvez seja a mais utilizada pela maioria das pessoas. E dentre as muitas ferramentas da rede social, atualizar e editar os conteúdos postados fazem parte das primeiras lições do novo usuário. Quanto mais se atualiza seu perfil, com fotos, localização, o que está pensando, o que está comendo e assim por diante, mais chances de atrair a atenção dos demais usuários da rede e, quem sabe, ganhar curtidas e likes. E se alguma postagem causar algum mal-entendido ou não tiver sucesso, é possível editar o que foi publicado, ou mesmo deletar a postagem. A lógica da rede social é que a última informação postada, a última atualização feita no perfil, é o que importa. É a lógica do 'agora', do 'último minuto'. Há duas horas eu estava triste, ou com fome, ou em casa, ou saindo do trabalho. Mas o que importa é que a 'realidade' agora já é outra, porque nesse minuto eu estou feliz, estou comendo, estou na balada ou indo para a balada. O que eu fazia ou como me sentia ou o que estava pensando há duas horas já não tem nenhuma relevância, já perdeu sua realidade e, portanto, perdeu sua verdade. A única verdade que importa é a do momento atual. Cada vez que atualizo meu perfil, digo ao mundo a verdade que está valendo agora

 Há, no senso comum, uma sobreposição entre os conceitos de verdade e realidade. Ou ainda, na medida em que a realidade é entendida como o conjunto dos fatos, do que acontece, há uma sobreposição entre as noções de fato e de verdade.  Nesse sentido, para o senso comum, o que está acontecendo agora é verdadeiro. Se eu estou agora no shopping e posto uma foto no meu perfil, essa imagem, acompanhada ou não de uma legenda, é entendida como a minha realidade e como a verdade sobre onde estou nesse momento. Nessa perspectiva, a sequência de fotos ou publicações, textos e ideias que formam a timeline de alguém numa rede social seria a própria expressão da realidade e da verdade sobre aquela pessoa. Como eu não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo, na minha timeline são registradas uma série de sucessões de lugares pelos quais eu passo ao longo dia, da semana, do mês. E, quando eu atualizo meu perfil e escrevo que 'estou em casa' ou 'no trabalho', isso é a verdade naquele momento em que atualizo o perfil. O que não se percebe, é que o predicado verdade está sendo atribuído a uma declaração, ao que se diz sobre o que acontece e não diretamente ao que acontece. A foto, ou a legenda da foto, são declarações sobre algo que acontece e são essas declarações que podem ser ditas verdadeiras, ou falsas. Como nos ensina Aristóteles, verdade e falsidade são atributos das sentenças, mais especificamente das sentenças declarativas que pretendem dizer alguma coisa de alguma coisa, afirmando ou negando – Eu estou no shopping ou Eu não estou no shopping. Enquanto os fatos são, aquilo que dizemos sobre os fatos pode ser verdadeiro ou falso. Se essa distinção entre fatos e o que dizemos sobre os fatos sempre passou despercebida para a maioria das pessoas, a emergência das redes sociais e seus mecanismos de postagens de fotos e mensagens instantâneas parece ter colapsado ainda mais essas duas noções – fato e verdade. De modo que, cada uma das atualizações feitas reflete, naquele momento imediato, uma verdade que será substituída por outra, quando novamente for atualizado. Enquanto estamos falando de estar com fome ou não, estar no shopping ou não, no trabalho ou em casa, triste ou feliz, não temos tantos problemas. No entanto, se eu escrevo no meu perfil: "mulheres são inferiores a homens" e duas horas depois eu atualizo meu perfil com a mensagem: "homens e mulheres são iguais", isso deveria causar estranheza e seria legítimo que perguntassem qual das duas publicações reflete o que eu realmente penso sobre homens e mulheres.

É claro que nós podemos mudar de ideias e opiniões sobre um mesmo assunto. No entanto, as opiniões não costumam ser como as roupas que usamos. As opiniões não são como os lugares pelos quais passamos ao longo do dia. Não há nenhuma contradição em estar em casa às 7:00h e às 8:30h estar no trabalho; em estar com fome 11:00h e estar almoçando 12:00h. Ninguém irá se espantar ou indagar por que eu mudei de lugar entre 7:00h e 8:30h. Mas se hoje eu digo que "o aborto é crime" e amanhã coloco no meu perfil "descriminalização do aborto já", seria legítimo que alguém me perguntasse o que aconteceu para que eu tenha mudado de opinião ou que alguém me perguntasse em qual das duas publicações eu estaria 'falando a verdade'. E aqui parece estarmos diante de mais uma confusão agora entre fato e opinião. Ou mais precisamente, entre enunciados de fatos e enunciados de opinião. Os enunciados de fatos, aqueles que se propõem a falar sobre o que acontece, serão verdadeiros ou falsos, na medida em que aquilo que enunciam encontram correspondência no mundo, nos fatos. Os enunciados de opinião, por sua vez, não seguem esse mesmo critério. Se pretendo enunciar um fato, aquilo que digo pode ser verdadeiro ou falso, mas se pretendo emitir opinião sobre um fato, pode ser que existam muitas opiniões sobre um único fato. Ao colapsar essas duas noções, tratá-las como se fossem a mesma coisa, já não temos critérios para dizer o que é verdadeiro ou falso. De repente tudo vira questão de opinião, inclusive os enunciados de fato, e podemos dizer qualquer coisa, sem nenhuma preocupação com os fatos. E ao mesmo tempo, as opiniões passam a ser expressas na mesma lógica dos acontecimentos, e vale sempre a última versão, aquilo que foi imediatamente dito.

Os hábitos que desenvolvemos com o uso rotineiro das redes sociais nos últimos dez, quinze anos parecem ter criado em nós uma predisposição para encarar as mudanças de opiniões ou pelo menos a expressão dessas opiniões sob a mesma perspectivas das fotos e demais atualizações e edições feitas em nossas timelines. A verdade, desse modo, estaria sempre na atualização mais recente. E não nos importamos se a opinião expressa no último minuto contradiz o que havia sido publicado na manhã do dia anterior. E caso alguém se incomode muito com isso, sempre há a opção de deletar a publicação anterior. E vale a máxima: se não está na timeline, não é verdade. Mas seria possível dizer que a internet, e em particular, as redes sociais e seus mecanismos de atualizar, editar e deletar teriam influenciado os usuários também fora das redes, no mundo offline? A historiadora Lynn Hunt, no livro A invenção dos direitos humanos: uma história, defende a tese de que a leitura dos romances epistolares do século XVIII teria tido efeitos psicológicos nos leitores de tal modo a ter contribuído com o surgimento dos direitos humanos. A identificação que o leitor muitas vezes criava com as personagens daqueles romances, faria com que ele se tornasse simultaneamente a personagem, de modo que a leitura introduziria um conjunto novo de experiências no leitor, provocando efeitos sobre seus corpos e suas mentes. Segundo Hunt, “os leitores que sentiam empatia pelas heroínas aprendiam que todas as pessoas – até as mulheres – aspiravam a uma maior autonomia, e experimentavam imaginativamente o esforço psicológico que a luta acarretava” e a autora conclui “aprender a sentir empatia abriu o caminho para os direitos humanos” (HUNT, p.60). Em outra passagem, Hunt afirma que “os direitos humanos só puderam florescer quando as pessoas aprenderam a pensar nos outros como seus iguais, como seus semelhantes em algum modo fundamental. Aprenderam essa igualdade, ao menos em partes, experimentando a identificação com personagens comuns que pareciam dramaticamente presentes e familiares, mesmo que em última análise fictícios” (HUNT, p.58) Se por um momento tomarmos as redes sociais como um gênero textual novo e considerarmos a influência que esse gênero tem tido no cotidiano de milhares de pessoas, poderíamos aceitar que os mecanismos próprios das redes sociais, o atualizar, editar e deletar, aos quais os usuários estão familiarizados, teriam causado efeitos psicológicos tais que estaríamos mais propensos a aceitar as contradições nos enunciados de opinião e a apagar totalmente os limites que distinguem enunciados de fato de enunciados de opinião.

Donald Trump e Jair Bolsonaro seriam dois exemplos de políticos que incorporaram o modus operandi das redes sociais e que agem como se fossem perfis ambulantes ou, mais apropriadamente, sujeitos-perfis. O que eles dizem, afirmam ou anunciam, tem uma validade efêmera, instantânea, dura enquanto a atualização se faz atual. A depender das reações (curtidas, likes, aprovações ou reprovações), imediatamente eles editam ou atualizam novamente seus status. Desse modo, o que vale, o real, o verdadeiro, é aquilo que foi dito por último. Nessa lógica, não há espaço para contradição, erro ou qualquer ideia semelhante. O sujeito-perfil está sempre falando a verdade porque a verdade torna-se aquilo que foi dito por último e não guarda nenhuma relação com o que foi dito antes. As opiniões, ao invés de terem uma existência que se prolonga no tempo, passam a ter o mesmo caráter transitório e passageiro dos acontecimentos que se sucedem ao longo do dia. O que importa é sempre o agora: agora estou em casa, agora estou no trabalho, agora estou no trânsito, agora estou almoçando, agora estou voltando para casa. A verdade de cada uma dessas atualizações depende da duração efêmera do agora que as acompanha. O mesmo passa a valer para as opiniões expressas pelos sujeitos-perfis: agora sou contra a reforma da previdência, agora sou a favor da reforma da previdência. Como os agoras são distintos, o que importa é o que digo no agora imediatamente atual. Ao mesmo tempo, os enunciados de fato perdem qualquer critério de verificação, surgindo até mesmo espaço para fatos alternativos. Ou para a contestação de estudos sérios feitos por órgãos oficiais como IBGE e INPE. Ou para a negação de fatos históricos, devidamente registrados e comprovados. Além disso, ao se comportar como sujeito-perfil, Bolsonaro pode ser e não ser o presidente, ou como diz Eliane Brum, agir como um antipresidente. Para Brum, antipresidente é um conceito, que permite “Bolsonaro agir como se estivesse fora e dentro ao mesmo tempo, fosse governo e opositor do governo simultaneamente”.

A aparição e o sucesso de sujeitos-perfis como Trump e Bolsonaro é um fenômeno muito complexo e que não se esgota nessa única perspectiva. Mas me parece que compreender os efeitos que as ações de atualizar e editar das redes sociais estão tendo sobre as nossas faculdades cognitivas, sobre a forma como estamos interagindo com o mundo, é uma das chaves para compreender o sucesso do fenômeno sujeito-perfil na política do século XXI.

___________________
Agradeço ao colega e amigo, o historiador Felipe Vieira, pela leitura atenta e pelas sugestões preciosas que foram incorporadas ao texto. 

Texto publicado originalmente no Diário do Engenho

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