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27 agosto 2020

É preciso parar de chamar Bolsonaro e seus ministros de incompetentes

 "Nunca tivemos um governo tão inepto no Brasil. Pastas essenciais, como Educação, Saúde, Relações Exteriores, Meio Ambiente e Direitos Humanos foram confiadas a pessoas incompetentes." (Janine, Renato, Diálogos urgentes, Revista Piauí)

Assim começa o artigo do Renato Janine, publicado ontem (26/ago/2020) na Revista Piauí. E para mim começa errado. Não podemos mais, principalmente depois de revelada aquela trágica reunião ministerial de 22 de abril, insistir em chamar de incompetente esse bando. Ali, naqueles diálogos torpes, com linguajar baixo, parecendo conversa de penitenciaria, deveria ter ficado claro para todos que se opõem a esse desgoverno, que não se trata de incompetência. Ricardo Salles, Damares Alves, Weintraub, Ernesto Araújo e agora Eduardo Pazuello, não são incompetentes. Podem ser certamente acusados de mau-caratismo, de ser limitados intelectualmente, em alguns casos, antiéticos, hipócritas, mentirosos, mas não incompetentes. 

                                   Imagens da Reunião de 22 de abril - jornal O Globo
 

Devemos nos lembrar da fala de Bolsonaro nos EUA, quando disse que sua missão era desconstruir muita coisa. Os seus ministros, todos eles, são tarefeiros colocados em seus postos com a clara missão de desconstruir. Podemos entender também esse "desconstruir" como "destruir", "desmantelar", "aniquilar". Salles tem sido extremamente competente em desmantelar os órgãos de proteção ambiental. Damares, competentíssima em destruir e aniquilar projetos e ações em prol dos direitos das mulheres. Quer competência maior do que a de Pazuello em deixar morrer centenas de milhares de brasileiros? Precisamos parar de chamar Bolsonaro e seus ministros de incompetentes e entender de uma vez por todas que o único projeto que Bolsonaro tem é o de destruição do Estado brasileiro

Bolsonaro é despreparado para governar? É verdade, mas também não é. Explico. Se mantivermos o sentido originário das palavras - que tem sido dia após dia atacado pelo ministério da verdade bolsonarista, a Secretaria Especial de Comunicação do Governo - então, sim, Bolsonaro é despreparado para governar. Mas entendendo que Bolsonaro criou, como bem disse Eliane Brum, a antipresidência, e por extensão poderíamos dizer o antigoverno, sua atuação tem sido muito competente nos últimos meses. Seus ataques à imprensa e aos profissionais do jornalismo têm contribuindo consideravelmente para minar a credibilidade que restava desse importante setor. Suas mentiras constantes tem estimulado na população uma incapacidade de distinguir fatos de ficção. Seu linguajar xucro continua sendo usado para aproximá-lo do homem comum, cidadão médio, desacreditado da política e de seus agentes falando difícil e, no fim do dia, todos acusados de corrupção. Bolsonaro é corrupto? É, mas o cidadão comum o vê com um igual, apenas mais um cidadão comum, cansado do sistema e que quando pode, tira sua vantagenzinha, sonega imposto, enfia a mãe, a sogra no imposto de renda, nada de mais, coisa de cidadão de bem...

Mas o artigo de Janine também comete outro erro. Prefere deixar "para outra oportunidade a discussão sobre o que levou uma maioria de eleitores a escolher tal caminho", a saber, votar em Bolsonaro, em nome da prioridade do dia, que seria a questão de "saber que possibilidades há de escapar dessa rota que colocou o Brasil na vanguarda da barbárie". Nesse tema, acredito que Ciro Gomes está certo ao dizer que não dá para sair dessa encalacrada sem entender por que caímos nela. Nesse sentido, a autocrítica dos governos e partidos que estiveram no poder no passado recente torna-se urgente, e não dá para deixar para depois. Essa autocrítica, no meu entendimento, tem muito pouco a ver com autoflagelo em praça pública e muito mais a ver com lavagem de roupa suja em casa. Ou seja, essa autocrítica deve ser feita da porta para dentro dos partidos que se viram embolados nas denúncias de corrupção. Mas só vale para partidos que abertamente condenavam corrupção. Ninguém espera que (P) MDB ou PP, embora sejam os campeões de corruptos e condenados, façam isso.

Que a Lava-Jato extrapolou todos os limites legais e razoáveis  na sua sanha por fama - sim, porque a essas alturas do campeonato também não dá continuar acreditando que Moro, Dallagnol e afins eram caçadores de corruptos - deveria ser consenso. Mas mesmo assim, não é possível fingir que não aconteceu nada. Não é possível seguir querendo que a população aceite a "narrativa" da perseguição pura e simples contra um partido. O erro do petismo em 2013 se repete ainda hoje: chamar o cidadão médio, despolitizado e que até então havia votado no PT, e que em 2018 votou em Bolsonaro, de fascista. Janine, em seu artigo, prefere dividir a responsabilidade do PT com todo o campo democrático*. Janine faria bem em ler o excelente livro da Rosana Pinheiro-Machado, Amanhã será maior, no qual ela analisa os acontecimentos de junho de 2013, e como o partido que então governava o país, não entendendo o que estava acontecendo - ou preferindo não entender, isso é por minha conta - optou por culpar os protestos pelo que se seguiu. Rosana faz um trabalho muito interessante de ouvir e tentar entender os motivos que levaram jovens, homens e mulheres de periferia a votar em Bolsonaro. Entender as falhas e brechas que o modelo de gestão petista deixou, dando espaço para que um sujeito como Bolsonaro pudesse se despontar como alternativa ou como um antissistema, não significa ignorar ou jogar fora os méritos dessa mesma gestão. Mas se não tivermos maturidade para enfrentar fatos como o de Lula dizendo que nunca banqueiros ganharam tanto dinheiro como em seu governo, talvez não haja saída para nós. 

Concordo com Janine, e também com Rosana Pinheiro-Machado, quando alertam para a importância do campo progressista, as Esquerdas, perderem o medo de falar sobre corrupção. De que essa seja uma pauta cara à esse campo político. Não dá mais para deixar a direita agir como se tivesse monopólio sobre essa pauta. Outro tema que precisa deixar de ser tabu no campo progressista é a Segurança Pública. Bolsonaro foi eleito se ancorando também nessa queixa da população, e o que está fazendo? É preciso ser hábil em mostrar para a população que as soluções de Bolsonaro não resolvem o problema. Que liberar venda de armas e munição não é solução para a questão da Segurança Pública. 

Também concordo com a urgência do diálogo, de uma frente ampla, que vá além dos limites da centro-esquerda, que seja uma frente democrática, contra o autoritarismo e a barbárie que Bolsonaro hoje encarna. Não sei se por mero desejo e necessidade de esperança, mas tendo a concordar com Janine que o núcleo duro de apoiadores de Bolsonaro está em torno de 15% da população e que, portanto, é o caso encontrarmos os outros 15%, que não são fiéis devotos do antipresidente, para o diálogo. Mas esse diálogo precisa, urgentemente, ser pautado por propostas concretas para as demandas reais da população. E é preciso ouvir a população. E se ouvirmos reclamações legítimas, se ouvirmos críticas que nos desagradem, precisamos aprender a aceitar e acolher, reclamações e críticas, e não empurrar quem fala para outro campo. 

Bolsonaro forjou sua eleição se apresentando como uma resposta para uma crise do sistema político brasileiro. Mais do que nunca, precisamos fazer política. Mas não a rasteira, dos ataques, das acusações, que puxa o tapete de quem está no mesmo campo. Precisamos de uma Política com P maiúsculo. Com projetos, com propostas factíveis, que saiba ouvir os anseios da população mais do que imaginar que sabe o que a população deseja. Os partidos são fundamentais numa democracia representativa, mas não podem ser fins em si mesmos; não podem colocar seus interesses acima dos interesses do povo, ou caducam. Lá em 2013, no início, as manifestações apartidárias, que foram erradamente apontadas como antipartidárias ou mesmo como apolíticas, manifestavam uma insatisfação com os partidos políticos que precisa ser ouvida. Desde a redemocratização do Brasil, muitos partidos se encastelaram, perderam qualquer conexão com as ruas - mesmo partidos que historicamente estiveram ancorados nas ruas - e passaram a servir  aos seus próprios interesses. É hora de sair dos gabinetes, das respostas prontas, do que se imagina que a sociedade quer e estar entre as pessoas, no dia a dia, a fim de representá-las de fato. 

A formação política do cidadão médio precisa ser levada a sério. A construção de uma nova ordem política, no meu entender, passa por uma valorização do poder legislativo, de uma compreensão mais ampla de sua função. Os partidos do campo progressista precisam entender que não adianta focar em eleger quadros no executivo - seja municipal, estadual ou federal - deixando o legislativo a deriva. A reforma política no Brasil é assunto para antes de ontem. Precisamos oferecer opções para a população, para que novamente se possa acreditar na política e em seus agentes como capazes de transformar a realidade. 

 

*"O campo democrático tende a achar que todos os seguidores de Bolsonaro são fascistas ou idiotas."

03 junho 2020

Sobre a necessidade de compreeder o hoje para que amanhã possa ser maior

Amanhã vai ser maior, de Rosana Pinheiro-Machado, é um livro fundamental para compreendermos como chegamos onde chegamos, mas também para apontar caminhos e possíveis saídas desse buraco no qual nos encontramos. O que aconteceu - e o que está acontecendo - com o Brasil, são perguntas que têm atormentado muitos brasileiros desde 2013. Do gigante acordou para a eleição de Bolsonaro, passando por um impeachment pra lá de questionável, esse é o itinerário que a autora nos convida a percorrer.

A leitura de Pinheiro-Machado das jornadas de 2013, bem como de outros eventos e fenômenos que deixaram muitos de nós sem fôlego e incrédulos, é potente e muito fértil. Ela foge dos caminhos fáceis, encara a complexidade e a contradição que permeiam movimentos como aqueles de junho de 2013, mas também os Rolezinhos de 2014, as ocupações secundaristas das escolas em 2016 e a greve dos caminhoneiros de 2017. Fugindo do maniqueísmo, traz indivíduos, com suas histórias, suas vidas, com suas incoerências, frustrações e esperanças. Do começo ao fim, somos chamados a ouvir o outro, mais do que julgar e rotular, a entender os motivos que levaram o outro às suas escolhas.

Como intelectual, Rosana Pinheiro-Machado convida aqueles que se identificam com o campo da esquerda ou com o campo progressista a abandonar o olhar elitista que parece, muitas vezes, buscar um 'povo' idealizado e que quando encontra o povo real, em suas contradições, tende a culpabilizá-lo por ele não se adequar às suas idealizações, ou mesmo ridicularizá-lo, preferindo virar as costas a esse povo real, tratando-o como ignorantes ou manipulados que, por terem cedido ao inimigo, merecem mesmo é sofrer. Nas palavras da autora, "chamar o trabalhador pobre que votou em Bolsonaro de fascista e coxinha não ajuda em nada nessa batalha ideológica que estamos perdendo feio" (p.128). Se queremos vencer o Bolsonarismo, precisamos de um projeto claro, um projeto capaz de apresentar soluções para os problemas concretos do dia a dia das pessoas. E alguns podem se perguntar: mas que problemas são esses? E Rosana nos dá dicas: falta de comida, compra de votos, assaltos sofridos na parada de ônibus, emprego precário (p.131).

Mais do que apontar erros e acertos de figuras públicas, partidos e grupos ao longo dos últimos anos, Pinheiro-Machado nos chama a um olhar realista, desapegado de paixões, mas capaz de perceber o surgimento de novos afetos, novas maneiras de fazer política. Se durante a leitura somos tomados, em certos momentos, pelo desânimo diante da lembrança de que saiu vitorioso das urnas em 2018 um não-projeto muito bem empacotado num discurso moralista, que mal disfarçava preconceitos de todas as ordens, num discurso violento e autoritário cuja resposta para a crise de segurança vivida pelo país era a promessa de armar a população, Rosana joga luz nas transformações que podem ser percebidas apesar desse resultado. Foca o nosso olhar para a mudança que está em construção, na potência encontrada nas falas de meninas e adolescentes da periferia, nas ocupações secundaristas, mas principalmente no #EleNão em 2018.

                                   "O momento mais emocionante para mim foi encontrar uma aluna que levava sua mãe e sua avó. Elas eram de um município muito pequeno e moravam no campo. Nunca haviam participado de uma manifestação antes. Minha aluna me contou que elas seguiam o voto do homem na família, que não gostavam de política e que agora seguiriam uma mulher pela primeira vez. A avó, com muita dificuldade de caminhar, estava maravilhada com o ato, e me disse: "Que beleza isso daqui. É a força das mulheres." (p.173)

É nessa "força das mulheres de uma nova geração" que Rosana encontra respaldo para sua esperança. Mulheres como Marielle Franco que mesmo tendo sido vítima do racismo, do machismo, da violência, do ódio e da milícia, segue sendo exemplo e dando frutos. Segundo a antropóloga, "existe toda uma nova geração de feministas, e elas foram fundamentais na contenção do crescimento de Bolsonaro no bairro em que moram." (p.174) E, como diz a autora, "é uma questão de tempo, as adolescentes feministas vão crescer, e o mundo institucional terá que mudar para recebê-las." (p.176)

Minha questão é: por onde faremos essa mudança institucional? Se Rosana está certa, e há bons motivos para acreditarmos que ela está, o bolsonarismo é a expressão de uma geração que cada vez mais perde espaço, que luta "em vão para barrar o futuro" (p.181), que se sente ameaçada diante das mudanças pelas quais a sociedade passa. No entanto, é fato que essa "geração que resiste ao futuro" continuará votando, continuará influenciando políticas públicas e devem ser levadas em consideração na política institucional, pelos partidos e nas próximas eleições. Como não sucumbir nas urnas? Para mim, a resposta também está dada no livro de Rosana Pinheiro-Machado: no parlamento. Ao falar da deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, a autora afirma:

"ela encarna as lutas das minorias ao mesmo tempo que resgata uma linguagem dos laços de amor da família e da comunidade. A deputada também produz um discurso mais universalista que dialoga diretamente com os anseios da classe trabalhadora, com frequência saqueada: tiram dela emprego, segurança, sistema de saúde e educação. Em suma ao falar do amor e das dificuldades da vida cotidiana, ela atinge temas básicos que tocam no âmago dos anseios populares - assuntos que, apesar de essenciais, no Brasil têm sido deixado de lado pela grande narrativa da esquerda."(p.175-176).

Ainda que a potência desse amanhã que, esperamos, será maior, esteja sendo construído hoje por mulheres, mulheres negras, movimentos negro e indígena, movimento LGBTQI+, o Brasil de hoje precisa de um projeto amplo, capaz de abraçar as reivindicações das minorias, mas principalmente capaz de oferecer uma proposta universalista que dialogue com os anseios da classe trabalhadora, precarizada e saqueada cotidianamente. No plano institucional, para disputar cargos no executivo, principalmente na esfera federal, o foco nessas propostas universalistas deve ser a tônica dos projetos a serem construídos: empregos de qualidade, educação, saúde, segurança, combate à corrupção. Já para disputar as cadeiras dos legislativos, nas três esferas, temos que seguir os exemplos exitosos da Bancada Ativista, investindo na construção de bancadas feministas, bancadas indígenas, enfim, levar as discussões das pautas de minorias para o parlamento, ajudando a construir uma nova sensibilidade popular para grupos historicamente excluídos e marginalizados. Tornar o parlamento verdadeiramente a casa do povo, dando voz a diversidade que compõe o povo brasileiro. Os partidos que aceitarem o desafio de construir esse amanhã, devem começar a mudar hoje as suas prioridades, abrindo espaços e apoiando e construindo um legislativo que seja de fato a cara do povo brasileiro. Fortalecer candidaturas de mulheres, de indígenas e negros, de pessoas LGBTQI+.  Assim, acredito que, num futuro próximo, poderemos ter um país maior.

27 janeiro 2020

Moro no centro da Roda e do Bolsonarismo

Ontem Sérgio Moro, atual ministro da justiça e segurança pública  de Bolsonaro e ex-juiz da lava-jato, esteve no centro do Roda Viva, na Cultura. A ausência de jornalistas envolvidos na Vaza-Jato no time que iria entrevistar Moro, fossem eles jornalistas do The Intercept Brasil (TIB) ou de outros veículos parceiros da série de reportagens, fez com que as redes sociais entrassem em ebulição na semana passada pedindo a presença desses profissionais. O pedido não foi atendido, mas os jornalistas presentes na bancada pegaram mais pesado do que se esperava com o superministro de Bolsonaro. No entanto, suas respostas foram, como sempre, evasivas, desconexas, cínicas, cheias de mas veja bem, tudo naquele adorável som de desafino que sua inconfundível voz possuí. A equipe de jornalistas do TIB fez questão de acompanhar a entrevista no seu canal no Youtube, para quem quiser maiores detalhes das mentiras e desculpas esfarrapadas do ex-juiz, vale a pena conferir. Minha intenção não é comentar a entrevista de ontem, mas é pensar um pouco a relação de Moro com o fenômeno que vem sendo chamado bolsonarismo no Brasil. 

Alguns jornalistas e intelectuais já levantaram a bola de que o bolsonarismo seria maior que Bolsonaro. Em seu novo livro, Brasil: construtor de ruínas, Eliane Brum defende a hipótese de que seja possível bolsonarismo sem Bolsonaro. Segundo ela, "a pessoa e o personagem Jair Bolsonaro deram nome e forma a este fenômeno que testemunhamos nascer e conquistar o Brasil." No entanto, a autora diz suspeitar que, "pelo seu próprio conteúdo, o bolsonarismo vai muito além de Bolsonaro e, em determinadas condições, pode prescindir dele." (BRUM, 2019, p.237). Eliane afirma que "o bolsonarismo é um fenômeno da democracia brasileira, de como ela foi fundada e de como se desenrolou, e é um fenômeno que ganha força pelo modo como o PT se tornou governo, no que fez de bom e no que fez de ruim." (BRUM, 2019, p.237). 

Se aceitamos a hipótese de Eliane a respeito do fenômeno bolsonarismo, podemos nos perguntar quem seriam os candidatos a ocupar o lugar de Bolsonaro, uma vez que ele viesse a ser defenestrado ou, por qualquer outro motivo, viesse a perder a posição que ocupa hoje. Para mim a resposta é muito clara: Sérgio Moro é o candidato natural a essa posição. Bolsonaro também sabe disso, por isso tratou logo de colocá-lo no bolso, ou melhor, no governo, debaixo do seu nariz. Mas parece que a estratégia não tem saído exatamente favorável ao presidente. As pesquisas têm mostrado que a popularidade de Moro segue maior do que a de Bolsonaro, apesar das denúncias da Vaza-Jato, as quais ontem o ministro chamou de "bobageirada". As pretensões de Moro de se tornar presidente do Brasil continuaram assombrando Bolsonaro mesmo tendo o ex-juiz debaixo de suas ordens. Questionado ontem sobre possível candidatura em 2022, Moro deixou clara suas intenções ao negá-las. Fez o que os políticos costumam fazer. Por sinal, para um ex-juiz que dizia não ter pretensões políticas, ele tem mostrado que possui todas as piores características dos maus políticos: mente de forma descarada, é cínico, afirma suas intenções negando-as, é vago, escorregadio e prolixo. 

Depois da entrevista de ontem, mais do que nunca é preciso colocar Moro na roda sempre que formos discutir o cenário eleitoral de 2022. Também me parece importante revermos o nome que foi dado ao fenômeno que se materializa hoje no país. Chamá-lo de bolsonarismo pode criar ilusões a respeito da sua durabilidade e das consequências que ele terá na vida de todos nós. Não seria o caso de darmos nomes mais apropriados ao que vivemos? Principalmente depois do episódio que culminou com a exoneração de Roberto Alvim da secretária de cultura? O flerte do ex-secretário com o conceito de cultura do nazismo e seu plágio mal disfarçado de Goebbels não deveriam servir de alerta? Por que relutamos em aceitar que o fenômeno que hoje toma conta do Brasil é também uma cópia mal disfarçada de movimentos fascistas?

Nesse sentido, a pesquisadora Thatiane Oliveira propôs uma análise muito interessante acerca da relação entre o movimento fascista e o 'bolsonarismo', que, segundo ela, "não é o mesmo que o 'governo de Jair Bolsonaro', assim como 'movimento fascista', não é o mesmo que 'regime fascista'" (texto disponível aqui). A análise de Thatiane me parece ser um bom caminho para pensarmos as próximas cenas da distopia que experimentamos diariamente. Se, como me parece, o bolsonarismo vai além do clã Bolsonaro e a liderança do fenômeno pode vir a ser ocupada por outros personagens, é preciso ter claro diante de nós do que se trata, que fenômeno é esse. Amanhã ou depois, Moro e similares poderão tentar dar uma cara nova para os mesmos anseios e ideias destrutivos que estão na base do que hoje chamamos 'bolsonarismo'. Esmiuçar esse fenômeno não é tarefa tão simples, mas é urgente, e muitos já começam a desbravar esse caminho.

Originalmente publicado no Diário do Engenho

04 outubro 2018

É hora de dizer SIM! #Ciro12!


Se você já tem seu voto para presidente decidido, esta postagem não é para você. Não continue lendo se não quiser, e se continuar, não venha reclamar comigo dizendo que estou tentando mudar seu voto. Esta postagem é para as pessoas que ainda não se decidiram, que estão pensando em votar em branco ou anular seu voto. Meu amigo, seu voto é muito importante para o Brasil. Por isso peço um pouco da sua atenção.
Eu também fui às ruas dizer ‘NÃO’ ao Bolsonaro e a tudo que ele representa: violência, ódio, intolerância, machismo, racismo, mentira, enfim. Se você também foi às ruas ou apoiou o movimento, estamos junt@s! Infelizmente muitas pessoas, movidas pelo ódio, pela desesperança, pelo ressentimento, estão apoiando esse candidato, sem perceber que ele não tem propostas para o nosso país. Ele não oferece alternativas para os problemas de segurança, saúde, educação, economia. Ou melhor, ele oferece respostas que são inviáveis. Mas você já sabe disso! Por outro lado, se apesar de ter aderido ao movimento #elenão, você não se sente confortável em votar no PT, eu também te entendo. Eu também não me sinto confortável. Apesar de não aceitar esse ‘ódio ao PT’ que tomou conta do país e que também está deixando as coisas mais complicadas, reconheço os erros do PT, inclusive de estratégia política nessa eleição, que, na minha opinião, inviabilizam um voto no candidato do partido. Mas não dá para fugir da responsabilidade, é preciso apontar saídas.
Por isso eu decidi essa semana que era preciso assumir uma posição, afirmar meu voto em Ciro Gomes. Ciro não é o candidato perfeito, mas é preciso entender que esse ‘candidato perfeito’ não existe, e nunca existirá. Para um país que clama contra a corrupção, Ciro é um candidato que, tendo sido deputado, ministro, prefeito e governador, tem ficha limpa. Como ele mesmo diz, não fez mais que a obrigação dele. Vão te dizer que ele responde a processos. Sim, é verdade, responde por ‘falar demais’. Ele é esquentado, exagerado, mas não me parece que isso inviabilize sua candidatura. Perder a paciência pelos motivos certos, ficar indignado diante de situações injustas, pode ser uma virtude e não um vício. Para um país que pede o fim de privilégios e regalias à classe política, Ciro é o cara que, achando imoral algumas dessas regalias, não requereu aposentadoria de prefeito e de governador a qual tinha direito. Num país em que a educação básica sofre ano após ano com resultados tristes de desempenho dos alunos, mas que também castiga os profissionais da educação, Ciro, como governador e prefeito, deu exemplo de que, valorizando a educação, colocando-a como prioridade, é possível fazer diferente. Ele apresenta uma proposta de ampliar as escolas de tempo integral, políticas públicas para garantir a permanência dos adolescentes mais vulneráveis na escola, evitando assim que eles sejam seduzidos pelo tráfico e pelo crime. Num país que sofre com o desemprego, Ciro apresenta propostas concretas para geração de empregos. Ciro tem tido coragem de bater de frente com aqueles que se dão bem quando o país vai mal, com os rentistas, aqueles que vivem de renda, de juros altos. Quando Ciro apresenta suas ideias para a economia, não agrada uma parcela da sociedade porque propõe romper com um sistema que até hoje sustentou privilégios. Quando Ciro apresenta a proposta de refinanciar as dívidas dos cidadãos que estão hoje com o nome sujo, ele tem coragem de dizer que esses programas já existem para renegociar dívidas de ricos.
Você deve estar se perguntando se eu não tenho medo de quebrar a cara. De que uma vez eleito ele não faça nada disso. A minha resposta honesta é que só poderemos saber se ele irá ou não trabalhar para realizar essas propostas se dermos a ele uma chance. Você que leu até aqui, considere dar essa chance para Ciro. E vamos depois, juntos, cobrar que essas propostas se tornem realidade. Gaste um pouquinho do seu tempo dando uma olhada no site dele. Escute, leia! Vamos nos unir para dizer SIM para um projeto de Brasil! #Ciro12!

27 agosto 2018

O que tem de Novo?

"Educação e liberdade são a base para a construção de uma sociedade próspera.
A nossa educação apresenta, sob inúmeros ângulos, indicadores muito ruins: 93% dos alunos terminam o ensino médio sem noções básicas de matemática, 27% dos brasileiros entre 15 e 64 são analfabetos funcionais. Gastamos 3 vezes mais com o aluno do nível superior (US$ 12 mil), do que com o aluno do ensino básico (US$ 3,8 mil). Apesar do aumento das verbas para educação, entre 2012 e 2016, o Brasil caiu 7 posições no ranking do PISA. O ensino infantil é a base da formação cognitiva e somente 30% das crianças estão nas creches. A educação é a base de qualquer sociedade.

 Propostas

  • Priorizar a educação básica na alocação de recursos federais.
  • Expansão do acesso ao ensino infantil e creches.
  • Gestão profissional na direção das escolas de todo o País.
  • Programa de bolsas em escolas particulares para alunos do ensino público.
  • Consórcios intermunicipais para a boa gestão da educação nas cidades menores.
  • Reconhecer e valorizar, na distribuição de recursos do FUNDEB, os estados, municípios e as escolas que melhorarem o aprendizado dos alunos.
  • Base curricular da formação dos professores direcionada à metodologia e à prática do ensino, não a fundamentos teóricos.
  • Ampliar o ensino médio-técnico para atrair e melhor formar os jovens para o mercado de trabalho.
  • Aproximar o ensino profissionalizante das demandas reais do mercado de trabalho.
  • Universidades: melhor gestão, menos burocracia, novas fontes de recursos não-estatais e parcerias com o setor privado voltadas à pesquisa.
  • Novas formas de financiamento de cultura, do esporte e da ciência com fundos patrimoniais de doações."


O tópico do Programa do Novo para Educação além de extremamente vago e superficial, não traz nada de novo. Quer coisa mais velha nesse país do que ignorar que um dos caminhos para melhorar a educação é investir na valorização do professor? Sobre isso nem uma linha. Querem padrão Coreia do Sul sem valorizar a carreira do professor.
A única novidade que vejo nas propostas acima é escancarar o desejo de privatizar a educação como um todo (sonho de outros, como Alckmin, por exemplo) através de um Programa de bolsas em escolas particulares para alunos do ensino público, vulgo voucher educacional, no Ensino Básico, e de parcerias com setor privado, no Ensino Superior. Para quem acha que esse negócio de voucher importando dos EUA é a salvação da lavoura, melhor dar uma pesquisada (pode dar uma olhada aqui, aqui e aqui). Uma das polêmicas que essa política enfrenta por lá é o favorecimento de instituições religiosas de ensino via vouchers. Além disso, a ampliação de desigualdades entre classes mais abastadas e aquelas atendidas pelos programas mostram a ineficiência dessa política no quesito acesso democrático à educação de qualidade.
Outro problema que vejo nas propostas acima é a acentuada importância do mercado na formação dos jovens. Ou seja, a educação vai virar mera formação para mercado, guiada e determinada pelas demandas reais do mercado. Na verdade, a educação é também só mais uma mercadoria cuja qualidade de oferta deve melhorar de acordo com a demanda...
A formação de professor está mais para adestramento de professor. Nada de teoria, vamos ao que interessa: técnicas que dão resultado...
E o que dizer da gestão profissional na direção das escolas de todo o país? Alguma dúvida de que educação é só uma mercadoria a mais no mercado? 
Ah, e quase esqueço da contradição: priorizar a educação básica na alocação de recursos federais. Se a ideia é dar bolsas para alunos irem para escolas privadas, a alocação de recursos federais será onde? Ah, para financiar escolas privadas... A Kroton agradece. O que o governo anterior começou no ensino superior, com um eventual governo do velho irá ser consolidado no âmbito do ensino básico. Bora privatizar tudo...
Ah, mas escola privada é melhor que escola pública. Claro, como tudo no mercado, você tem para todos os bolsos. Vocês estão mesmo pensando que o voucher vai ser para a família da periferia colocar o filho num Colégio Santa Cruz ou num Colégio Notre Dame? Num Progresso? Num Anglo?
Eu ainda acredito que é possível ter educação de qualidade e democrática e que seja pública. Mas para isso é preciso valorizar a carreira de professor, ter contratos de dedicação exclusiva, dar condições para que o professor prepare aulas, atividades, e possa corrigi-las, condições para que o professor tenha tempo de ler, estudar, atualizar seus conhecimentos.  
O cenário atual (reforma trabalhista + terceirização irrestrita + reforma do Ensino Médio) é catastrófico. Caminhamos para a precarização total da carreira de professor. A ampliação do setor privado não tem a menor chance de significar qualidade de educação nesse contexto. Teremos professores contratados temporariamente, por bimestres ou trimestres. Será fácil abrir uma escola, nem precisará ter professor contratado, poderá recorrer a empresas de terceirizados. E sim, são para essas escolas, nessas condições precárias de contratação, que os filhos de família da periferia terão vouchers. Esse discurso do velho pode soar bonito para os desavisados, inocentes ou para os cínicos que sabem que seus filhos estarão bem longe dessa realidade. Para aqueles que realmente têm compromisso com uma educação de qualidade para todos, deve soar o alarme de perigo.



04 agosto 2018

Senhor candidato, o problema não é a cota, mas a sua má-fé

“Sou contra as cotas. Somos iguais”, disse. “Meu sogro é conhecido como Paulo Negão. Não é justo minha filha ser cotista”,candidato à presidência JB (Fonte El País).

Essa é a Laura, a filha do presidenciável. Então posso dizer que há algo em que concordo com esse sujeito: não é justo que sua filha seja cotista. Sabe por que, candidato? Porque ela não é negra. É simples assim! Não importa que seu sogro seja o Paulo Negão, que seu cunhado seja negro. O que importa é sua filha. Ela não é negra, logo, ela jamais será vítima de racismo nesse país. Agora, o que me deixa assustada, muito mais do que a desfaçatez do candidato, é a incapacidade de tantos jornalistas de responderem ao candidato quando ele repete à exaustão essa justificativa para ser contra as cotas. 

A lei de cota não é para filhos ou netos de negros. A lei de cotas é para negros. Para jovens que, sendo negros, lidos como negros numa sociedade estruturalmente racista, são tratados de maneira diferente de outros jovens. Para jovens que sendo negros, quando entram numa loja, são seguidos pelo segurança. Ou numa blitz policial são os primeiros a serem enquadrados como suspeitos. Para jovens que, lidos como negros, são potencialmente considerados bandidos. Para jovens negros cujos pais ocupam postos de trabalhos desprestigiados socialmente (porteiros, faxineiros, garis, empregadas domésticas). Jovens negros que são lidos por muitos professores como futuros caixas de supermercado (e isso é o máximo que lhes permitem) e que por isso não é preciso perder tempo com eles. Jovens que lidos como negros, serão confundidos com manobristas, com faxineiras. Jovens negros que têm seus corpos precocemente sexualizados e objetificados em propagandas e no imaginário social brasileiro: o negão da pica grossa, a negra/mulata da bunda grande. Acima de tudo, a lei de cota, e estou pensando principalmente no ingresso ao ensino superior, é para os jovens negros que hoje não se veem entre aqueles que ocupam cargos de liderança, ministros, governadores, presidente da república ou de grandes empresas, que não se veem entre aqueles que desempenham profissões de prestígio, como médicos, advogados, engenheiros, professores universitários, cientistas.

Se alguém como a filha do candidato se apresenta para uma vaga de cota estará cometendo um grave erro. Seria má-fé, para dizer o mínimo, mas na verdade se trata de fraude, de um crime. O tema é polêmico, muito polêmico e por isso  mesmo merece ser tratado com seriedade e não de maneira leviana como a declaração do candidato. Estou ciente da complexidade do assunto e não tenho a pretensão de ser dona da verdade. No entanto, entendo que não podemos nos furtar à necessidade de responder a toda e qualquer tentativa rasteira de negar a pertinência da lei de cotas num país em que a escravidão acabou ontem e no qual tantas crianças, jovens e adultos negros ainda são lidos como não merecedores de direitos. Privilégio não é ser cotista, privilégio é não precisar de cotas para ter seus direitos garantidos.

19 março 2011

Acontece na Câmara / Campanha 'Adote um deputado'!

Como eu disse no post Saiba quem é José Antonio Reguffe, era bom ficarmos de olho nas propostas dos senhores deputados! No site da câmara dos deputados tem um link acompanhe seu deputado, no qual você se cadastra e escolhe um deputado para seguir (não é um orkut  ou Facebook dos deputados!), e ao fazer isso você passa a receber no seu email boletins com resumo das ações do deputado, por exemplo, os discursos proferidos, propostas de emendas e leis, e outras ações. Acessem o site e vejam algumas das propostas e ações do Reguffe nessa semana que passou. Aproveitem para votar nas enquetes! 

Eu acredito que, dado o tamanho desse país, é uma tarefa difícil acompanhar de perto as ações dos parlamentares, mas acho que devemos usar as ferramentas da internet para vigiar e cobrar os parlamentares e também para manifestar nossas opiniões, direta ou indiretamente, sobre cada passo que eles dão, contribuindo, assim,  para a construção de uma sociedade civil mais ativa no processo democrático. Sei que pode parecer pouco, mas se um bom número de cidadãos fizesse isso, acredito que surtiria algum efeito. 

Vamos fazer a campanha 'adote um deputado'! Quem sabe não conseguimos um pouco mais de seriedade na política brasileira com essa atitude! Reclamar no buteco ou na roda de amigos enquanto assiste o jornal nacional não resolve nada. Que tal experimentarmos algo novo? E você nem precisa sair de casa! É só fazer seu cadastro, receber os boletins, ler, se manifestar! Enviar para os amigos as notícias mais relevantes. Para exercer a democracia hoje não precisamos ir até a Ágora, podemos trazê-la para a nossa sala ou escritório, aqui mesmo nessa telinha do computador. É preciso acabar com essa tercerização da política  e reassumir nosso papel de animal político!

18 junho 2010

Ano de eleição, Murphy e essas coisas da vida do cidadão comum

Recebi o texto abaixo por email. A pessoa que escreveu me disse que foi num momento de revolta. E nem preciso entrar em detalhes sobre os motivos de tal sentimento. Lendo o texto, que eu até ousaria dizer tem uma boa pitada de humor, vocês vão entender. Agora, realmente, é difícil entender como é que muitas pessoas, todas as pessoas, não ficam revoltadas vendo as propagandas que esses senhores fazem na TV, no rádio e em todos os lugares que conseguem, de um Brasil que está cada dia mais parecendo um paraiso. Onde tudo funciona: transporte coletivo, saúde pública, educação. São tantos números e mais números de investimento nisso e naquilo, que parece mesmo que ninguém tem motivo pra reclamar de nada. Mas, para algumas pessoas, talvez aquelas pelas quais Murphy tem um carinho especial e, nesse caso, o senhor Murphy parece ser um cara de coração bem grande, esses benefícios todos não são assim tão generosos quanto as estátisticas dos horários políticos...


Caros amigos,

Quinta-feira, 17 de junho. Estou voltando ao trabalho e ainda mantenho o rádio ligado, mesmo com o horário eleitoral. Mantenho ligado para perceber que eu sou mesmo muito azarada. Onde eu vivo? Em que mundo? Por que as coisas ruins têm que acontecer justo comigo?

Agora está passando o currículo do presidenciável José Serra, com todos seus feitos como ministro da Saúde, prefeito de cidade de São Paulo e governador do estado. Ele fez tanto pela população, principalmente no que diz respeito à saúde. Pela forma que foi dito, nada mais precisa ser feito, agora é só manter! Não existe mais espera de meses e até anos para simples consultas, temos vários laboratórios especializados, AMEs que funcionam maravilhosamente bem!

E é aqui que mora o meu problema, estou ficando desesperada. Como Murphy pode cair em cima de mim de tal forma? Sempre que procuro por algum serviço de saúde não sou bem sucedida. Se não é comigo, é com meu irmão, minha mãe ou algum familiar – teria vários casos para contar, mas vou poupar vocês desta parte enfadonha.

Pessoal, eu estou precisando de ajuda! Por favor, mandem bastante energia para que eu saia deste azar astrológico, karmico, geográfico, ou sei lá o que, e consiga ver o Brasil maravilhoso que esses políticos pintam. Sem contar que eu preciso de um dermatologista, e tentarei marcar na semana que vem, pois eu também tenho direito a um sistema de saúde de qualidade!


Energia, não se esqueçam!


Beijos e um ótimo final de semana

(texto escrito por Ana Paula Rocha - Mestre em Demografia pela Unicamp e minha amiga querida!)

15 junho 2010

E tudo para no país do futebol!

É dia de jogo do Brasil. Copa do mundo. Todos, bem, quase todos, numa euforia sem fim.
Sinais de um patriotismo que passa quatro anos adormecido, mas quando acorda é camisa, é bandeirola, é parede de casa, é chapéu, apito, e tem até quem chore. Escolas, supermercados, lojas, quase todos os trabalhadores param. Até mesmo os que já estão parados, devem dar uma pausa na greve para ver a seleção de craques brasileiros entrar em campo. Dessa vez nem é bem assim. Até chegaram a dizer que o técnico brasileiro abraçou a campanha do governo federal contra as drogas e não quis saber de craque em campo...

Agora, não seria uma má ideia que os jogadores, as estrelas, os orgulhos nacionais, resolvessem abraçar algumas causas políticas, já que ano de copa e ano de eleição presidencial no Brasil são coincidentes. Não, não estou dizendo que eles deveriam se candidatar como alguns ex-craques resolveram fazer no auge do esquecimento ou quando caminham para isso...Nem que deveriam defender projetos de leis que mais parecem piada com o trabalhador brasileiro. Nosso ilustre presidente deveria saber que muitos brasileiros hoje, que são campeões por terem sobrevivido por décadas recebendo salário mínimo, chegam aos 60 anos sem ter 'uma condição financeira digna' e nem por isso receberão um prêmio de R$ 100 mil mais uma gorducha pensão vitalícia...

Bom, mas é dia de futebol. E quem está interessado em saber de projetos de leis ou eleições? O que importa no país do futebol é ser hexa. Que venha a Coreia do Norte. Opa, bom, não é bem assim. Afinal de contas a Coreia do Norte vive num regime duro, tem feito ameaças a sua vizinha Coreia do Sul, parece ter umas armas pesadas... Será que não seria uma boa deixar eles ganharem? E evitar qualquer retaliação depois? Ou será que o Brasil, na sua onda de diplomacia com os mais exautadinhos do mundo, tem uma amizade secreta com o senhor
Kim Jong-il?

Agora, se alguém tem algo importante para fazer nesse 15 de junho, é melhor se apressar, porque a partir das três da tarde, bom das duas, quem sabe, ou até antes, - por que não já a partir do almoço?- tudo vai parar.

Não estou dizendo que não gosto de futebol. Gosto de assistir sim, principalmente aos jogos das seleções de outros países. Jogaço domingo entre Alemanha e Austrália. Alemanha massacrou a pobre Austrália: 4 x 0. Lances perigosos, toques de bola bem feito, tranquilidade e muito objetivo: vencer! Agora me lembrei de uma coisa. Até teve gol de brasileiro naturalizado alemão. E por falar nisso, esse ano tem um tanto de jogador naturalizado: tem brasileiro naturalizado alemão, português, japonês; e norte americano; mexicano naturalizado italiano; Francês naturalizado argeliano. Estava pensando qual o limite desses processos de naturalização de jogadores. Se continuar assim, a copa do mundo perderá o seu sentindo - se assim podemos dizer- e será uma competição entre clubes internacionais.... Pelo que andei vendo, isso é um assunto polêmico, e muita gente, bem mais gabaritada que eu, já andou dando sua opinião sobre o assunto.

Mas hoje é dia de jogo! E tudo vai parar. Inclusive eu vou parar de escrever porque preciso ir ao supermercado, comprar algumas coisinhas para levar para casa de uns amigos onde vamos assistir ao jogo! E não tenho palpites de placar.

Se estou torcendo pelo hexa? Sinceramente? Bom, é melhor não criar confusão! Mas estou torcendo para que esse país não fique muito tempo parado, porque enquanto a seleção entra em campo lá na África do Sul, aqui em Brasília tem muita coisa que está rolando - e que não é a Jabulani! - já faz um tempinho. Por exemplo: Consulta pública sobre direitos autorais.
Ah, claro, mas também por lá tudo vai parar, pelo menos no horário do jogo...

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