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18 outubro 2020

Dica de leitura dois em um: A máquina do ódio - notas de uma repórter sobre fake news e violência digital e Populismo: uma breve introdução

A máquina do ódio, de Patrícia Campos Mello, deveria ser leitura obrigatória para todos os estudantes de jornalismo do país. Mas não é só para futuros jornalistas que a leitura é necessária. Também os profissionais do jornalismo na ativa e todos os cidadãos que se preocupam com o presente e o futuro da democracia deveriam ler. Como professora, estou convencida de que para nós, em especial professores de língua portuguesa, de sociologia e filosofia, o livro de Patrícia é fundamental. Afinal, passou da hora de levarmos a sério a alfabetização digital das novas gerações e discutirmos seriamente nas salas de aula fenômenos como fake news e pós-verdade.

Patrícia nos apresenta diferentes exemplos de como em todo mundo líderes populistas têm feito uso de táticas e estratégias muito parecidas para minar a credibilidade da imprensa tradicional e para viabilizar projetos de censura e controle da mídia tradicional ao mesmo tempo em que atuam de modo bastante similar também nas novas mídias digitais, espalhando fake news e teorias conspiratórias.

Campos Mello joga luz numa prática que, me parece, tem passado despercebido na cobertura local das sandices do atual presidente: Trump e outros líderes que, claramente, são inspiração para Bolsonaro, se apossaram da expressão "fake news" e a usam para se referir a tudo que contraria suas narrativas. Desse modo, os fatos, quando contrariam os interesses desses autocratas e são noticiados pela imprensa, são logo tachados de fake news. A mesma tática tem sido reproduzida por canais de apoiadores desses líderes, como é o caso do Terça Livre e similares no Brasil.

Mais importante do que desvelar as estratégias que Trump, Duterte, Bolsonaro, Orbán e outros têm adotado com relativo sucesso para sufocar o trabalho da imprensa, são as reflexões que a jornalista faz sobre a própria responsabilidade da imprensa para que chegássemos a esse estado de coisas:

"A imprensa precisa fazer uma autocrítica: ela foi um dos fatores que possibilitaram o surgimento dessa era. Primeiro, ao praticar a "falsa equivalência". A mídia tradicional se pauta pela obrigação de sempre ouvir os dois lados e (tentar) ser equilibrada, mas às vezes incorre no que se convencionou chamar de falsa  equivalência. O On the Media, programa da National Public Radio americana, deu um bom exemplo: "O presidente Obama afirma que nasceu nos Estados Unidos e, portanto, pode ser presidente do país; seus críticos discordam". Isso é falsa equivalência. O certo seria dizer: "Barack Obama nasceu no Havaí em 1961; o movimento birther nega esse fato". 

Ou, para circunscrevermos a nossas fronteiras: "O presidente Jair Bolsonaro afirma que a cloroquina cura pacientes com covid-19. Especialistas divergem". Não, não tem nada de dois lados aqui. O correto seria: "O presidente Jair Bolsonaro afirma que a cloroquina cura pacientes com covid-19. Vários médicos e estudos afirmam que não há dados comprovando a eficácia da cloroquina, e alguns pacientes têm problemas cardíacos por causa do remédio. Não saiam de casa para comprar cloroquina"."

Em outra excelente passagem na qual Patrícia fala da importância e da urgência de autocrítica por parte da imprensa, a autora chama nossa atenção para o fato de que "boa parte da população pegou ojeriza pela categoria [de jornalistas]". Isso segundo ela, em parte, "devido aos inúmeros erros e incompreensões da imprensa em relação à situação de uma massa de pessoas que se viram cada vez mais excluídas pela globalização." Mas apesar disso, nas palavras de Campos Mello, a mídia tradicional continua "a escrever reportagem após reportagem exaltando os méritos da imigração, fronteiras abertas, comércio internacional - sem ao menos levar em conta as queixas legítimas de populações afetadas por esse processo."

A passagem acima me parece uma contribuição muito importante para o atual debate. Como já falou várias vezes Rosana Pinheiro-Machado, é preciso ouvir, exercitar uma escuta sincera das queixas, dos anseios, dos medos de uma parte considerável da população que, ao que tudo indica, tem encontrado na extrema-direita mundo afora um amplificador para suas vozes. Ainda que de maneira distorcida e manipuladora, muitas vezes, foram líderes como Trump, Duterte, Bolsonaro, que souberam ouvir um clamor que, por muitos motivos, vinha sendo ignorado pela mídia tradicional e por parte da classe política

Em Populismo: uma breve introdução, Simon Tormey nos provoca a pensar sobre o que estaria por trás do sucesso das fake news e da pós-verdade e, ao mesmo tempo, o que estaria por trás do aparecimento de figuras populistas como Duterte, Trump e afins a partir de 2016.

"Nos últimos cinquenta anos, a ideologia dominante  tem insistido que mercados abertos, migração transnacional, desregulamentação bancária, privatização de serviços públicos e nova gestão pública são a melhor maneira de organizar nossas sociedades. A crise, no entanto, não só perfurou a bolha financeira, como também perfurou a bolha ideológica dominante. Seguiram-se raiva e descontentamento, encorajando o desprezo pela visão de mundo da elite.

Desse ângulo, o populismo se parece menos com a imposição de uma nova ideologia que com o retorno a valores e opiniões que pareciam ter sido desacreditados esquecidos ou deslocados. O consenso sobre valores e crenças cosmopolitas, transnacionais, "de qualquer lugar", é contestado pelo retorno a crenças nativistas, "de algum lugar" que se concentram em restaurar um senso de identidade e uma cultura comuns. (...) Talvez a faísca para o populismo seja menos a pós-verdade e mais a "verdade do outro", um conjunto de valores, crenças e princípios em desacordo com pontos de vista da elite e do mainstream."

Não sei se porque li os dois livros mais ou menos ao mesmo tempo, mas considero que os dois podem nos ajudar nessa busca por respostas e compreensão de fenômenos contemporâneos, seja no campo do  jornalismo, em particular, ou como sociedade de maneira mais ampla. Certamente o fenômeno que se faz sentir pelo mundo, a saber, a ascensão de líderes populistas, tem incontáveis camadas e algumas delas são próprias de cada país, no entanto, parece que de algum modo, há um sentimento de insatisfação, de ressentimento, de revolta e de desprezo por certos valores e crenças que até então vinham sendo tratados como universais pela mídia tradicional, pelas academias, por especialistas diversos e por parte considerável da classe política, o que agora faz com que essas mesmas instituições, profissionais e figuras públicas sejam identificados como inimigos. Enquanto não fizermos um esforço coletivo de escuta sincera dessas "verdades dos outros", sem arrogância, sem a pretensão de sabermos o que eles querem e precisam, talvez não tenhamos sucesso em encontrar estratégias eficazes de combate a Bolsonaros e Trumps sem continuar sendo megafone de caça-cliques e mesmo ajudando a eleger esse tipo de populista (Mello, p.165).



29 novembro 2019

A verdade de Bolsonaro e o fim da política

"Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" - o jargão de Bolsonaro, a única coisa que ele leu na Bíblia. Se é que ele leu. É mais provável que tenha ouvido de alguém, de algum dos seus amigos pseudo-cristãos ou cristãos-fakes.  Mas que 'verdade' seria essa? A 'verdade' do texto bíblico teria algo a acrescentar ao debate político? Quando Bolsonaro recorre ao versículo de João para acusar a imprensa de mentir, que 'verdade' exatamente ele quer que a imprensa anuncie? 

disponível em pixaby.com

Alguém poderia pensar: uai, verdade é verdade, o presidente está só exigindo que a imprensa (a Folha de São Paulo, para ser mais específico) fale a verdade. Mas não é tão simples assim. Um conceito como o de verdade é bastante complexo, pode ter diferentes sentidos e aplicações. 

Quando um profeta ou um religioso diz que tem a verdade, ele acredita ter recebido essa verdade de alguma divindade ou ser superior, que normalmente está fora do mundo. Ele acredita ter falado com essa divindade pessoalmente ou ter sido inspirado por ela, ou ter recebido uma mensagem de um anjo ou de uma voz misteriosa vinda do além. A verdade da Bíblia e todas as outras verdades que estão associadas a alguma religião costumam ter o caráter de verdade revelada. Ou seja, ela é revelada por algum ser superior (deus, espírito, anjo, santo, demônio, etc). Quando aquele que teve acesso a tal verdade a anuncia, ele espera que aqueles que o escutam acreditem na sua palavra, no seu testemunho, e também acreditem na origem divina da mensagem que ele traz. Ou seja, não há como comprovar essa verdade, ela é objeto de fé. Quando um matemático afirma que 'é verdade que dois mais dois são quatro', estamos diante de uma verdade racional. Também as verdades filosóficas e científicas em geral poderiam ser enquadradas nessa categoria e seriam resultado da mente humana. Portanto, diferente das verdades reveladas, que estariam prontas em algum lugar e seriam apresentadas ao homem por meio de uma divindade, a verdade racional seria construída pela mente humana. Por fim, quando dizemos que em 1º de abril de 1964 houve um golpe militar no Brasil, estamos lidando com uma verdade factual. Segundo Eugênio Bucci, 

"a verdade factual é um buraco no meio da rua, uma criança sentada num banco de escola, a dor no joelho, a fome que devora a esperança das famílias sem dinheiro, a alegria de pessoas que se amam andando de mãos dadas num parque público ensolarado. A verdade factual é aquilo que conforma a realidade sensível e sobre a qual não pairam dúvidas práticas." (BUCCI, 2019, p.85).

A verdade revelada é imutável e independe de qualquer ocorrência no mundo, uma vez que sua origem não é esse mundo. Portanto, ela se impõe de cima para baixo, de fora para dentro, pelo mistério ou pela autoridade. A verdade racional, por ser uma construção da mente, também se impõe para todo aquele que estiver disposto a seguir os caminhos da razão. Já a verdade factual parece, num primeiro momento, não gozar da mesma força coerciva dos demais tipos de verdade, pois ela depende dos fatos, e os fatos são contingentes, acidentais, poderiam ser de infinitas outras maneiras, ou simplesmente não ser. No entanto, uma vez que este fato ocorreu, sua verdade factual torna-se imperativa e só mesmo a mentira tem força para fazer frente a ela. Segundo a filósofa Hannah Arendt, 

"Asserções como "Os três ângulos de um triângulo são iguais aos dois ângulos de um quadrado", "A terra move-se em torno do sol", "É melhor sofrer o mal do que praticar o mal", "Em agosto de 1919 a Alemanha invadiu a Bélgica" diferem muito na maneira como se chegou a elas, porém, uma vez percebidas como verdadeiras e declaradas como tal, elas possuem em comum o fato de estarem além de acordo, disputa, opinião ou consentimento. Para aqueles que as aceitaram, elas não são alteradas por multidões ou pela ausência de multidões que acolham a mesma proposição; a persuasão ou dissuasão é inútil, pois o conteúdo da asserção não é de natureza persuasiva, mas sim coerciva (ARENDT, 2016, p.297).

Essa característica da verdade estaria na origem do conflito antiquíssimo entre verdade e política, ou talvez, de maneira mais precisa, do conflito entre verdade e políticos. Os políticos, aqueles que estão em posição de poder, e mais ainda os políticos com tendências autoritárias, sempre se sentiram ameaçados pelo caráter despótico da verdade. De acordo com Arendt,

"Ela é, portanto, odiada por tiranos, que temem com razão a competição de uma força coerciva que não podem monopolizar, e desfruta de um estado um tanto precário aos olhos de governos que se assentam sobre o consentimento e abominam coerção" (ARENDT, 2016, p.298). 

Bolsonaro é um político, embora tenha sido eleito com o discurso da antipolítica. Ele não é um líder religioso, nem um cientista, nem filósofo, é um político. E o tecido da política são os fatos. É a verdade factual que encorpa a política. Mas em onze meses de governo, Bolsonaro, que nunca teve apreço pela democracia, tem deixado patente seu desprezo pelos fatos e seus ímpetos autoritários. Portanto, ele faz parte do grupo de políticos que, segundo Arendt, odeia a verdade. 

Agora volto às minhas perguntas iniciais e as reformulo: Quando Bolsonaro insiste no versículo bíblico, "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará", a que verdade ele se refere? À verdade factual? À verdade racional? Ou seria à verdade revelada? Uma primeira hipótese é que a verdade de Bolsonaro seria uma espécie de verdade revelada, tal qual aquela da Bíblia. Assim como lemos na Bíblia que "Jesus é o caminho, a verdade e a vida", Bolsonaro parece pretender se apresentar como a verdade. A verdade de Bolsonaro, anunciada por ele mesmo, não admite provas, não pode ser verificada, ela se impõe pela autoridade, do cargo ou de Deus - com quem Bolsonaro parece acreditar ter uma relação muito direta. Essa hipótese ganha força quando encontramos ao lado de Bolsonaro cristãos-fakes dispostos a transformar Messias, o Jair, em um enviado de Deus e assim em ungi-lo diante das massas de fiéis. 

Mas pode ser que a verdade de Bolsonaro seja só mesmo uma mentira. Nesse caso, para entender a insistência de Jair com o versículo de João, é preciso recorrer à literatura. Com 1984 aprendemos que guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força. Cada vez que Bolsonaro recorre à verdade,  ele nos oferece em seu lugar uma mentira. Assim, poderíamos acrescentar à lista de 1984 que mentira é verdade.

Bolsonaro ao dizer "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" pretende que a sua verdade nos liberte do quê? Do comunismo petista que domina inclusive a imprensa internacional? Da ideologia de gênero que quer transformar todas as crianças em gay? Do globalismo? Do politicamente correto? Da ditadura gay que nos oprime? Cada uma dessas ameaças não passam de pedaços de uma super teoria da conspiração que hoje dita os rumos da política no Brasil. Para entender melhor como essa super teoria da conspiração está atuando no cenário brasileiro recomendo a leitura de Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota, do Meteoro Brasil

O que me interessa aqui é mostrar que a verdade de Bolsonaro não passa de uma verdade-fake. Ou seja, Bolsonaro nos conta mentiras, afirma que estamos ameaçados por uma dúzia de espantalhos criados justamente para causar pânico. Ele - mas não só, há minions pela internet, cristãos-fakes, filósofos-fakes, jornalistas-fakes - convenceu uma boa parte dos brasileiros - e outra parte fez de conta que estava convencida porque tinha outros interesses - de que todas aquelas teorias conspiratórias eram verdade. Ou seja, a mentira virou verdade. Depois ele disse que era preciso mudar tudo isso que estava aí. 

Mas a verdade de Bolsonaro é fake. E cada vez que suas mentiras são denunciadas, ele ataca e grita que só a verdade poderá nos libertar. Ele ameaça, boicota, censura. Mas diz que o resultado de tudo isso é mais democracia. Bolsonaro é perverso, como já explicou Eliane Brum. Foi ela também que nos explicou que Bolsonaro opera com a autoverdade, "algo que pode ser entendido como a valorização de uma verdade pessoal e autoproclamada, uma verdade do indivíduo, uma verdade determinada pelo “dizer tudo” da internet" (BRUM, El país,  julho de 2018). Esse 'dizer tudo' é performático e pretende criar uma nova realidade. Hannah Arendt já havia chamado a atenção para o fato de que o mentiroso é um sujeito de ação. O mentiroso deseja mudar a realidade. Mentirosos como Bolsonaro, e sua inspiração estadunidense, criam seus próprios fatos, fatos alternativos, como chegou a declarar uma conselheira da Casa Branca. 

O perigo de tudo isso é que, sem os fatos, não é possível a política. Sem os fatos e a verdade factual nos restam os caprichos dos tiranos. Como disse Bucci, "a política sem fatos é um delírio apolítico ou antipolítico, uma guerra entre convicções desprovida de verdade" (BUCCI, 2019, p.83). 

__________

ARENDT, Hannah, Verdade e política, in Entre o passado e o futuro, São Paulo: Perspectiva, 2016.
BRUM, Eliane, Cem dias sob o domínio dos perversos, in El País Brasil, disponível em: https://epoca.globo.com/politica/eugenio-bucci/noticia/2017/01/o-adeus-aos-fatos-e-o-totalitarismo.html. 
BRUM, Eliane, Bolsonaro e a autoverdade, in El País Brasil, disponível em:https://epoca.globo.com/politica/eugenio-bucci/noticia/2017/01/o-adeus-aos-fatos-e-o-totalitarismo.html.
BUCCI, Eugênio, Existe democracia sem verdade factual?, Barueri,SP: Estação das Letras e Cores, 2019.
BUCCI, Eugênio,  O adeus aos fatos e o totalitarismo, in Revista Época, disponível em: https://epoca.globo.com/politica/eugenio-bucci/noticia/2017/01/o-adeus-aos-fatos-e-o-totalitarismo.html.
METEORO BRASIL, Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota, São Paulo: Planeta, 2019.


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