Com um sorriso no rosto, ela me
disse: “boa tarde, com licença, eu me chamo Jéssica e acabei de chegar na
cidade, mas eu faço chocolate há muito tempo. Eu tenho aqui cones trufados, um
modo de pagar os boletos...”. Certamente ela continuaria falando até o sinal abrir, mas eu a interrompi, educadamente, dizendo que não tinha intenção de
comprar cone trufado e não queria fazê-la perder tempo comigo. Desejei boa
sorte. Ela agradeceu, sorriu, e se dirigiu ao carro que estava atrás de mim.
| Imagem retirada do pixabay |
Eu estava a caminho da terapia. E
enquanto meu cérebro processava a cena e eu tentava avisá-la de que não seria
uma cliente, uma parte de mim já dava início a esta crônica. Jéssica acabou de
chegar nesta cidade que está cada dia mais caótica. O trânsito, hoje,
particularmente infernal. De onde veio Jéssica? Diria que do estado de São
Paulo mesmo. Não capturei nenhum sotaque diferente. Por que a Jéssica veio para
Campinas? Que esperanças e sonhos a trouxeram até aqui? Um dia eu também
cheguei em Campinas. Cheguei cheia de sonhos e planos. Cheguei e fiquei. Será
que a Jéssica também ficará? Eu só tinha dezenove anos. Tive muito medo desta
cidade. Ela me parecia tão grande, e eu me sentia tão pequena e sozinha.
Diferente da Jéssica, eu não tinha boletos para pagar. Apesar do desamparo que
senti quando cheguei nesta cidade, eu fui acolhida por muitas pessoas. E fui
acolhida também pela Unicamp. Não fossem as políticas de permanência – moradia,
bolsa alimentação, bolsa trabalho – e eu certamente não teria ficado aqui. Não
estaria onde estou hoje.
Fui e voltei da terapia e não
consegui tirar a Jéssica da minha cabeça. Ela me pareceu ter a minha idade,
talvez um pouco mais. Agora que escrevo, me pergunto por que não comprei um
cone trufado dela. Não é o tipo de doce que eu gosto. Mas não era sobre mim.
Era sobre a Jéssica, sobre os boletos que ela precisa pagar. Agora, enquanto
escrevo, me dou conta de que poderia ter feito algo por ela. Mas, egoísta que
sou, o que eu fiz foi capturar um pedaço dela para transformar em texto. É uma
coisa que costumo fazer. Eu roubo coisas das pessoas – palavras, expressões,
gestos, olhares. Eu confesso, cada vez que retorno para casa, do trabalho ou
depois de ir almoçar ou jantar em algum restaurante, depois de um barzinho, um
show ou um evento na praça, volto com muitas coisas roubadas de pessoas que, na
maior parte das vezes, nunca mais verei. E a partir desses fragmentos roubados,
eu invento histórias. Algumas bonitas e alegres, outras muito tristes. Eu
invento porque aqueles fragmentos não são suficientes. Porque, para mim, a vida
não é suficiente. Nunca foi. Eu sempre precisei inventar.
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