17 julho 2026

O nome dela era Jéssica

 

Com um sorriso no rosto, ela me disse: “boa tarde, com licença, eu me chamo Jéssica e acabei de chegar na cidade, mas eu faço chocolate há muito tempo. Eu tenho aqui cones trufados, um modo de pagar os boletos...”. Certamente, ela continuaria falando até o sinal abrir, mas eu a interrompi, educadamente, dizendo que não tinha intenção de comprar cone trufado e não queria fazê-la perder tempo comigo. Desejei boa sorte. Ela agradeceu, sorriu e se dirigiu ao carro que estava atrás de mim.

Imagem retirada do pixabay

Eu estava a caminho da terapia. E enquanto meu cérebro processava a cena e eu tentava avisá-la de que eu não seria uma cliente, uma parte de mim já dava início a essa crônica. Jéssica acabou de chegar nessa cidade que está cada dia mais caótica. O trânsito, hoje, particularmente infernal. De onde veio Jéssica? Diria que do estado de São Paulo mesmo. Não capturei nenhum sotaque diferente. Por que a Jéssica veio para Campinas? Que esperanças e sonhos a trouxeram até aqui? Um dia eu também cheguei em Campinas. Cheguei cheia de sonhos e planos. Cheguei e fiquei. Será que a Jéssica também ficará? Eu só tinha dezenove anos. Tive muito medo dessa cidade. Ela me parecia tão grande, e eu me sentia tão tão pequena e sozinha. Diferente da Jéssica, eu não tinha boletos para pagar. Apesar do desamparo que senti quando cheguei nesta cidade, eu fui acolhida por muitas pessoas. E fui acolhida também pela Unicamp. Não fossem as políticas de permanência – moradia, bolsa alimentação, bolsa trabalho – e eu certamente não teria ficado aqui. Não estaria onde estou hoje.

Eu fui e voltei da terapia e não consegui tirar a Jéssica da minha cabeça. Ela pareceu ter a minha idade, talvez um pouco mais. Agora que escrevo, me pergunto por que não comprei um cone trufado dela. Não é o tipo de doce que eu gosto. Mas não era sobre mim. Era sobre a Jéssica, sobre os boletos que ela precisa pagar. Agora, enquanto escrevo, me dou conta de que eu poderia ter feito algo por ela. Mas, egoísta que sou, o que eu fiz foi capturar um pedaço dela para transformar em texto. É uma coisa que eu costumo fazer. Eu roubo coisas das pessoas – palavras, expressões, gestos, olhares. Eu confesso, cada vez que retorno para casa, do trabalho ou depois de ir almoçar ou jantar em algum restaurante, depois de um barzinho, um show ou um evento na praça, eu volto com muitas coisas roubadas de pessoas que, na maior parte das vezes, eu nunca mais verei. E a partir desses fragmentos roubados, eu invento histórias. Algumas bonitas e alegres, outras muito tristes. Eu invento porque aqueles fragmentos não são suficientes. Porque para mim, a vida não é suficiente. Nunca foi. Eu sempre precisei inventar.

Será que a Jéssica conseguiu vender seus cones trufados? Eu me pergunto com um gosto amargo na boca. Eu sei que se eu tivesse comprado um cone, não teria mudado a vida dela. Mas qual é o limite entre a gente ter consciência de que não vai mudar a vida de uma pessoa e a gente não fazer nada? Eu tento me convencer de que eu fiz alguma coisa. Essa cidade grande, com tantas pessoas em cada esquina, em cada semáforo, vendendo algo, pedindo algo, ou simplesmente precisando ser vista por alguém, tende a levar a gente a um cinismo de sobrevivência. Eu sei que não posso resolver os problemas dessas pessoas – não dou conta nem de resolver os meus sozinha, por isso eu estava indo para a terapia -, mas eu me esforço para não deixar de enxergar pessoas e suas histórias. Nem que seja para roubar alguma coisa delas e eternizar em alguns poucos parágrafos, em crônicas como esta.  

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