Mais um feminicídio na cidade. Um
agente de segurança pública, na casa dos cinquenta anos, preso em flagrante. Ele
nunca disse que iria matá-la. Mas matou. No dia do casamento, durante a festa. Bem
na frente da família e dos convidados. Três tiros. Três também é o número de
filhos que ela deixou. Três filhos que passaram a fazer parte das estatísticas
de órfãos vítimas da violência contra mulher.
Ele não disse que ia matá-la. No
entanto, vizinhos relataram que o casal brigava diariamente. Gritos,
xingamentos e insultos eram ouvidos quase todas as noites. A mãe da vítima
afirma que ele ficava violento quando bebia. “Tentei alertar minha filha”, ela
disse, “mas ela estava apaixonada”. E assim o casamento foi marcado.
No cartório do bairro, numa manhã
de sábado de maio, ele e ela tornaram-se, oficialmente, marido e mulher. Um sábado cinzento, que teve ao longo do dia uma
garoa insistente. Olhando retrospectivamente, alguns viram sinais dos céus. Na
verdade, sinais não faltaram. Mas ela, a vítima, a noiva, não queria enxergar.
Tinha 34 anos. Amigos e familiares dizem que era batalhadora e que apostava nos
estudos para ter um futuro melhor. Sonhava ser advogada. Mas estava apaixonada.
Apaixonada por um homem que, quando bebia, ficava violento. E ele bebia com frequência.
Durante a festa, ela percebeu que
ele já tinha bebido demais. Pediu que parasse. Já era tarde. Ele a empurrou. Ela
quase caiu. Ele a empurrou novamente. Desta vez ela foi ao chão. Os convidados
que dançavam, de repente, ficaram paralisados. Os mais próximos correram para
socorrê-la. Os familiares deram um jeito de retirar os filhos dela de perto.
Ele saiu do salão. Minutos depois retornou. E sem que alguém percebesse ou tivesse tempo para impedi-lo, sacou um
revolver e disparou.
Ele nunca disse que iria matá-la.
Eles quase nunca dizem. Mas gritam, xingam, humilham, batem. Alguns têm crise
de ciúmes e dizem que a culpa é delas. Como ele, muitos ficam violentos só
quando bebem. Depois se arrependem, pedem desculpas, juram que não irá acontecer
de novo. Ele não disse que iria matá-la, mas a morte dela era previsível.
Muitas são. E acontecem mesmo assim. Quatro mulheres são mortas por dia no
Brasil. Maridos, namorados, companheiros ou ex. Nem todos dizem que vão matá-las.
Embora ainda se escute por aí, homens repetindo: “Se não for comigo, não se
casa com mais ninguém”; “se não for para ser minha, não será de mais ninguém”.
A vítima foi enterrada dois dias
depois do casamento. Os familiares, de outro estado, que não puderam vir para a
festa de casamento, vieram para o enterro. "Não é fácil não, meu filho. Só
Deus", a fala da mãe ecoava durante o velório.
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