24 maio 2026

Crônica de uma morte não anunciada (mas previsível)

Mais um feminicídio na cidade. Um agente de segurança pública, na casa dos cinquenta anos, preso em flagrante. Ele nunca disse que iria matá-la. Mas matou. No dia do casamento, durante a festa. Bem na frente da família e dos convidados. Três tiros. Três também é o número de filhos que ela deixou. Três filhos que passaram a fazer parte das estatísticas de órfãos vítimas da violência contra mulher.

Ele não disse que ia matá-la. No entanto, vizinhos relataram que o casal brigava diariamente. Gritos, xingamentos e insultos eram ouvidos quase todas as noites. A mãe da vítima afirma que ele ficava violento quando bebia. “Tentei alertar minha filha”, ela disse, “mas ela estava apaixonada”. E assim o casamento foi marcado.

No cartório do bairro, numa manhã de sábado de maio, ele e ela tornaram-se, oficialmente, marido e mulher.  Um sábado cinzento, que teve ao longo do dia uma garoa insistente. Olhando retrospectivamente, alguns viram sinais dos céus. Na verdade, sinais não faltaram. Mas ela, a vítima, a noiva, não queria enxergar. Tinha 34 anos. Amigos e familiares dizem que era batalhadora e que apostava nos estudos para ter um futuro melhor. Sonhava ser advogada. Mas estava apaixonada. Apaixonada por um homem que, quando bebia, ficava violento. E ele bebia com frequência.

Durante a festa, ela percebeu que ele já tinha bebido demais. Pediu que parasse. Já era tarde. Ele a empurrou. Ela quase caiu. Ele a empurrou novamente. Desta vez ela foi ao chão. Os convidados que dançavam, de repente, ficaram paralisados. Os mais próximos correram para socorrê-la. Os familiares deram um jeito de retirar os filhos dela de perto. Ele saiu do salão. Minutos depois retornou. E sem que alguém percebesse ou  tivesse tempo para impedi-lo, sacou um revolver e disparou.

Ele nunca disse que iria matá-la. Eles quase nunca dizem. Mas gritam, xingam, humilham, batem. Alguns têm crise de ciúmes e dizem que a culpa é delas. Como ele, muitos ficam violentos só quando bebem. Depois se arrependem, pedem desculpas, juram que não irá acontecer de novo. Ele não disse que iria matá-la, mas a morte dela era previsível. Muitas são. E acontecem mesmo assim. Quatro mulheres são mortas por dia no Brasil. Maridos, namorados, companheiros ou ex. Nem todos dizem que vão matá-las. Embora ainda se escute por aí, homens repetindo: “Se não for comigo, não se casa com mais ninguém”; “se não for para ser minha, não será de mais ninguém”.

A vítima foi enterrada dois dias depois do casamento. Os familiares, de outro estado, que não puderam vir para a festa de casamento, vieram para o enterro. "Não é fácil não, meu filho. Só Deus", a fala da mãe ecoava durante o velório.




Nenhum comentário:

Campanha

Campanha
Saiba mais sobre a campanha clicando na imagem

Sobre o que se fala

opinião cotidiano Poesia política Dicas utilidade pública Rapidinhas atualidade crônica atualidades Campinas educação Conto Minas Gerais São Paulo cinema observações coisas da vida Brasil escola música Delfim Moreira Dica de leitura Misto Bolsonaro Literatura democracia divulgação Barão Geraldo eleições Filosofia da vida coisas que fazem bem passeios Comilança clã Bolsonaro debate público redes sociais 8 de março amigos coronavírus ensino paixão revoltas séries Dark Futebol amor coisas de mineiro coisas do mundo internético criança do eu profundo façamos poesia; infância pandemia preconceito; atualidades sobre fake news Ciência Violência; Educação; utilidade pública de irmã pra irmã final de ano; início de ano; cotidiano; lembranças política; ser professor (a) tecnologia virada cultural adolescência autoritarismo comunicação consumo consciente desabafo distopia economia fascismo férias história impressa livros manifestação mau humor mentira mulheres mágica pós-verdade quarentena reforma da previdência sobre a vida violência música Poesia 15 de outubro 20 de novembro 2021 8 março precisa ser todo dia; Anima Mundi EaD Eliane Brum Fora Bolsonaro Itajubá Moro Oscar Passarinho; Poesia; Vida Posto Ipiranga aborto amizade amor felino animação; autoverdade balbúrdia baleia azul. bolsonarismo cabeça de planilha consciência negra conto; continho corrupção coti covid-19 crime crônica felina crônica ficcional curtas; concurso; festival curtas da vida; defesa democracia liberal descobrindo o racismo desinformação direitos discurso divulgação; atualidades divulgação; blogs; poesia documentário família feminismo filosofia de jardim fim das sacolinhas plásticas final de ano; início de ano; cotidiano frio férias; viagens; da vida; gata guerra de narrativas hipocrisia humor ideologia informação; utilidade pública infância; jabuticaba jornalismo lei de cotas leitura minorias morte mídia música Poesia novidades para rir poema próxima vida racismo estrutural racismo institucional rap resenha; atualidade; interesse público; educação saudade saúde sentimentos tirinhas universidade utopia verdade verdade factual viagem

Amigos do Mineirices