Pretinha
de olhos verdes. Miúda. Pelo curto e macio. Assim era a nossa gatinha perfeita.
Capitu. Dizíamos que era uma gatinha de família, afinal, conhecíamos a mãe, os
irmãozinhos e a humana da casa onde ela nasceu. Foram sete anos e meio de amor.
Muito amor. Gatinha de apartamento por cinco anos, por quase sete, gatinha
única. Quando nos mudamos para a casa e ela viu pela primeira vez o quintal,
foi coisa tão especial. A carinha dela, os olhos brilhando, percorrendo cada
cantinho do que seria seu lugar preferido no mundo. Dizíamos que era
vegetariana, a Capitu. Amava uma graminha bem verdinha. Seus olhos, verdes,
verdejaram ainda mais naquele dia.
A
primeira noite no apartamento foi difícil. Era janeiro de 2016. Havíamos
preparado um cantinho para ela, com tapete, cestinha, cobertorzinho.
Aconchegante. Mas não houve jeito. Miou e miou até que foi introduzida ao nosso
quarto. Do lado da nossa cama, na cestinha, ela finalmente se acalmou.
Não
gostava de colo. Mas era carinhosa, Capitu. E quando se deitava, no sofá da
sala, entre nós dois, seu corpinho roçava de leve nossos corpos. Ronronava. Ela
nos ensinou e estabeleceu um ritual: as escovadinhas. Alguns humanos especiais
que frequentavam nosso apartamento também foram introduzidos ao ritual. Por
ela. E como gostava das escovadinhas, a Capitu. Era felicidade em forma de gato
naqueles momentos.
Quando
filhotinha, brincamos tanto com ela. Pelo corredor, na sala, no quarto, no
escritório. Desde cedo foi minha companheira de longas tardes de trabalho.
Deitava-se em algum canto da escrivaninha, sempre bagunçada. Lá ficava. Vidinha
de gato. Cansava da posição, se levantava, se alongava e arrumava seu corpinho
em outra posição. Depois de um tempo, acostumou-se a dar cabeçadinhas em mim. E
com seus olhos grandes e expressivos, tanto amor tinha naqueles olhos, esticava
a cabecinha e tocava seu nariz geladinho no meu. Amor.
Durante
a pandemia, nossa convivência se intensificou. Foi feliz, a Capitu, com seus
dois humanos. Estávamos com medo, assustados, depois cansados, estressados, mas
tínhamos a companhia dela, nossa Capituzinha. E sei que ela nos salvou.
Brincávamos. Bolinhas papel e outros brinquedinhos pelo corredor. Carinho e
aconchego no sofá, na cama, principalmente nos dias frios.
Pouco
tempo depois da mudança, vieram os primeiros sintomas. Vômitos. Capitu perdeu
peso, ficou amoada. E começou a saga. Sabíamos que ela tinha um rim atrofiado.
Descobrimos, depois de idas e vindas ao veterinário e um tanto de exames:
pedras no rim, no rim que era bom. Foram meses de angústia, para nós, de
sofrimento para ela. Ainda hoje, quando lembro, um aperto na garganta e uma
coceira no nariz fazem meus olhos transbordarem.
Era
dócil, mesmo nos momentos mais difíceis. E aquela doçura e mansidão me cortavam
o coração. Eu ainda me pergunto se fizemos o melhor. Entre exames, consultas,
internações e cirurgias, pensava, e penso ainda, se foi o certo. Nossa gatinha.
Ela queria viver. Lutou bravamente. Entre uma cirurgia e outra, teve uma volta
para casa que foi nossa despedida. No seu lugar preferido do mundo, tomando seu
solzinho, com seus humanos do lado, ela parecia feliz, apesar de tudo. Nós
também tentamos ser.
Ela
não gostava de colo. Mas desde quando foi castrada, toda vez que algo a
incomodava, deitava do meu lado, encostadinha na minha barriga, embaixo das
cobertas. E foi assim durante meses. Eu
não dormia. Sentia o corpinho dela, cada vez mais frágil, ali, naquele
calorzinho. Tinha medo de machucá-la. Passei noites em claro. Às vezes,
cochilava. Foram meses difíceis, para nós e para ela.
Capitu.
Não tem outra igual. Mas carrego uma dorzinha, que hoje, quando ainda estava
escuro, a manhã nascendo, voltou a doer. A última vez que nos vimos, foi triste
demais. Ela praticamente me pediu para levá-la para algum outro lugar. Seu
pelo, durante os piores momentos, ainda brilhava. Ela não desistia. Se lambia,
com dificuldade, mas parecia dizer: eu ainda não desisti. Naquele dia, ela já
não tinha forças. O pelo embaçado, o cheiro de bichinho de jaula, bichinho
sofrendo. Eu a levei para o hospital veterinário. Foi a última vez. Junho de
2023.
De
repente senti uma saudade tão aguda. E esse texto brotando em minha mente, ao
mesmo tempo que lágrimas quentes escorreram em profusão pelo meu meu rosto.
Capitu. A gatinha perfeita. Não pude mais ficar na cama. Nossa cama. Seu
corpinho já não se ajeita mais junto ao meu. Mas eu senti, Capitu, como se
estivesse lá. E não suportei. Precisei levantar, quando ainda não tinha nascido
direito o dia. Ligar o computador. E deixar transbordar essas palavras para a
tela. Chorei. Ainda choro. E olho para sua foto. Na cestinha. Olhos doces.
Olhos de Capitu.
01/05/2025
Um comentário:
Que bonita, saudosa e apertada lembrança, Fran. Lembro-me da Capitu brincando pelo corredor do apartamento. Senti um pouco dessa sua saudade, os olhos marejaram, e lembrei-me de Adélia Prado: "o que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível".
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