30 junho 2026

Capitu

 

Pretinha de olhos verdes. Miúda. Pelo curto e macio. Assim era a nossa gatinha perfeita. Capitu. Dizíamos que era uma gatinha de família, afinal, conhecíamos a mãe, os irmãozinhos e a humana da casa onde ela nasceu. Foram sete anos e meio de amor. Muito amor. Gatinha de apartamento por cinco anos, por quase sete, gatinha única. Quando nos mudamos para a casa e ela viu pela primeira vez o quintal, foi coisa tão especial. A carinha dela, os olhos brilhando, percorrendo cada cantinho do que seria seu lugar preferido no mundo. Dizíamos que era vegetariana, a Capitu. Amava uma graminha bem verdinha. Seus olhos, verdes, verdejaram ainda mais naquele dia.

A primeira noite no apartamento foi difícil. Era janeiro de 2016. Havíamos preparado um cantinho para ela, com tapete, cestinha, cobertorzinho. Aconchegante. Mas não houve jeito. Miou e miou até que foi introduzida ao nosso quarto. Do lado da nossa cama, na cestinha, ela finalmente se acalmou.

Não gostava de colo. Mas era carinhosa, Capitu. E quando se deitava, no sofá da sala, entre nós dois, seu corpinho roçava de leve nossos corpos. Ronronava. Ela nos ensinou e estabeleceu um ritual: as escovadinhas. Alguns humanos especiais que frequentavam nosso apartamento também foram introduzidos ao ritual. Por ela. E como gostava das escovadinhas, a Capitu. Era felicidade em forma de gato naqueles momentos.

Quando filhotinha, brincamos tanto com ela. Pelo corredor, na sala, no quarto, no escritório. Desde cedo foi minha companheira de longas tardes de trabalho. Deitava-se em algum canto da escrivaninha, sempre bagunçada. Lá ficava. Vidinha de gato. Cansava da posição, se levantava, se alongava e arrumava seu corpinho em outra posição. Depois de um tempo, acostumou-se a dar cabeçadinhas em mim. E com seus olhos grandes e expressivos, tanto amor tinha naqueles olhos, esticava a cabecinha e tocava seu nariz geladinho no meu. Amor.

Durante a pandemia, nossa convivência se intensificou. Foi feliz, a Capitu, com seus dois humanos. Estávamos com medo, assustados, depois cansados, estressados, mas tínhamos a companhia dela, nossa Capituzinha. E sei que ela nos salvou. Brincávamos. Bolinhas papel e outros brinquedinhos pelo corredor. Carinho e aconchego no sofá, na cama, principalmente nos dias frios.

Pouco tempo depois da mudança, vieram os primeiros sintomas. Vômitos. Capitu perdeu peso, ficou amoada. E começou a saga. Sabíamos que ela tinha um rim atrofiado. Descobrimos, depois de idas e vindas ao veterinário e um tanto de exames: pedras no rim, no rim que era bom. Foram meses de angústia, para nós, de sofrimento para ela. Ainda hoje, quando lembro, um aperto na garganta e uma coceira no nariz fazem meus olhos transbordarem.

Era dócil, mesmo nos momentos mais difíceis. E aquela doçura e mansidão me cortavam o coração. Eu ainda me pergunto se fizemos o melhor. Entre exames, consultas, internações e cirurgias, pensava, e penso ainda, se foi o certo. Nossa gatinha. Ela queria viver. Lutou bravamente. Entre uma cirurgia e outra, teve uma volta para casa que foi nossa despedida. No seu lugar preferido do mundo, tomando seu solzinho, com seus humanos do lado, ela parecia feliz, apesar de tudo. Nós também tentamos ser.

Ela não gostava de colo. Mas desde quando foi castrada, toda vez que algo a incomodava, deitava do meu lado, encostadinha na minha barriga, embaixo das cobertas.  E foi assim durante meses. Eu não dormia. Sentia o corpinho dela, cada vez mais frágil, ali, naquele calorzinho. Tinha medo de machucá-la. Passei noites em claro. Às vezes, cochilava. Foram meses difíceis, para nós e para ela.

Capitu. Não tem outra igual. Mas carrego uma dorzinha, que hoje, quando ainda estava escuro, a manhã nascendo, voltou a doer. A última vez que nos vimos, foi triste demais. Ela praticamente me pediu para levá-la para algum outro lugar. Seu pelo, durante os piores momentos, ainda brilhava. Ela não desistia. Se lambia, com dificuldade, mas parecia dizer: eu ainda não desisti. Naquele dia, ela já não tinha forças. O pelo embaçado, o cheiro de bichinho de jaula, bichinho sofrendo. Eu a levei para o hospital veterinário. Foi a última vez. Junho de 2023.

De repente senti uma saudade tão aguda. E esse texto brotando em minha mente, ao mesmo tempo que lágrimas quentes escorreram em profusão pelo meu meu rosto. Capitu. A gatinha perfeita. Não pude mais ficar na cama. Nossa cama. Seu corpinho já não se ajeita mais junto ao meu. Mas eu senti, Capitu, como se estivesse lá. E não suportei. Precisei levantar, quando ainda não tinha nascido direito o dia. Ligar o computador. E deixar transbordar essas palavras para a tela. Chorei. Ainda choro. E olho para sua foto. Na cestinha. Olhos doces. Olhos de Capitu.

 


01/05/2025

Um comentário:

Anônimo disse...

Que bonita, saudosa e apertada lembrança, Fran. Lembro-me da Capitu brincando pelo corredor do apartamento. Senti um pouco dessa sua saudade, os olhos marejaram, e lembrei-me de Adélia Prado: "o que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível".

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