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05 fevereiro 2024

Labirinto 2.0


Como é fácil se perder
Nas telas.
Vendo a vida dos outros,
Propagandas, intrigas
E tantas outras bagatelas.

São tantas cores,
Tantos movimentos,
Tanta informação (e desinformação)
Que a gente se ilude
E até pensa que tem o mundo
Na palma da mão.

Tento ficar longe,
Não ser seduzido por elas.
Mas como é difícil,
Até parece
Que já sou dependente das telas.

Reduzo os riscos, tento enfrentar
os danos e as tentações:
Desligo o celular, deleto perfis.
Boa mesmo é vida dos meus gatos
Que nada sabem de redes sociais,
Sites, apps e afins.

Nesse mundo digital,
De senhas e touch screen,
Quem dera estivesse
na ponta dos nossos dedos
o poder de acabar com a ignorância,
a fome, a pobreza e a violência,
Que desfilam diante de nossos olhos,
Nas telas,
numa pornográfica exibição, dia e noite,
De tragédias anunciadas e sem fim.

Dizem que somos
Uma sociedade conectada.
Mas será?
As redes mais parecem
Teias-armadilhas
Que nos predem e sugam nossas almas,
E, de repente,
Parecemos robôs,
e os algoritmos decidem
nosso almoço,
nosso sucesso ou fracasso,
e até nosso próximo amor:
é só fazer a selfie, fazer login,
postar, arrastar pro lado,
e o match foi dado!
É só curtir.

Como é fácil se perder
Nas telas.
Labirintos luminosos
De belas imagens,
Corpos perfeitos.
Narcisos enfeitiçados
Por rostos irreais.
Tudo coisa de deepfake,
nada mais.

O que sobrou daquela velha realidade
são lembranças de uma época
Cada vez mais distante.
Vivemos o fim:
Dos encontros offline,
Do olho-olho,
Do abraço,
Da algazarra no jardim,
Do piquenique no parque,
Da amarelinha na rua,
Dos almoços de família,
Dos jornais, das notícias e afins.

Hoje tudo acontece
No deslizar da tela:
Compra, trabalho, estudo,
Lazer, esporte e paquera.
Até meus versos,
Ora vejam,
Já nascem numa tela.
E logo mais estarão nas redes
visualizados, lidos,
curtidos e compartilhados,
Ou simplesmente ignorados,
entre dezenas de milhares
de outros tantos textos
que, talvez, não passem
de mais um pixel
insignificante,
Nessa tela gigante,
Na qual figuramos
Você e eu,
Nossos filhos e nossos pais,
Como bobos da corte:
Somos distrações distraídas,
Inconsequentes e perdidos
Numa busca,
Fadada ao fracasso,
De satisfação, completude,
Glamour e tudo mais.

Como é fácil se perder
Nas telas,
Nas janelas que se abrem,
Nas vitrines e nos palcos,
Nos quais novos indivíduos estreiam na vida
Num exibicionismo incessante,
Que vai do nascimento até a morte
E não para um instante.

Como é fácil se perder
Nas telas,
Que nos consomem
Enquanto nos convencem a consumir.
Que nos vendem
Enquanto pensamos comprar.
Que nos vigiam
Enquanto nos deliciamos em espiar
Subcelebridades e anônimos,
Todos personagens de uma
comédia duvidosa
ou de um drama chinfrim.

Como é fácil se perder
Nas telas.
De repente me pergunto:
Será que eu ainda estou
Do outro lado
Ou já fui completamente
Tragada, engolida, enredada?
E se estou do lado de lá,
Ainda sou humana
ou sou só mais um holograma,
mais um arremedo de sujeito?
Serei também eu
Um perfil assujeitado,
Mais um boot programado
Para parecer gente de verdade?

Ei, você, que lê meus versos:
Cuidado!
É muito fácil se perder
nas telas.
Mas você ainda pode escapar,
É só desligar o celular,
o computador, o notebook,
e sair por aí.

Vá, não perca mais nenhum segundo,
Tire seus olhos desta página,
Abra a janela,
Sinta o cheiro deste dia.
Respire fundo,
sorva a poesia
que brota numa folha.
Diga um oi
Para alguém.
Ou abra um livro,
um caderno e
faça seus próprios versos
sua própria rima.

Se você conseguir fechar a tela,
Se conseguir escapar do labirinto,
Boa sorte!
E lembre-se:
Você não está num jogo,
Aqui não tem roteiro pronto,
Também não tem como editar,
É uma live de verdade,
E você vai ter que improvisar,
Aprender com os próprios erros,
Assumir os riscos,
A vida está acontecendo agora!
Mas, acredite, vale a pena!
Como já dizia Pessoa:
Tudo vale a pena
Se alma não é pequena.


15 janeiro 2024

Maturidade

Já não tenho o corpo

Que eu tinha aos vinte e poucos.

Mas sei que de algum modo

Ainda sou aquele corpo também.

 

E as experiências gravadas

Na alma e na pele

Cada toque, cada cheiro,

Cada espasmo de prazer

E todas as lágrimas vertidas até hoje

São partes daquele corpo também.

 

As rugas, as celulites e os cabelos brancos de agora

Cada cicatriz, cada sabor

Somados anos, dias, horas

E cada instante

Fazem de mim uma mulher

Muito mais interessante

Que a menina de vinte e poucos.

 

Não reclamo as marcas do tempo

- me assusto, é verdade -

Parece que foi rápido demais,

Nem invejo o frescor dos vinte e poucos

Pois hoje me sinto inteira

Com esse corpo que já foi aquele,

Com aquele corpo que também é esse.

 

Quando o corpo era mais fresco

Ele pesava mais.

Hoje, finalmente, parece que esse corpo

Com suas memórias e incertezas

Suas curvas e sobressalências

Está mais leve

E posso andar por aí

Muito mais firme e segura de mim.

 

Não troco esse corpo de hoje

Com toda sua bagagem

E suas histórias

Por aquele corpo de vinte e poucos.

19 junho 2022

Sobre a morte e as coincidências da vida (Será coincidência?)

A morte, essa estranha-familiar... Quantas vezes nela pensei durante esses anos? Desde os meus dezoito anos me acompanha uma ideia-sensação de que eu vou morrer jovem. Foi assim, um sopro em meus ouvidos, não sei de onde, de quem. 

E toda vez que eu me sentava numa cadeira de dentista esse sopro se fazia presente. Uma voz em minha cabeça ficava martelando que a dentista sabia que eu ia morrer jovem. Que cada movimento, cada gesto dela, cada palavra, traziam um pesar como se ela dissesse: "pobrezinha, vai morrer tão cedo..."

Isso se intensificou durante os anos da faculdade. Eu eu ficava pensando como e quando seria. Nunca consegui ter certeza de nada; certeza mesmo só de que um dia ela chegaria. 

Até escrevi sobre o encontro - Contos sobre a morte -, lá pelo início dos anos 2000. Mas qual não foi minha surpresa hoje, nesse domingo de outono, de céu azul, que estou só em casa, e decidi ler um conto de Thomas Mann: A morte. Poderia ter lido outro? Claro, mas o tema me atrai, e não preciso dar mais explicações. 

Notas de um diário. Um conde se preparando para encontrar a morte. Sabia a data exata do encontro. Desde os dezenove ou vinte anos sabia que teria de morrer aos quarenta. 

Quarenta? Ainda se é jovem aos quarenta, eu me pergunto. De uns tempos pra cá havia me convencido de que aquela ideia-sensação de morte precoce não tinha passado de uma bobeira de adolescente. Afinal, depois dos trinta já não somos tão jovens assim. E, além disso, já estou mais próxima dos quarenta do que dos trinta. 

Mas a coincidência mesmo veio quando li que a morte teria se comportado como dentista dizendo: "É melhor resolver isso logo". 

Seria isso? Bem, na verdade, não estou segura do que eu quis dizer com "seria isso?". Mas será que vou morrer aos quarenta? Tenho ido muito ao dentista nesses últimos anos: um dente que mais parece um carma. Mas nunca mais ouvi aquela voz, nem sussurro algum. Nada na dentista parece denunciar que ela saiba que vou morrer logo ali, quando chegar os quarenta. É verdade que troquei de dentista faz um tempo.  Seria isso? A atual dentista não estaria aberta a revelações do além? E se ela não souber, quer dizer que nada irá acontecer? Digo, que não vou morrer aos quarenta? 

2025. Primeiro de janeiro de 2025. Será? E até lá o que vou fazer? Viver, ora! Que pergunta mais tola. Mas eu decidi que vou comprar uma máquina de escrever. Três anos, ou quase, ainda dá tempo de virar escritora...

19/06/2022

13 setembro 2021

Amoras

Amo amoras
Amo amar
Amoras
doces, pretinhas,
deixando em minhas mãos e na minha boca
suas tintas.
Amoras,
Amor de infância,
de adolescência,
da vida adulta.
Amo amoras
Amo amar
Amoras.

Foto: Francine Ribeiro


02 setembro 2018

Hipocrisia: a gente vê por aqui. Ou Sobre a moral farisaica de Bolsonaro e Magno Malta

 'Por esta razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne'. Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe." Marcos 10, 7-9.

"A deputada federal e cantora gospel Lauriete e o senador Magno Malta se casaram na última quinta-feira, 28 de março, numa cerimônia privada, realizada em Guarapari, Espírito Santo. A cantora Lauriete foi casada com o pastor e ex-deputado Reginaldo Almeida por 20 anos, e a separação entre os dois aconteceu meses após a cantora assumir o mandato como deputada federal. (...) Magno Malta também é divorciado" Fonte: Gospel+

"O deputado Jair Bolsonaro casou-se três vezes. A primeira esposa foi Rogéria Nantes Nunes Braga, a segunda foi Ana Cristina Valle. E a terceira e atual esposa é Michelle de Paula Firmino Reinaldo." Fonte: noivacomclasse 

Autoproclamados defensores da família tradicional, os senhores acima precisariam esclarecer aos cristãos, em nome dos quais gostam de falar e junto com os quais fazem tanta questão de estar, o que entendem por família tradicional. Afinal, a família deles não se parece muito com a Sagrada Família... Ah, mas o Bolsonaro é católico, e os católicos hoje em dia aceitam o divórcio... Mas e os evangélicos, o que pensam sobre o assunto? 

Para aqueles que adoram recorrer ao texto bíblico na hora de fazer discurso moralista, na hora de condenar homossexuais, na hora de atacarem feministas, seria bom prestar um pouco mais de atenção na palavra de Deus: "Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás ver com clareza para tirar o cisco do olho de teu irmão."Mateus, 7:5.

Esse negócio de ser literal quando a palavra de Deus condena as condutas dos outros e ser relativista quando se trata de suas próprias condutas é um péssimo exemplo de cristão. Ou a palavra de Deus é imutável ou bem ela aceita modernizações, mas deve ser ou uma coisa ou outra. Não adianta ser morno. Parece que muitos cristãos esqueceram do que diz o livro sagrado: "Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosse frio ou quente! Assim, porque és morno, e nem és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca." Apocalipse, 3:15-16.

Eu fico só imaginando o que Jesus diria aos senhores Magno Malta e Jair Bolsonaro, caso os encontrasse por aí discursando em nome da família, da moral, dos bons costume em nome dos cristãos, e tem uma passagem que pula na minha memória: "Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão! Assim também vocês: por fora, parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça." Mateus, 23:27-28. 

No caso desses dois senhores, não estou convencida de que nem por fora pareçam bonitos... mas há pessoas que estão se iludindo com as palavras vazias e, pior, cheias de ódio, intolerância e violência por eles 'pregadas'.

****
Em tempo: a intenção desse texto não é fazer discurso religioso (até porque essa não é a minha posição), nem defender posições conservadoras sobre família ou qualquer outra esfera da conduta humana. Também não se apresenta como escárnio a fé de ninguém. A intenção é unicamente evidenciar a má-fé desses que se colocam acima do bem e do mal em nome desta ou daquela religião, mas não parecem estar muito preocupados em buscar coerência entre o que dizem acreditar e o que fazem em suas vidas. No limite, vejo tudo isso como um flagrante desrespeito com a fé alheia. Aliás, as incoerências desses são inúmeras – e a questão que aqui destaco, sobre a família, é apenas uma.

O texto bíblico, como diversos outros textos, pode ser interpretado e usado de muitas maneiras, para defender diferentes visões de mundo. A escolha de que visão de mundo será defendida não é da bíblia ou de Deus, mas de seres humanos.

A apologia à violência, à intolerância, ao machismo, ao preconceito, à morte e à tortura, pode até encontrar respaldo na bíblia, mas é uma decisão de pessoas que, na busca pelo poder, não têm escrúpulos em distorcer ou manipular aquilo que, hipocritamente, chamam de texto sagrado.




03 maio 2017

Adolescência: hoje e ontem

A adolescência, na medida em que está entre a infância e a vida adulta, pode ser caracterizada como um vazio, uma fase de não-ser. O adolescente, que não-é-criança e não-é-adulto,encontra-se num processo de construção, é um ser-em-construção.
Enquanto processo, a adolescência é marcada por mudanças, físicas e psicológicas, confrontos, negações, busca de autoafirmação e de construção de identidade. É um processo doloroso. Crescer, amadurecer dói. Afinal, trata-se de uma ruptura com o mundo da infância. Como toda ruptura, a adolescência traz, muitas vezes, o sentimento de perda que, por si só, gera sofrimento. O adolescente durante esse processo sente-se sozinho, incompreendido, diferente (dos outros do grupo; da família; daquele eu que lhe era familiar até ontem...).
Reconhecer essa fase como potencial geradora de sofrimento já é meio caminho andado para que nós, adultos, possamos estabelecer um diálogo com o adolescente. É bem verdade que também passamos por isso, mas talvez já não tenhamos condições de lembrar exatamente como nos sentimos. É possível que muitos de nós, ao olhar para trás, por causa do distanciamento, já não possamos mais trazer à memória os sentimentos tão comuns a esta fase: solidão, incompreensão, medo, insegurança, revolta. Mas como seres humanos que somos, em qualquer fase que estejamos, sabemos que todos, em menor ou maior grau, estamos buscando aceitação, carinho, compreensão, respeito. E com o adolescente não é diferente.
Os adolescentes precisam se sentir importantes, amados, cuidados, protegidos, acolhidos. Mesmo quando eles parecem nos dizer o oposto, querendo distância, clamando por liberdade, respondendo de forma grosseira, fingindo não se importar com nada. Não é uma relação fácil, é preciso reconhecer isso também. A relação entre adultos e adolescentes é marcada por desentendimentos, desencontros, por palavras que, muitas vezes, causam feridas em ambas as partes. Mas precisamos lembrar que nós somos os adultos. E se nós, pais e educadores, não nos aproximarmos dos nossos adolescentes, não dermos a atenção, o carinho, a segurança e o acolhimento que eles tanto desejam e precisam, sempre haverá alguém para fazer isso em nosso lugar. Em tempos de facebook e whatsapp, pode ser uma comunidade Baleia Azul ou sei lá quantos outros aparecerão para preencher o espaço que deixamos vazio.
Vivemos numa época de excessos: de muita correria, de muito estresse, de muito egoísmo e de muito consumo. Trabalhamos muito porque temos muitas contas a pagar. Mas essas contas são resultado dos muitos desejos que nos ensinaram que devemos ter: o carro do ano, o último celular lançado no mercado, as roupas de marca mais caras, o corpo mais perfeito...Não percebemos que, lentamente, nós é que estamos sendo consumidos: pelo cansaço, pela insensibilidade, pela superficialidade das relações que estabelecemos, pela solidão... Somos consumidos por nossos medos e frustrações, num mundo onde a ‘felicidade’ é imperativa: no Instagram, no Twiter, no Youtube, é mandatório ser bem sucedido, ser magro, ser bonito, estar na moda, sorrir, ser feliz... Se para muitos adultos já é um grande desafio não espanar diante de tanta cobrança, o que dizer dos adolescentes?
Tudo isso se torna mais um motivo para lembrarmos que eles – os adolescentes – precisam de nós – os adultos. Precisam se sentir amparados. Eles não querem/esperam que nós tenhamos todas as respostas, que saibamos de tudo, que indiquemos o caminho. Eles querem/esperam que tenhamos tempo e paciência para ouvi-los, que suas dúvidas e medos não sejam infantilizados ou menosprezados, que seus passos, ainda que em direção diferente dos nossos, sejam acompanhados com interesse. Os adolescentes esperam que nós tenhamos coragem de assumir nossas fragilidades, que sejamos autênticos! Os adolescentes rejeitam a mentira e a falsidade. Nossos exemplos, muito mais do que nossos sermões, são observados e julgados pelos adolescentes a todo momento. E qualquer sinal de contradição pode significar perda de credibilidade/confiança. O adolescente é muito crítico, mas também é muito radical em seus julgamentos.
Nós, adultos, precisamos estar cientes da nossa responsabilidade, mas é muito mais importante estarmos convencidos da importância de ser e se fazer presente na vida dos adolescentes. Ser e estar presente sem, no entanto, sufocar, reprimir, impedir que eles aprendam a caminhar com as próprias pernas. É preciso estar perto o suficiente para ajudá-los, caso tropecem ou caiam. Perto o suficiente para reconhecer pedidos de ajuda e oferecer um abraço, sem julgar. Perto o suficiente, para que nem baleias nem qualquer outro bicho ocupe o nosso lugar na vida dos adolescentes.

A adolescência, para além das suas dificuldades, deve ser vista por nós, adultos, e pelos próprios adolescentes, como uma fase de alegria, de amizade, de descobertas e conquistas, de paixão e encantamento, de beleza, de amor, de vida, de muita vida!!

05 março 2017

Quando eu morrer

Quando eu morrer,
não façam velório.
Aqueles que me amam ou que gostam da minha presença
estejam comigo enquanto eu tiver vida.

Quando eu morrer,
não coloquem flores mortas sobre meu corpo frio.
Se alguém quiser me dar flores,
que elas me sejam dadas vivas e enquanto eu puder admirá-las.

Quando eu morrer,
não me façam ser quem não fui.
Aqueles que me amam,
que o façam mesmo sabendo de todos os meus defeitos, sem precisar me mutilar depois de morta.

Quando eu morrer,
espero que demore,
será só mais um dia como tantos outros que vieram antes de mim,
e que continuarão vindo depois que eu me for.

17 setembro 2016

Uma velha novidade

Dormir e acordar ao seu lado
me traz segurança,
não a segurança imatura
dos que a encontram na outra pessoa,
mas a segurança de quem se encontra
e pode ser quem é sem medo
de não agradar ou de fazer algo de errado.

Ao seu lado sinto-me livre e segura
para ser quem sou.
Em seu olhar, em seu sorriso,
em seus conselhos,
encontro apoio, amizade, paixão, amor.
Você me faz acreditar em mim mesma.
You are so special to me!

Hoje, como lá no início de tudo,
Você - seu cheiro, sua voz, seu beijo, seu abraço -
faz meu coração bater descompassado,
faz o mundo parecer um jardim bonito e perfumado
e estar nele, com você,
me faz muito feliz!


Todo lo que deseo hoy es que lo nuestro continue así por mucho tiempo!
Te quiero mucho!

04 julho 2013

Quatro de julho - um fim de tarde

E sei lá de onde vem,
mas de repente,
num fim de tarde ordinário como esse,
apossa-se de mim um não sei bem o que,
uma danada de uma emoção boba,
que me faz chorar.

Chorar ao ler algumas linhas soltas aqui e acolá
sobre qualquer coisa.
De repente as lágrimas traduzem esse não sei o que
que é misto de saudade e medo,
de esperança e desilusão.

Difícil pensar que já houve um tempo em que tudo era tão fácil.
Agora,
- não, não é só agora, mas essa agora tem se prolongado, -
é tão difícil não ser tomada pelas águas da seca.
E com que estranheza não me deixo molhar pelas gotas fora de época.
Não era pra ter passado?

São notícias de longe,
escrita sem grandes pretensões,
mas que comove,
que leva às lágrimas,
que fala de vidas que de alguma forma também é a minha.

São palavras de longe,
de uma terra que nunca me pertenceu,
e que falam de uma dor que eu não quero sentir.

Ah, esse fim de tarde de inverno,
tão ordinário,
lembrando-me que a vida é quase tudo isso e mais nada.

22 junho 2013

Acordamos!? Será??

A melhor maneira de começar esse texto seria dizendo: Muita calma nessa hora! Difícil analisar tudo o que aconteceu no Brasil nas últimas semanas e ainda está acontecendo. 
Inicialmente, as manifestações que ganharam as ruas tiveram um objetivo bem pontual: redução das tarifas do transporte coletivo em muitas cidades do país. Em São Paulo, as primeiras manifestações foram organizadas pelo MPL (Movimento Passe Livre), pedindo a revogação do aumento de R$0,20 nas tarifas de ônibus, trem e metrô. Mas depois de cenas de exagero e descontrole da polícia terem ganhado as principais páginas de jornais de todo país e, principalmente, terem corrido aos quatro ventos via facebook e youtube, as pessoas saíram às ruas não só de São Paulo, mas do Brasil inteiro, não mais por R$0,20. Os cartazes levantados pelos manifestantes colocavam na ordem do dia uma série de problemas: Corrupção; Impunidade; Serviços básicos de má qualidade - saúde, educação, transporte e segurança; Falta de transparência nos gastos públicos; superfaturamento nas obras da Copa; PEC 37 e por aí vai. 
Manifestações que, assim como o próprio MPL, são apartidárias. O que está longe de significar apolíticas. Tenho lido alguns artigos nos quais, por ignorância ou desonestidade intelectual, tem-se afirmado a co-extensão entre os termos. É preciso fazer algumas diferenciações: primeiramente, apartidário não é necessariamente igual a anti-partidário. Ao dizer que as manifestações são apartidárias, os manifestantes não estão necessariamente pedindo o fim dos partidos políticos, mas poderíamos dizer que estão afirmando que não se sentem representados por nenhum dos partidos que aí estão. Em décadas os partidos políticos brasileiros conseguiram a proeza de despertar em grande parte da população o sentimento de que eles não nos representam. Muitos políticos que agora tentam desqualificar as manifestações nas ruas dizendo que elas são despolitizadas, deveriam repensar o que fizeram durante essas três décadas de democracia no Brasil para politizar essa juventude que agora toma as ruas. Vale a ressalva de que politizar é bem diferente de doutrinar!
Ainda tenho dúvidas se despolitizada é uma boa palavra para qualificar a multidão que ganha as ruas. Sinceramente, apolítica é algo que nem sequer consigo compreender...Quando milhares de pessoas saem às ruas gritando por melhoria na qualidade de serviços públicos, pelo fim da corrupção e da impunidade, não vejo outra coisa nisso tudo que não uma ação política. 
Mas, se por despolitizada entendemos a falta de uma pauta clara, de conhecimento sobre o fazer político no país, e até mesmo desconhecimento das figuras carimbadas da nossa política que outrora lutaram pela democracia, ok, eu concordo, temos uma grande massa despolitizada no Brasil ganhando suas ruas. Mas isso é culpa de quem? Durante essas três décadas de democracia o que temos visto é uma terceirização da política no Brasil. O que eu quero dizer com isso? A grande maioria dos 'cidadãos' só exercem sua cidadania na hora de votar e eleger os seus 'representantes'. Mas não tinham (e não têm) a menor ideia de para que serve um senador ou deputado, ou da diferença entre poder judiciário, legislativo ou executivo. E poucos tinham reclamado da despolitização do brasileiro até então. 
Depois que foram anunciadas as reduções de tarifas nas principais capitais e em várias cidades do país, ficou o sentimento de "E agora José?".
O que estou percebendo é que estão todos perdidos. É novidade, e não há parâmetros para se enquadrar o que estamos vivendo. Também não estou afirmando que estamos vivendo uma grande revolução. Qualquer afirmação desse tipo (vide capa da VEJA da semana) deve ser considerada com muita ressalva. Os velhos grupos acostumados a 'representar' o povo brasileiro,  e que podemos classificar - e eles mesmo fazem questão de assim se afirmarem -   como direita e esquerda, estão agora desbaratinados. A direita (leia-se setores conservadores representados por partidos como PSDB e grande mídia) vê numa movimentação apartidária uma crítica direta ao PT e incita a bandeira do 'fora Dilma'.  A esquerda (sei lá quem botar nesse saco, mas vamos fazer de conta que o PT ainda é esquerda,  e põe aí junto PSOL, PCO, PCdoB e cia), por sua vez, vê a manifestação apartidária como um perigo fascista conservador de ultra direita, quando as bandeiras vermelhas são proibidas de serem erguidas em meio a multidão. Que fique bem claro: NÃO SOU A FAVOR DA VIOLÊNCIA que, infelizmente, ocorreu em alguns lugares contra os militantes de partidos ou movimentos sociais. Mas é preciso tentar entender o que está acontecendo. E enquanto continuarem, esses e aqueles, apenas tentando pegar carona nas manifestações, não vamos ganhar absolutamente nada. E pior, corre-se o risco de perder toda essa força que, talvez, o povo tenha descoberto que lhe pertence. 

De tudo que aconteceu até agora, parece que podemos tirar algumas lições:
i) Se parece que o povo acordou, os políticos e seus partidos ainda não acordaram, no máximo estão experimentando um terrível pesadelo.
ii) Ir para as ruas é fazer política, e o apartidarismo dessas manifestações, se bem direcionado, tem um potencial muito grande de cobrar mudanças em todos os níveis de governo (municipal, estadual e federal), independente de qual partido estiver no poder.
iii) Vândalos e bandidos se aproveitando de momentos de grandes manifestações há em todos os lugares. Isso não deve justificar os prejuízos que estamos tendo, mas NÃO PODE DESQUALIFICAR as manifestações. Além disso, para os criminosos, que venha a polícia!
iv) Se queremos que essas manifestações tenham um fim digno, faz-se urgente criar espaços de discussões e politização dos que estão indo para as ruas. É preciso ir para a rua com objetivos claros. Antes de sair de casa as pessoas devem se perguntar: Por que estou indo às ruas? O que eu quero? Usemos as mídias sociais, usemos as salas de aula, façamos política!! Só assim poderemos dizer, talvez daqui alguns anos, que acordamos!

07 janeiro 2013

Sobre escolas e escolhas

Eu sempre estudei em escola pública e digo isso com orgulho! Toda minha educação básica foi feita na Escola Estadual Marquês de Sapucaí, de Delfim Moreira, MG. Bons tempos aqueles! Eu tive professores que fizeram diferença na minha vida. Professores que se importavam. Professores que se respeitavam. Professores que se fizeram dignos diante dos meus olhos. Nem sempre eu fui justa com eles. Nem sempre eu soube entender suas atitudes. Mas, de algum jeito, eu sempre soube admirá-los e respeitá-los. Eles conseguiram me fazer entender a grandeza dessa profissão, hoje a minha profissão. 

Esse ano de 2012 entrei na rede estadual de São Paulo como professora efetiva de filosofia. E faço questão de dizer para os meus estudantes que eu sempre estudei em escola pública e que me formei numa das melhores universidades do país, a Unicamp. É bom notar que não digo isso a fim de afirmar nenhuma superioridade em relação a colegas formados em outras instituições, públicas ou privadas, mas apenas com o intuito de fazê-los acreditar que é possível ingressar numa boa universidade pública de ensino superior, tendo estudado sempre em escolas públicas. 

Com todos os problemas e as dificuldades que os professores enfrentam hoje, eu ainda tenho a pretensão de fazer a diferença na vida de algumas pessoas, assim como os meus professores fizeram na minha vida. Estou longe de acreditar que a filosofia por si só é capaz de mudar a educação, como alguns alardeiam por aí. A disciplina que escolhi tem sim um papel privilegiado dentre as demais ao permitir mais espaço para a conscientização do estudante de seu papel enquanto cidadão ou para provocá-lo a respeito de problemas de ordem ética ou epistemológica e tantos outros. No entanto, os professores que mais marcaram minha vida não o fizeram por causa da disciplina que ensinavam, mas pela atitude como professor, pela honestidade com que se apresentavam diante de mim, pela paixão que conseguiram transmitir naquilo que faziam, pelo respeito e compromisso, pelo entusiasmo, apoio e incentivo que me foram dados. Independente da disciplina, da matéria que lecionavam, eu tive professores que abriram meus olhos, ampliaram meus horizontes e me fizeram acreditar em grandes sonhos e, juntamente com isso, se esforçaram por colaborar com a realização desses sonhos. 
Tenho alguns colegas hoje que também me servem de inspiração. Pessoas que, apesar de todos os empecilhos, de toda desvalorização e precarização da carreira de professor, não fazem disso desculpa para serem medíocres. 
Eu ainda tenho dúvidas quanto ao meu futuro profissional. Ainda tem escolhas para serem feitas. Mas, neste momento, estou consciente do compromisso que assumi com os meus estudantes. Espero conseguir fazê-los perceber o que eles têm de melhor e o quanto são capazes de mudar suas próprias histórias. 


*Quando eu escrevi esse texto, no início de 2012, eu estava num momento Pollyanna. Não sei quanto tempo ele vai durar, mas espero que o suficiente para ter mais um bom ano!

06 janeiro 2013

Pedaços de vida (alheia) - Versão Beta


Era uma tarde quente de verão. Quente mesmo só o clima de verão, pois há muito que entre eles o clima tinha esfriado. Sentados, um do lado do outro, cada um olhando pra um lado. Quando foi mesmo que eles acharam que formavam um casal perfeito? Cinco anos... Como suportaram passar todo esse tempo juntos?
Era difícil acreditar que algum dia tiveram algo em comum. Houve um tempo em que olhavam para a mesma direção? Falavam, se atropelavam, e não diziam nada. Era o constrangimento típico de quem já não tinha nada para dizer um ao outro. E mesmo sem nada em comum, eram tantas coisas de um se misturando na vida do outro.
Os livros dela, na estante dele. As roupas dele, no guarda-roupas dela. Será que algum dia aquela história tinha ido além de dividir o mesmo teto?
E foi assim, dizendo tantas coisas que não significavam mais nada, que perceberam entre ruídos e sorrisos nervosos que deviam seguir cada um seu rumo. Era ponto final, não havia lugar para pausa, já era tarde quando enfim tiveram coragem para dizer. Ela juntou suas coisas e depois de muito tempo sentiu-se inteira novamente. Ele ficou com o resto e com as expectativas de quem iria preencher os espaços, agora livre, da casa. 

04 janeiro 2013

Pedaços de vida (alheia) - Versão Alfa

Era uma tarde quente de verão. Quente também estavam os corações. E descompassados, amedrontados. Sentados, um do lado do outro, cada um olhando pra um lado. Há quanto tempo estavam assim? Cinco anos, não são 5 dias, nem 5 meses. Mas em que momento deixaram de olhar para a mesma direção? Estavam mudos, e diziam tantas coisas. Era medo, era costume, era um não saber ser sem o outro. Mas, ao mesmo tempo, cada um era do seu jeito, sem encontrar espaço suficiente na vida do outro.
Os livros dela, as roupas dele, dividindo o mesmo teto. E parece que nem sabiam mais quando passaram apenas a dividir o mesmo teto. 
E foi assim, sem ter muito o que dizer, que decidiram entre soluços e silêncios que deviam seguir cada um seu rumo. Se era ponto final, se apenas uma pausa, era cedo pra dizer. Ela juntou suas coisas e os pedaços dela mesma e botou num saco e foi. Ele ficou com o resto e o vazio da falta dela. 

20 agosto 2012

Palavras

As palavras são pílulas ou poções (às vezes fármaco certeiro, outras vezes puro encantamento)...
mas também podem ser armas perigosas.
Se por elas muitas curas podem ser feitas,
também são elas que causam as maiores feridas e os estragos mais profundos.
Mas a falta de palavra,
o não dito,
pode ser ainda mais fatal...
E não há palavra que cure a ausência,
o vazio profundo marcado pelo silêncio na hora errada.

(Vih, bem vinda ao mundo das palavras!)

11 janeiro 2012

Santo Procon - o santo dos consumidores desvalidos

Você já fez alguma compra no seu cartão de crédito que tivesse um valor, digamos assim, acima do normal? A operadora do seu cartão entrou em contato com você pedindo que você ligasse no centro de atendimento para autorizar a tal compra? Não? Se eu fosse você, trocava de operadora! Já imaginou se alguém clona seu cartão e sai por aí comprando deus e o mundo?? Um perigo!
Ah, ela entra em contato? Ótimo! Ponto para a sua operadora! Esse é um serviço das operadoras de cartão de crédito que merece nosso respeito! 
Mas quando você tentou ligar lá, pra dizer que aquele valor acima da média foi sim uma compra feita por você, que depois de anos juntando centavo por centavo, finalmente fará aquela viagem dos seus sonhos, você conseguiu autorizar sua preciosa compra?? Ou teve que ligar uma, duas, três, quatro, cinco, SEIS VEZES?! É meu amigo, haja paciência e boa educação! Sabe aquela história de te transferir para o setor responsável? E aí você ouve musiquinha até o telefone ficar mudo? Isso mesmo: MUDO! Você fica falando "alô, alô (marciano, corintiano, fulano, sicrano)" e NADA! por dez, quinze minutos, até que a ligação CAI! Você liga de novo e a história se repete. E de novo e de novo! 
Então você consulta o Procon e vê lá no Código de defesa do Consumidor que dá pra enquadrar a tal operadora no artigo 14. É, porque se a tal compra que você fez num valor acima do normal (sua rica economia de alguns meses...) não for efetuada, você vai perder aquela taxa de câmbio bacana que você conseguiu no dia e o preço da sua sonhada viagem poderá ficar mais salgado do que você esperava - se isso acontecer porque a operadora não deu condições de você autorizar sua compra, pode crer que ela vai ter que arcar com a diferença! 
Ah, palavras mágicas: "Se você não resolver meu problema, vou acionar o Procon!" e "Caso eu tenha algum prejuízo por não conseguir realizar esse procedimento, a operadora irá pagar a diferença e arcar com este prejuízo!".
Incrível, o que já parecia uma missão para o Tom Cruise, se resolve com uma conversa com o supervisor! Pronto, resolvido! Pagamento autorizado...

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1- É sempre bom lembrar que educação cabe em qualquer lugar e, portanto,  não é só porque somos avisados de que 'para nossa segurança essa conversa será gravada' que devemos tratar com respeito e educação os atendentes;
2- Caso a ameaça de acionar o Procon não resolva o seu problema, não pense duas vezes para acioná-lo mesmo!
3- Além do Procon, outras maneiras eficientes de cobrarmos melhores antedimentos são as redes sociais, Orkut, Facebook, Twitter e sites como o reclame aqui. Ou você pode fazer um videozinho bem humorado e criativo como esse cara aqui.

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Bom, dessa vez a Itaucard fica só com o mérito de acionar seus clientes pedindo confirmação para compras com valores atípicos...

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