14 julho 2026

Data centers: tê-los ou não tê-los, eis a questão!


 "O Brasil discute hoje um incentivo para data centers. Isso funcionaria?

Não acho errado, mas daria errado sem capacidade energética e planejamento. Quando se vê a capacidade de geração de eletricidade chinesa, o gráfico é de assustar.

Uma empresa que tem data centers no Brasil que me procurou disse que está quase desistindo de trazer investimentos em IA para o país. Isso porque é muito caro e não há capacidade energética. Assim, os provedores nacionais não conseguem competir em custo com os grandes provedores de nuvem internacionais. É mais sério do que um simples incentivo fiscal.

É possível conseguir acordos de transferência tecnológica das big techs interessadas em instalar data centers no Brasil?
Tendo energia, o resto vem. O país dá energia barata e pede computadores, qualificação de pessoal e dados. Os dados precisam estar no Brasil. Os datasets são o novo petróleo, são extremamente valiosos para os criadores de modelos de IA."

Trecho da entrevista de Mat Velloso para Folha de São Paulo, publicado em 14/07/2026.. 

Mat Velloso liderou times de IA no Google, onde foi vice-presidente, e foi parte do superlaboratório de inteligência artificial da Meta. Ele deixou a big tech de Zuckerberg em fevereiro para orientar empresas brasileiras.

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"De acordo com a Agência Internacional de Energia dos Estados Unidos, cada consulta ao ChatGPT consome, em média, cerca de dez vezes mais eletricidade do que uma pesquisa típica no Google. 

Até recentemente, os maiores data centers eram projetados para operar com cerca de 150 megawatts, o que significa consumir anualmente tanta energia quanto aproximadamente 122 mil residências nos Estados Unidos. Hoje, desenvolvedores e empresas de serviços públicos se preparam para megacampi de IA que poderão exigir de mil a 2 mil megawatts. Um único deles poderia usar, em um ano, de cerca de uma vez e meia a três e meia a quantidade de energia consumida pela cidade de São Francisco. 

Existem poucos lugares no planeta capazes de produzir e fornecer tanta energia para um único local. Os desenvolvedores estão trabalhando com empresas de serviços públicos ao redor do mundo para construir mais usinas de energia e ampliar as opções disponíveis.  (...) As empresas de serviços públicos estão adiando a desativação de usinas a gás e carvão, assim como a transição para energia renovável. A Microsoft reativou a Three Mile Island, uma usina nuclear perto de Middletown, Pensilvânia, que sofreu um acidente nuclear no final da década de 1970, o pior acidente nuclear comercial da história do país. Até 2030, no ritmo atual de crescimento, estima-se que os data centers usarão 8% da energia dos Estados Unidos, em comparação com 3% em 2022; mundialmente, a computação de IA poderá consumir mais energia do que toda a Índia, o terceiro maior consumidor de eletricidade do mundo."

Karen Hao, O Império da IA: por dentro da corrida irresponsável pela dominação total, trad. Ananda Alves e André Sequeira, Rio de Janeiro: Rocco, 2026.

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Discursos como o de Mat Velloso são exemplos do que Karen Hao identificou como parte do modus operandi do Vale do Silício: a inevitabilidade. Sutskever, um dos fundadores da OpenAI, afirmou ao repórter do New York Times, Cade Metz:

"Acho bastante provável que não demore muito para que toda a superfície da Terra fique coberta por data centers e usinas de energia." Segundo Sutskever, "haveria um tsunami de computação... quase como um fenômeno natural". A IAG (Inteligência Artificial Geral) e os data centers necessários para sustentá-la seria "útil demais para não existir" (HAO, 2026, p.87). 

No entanto, ao longo das mais de 400 páginas do seu livro, Hao nos conta que, diferente da inevitabilidade alardeada por Sam Altman e seus sócios, "a história da IA revela que seu desenvolvimento sempre foi moldado por uma elite poderosa" (HAO, 2026, p.99). Segundo Karen, à medida que comunidades do sul global, mais vulneráveis às investidas das grandes empresas de tecnologia, vão tomando consciência da ameaça que esse desenvolvimento desenfreado significa para seus territórios, a questão central por elas colocadas é: "como imaginar um caminho diferente para o desenvolvimento da IA que não esteja enraizado na extração". 

Poderíamos complementar: como imaginar um caminho diferente para o desenvolvimento da IA que não implique na devastação da Terra? Universidades, centros de pesquisas independentes, governos e políticos dos países que estão sendo "cortejados" e "assediados" por essas empresas precisam urgentemente focarem nessa questão. Nos colocar simplesmente como fornecedores de matéria-prima e energia em troca de "transferência tecnológica" é apenas nos render a um modelo destrutivo que pode custar a sobrevivência da maioria de nós. Pois, enquanto se empenham em enganar e trapacear governos e comunidades mundo afora, esses bilionários também investem em Planos B e C de sobrevivência própria, seja na Lua ou em Marte

As notícias de estados brasileiros dispostos a atrair data centers para seus territórios precisam fazer soar alarmes em toda a sociedade. O que realmente temos a ganhar com isso? A expansão de data centers pelo mundo está a serviço de um modelo de tecnologia que não beneficia a todos. É um modelo extrativista, colonialista, exploratório e completamente descontrolado.  Estamos sendo convencidos de que "precisamos" desses data centers, porque "precisamos" das IAs e não estamos nos perguntando: Precisamos mesmo? Para quê? 

Não se trata de negar a tecnologia e seus potenciais benefícios. Trata-se de colocar cada coisa no seu devido lugar. O tipo de uso banal que se faz hoje de ChatGPT e afins, inclusive correndo o risco de atrofiar ou não desenvolver capacidades e habilidades humanas básicas que nos trouxeram até o atual estágio de desenvolvimento tecnológico, é um erro que pode custar muito caro. 

Nunca foi tão importante a capacidade de pensar, de se questionar, de interpretar textos e contextos. Enquanto tantos de nós são ludibriados e, encantados pelas demonstrações dos avanços tecnológicos que nos fazem acreditar que vivemos em cenários de filme de ficção científica, se tornam incapazes de olhar para o que acontece a nossa volta, o planeta sofre as consequências do desatino de bilionários mimados, narcisistas, com perfis que oscilam entre psicopatia e sociopatia. 

A questão não é "a gente voltar para 1500", é o planeta ser sugado até a última gota e sem haver chances de retorno. 

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