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27 agosto 2020

É preciso parar de chamar Bolsonaro e seus ministros de incompetentes

 "Nunca tivemos um governo tão inepto no Brasil. Pastas essenciais, como Educação, Saúde, Relações Exteriores, Meio Ambiente e Direitos Humanos foram confiadas a pessoas incompetentes." (Janine, Renato, Diálogos urgentes, Revista Piauí)

Assim começa o artigo do Renato Janine, publicado ontem (26/ago/2020) na Revista Piauí. E para mim começa errado. Não podemos mais, principalmente depois de revelada aquela trágica reunião ministerial de 22 de abril, insistir em chamar de incompetente esse bando. Ali, naqueles diálogos torpes, com linguajar baixo, parecendo conversa de penitenciaria, deveria ter ficado claro para todos que se opõem a esse desgoverno, que não se trata de incompetência. Ricardo Salles, Damares Alves, Weintraub, Ernesto Araújo e agora Eduardo Pazuello, não são incompetentes. Podem ser certamente acusados de mau-caratismo, de ser limitados intelectualmente, em alguns casos, antiéticos, hipócritas, mentirosos, mas não incompetentes. 

                                   Imagens da Reunião de 22 de abril - jornal O Globo
 

Devemos nos lembrar da fala de Bolsonaro nos EUA, quando disse que sua missão era desconstruir muita coisa. Os seus ministros, todos eles, são tarefeiros colocados em seus postos com a clara missão de desconstruir. Podemos entender também esse "desconstruir" como "destruir", "desmantelar", "aniquilar". Salles tem sido extremamente competente em desmantelar os órgãos de proteção ambiental. Damares, competentíssima em destruir e aniquilar projetos e ações em prol dos direitos das mulheres. Quer competência maior do que a de Pazuello em deixar morrer centenas de milhares de brasileiros? Precisamos parar de chamar Bolsonaro e seus ministros de incompetentes e entender de uma vez por todas que o único projeto que Bolsonaro tem é o de destruição do Estado brasileiro

Bolsonaro é despreparado para governar? É verdade, mas também não é. Explico. Se mantivermos o sentido originário das palavras - que tem sido dia após dia atacado pelo ministério da verdade bolsonarista, a Secretaria Especial de Comunicação do Governo - então, sim, Bolsonaro é despreparado para governar. Mas entendendo que Bolsonaro criou, como bem disse Eliane Brum, a antipresidência, e por extensão poderíamos dizer o antigoverno, sua atuação tem sido muito competente nos últimos meses. Seus ataques à imprensa e aos profissionais do jornalismo têm contribuindo consideravelmente para minar a credibilidade que restava desse importante setor. Suas mentiras constantes tem estimulado na população uma incapacidade de distinguir fatos de ficção. Seu linguajar xucro continua sendo usado para aproximá-lo do homem comum, cidadão médio, desacreditado da política e de seus agentes falando difícil e, no fim do dia, todos acusados de corrupção. Bolsonaro é corrupto? É, mas o cidadão comum o vê com um igual, apenas mais um cidadão comum, cansado do sistema e que quando pode, tira sua vantagenzinha, sonega imposto, enfia a mãe, a sogra no imposto de renda, nada de mais, coisa de cidadão de bem...

Mas o artigo de Janine também comete outro erro. Prefere deixar "para outra oportunidade a discussão sobre o que levou uma maioria de eleitores a escolher tal caminho", a saber, votar em Bolsonaro, em nome da prioridade do dia, que seria a questão de "saber que possibilidades há de escapar dessa rota que colocou o Brasil na vanguarda da barbárie". Nesse tema, acredito que Ciro Gomes está certo ao dizer que não dá para sair dessa encalacrada sem entender por que caímos nela. Nesse sentido, a autocrítica dos governos e partidos que estiveram no poder no passado recente torna-se urgente, e não dá para deixar para depois. Essa autocrítica, no meu entendimento, tem muito pouco a ver com autoflagelo em praça pública e muito mais a ver com lavagem de roupa suja em casa. Ou seja, essa autocrítica deve ser feita da porta para dentro dos partidos que se viram embolados nas denúncias de corrupção. Mas só vale para partidos que abertamente condenavam corrupção. Ninguém espera que (P) MDB ou PP, embora sejam os campeões de corruptos e condenados, façam isso.

Que a Lava-Jato extrapolou todos os limites legais e razoáveis  na sua sanha por fama - sim, porque a essas alturas do campeonato também não dá continuar acreditando que Moro, Dallagnol e afins eram caçadores de corruptos - deveria ser consenso. Mas mesmo assim, não é possível fingir que não aconteceu nada. Não é possível seguir querendo que a população aceite a "narrativa" da perseguição pura e simples contra um partido. O erro do petismo em 2013 se repete ainda hoje: chamar o cidadão médio, despolitizado e que até então havia votado no PT, e que em 2018 votou em Bolsonaro, de fascista. Janine, em seu artigo, prefere dividir a responsabilidade do PT com todo o campo democrático*. Janine faria bem em ler o excelente livro da Rosana Pinheiro-Machado, Amanhã será maior, no qual ela analisa os acontecimentos de junho de 2013, e como o partido que então governava o país, não entendendo o que estava acontecendo - ou preferindo não entender, isso é por minha conta - optou por culpar os protestos pelo que se seguiu. Rosana faz um trabalho muito interessante de ouvir e tentar entender os motivos que levaram jovens, homens e mulheres de periferia a votar em Bolsonaro. Entender as falhas e brechas que o modelo de gestão petista deixou, dando espaço para que um sujeito como Bolsonaro pudesse se despontar como alternativa ou como um antissistema, não significa ignorar ou jogar fora os méritos dessa mesma gestão. Mas se não tivermos maturidade para enfrentar fatos como o de Lula dizendo que nunca banqueiros ganharam tanto dinheiro como em seu governo, talvez não haja saída para nós. 

Concordo com Janine, e também com Rosana Pinheiro-Machado, quando alertam para a importância do campo progressista, as Esquerdas, perderem o medo de falar sobre corrupção. De que essa seja uma pauta cara à esse campo político. Não dá mais para deixar a direita agir como se tivesse monopólio sobre essa pauta. Outro tema que precisa deixar de ser tabu no campo progressista é a Segurança Pública. Bolsonaro foi eleito se ancorando também nessa queixa da população, e o que está fazendo? É preciso ser hábil em mostrar para a população que as soluções de Bolsonaro não resolvem o problema. Que liberar venda de armas e munição não é solução para a questão da Segurança Pública. 

Também concordo com a urgência do diálogo, de uma frente ampla, que vá além dos limites da centro-esquerda, que seja uma frente democrática, contra o autoritarismo e a barbárie que Bolsonaro hoje encarna. Não sei se por mero desejo e necessidade de esperança, mas tendo a concordar com Janine que o núcleo duro de apoiadores de Bolsonaro está em torno de 15% da população e que, portanto, é o caso encontrarmos os outros 15%, que não são fiéis devotos do antipresidente, para o diálogo. Mas esse diálogo precisa, urgentemente, ser pautado por propostas concretas para as demandas reais da população. E é preciso ouvir a população. E se ouvirmos reclamações legítimas, se ouvirmos críticas que nos desagradem, precisamos aprender a aceitar e acolher, reclamações e críticas, e não empurrar quem fala para outro campo. 

Bolsonaro forjou sua eleição se apresentando como uma resposta para uma crise do sistema político brasileiro. Mais do que nunca, precisamos fazer política. Mas não a rasteira, dos ataques, das acusações, que puxa o tapete de quem está no mesmo campo. Precisamos de uma Política com P maiúsculo. Com projetos, com propostas factíveis, que saiba ouvir os anseios da população mais do que imaginar que sabe o que a população deseja. Os partidos são fundamentais numa democracia representativa, mas não podem ser fins em si mesmos; não podem colocar seus interesses acima dos interesses do povo, ou caducam. Lá em 2013, no início, as manifestações apartidárias, que foram erradamente apontadas como antipartidárias ou mesmo como apolíticas, manifestavam uma insatisfação com os partidos políticos que precisa ser ouvida. Desde a redemocratização do Brasil, muitos partidos se encastelaram, perderam qualquer conexão com as ruas - mesmo partidos que historicamente estiveram ancorados nas ruas - e passaram a servir  aos seus próprios interesses. É hora de sair dos gabinetes, das respostas prontas, do que se imagina que a sociedade quer e estar entre as pessoas, no dia a dia, a fim de representá-las de fato. 

A formação política do cidadão médio precisa ser levada a sério. A construção de uma nova ordem política, no meu entender, passa por uma valorização do poder legislativo, de uma compreensão mais ampla de sua função. Os partidos do campo progressista precisam entender que não adianta focar em eleger quadros no executivo - seja municipal, estadual ou federal - deixando o legislativo a deriva. A reforma política no Brasil é assunto para antes de ontem. Precisamos oferecer opções para a população, para que novamente se possa acreditar na política e em seus agentes como capazes de transformar a realidade. 

 

*"O campo democrático tende a achar que todos os seguidores de Bolsonaro são fascistas ou idiotas."

13 agosto 2020

Bolsonaro me bloqueou

Eu sei que olhar para cara desse senhor não é nada agradável, ainda mais quando a gente lembra que ele ocupa a cadeira da presidência. Na verdade, não ocupa, pois no meio da pandemia, ele prefere ficar dando rolê de moto por Brasília, coisa de moleque arruaceiro que não tem o que fazer, a assumir seu papel. Parece que ele acha que não tem muito o que fazer no Planalto. Isso explica também suas viagens pelo Brasil, fazendo a única coisa que ele sabe fazer: campanha - ou seria só aglomeração mesmo?

Se já não fosse insano o suficiente o presidente da república usar seu perfil pessoal para, supostamente, divulgar ações do governo, a grande verdade é que o perfil de Bolsonaro no Twitter é pura fake news. Ele vive compartilhando vídeos de jornalistas mequetrefes dispostos a falar qualquer porcaria para defender o indefensável, como Augusto Nunes, Alexandre Garcia e outros de menor projeção. Além disso, fica compartilhando postagem da Secon, a secretaria de mentiras oficiais, como aquele indigno painel da vida. Vira e mexe ele também divulga umas fotos da PF (Polícia da Famiglia?) para dizer que continua preocupado em prender bandido...(os outros bandidos, claro!, não seus amigos milicianos, nem seus laranjas de estimação, muito menos seus filhotes aprendizes de corruptos). 

Aí a cidadã vai lá nas postagens do presidente lembrá-lo que ele não passa de um miliciano, corrupto, cínico e cretino; ou então desmentir aquela lorota de que o STF tirou os poderes do presidente e que as mais de 100 mil mortes e o caos do Brasil é culpa dos governadores e prefeitos; ou pedir que ele fale do que interessa: os cheques do Queiroz e sua mulher, Marcia, para a dona Michele Bolsonaro, e o que faz o presidente? Bloqueia a cidadã. 

Isso lá é atitude de um presidente da república? Parece menino mimado quando contrariado: a bola é minha, então, se não for pra jogar do meu jeito, ninguém joga. Será que foi coisa do Carluxo? Ficou nervosinho porque leu umas verdades sobre o papai? Ele não superou ainda a fase "meu pai é meu herói?" Os meninos do Bolsonaro devia nascer cantando Fábio Jr: "pai, você foi meu herói, meu bandido"...

Mas vamos falar de coisa séria: o bloqueio. Na verdade, Bolsonaro me bloqueou desde quando saiu vitorioso na última eleição. Passei dias e dias com um gosto amargo na boca, com uma sensação de luto. Foi a primeira vez que chorei por causa de um resultado de eleição. Passei meses levando um susto quando abria o jornal e lia "presidente Jair Bolsonaro". Que pesadelo era aquele? Perdi a esperança. Sentia raiva de pessoas conhecidas que, certamente, tinham digitado 17 na urna. O pior bloqueio que Bolsonaro me causou foi o de não conseguir entrar no elevador com mais pessoas, sem ficar me perguntando em quem eles teriam votado. Em estar no trânsito, e sempre que algum idiota fazia merda, ser tomada por uma onda de raiva e pensar: "só pode ser bolsonarista". 

Sim, Bolsonaro me bloqueou, mas foi muito mais do que no Twitter. Ontem, na verdade, quando descobri o bloqueio, me senti muito feliz. Foi um troféu. Eu consegui irritar o presidente! Ou seja lá quem for que cuida daquele perfil. Eu fui dormir querendo acreditar que, nem que tenha sido por um minuto, aquele senhor sentiu raiva de mim. Por que eu sinto raiva dele todo dia, todo momento que lembro da sua infeliz existência. Bolsonaro me bloqueou: quando olho para ele, não consigo enxergar uma pessoa. Vejo um robô, um zumbi, uma fake news ambulante, um pesadelo interminável. Estou bloqueada na minha capacidade de ter qualquer empatia com ele ou seus defensores.  

Desde de 2018, tenho tentando, alguns dias com mais sucesso, outros com menos, me livrar desse bloqueio. Tenho tentando, mas não tem sido fácil, enxergar humanidade em quem defende torturador, em quem vota em defensor de torturador, em quem, como um vírus, espalha ódio e estimula violência. Enxergar humanidade em quem insiste em agir como zumbi. O Twitter é o de menos. Ou talvez tenha sido um grande favor: não passarei mais raiva quando correr a tela do celular no Twitter. Quem sabe este bloqueio não me ajude a desbloquear o que realmente importa.

09 maio 2020

Encher ou não encher linguiça - eis o meu drama!

Gosto de escrever. Na verdade, esse gosto vem de longa data e esteve ameaçado por um tempo. Quando eu estava na quarta série uma professora insensível, depois de passar uma tarefa - composição escolar, era assim que chamavam - disse em alto e bom som para toda a turma: "nada de ficar enchendo linguiça como a Francine". Pra ser sincera, não lembro exatamente as palavras dela, mas teve o "encher linguiça". Fui vítima de um assédio moral, fiquei traumatizada por um tempo, tinha medo de escrever. Mas aos 14 anos, ganhei um prêmio de redação, primeiro lugar no Estado de Minas Gerais, concurso sobre Tiradentes. Foi um feito e tanto. E eu juro que quando soube que havia ganhado o concurso senti vontade de ir atrás daquela professora azeda da quarta série e dizer:"Tá vendo, pra quem gosta de encher linguiça, acho que desse vez eu enchi direitinho". Na verdade, não sei bem porque essas lembranças me vieram a mente. Minha intenção quando abri o computador era tentar escrever uma crônica. Pois é, gosto de escrever e até acho que algumas vezes consigo resultados interessantes, mas não consigo escrever crônicas. É um trauma.
Escrito, Escrever, Pessoa, Papelada
imagem disponível em pixabay.com
Talvez decorrente daquele trauma da minha infância. As composições escolares, pelo menos na quarta série, tinham que ser curtas, assim como as crônicas. Mas a verdade é que eu sou uma enchedora de linguiça profissional! Quando estava na faculdade, um professor nos entregou uma folha de almaço, entregou três perguntas, e a prova era responder as três questões num texto único. E o que ele nos diz antes de começarmos a prova? "Nada de encher linguiça." Entrei em pânico. As malditas perguntas eram sobre Hegel, Fenomenologia do Espírito. E aí me veio à cabeça a professora da quarta série. Bom, consegui não encher linguiça, consegui um 7 ou 8 na matéria, não lembro bem. Claro que os trabalhos da faculdade nada tinham a ver com as crônicas, mas a verdade é que meus trabalhos sempre tinham muitas linhas, muitas páginas. Não sei como consegui escrever algo que prestasse para passar no vestibular com aquele limite de 30 linhas.

Quando criei esse blog me senti tão livre, não tinha limites, poderia escrever usando quantos caracteres eu quisesse! Quanta emoção. A questão que ultimamente tenho me colocado, no entanto, é outra: para quem escrevo? Quem lê textos longos? Ainda mais nestes tempos de Twitter e WhatsApp... Cada vez mais os textos longos são vistos como "pura encheção de linguiça". E muitas vezes fico pensando: preciso ser mais sintética, dizer o que acho que tenho de relevante para dizer em poucos parágrafos, que caiba numa tela, nada de rolar a tela. A essa altura já devo ter fracassado novamente. As telas hoje são as do celular, impossível escrever algo que caiba numa única tela. Tem que ser do tamanho de uma postagem no Twitter. Sim, esse ano me aventurei nos TT. Cada vez que tento escrever algo e sou limitada pelo Twitter, volta o trauma: "devo estar enchendo linguiça". Não, na verdade não penso isso. Penso: "como podemos falar de algo sério com essa miséria de espaço?" E aí volto para outros lugares nos quais me sinto mais livre! Depois de escrever uns oito parágrafos e publicar, aí sim volta o trauma: "quem vai ler? você mais uma vez encheu linguiça, é por isso que não vou ler até o fim."

Hoje, como professora, vejo muitos alunos tentando malabarismos para atingir o mínimo de linhas: aumentam o tamanho da letra, aumentam o espaço entre as palavras e reclamam, com se estivessem sendo torturados, pedindo para que as quinze linhas possam virar dez ou menos. Sofro. Como isso é possível? De um universo de cerca de 200 alunos, tenho uns quatro que, para a professora da quarta série, fariam parte dos que gostam de encher linguiça. Claro, entendo perfeitamente as reclamações destes quanto àquele absurdo de 30 linhas ou o limite de páginas. Sofri do mesmo mau  por anos. Mas faço minha parte, tento ajudá-los a não terem suas ideias tolhidas pelo limite. Digo que os limites também são importante - e acredito mesmo nisso, não é hipocrisia. Normalmente esses poucos sofredores, são leitores, como eu era, e deve ser por isso que, felizmente, estão cheios de ideias...O drama maior, para mim, são os outros, os que não leem, os que brigam pelo mínimo...

Nesse momento (desse texto), penso que mais uma vez fracassei, nada de crônica, nada de texto curto. Mas para aliviar meus traumas, para tentar me consolar, tento me convencer de que errados estão os outros: a professora da quarta série, o professor da faculdade, o Twitter e todos que acham que textos longos são encheção de linguiça. Tendo a acreditar também que se as pessoas empenhassem seu tempo na leitura de textos longos e de boa qualidade - é óbvio que nem todo texto longo é bom - a chance de termos como presidente um maníaco que sugere fazer um churrasco bem quando o país chega a 10 mil mortes no meio de uma pandemia seria quase zero. Foram as mensagens curtas de WhatsApp e afins que contribuíram para normalizar a "curta" inteligência do cidadão que agora é presidente da república. Textos curtos, muitas imagens, apologia à ignorância, reclamação de que nos livros "tem um amontoado de coisas escritas" - seria essa a versão de Bolsonaro para "encher linguiça"? - e temos esse estado de coisas lamentável dos dias de hoje. Sendo assim, acho que devo seguir "enchendo linguiça", quem sabe minhas palavras possam resgatar um ou outro dessa maldição obscurantista que tenta apagar as palavras, calar os jornalistas, reduzir fatos complexos a soluções simplistas, violentar a memória e distorcer os fatos. A maior resistência dos dias de hoje é ler, ler muito, e aqueles que podem, escrever bons textos, registrando os absurdos que agora se tornaram diários, questionando esses absurdos, propondo saídas para esse absurdo.


28 abril 2020

E daí?

E daí?", diz Bolsonaro sobre nomear amigo do filho chefe da PF
E daí que o presidente pareça não entender o tamanho do cargo que ocupa?
E daí que o presidente veja seu cargo como possibilidade de proteger seus filhos mimados e criminosos?
E daí que o novo chefe da Polícia Federal seja amigo do investigado que é filho do presidente que escolheu o novo chefe? 
E daí que as instituições sejam insultadas e que o presidente apoie os pedidos de que sejam fechadas?
E daí que estejamos enfrentando a maior crise sanitária do século?
E daí que milhares já morreram e outras milhares morrerão?

E daí que sejamos ridicularizados mundo afora porque nosso chanceler é um lunático conspiracionista?
E daí que o ministro da educação seja um mal educado e ignorante?
E daí que as escolas estejam fechadas e o ministro da educação, só por birra, resolva manter a data do ENEM?
E daí que haja brasileiros com fome esperando pelo auxílio emergencial que o governo insiste em dificultar que chegue até eles?

E daí que o ex-ministro da justiça queira deixar o governo bem no meio da pandemia, fazendo pose de bom moço, já se credenciando para o pleito de 2022?
E daí que ao acusar o presidente de ter cometido crimes o ex ministro também tenha confessado os seus?
E daí que o presidente para se safar das acusações do ex-ministro resolva usar as reportagens do The Intercept que até meses atrás ele dizia ser tudo mentira?
E daí que o presidente afirme que fake news é liberdade de expressão?

E daí que o Ministério da Saúde gaste seu tempo publicando receita de pão em perfis oficiais de rede social?
E daí que o ministro da saúde nunca fale do SUS em suas coletivas?
E daí que haja subnotificação de novos casos e de óbitos por Covid-19?
E daí? E daí?

Daí que tem muita gente que não se importa, que finge não ter culpa no cartório
que faz de conta que todos perderam a memória...

E daí que não haja amanhã para milhares de brasileiros?
Aqueles que fazem parte do 1% e os que lutam insensatamente movidos pela ilusão de que um dia chegarão lá continuarão pensando:
E daí, não é comigo!

E daí? E daí?



06 abril 2020

Má-fé e covardia

Bolsonaro e seus defensores fogem de suas responsabilidades e exploram a miséria e o medo da população mais vulnerável (#PagaLogoBolsonaro) 

O deputado Osmar Terra tem se esmerado nos últimos dias nas redes sociais em atacar a estratégia do distanciamento físico no combate à pandemia do Covid-19 - como deve saber Terra, pois tem usado de sua autoridade de médico para se pronunciar contra o isolamento – trata-se de uma pandemia e não epidemia, como ele escreveu no seu texto. Infelizmente, depois de passar o final de semana propagando fake news e distorcendo dados da doença pelas redes sociais, Osmar Terra ganhou espaço na Folha de São Paulo para ampliar o seu desserviço (Medo e Coragem, 06 de março de 2020).

Ao contrário do que afirma Terra, o estudo do Imperial College, divulgado no dia 16 de março, não inspirou a estratégia de isolamento, mas fez projeções a partir de dados de países que já estavam adotando essa prática, comparando-os com dados de países que não haviam adotado tal prática. Vale lembrar que o isolamento ou distanciamento social foi adotado pela China, onde o surto do Covid-19 teve origem, já em janeiro de 2020. Nesse sentido, os estudos do Imperial College estão sendo usados como evidências da eficácia do isolamento no controle do espalhamento do vírus por autoridades sanitárias de diversos países, inclusive os EUA, que foram inicialmente resistentes à estratégia. 

É verdade que há posições divergentes do Imperial College. Os estudos da epidemiologista da Universidade de Oxford, Sunetra Gupta, partem de pressupostos distintos do estudo do Imperial College e apontam para a possibilidade de que o Reino Unido tenha muito mais pessoas contaminadas do que o estudo prévio considerou. No entanto, conforme foi noticiado na própria Folha de São Paulo (Coronavírus pode ter infectado metade da população britânica, diz estudo de Oxford, de 24 de março de 2020), “ela reluta em criticar o governo por decretar uma quarentena nacional a fim de conter a difusão do vírus, porque a precisão do modelo de Oxford ainda não foi confirmada e, mesmo que ele esteja correto, o distanciamento social reduzirá o número de pessoas que adoecerão seriamente e aliviará a pressão severa sobre o Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês), durante o pico da epidemia.” Ainda segundo a matéria da Folha, “se as constatações forem confirmadas pelos testes, as restrições em vigor poderão ser canceladas muito mais cedo do que os ministros indicaram.” Ou seja, diferentemente do que Osmar Terra pretende, os estudos de Sunetra não são conclusivos e não podem ser utilizados para defender o fim imediato do isolamento como quer o deputado. 

O argumento de Terra em favor do contágio de assintomáticos para imunizar a população é no mínimo irresponsável quando pensamos na realidade brasileira e nas limitações dos sistemas de saúde para atender os casos graves que necessitam de internação e de ventiladores mecânicos. Além disso, as peculiaridades demográficas e também sociais do Brasil – existência de favelas e extensas áreas de aglomeração de pessoas em condições sanitárias precárias - devem ser levadas em consideração. Coisa que o deputado é incapaz de fazer. Apelar para o fato de que “isso ocorre com todas as epidemias” é novamente má-fé e irresponsabilidade, uma vez que o Covid-19 possui características específicas que impedem sua comparação com outras epidemias, conforme tem alertado especialistas como o biólogo Atila Iamarino

As afirmações de Terra de que “a quarentena aumentou o número de casos” e que “não houve achatamento da curva epidêmica” carecem de provas. Infelizmente ele não traz respaldo para suas afirmações. Nas redes sociais, o deputado fez uso de gráficos que estavam em diferentes escalas, distorcendo, portanto, as informações, para "corroborar" suas afirmações, no que foi amplamente questionado por usuários das redes. Ao falar de países que não adotaram o distanciamento social e citar Coreia do Sul, Japão, Israel e Suécia, o senhor Osmar Terra ou está mal informado ou mais uma vez age de má-fé. A testagem massiva da população não é ação complementar, como sugere o deputado, antes é o que permitiu, em especial a Coreia do Sul, adotar isolamento parcial. No caso da Suécia, ontem à noite, tivemos notícia de que o país havia mudado de estratégia e passará a adotar o isolamento. Quanto a Israel, portais de notícias anunciavam há duas semanas que o país estava restringindo a circulação de pessoas para combater o novo coronavírus. A situação do Japão pode ser explicada por hábitos culturais que, por si só, promovem um certo tipo de distanciamento social. Embora não tenha declarado isolamento, o país proibiu eventos com aglomerações e fechou escolas e aconselhou que as pessoas se abstivessem de sair de casa voluntariamente. No entanto, hoje temos notícia de que o país pode declarar estado de emergência em 7 cidades, e que passará a orientar seus cidadãos para que permaneçam em casa.

A partir de um certo momento do texto fica clara a intenção de Osmar Terra, política e não científica, de atacar gestores públicos com os quais ele não concorda. E mais abaixo, quando claramente se posiciona em defesa do presidente Jair Bolsonaro, que não apresenta nenhum respaldo científico para defender o fim do isolamento, alegando apenas que isso irá quebrar o país. Caso o deputado estivesse de fato preocupado com a miséria de milhares de pessoas como ele insinua estar, deveria estar cobrando o presidente Bolsonaro para que agilizasse o pagamento da renda básica emergencial aprovada pelo Congresso a milhares de brasileiros que dependem desse auxílio para poderem se proteger nesse momento. O mesmo vale para os pequenos e microempresários com os quais Terra diz estar preocupado: que cobre do governo medidas que os proteja, e não somente ações em prol de grandes empresários. 

Osmar Terra dá provas de má-fé e covardia ao elogiar a suposta coragem do presidente em contrariar o seu atual ministro da saúde e demais autoridades sanitárias e promover, isso sim, terrorismo com parcela da população que hoje é refém do presidente e do seu governo, pois quanto mais atrasam a liberação da renda básica emergencial, mais forçam essa população a voltar ao trabalho e às ruas em busca de sobrevivência. Pânico é o que estão fazendo Bolsonaro e Osmar Terra divulgando vídeos que exploram a miséria das pessoas, matérias jornalísticas que evidenciam os impactos sofridos por essa população vulnerável e desassistida, enquanto fingem que não têm responsabilidade sobre esse cenário.

05 abril 2020

Carta ao Presidente

13/03/2020 - O presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), é visto caminhando pelos corredores no Palácio da Alvorada, em Brasília (DF) - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
O presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), é visto caminhando pelos corredores no Palácio da Alvorada, em Brasília (DF) Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Bolsonaro, como o senhor não faz questão dos ritos do cargo que ocupa, também não farei. Eu não votei no senhor, e gostaria de dizer que jamais votaria no senhor nem para síndico do meu condomínio. Mas graças à decisão de uma parte dos meus concidadãos, o senhor é hoje o presidente do nosso país. Para mim é muito difícil aceitar isso. Todo dia, pela manhã, quando vejo alguma notícia na qual sou lembrada disso, sinto que estou num pesadelo e torço para acordar. Mas infelizmente vivemos num pesadelo, essa é a nossa realidade: temos um boçal, fã de torturador, misógino, racista, machista, defensor de miliciano, negacionista da ciência e delinquente genocida sentado na cadeira da presidência da república. 

Quando o senhor começou a ser conhecido pelo país aparecendo semanalmente no extinto programa CQC, eu cheguei a escrever um texto sobre o senhor: Intolerância, preconceitos e extremismos, foi lá em 2011. Quanto tempo! E quem diria que aquele deputado tosco do baixo clero viraria presidente da república. Lá em 2011, era impossível fazer essa previsão. Apesar de continuar concordando com boa parte dos meus argumentos naquele texto, reconheço hoje que fui ingênua ao achar que sua fala poderia servir de alerta, para que não nos esquecêssemos de que havia muitas pessoas que pensavam como o senhor. Eu achava, na época, que os seus eleitores fiéis nunca somariam número suficiente para elegê-lo em outro cargo. Na época, nem mesmo cogitava que pudesse ser eleito senador. Errei feio. Errei também ao pensar, naquele momento, que o que o senhor dizia eram opiniões e não causariam maiores problemas. Não eram opiniões, eram apenas ofensas e atentados, eram demonstrações de intolerância e ignorância e deveriam ter sido combatidas com seriedade. Infelizmente, quanto mais o senhor aparecia vomitando toda sorte de preconceito e ignorância, mais pessoas se empolgavam e se sentiam autorizadas a serem tão escrotas quanto o senhor, ofendendo e cometendo crimes. Sim, o senhor desde então tem promovido crimes. Com aquela conversa de combater o "politicamente correto" o senhor virou o porta-voz das maiores atrocidades já proferidas nesse país.

Mas infelizmente, tantas coisas aconteceram desde 2011, o Brasil enfrentou tantos descaminhos e as circunstâncias contextuais acabaram tornando possível a sua eleição. A sua principal arma política desde aquele tempo é a mentira. Não, a mentira não é novidade na política. Hannah Arendt, uma filósofa alemã de origem judia, que eu duvido que o senhor conheça, escreveu em 1955 que "jamais alguém pôs em dúvida que verdade e política não se dão muito bem uma com a outra". Foi também Arendt quem nos alertou para o perigo de se transformar a mentira em uma arma política. E isso passa por uma confusão intencional entre "opinião" e "fato". Sim, exatamente o que o senhor, seus filhos e seguidores vêm fazendo desde sempre. A política, como dizia Arendt, se faz a partir das opiniões - e quanto mais opiniões melhor! - mas essas opiniões precisam ter respaldo nos fatos. Os fatos estão além de acordo e consentimento - essa característica faz com que os que estão insatisfeitos com os fatos se sintam muito contrariados, porque não podem mudá-los! E é aí que entra a mentira, uma tentativa de "mudar" os fatos, de dizer algo diferente do que é. Mas essa briga com os fatos pode até ter algumas vitórias, no entanto, quando os fatos batem na porta, é muito difícil escapar deles. Não há mentira que dure para sempre!

Mas deixemos de Hannah Arendt - além de filósofa, uma mulher. Que perda de tempo a minha, está claro que o senhor é incapaz de compreendê-la. Falemos dos fatos. Nesse exato momento, quatro de abril de 2020, o Brasil tem, segundo os dados oficiais do Ministério da Saúde, 10.278 casos confirmados de pessoas contaminadas pelo Covid-19 e 432 brasileiros mortos por essa doença. O cenário não é nada animador. Mas não vamos falar do futuro, falemos do presente e do passado - de fatos. Até outro dia, o senhor estava dizendo que a pandemia anunciada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) não passava de uma "gripezinha" ou de um "resfriadinho". O senhor ainda hoje está insistindo em dizer que o isolamento físico, comprovadamente a melhor estratégia para diminuir a expansão do vírus e evitar o colapso dos sistemas de saúde, público e privado, é desnecessário. O senhor insiste ainda hoje em incentivar as pessoas a saírem de casa e irem para as ruas. O senhor, como chefe do executivo, se exime da sua responsabilidade de garantir cuidados e auxílios que permitam aos cidadãos mais vulneráveis permanecerem em casa e faz terrorismo com essa parcela da população, dizendo que eles irão morrer de fome.

Agora que escrevo esse texto, estou na minha casa, tomando uma cerveja, ouvindo boa música e tentando sobreviver à pandemia e ao pandemônio que o senhor tem criado neste país. Quer outro fato? Na última semana, o senhor usou de um programa de rádio para atacar publicamente o seu ministro da saúde. Alguém que o senhor colocou lá, para ser ministro. Um médico político - ou seria um político que também acontece de ser médico? - mas que o senhor acha que lhe falta humildade porque ele quer impor a 'vontade' dele nas orientações para o ministério e não escuta o senhor. Bom, acredito que o correto seria dizer que o Henrique Mandetta não está dando espaço para o seu voluntarismo, presidente, e prefere honrar o que resta da credibilidade médica que ele tem - sim, porque ao permanecer no governo e tentar agradar o senhor depois de tudo que o senhor disse e fez, ele já colocou em xeque uma parte considerável da credibilidade profissional dele. Manter o isolamento horizontal não é voluntarismo de Mandetta, é prática em linha com recomendações de cientistas do mundo todo. Voluntarismo é o seu, contra evidências de qualquer tipo, querendo acabar com o isolamento. E tudo isso são fatos.

Que o senhor é tosco e limitado intelectualmente, todos nós já havíamos sido devidamente informados, inclusive pelo senhor, que incansavelmente disse que não sabia nada sobre economia, nada sobre saúde, nada sobre nada e que por isso teria ministros técnicos. O que pode surpreender algumas pessoas - não a mim, que fique claro - é o senhor se negar a seguir o que seu ministro da saúde, de maneira muito técnica, propõe no combate ao covid-19. Por que eu não me surpreendo? Porque nunca alimentei nenhuma ilusão acerca da possibilidade de se colocar limite a sua burrice. Sabe por quê? O senhor é daquele tipo de ignorante que se orgulha da sua ignorância. E esse orgulho lhe tira qualquer chance de ter uma atitude sensata. O senhor quando diz não saber, não o faz dentro de um espírito socrático, não o faz com a intenção de buscar conhecer aquilo que desconhece. O senhor diz que não sabe com orgulho. Ostenta sua ignorância e sua burrice e é incapaz de perceber a tragédia dessa condição. Tragédia que hoje assola o país, conduzido ao caos pela sua burrice.

Não posso falar do futuro. Não sou adivinha, não cultivo esse tipo de "crença" como o seu guru astrólogo. Talvez ele tenha algo a dizer sobre o seu futuro. Eu só posso dizer sobre o presente. O senhor é o pior presidente que esse pobre país já teve - e olha que a disputa é acirrada - porque infelizmente já tivemos péssimos presidentes. Mas o senhor ganha. O senhor é nesse momento ridicularizado pelo mundo todo e ganhou o título de "líder dos negacionistas do Covid-19", segue com distância na liderança, aproximando-se de figuras lamentáveis como o ditador do Turcomenistão e o da Bielorrússia. O senhor é chamado de BolsoNero e suas declarações deixam correspondentes internacionais em choque. O senhor junto com o chanceler, o pior que este país já teve, conseguem deixar o mundo escandalizado com o buraco em que o Brasil caiu. Sim, buraco - hole - até seu filho sabe que é assim...

Como sairemos dessa, eu não sei. Mas eu espero que meus concidadãos, pelo menos parte deles, que votaram no senhor, entendam que o senhor é isso mesmo, um homem medíocre, covarde - que fugiu dos debates - conspiracionista, que vive com medo de golpes e fantasmas. O senhor é uma figura triste. Tão triste, que às vezes sinto pena do senhor. Não tem amigos, não confia em ninguém, é paranoico, e nesse momento deve estar se sentindo tão sozinho... Deve ser por isso que o senhor insiste em sair, em ir até os poucos "apoiadores" que ainda lhe dão ouvidos. O senhor tem medo de ficar sozinho. Mas não se preocupe, o senhor já está só.

Presidente, eu ficaria muito feliz com o seu impeachment -  e não faltam crimes para isso. Mas acho que seria muito traumático para o país neste momento e para o senhor também. Então, eu me contentaria com um "calabolso": isso mesmo, que o senhor se calasse e voltasse para os porões de onde não deveria ter saído, ou fugisse - como fez nos debates eleitorais -, inventasse qualquer motivo e fosse embora. Seria tão bom para todos. Vá para os EUA, vá se refugiar ao lado do seu guru, lá na Virgínia. Vá caçar ursos com ele. Seria um sinal de grandeza jamais dado por alguém da sua tão pequena estatura moral e intelectual. Quem sabe assim a História ainda lhe reservasse um lugar menos insignificante. Ficaria conhecido como o presidente que se retirou e livrou o país de um mal maior.

Vá em paz, presidente. É tudo que lhe desejo.

25 março 2020

O projeto de um genocídio anunciado em cadeia nacional

O pronunciamento de ontem (24/03/2020) de Bolsonaro é prova cabal de que apoiar ou ser contra Bolsonaro não é uma questão político-ideológica ou partidária, mas moral. O que ele fez ontem configura crime. Contrariando evidências científicas, orientações da OMS e as ações de líderes de mais de 127 países, além das orientações do seu próprio ministro da saúde, Bolsonaro incentivou o fim do isolamento, o retorno às aulas presenciais, a abertura do comércio. De maneira irresponsável e criminosa, chamou mais uma vez de 'gripezinha' a pandemia que já matou quase 20 mil pessoas no mundo. 

Os números da pandemia no Brasil estão subnotificados, uma vez que não estamos fazendo testes de maneira exaustiva, e apenas casos graves estão sendo testados. E mesmo subnotificados, já apontam para um cenário mais dramático do que aquele hoje visto na Itália e na Espanha, atuais epicentros da pandemia, caso não façamos o isolamento de maneira eficiente. Que irão morrer muitas pessoas é uma certeza. Mas temos que fazer tudo que estiver ao nosso alcance para minimizar esse quadro. Infelizmente as pessoas que já são as mais vulneráveis, desassistidas pelo poder público e que estão às margens da sociedade, serão as maiores vítimas. Quanto aos idosos, principal grupo de risco para o coronavírus, não basta deixá-los em casa enquanto seus filhos e netos continuam circulando. Se crianças e adultos abaixo de 60 não correm riscos de terem complicações com a doença - o que não parece ser totalmente verdadeiros - eles são vetores do vírus.

Bolsonaro ao fazer coro às falas desumanas e desastradas de "empresários" como Roberto Justos, Júnior Durski (dono do Madero) e Luciano Hang (o véio da havan) mostra que não tem qualquer compromisso com o povo brasileiro, com os trabalhadores, com as pessoas mais pobres. Para esses homens - todos acima de 60 anos, portanto, grupo de risco - a morte de 5 ou 7 mil brasileiros não pode parar a economia - leia-se: seus lucros! Mas sem isolamento, a projeção é de que teremos muito mais do que 7 mil mortos. Segundo o The Intercept, documentos secretos da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) vazados hoje apontam para 5,5 mil mortes só nos próximos 15 dias. 

É difícil falar em estratégia ou método de Bolsonaro no pronunciamento de ontem. Analistas acreditam que ele fez uma aposta alta: se o isolamento funcionar, e conseguirmos conter o avanço do coronavírus, Bolsonaro dirá que era histeria da mídia e dos governadores e prefeitos e os culpará pelo fracasso da economia. Mas depois da fala de ontem, se o Ministro da Saúde, Luis Henrique Mandetta, continuar no cargo, estará se tornando cúmplice de um presidente genocida. O DEM, partido de Mandetta, e de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, pode começar a pressionar o ministro para renunciar. Se isso acontecer, e Bolsonaro indicar alguém alinhado com o seu discurso criminoso, algum olavista de plantão, teremos um cenário favorável a aceitação dos pedidos de impeachment que já estão no Congresso. 

Um impeachment não é animador nesse contexto por vários motivos, um deles é que Mourão, o vice, não é confiável, porque não é tão diferente assim de Bolsonaro, afinal é seu vice. Mas se nesse momento, Mourão não endossar as declarações genocidas de Bolsonaro, o país já está no lucro. É imperativo tirar Bolsonaro da Presidência da República ou não haverá futuro para esse país. Bolsonaro não se importa com a vida de milhares de brasileiros, talvez até alimente secretamente a esperança de que essa pandemia possa aliviar "os gastos públicos com previdências e auxílios sociais". A perversidade desse homem e de seus apoiadores parece não ter limites. 

Já passou da hora do povo brasileiro, de todos aqueles que são democratas, que têm um mínimo de responsabilidade, que defendem a Ciência, que se preocupam com a vida de milhares de brasileiros  que serão vítimas desse projeto genocida anunciado ontem pelo presidente, pedirem o #impeachmentdeBolsonaro. Não é preciso se unir - os partidos -, não estou pedindo isso, é apoio ao afastamento imediato desse senhor perigoso da Presidência da República, em nome da proteção do povo brasileiro. 

27 janeiro 2020

Moro no centro da Roda e do Bolsonarismo

Ontem Sérgio Moro, atual ministro da justiça e segurança pública  de Bolsonaro e ex-juiz da lava-jato, esteve no centro do Roda Viva, na Cultura. A ausência de jornalistas envolvidos na Vaza-Jato no time que iria entrevistar Moro, fossem eles jornalistas do The Intercept Brasil (TIB) ou de outros veículos parceiros da série de reportagens, fez com que as redes sociais entrassem em ebulição na semana passada pedindo a presença desses profissionais. O pedido não foi atendido, mas os jornalistas presentes na bancada pegaram mais pesado do que se esperava com o superministro de Bolsonaro. No entanto, suas respostas foram, como sempre, evasivas, desconexas, cínicas, cheias de mas veja bem, tudo naquele adorável som de desafino que sua inconfundível voz possuí. A equipe de jornalistas do TIB fez questão de acompanhar a entrevista no seu canal no Youtube, para quem quiser maiores detalhes das mentiras e desculpas esfarrapadas do ex-juiz, vale a pena conferir. Minha intenção não é comentar a entrevista de ontem, mas é pensar um pouco a relação de Moro com o fenômeno que vem sendo chamado bolsonarismo no Brasil. 

Alguns jornalistas e intelectuais já levantaram a bola de que o bolsonarismo seria maior que Bolsonaro. Em seu novo livro, Brasil: construtor de ruínas, Eliane Brum defende a hipótese de que seja possível bolsonarismo sem Bolsonaro. Segundo ela, "a pessoa e o personagem Jair Bolsonaro deram nome e forma a este fenômeno que testemunhamos nascer e conquistar o Brasil." No entanto, a autora diz suspeitar que, "pelo seu próprio conteúdo, o bolsonarismo vai muito além de Bolsonaro e, em determinadas condições, pode prescindir dele." (BRUM, 2019, p.237). Eliane afirma que "o bolsonarismo é um fenômeno da democracia brasileira, de como ela foi fundada e de como se desenrolou, e é um fenômeno que ganha força pelo modo como o PT se tornou governo, no que fez de bom e no que fez de ruim." (BRUM, 2019, p.237). 

Se aceitamos a hipótese de Eliane a respeito do fenômeno bolsonarismo, podemos nos perguntar quem seriam os candidatos a ocupar o lugar de Bolsonaro, uma vez que ele viesse a ser defenestrado ou, por qualquer outro motivo, viesse a perder a posição que ocupa hoje. Para mim a resposta é muito clara: Sérgio Moro é o candidato natural a essa posição. Bolsonaro também sabe disso, por isso tratou logo de colocá-lo no bolso, ou melhor, no governo, debaixo do seu nariz. Mas parece que a estratégia não tem saído exatamente favorável ao presidente. As pesquisas têm mostrado que a popularidade de Moro segue maior do que a de Bolsonaro, apesar das denúncias da Vaza-Jato, as quais ontem o ministro chamou de "bobageirada". As pretensões de Moro de se tornar presidente do Brasil continuaram assombrando Bolsonaro mesmo tendo o ex-juiz debaixo de suas ordens. Questionado ontem sobre possível candidatura em 2022, Moro deixou clara suas intenções ao negá-las. Fez o que os políticos costumam fazer. Por sinal, para um ex-juiz que dizia não ter pretensões políticas, ele tem mostrado que possui todas as piores características dos maus políticos: mente de forma descarada, é cínico, afirma suas intenções negando-as, é vago, escorregadio e prolixo. 

Depois da entrevista de ontem, mais do que nunca é preciso colocar Moro na roda sempre que formos discutir o cenário eleitoral de 2022. Também me parece importante revermos o nome que foi dado ao fenômeno que se materializa hoje no país. Chamá-lo de bolsonarismo pode criar ilusões a respeito da sua durabilidade e das consequências que ele terá na vida de todos nós. Não seria o caso de darmos nomes mais apropriados ao que vivemos? Principalmente depois do episódio que culminou com a exoneração de Roberto Alvim da secretária de cultura? O flerte do ex-secretário com o conceito de cultura do nazismo e seu plágio mal disfarçado de Goebbels não deveriam servir de alerta? Por que relutamos em aceitar que o fenômeno que hoje toma conta do Brasil é também uma cópia mal disfarçada de movimentos fascistas?

Nesse sentido, a pesquisadora Thatiane Oliveira propôs uma análise muito interessante acerca da relação entre o movimento fascista e o 'bolsonarismo', que, segundo ela, "não é o mesmo que o 'governo de Jair Bolsonaro', assim como 'movimento fascista', não é o mesmo que 'regime fascista'" (texto disponível aqui). A análise de Thatiane me parece ser um bom caminho para pensarmos as próximas cenas da distopia que experimentamos diariamente. Se, como me parece, o bolsonarismo vai além do clã Bolsonaro e a liderança do fenômeno pode vir a ser ocupada por outros personagens, é preciso ter claro diante de nós do que se trata, que fenômeno é esse. Amanhã ou depois, Moro e similares poderão tentar dar uma cara nova para os mesmos anseios e ideias destrutivos que estão na base do que hoje chamamos 'bolsonarismo'. Esmiuçar esse fenômeno não é tarefa tão simples, mas é urgente, e muitos já começam a desbravar esse caminho.

Originalmente publicado no Diário do Engenho

29 novembro 2019

A verdade de Bolsonaro e o fim da política

"Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" - o jargão de Bolsonaro, a única coisa que ele leu na Bíblia. Se é que ele leu. É mais provável que tenha ouvido de alguém, de algum dos seus amigos pseudo-cristãos ou cristãos-fakes.  Mas que 'verdade' seria essa? A 'verdade' do texto bíblico teria algo a acrescentar ao debate político? Quando Bolsonaro recorre ao versículo de João para acusar a imprensa de mentir, que 'verdade' exatamente ele quer que a imprensa anuncie? 

disponível em pixaby.com

Alguém poderia pensar: uai, verdade é verdade, o presidente está só exigindo que a imprensa (a Folha de São Paulo, para ser mais específico) fale a verdade. Mas não é tão simples assim. Um conceito como o de verdade é bastante complexo, pode ter diferentes sentidos e aplicações. 

Quando um profeta ou um religioso diz que tem a verdade, ele acredita ter recebido essa verdade de alguma divindade ou ser superior, que normalmente está fora do mundo. Ele acredita ter falado com essa divindade pessoalmente ou ter sido inspirado por ela, ou ter recebido uma mensagem de um anjo ou de uma voz misteriosa vinda do além. A verdade da Bíblia e todas as outras verdades que estão associadas a alguma religião costumam ter o caráter de verdade revelada. Ou seja, ela é revelada por algum ser superior (deus, espírito, anjo, santo, demônio, etc). Quando aquele que teve acesso a tal verdade a anuncia, ele espera que aqueles que o escutam acreditem na sua palavra, no seu testemunho, e também acreditem na origem divina da mensagem que ele traz. Ou seja, não há como comprovar essa verdade, ela é objeto de fé. Quando um matemático afirma que 'é verdade que dois mais dois são quatro', estamos diante de uma verdade racional. Também as verdades filosóficas e científicas em geral poderiam ser enquadradas nessa categoria e seriam resultado da mente humana. Portanto, diferente das verdades reveladas, que estariam prontas em algum lugar e seriam apresentadas ao homem por meio de uma divindade, a verdade racional seria construída pela mente humana. Por fim, quando dizemos que em 1º de abril de 1964 houve um golpe militar no Brasil, estamos lidando com uma verdade factual. Segundo Eugênio Bucci, 

"a verdade factual é um buraco no meio da rua, uma criança sentada num banco de escola, a dor no joelho, a fome que devora a esperança das famílias sem dinheiro, a alegria de pessoas que se amam andando de mãos dadas num parque público ensolarado. A verdade factual é aquilo que conforma a realidade sensível e sobre a qual não pairam dúvidas práticas." (BUCCI, 2019, p.85).

A verdade revelada é imutável e independe de qualquer ocorrência no mundo, uma vez que sua origem não é esse mundo. Portanto, ela se impõe de cima para baixo, de fora para dentro, pelo mistério ou pela autoridade. A verdade racional, por ser uma construção da mente, também se impõe para todo aquele que estiver disposto a seguir os caminhos da razão. Já a verdade factual parece, num primeiro momento, não gozar da mesma força coerciva dos demais tipos de verdade, pois ela depende dos fatos, e os fatos são contingentes, acidentais, poderiam ser de infinitas outras maneiras, ou simplesmente não ser. No entanto, uma vez que este fato ocorreu, sua verdade factual torna-se imperativa e só mesmo a mentira tem força para fazer frente a ela. Segundo a filósofa Hannah Arendt, 

"Asserções como "Os três ângulos de um triângulo são iguais aos dois ângulos de um quadrado", "A terra move-se em torno do sol", "É melhor sofrer o mal do que praticar o mal", "Em agosto de 1919 a Alemanha invadiu a Bélgica" diferem muito na maneira como se chegou a elas, porém, uma vez percebidas como verdadeiras e declaradas como tal, elas possuem em comum o fato de estarem além de acordo, disputa, opinião ou consentimento. Para aqueles que as aceitaram, elas não são alteradas por multidões ou pela ausência de multidões que acolham a mesma proposição; a persuasão ou dissuasão é inútil, pois o conteúdo da asserção não é de natureza persuasiva, mas sim coerciva (ARENDT, 2016, p.297).

Essa característica da verdade estaria na origem do conflito antiquíssimo entre verdade e política, ou talvez, de maneira mais precisa, do conflito entre verdade e políticos. Os políticos, aqueles que estão em posição de poder, e mais ainda os políticos com tendências autoritárias, sempre se sentiram ameaçados pelo caráter despótico da verdade. De acordo com Arendt,

"Ela é, portanto, odiada por tiranos, que temem com razão a competição de uma força coerciva que não podem monopolizar, e desfruta de um estado um tanto precário aos olhos de governos que se assentam sobre o consentimento e abominam coerção" (ARENDT, 2016, p.298). 

Bolsonaro é um político, embora tenha sido eleito com o discurso da antipolítica. Ele não é um líder religioso, nem um cientista, nem filósofo, é um político. E o tecido da política são os fatos. É a verdade factual que encorpa a política. Mas em onze meses de governo, Bolsonaro, que nunca teve apreço pela democracia, tem deixado patente seu desprezo pelos fatos e seus ímpetos autoritários. Portanto, ele faz parte do grupo de políticos que, segundo Arendt, odeia a verdade. 

Agora volto às minhas perguntas iniciais e as reformulo: Quando Bolsonaro insiste no versículo bíblico, "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará", a que verdade ele se refere? À verdade factual? À verdade racional? Ou seria à verdade revelada? Uma primeira hipótese é que a verdade de Bolsonaro seria uma espécie de verdade revelada, tal qual aquela da Bíblia. Assim como lemos na Bíblia que "Jesus é o caminho, a verdade e a vida", Bolsonaro parece pretender se apresentar como a verdade. A verdade de Bolsonaro, anunciada por ele mesmo, não admite provas, não pode ser verificada, ela se impõe pela autoridade, do cargo ou de Deus - com quem Bolsonaro parece acreditar ter uma relação muito direta. Essa hipótese ganha força quando encontramos ao lado de Bolsonaro cristãos-fakes dispostos a transformar Messias, o Jair, em um enviado de Deus e assim em ungi-lo diante das massas de fiéis. 

Mas pode ser que a verdade de Bolsonaro seja só mesmo uma mentira. Nesse caso, para entender a insistência de Jair com o versículo de João, é preciso recorrer à literatura. Com 1984 aprendemos que guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força. Cada vez que Bolsonaro recorre à verdade,  ele nos oferece em seu lugar uma mentira. Assim, poderíamos acrescentar à lista de 1984 que mentira é verdade.

Bolsonaro ao dizer "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" pretende que a sua verdade nos liberte do quê? Do comunismo petista que domina inclusive a imprensa internacional? Da ideologia de gênero que quer transformar todas as crianças em gay? Do globalismo? Do politicamente correto? Da ditadura gay que nos oprime? Cada uma dessas ameaças não passam de pedaços de uma super teoria da conspiração que hoje dita os rumos da política no Brasil. Para entender melhor como essa super teoria da conspiração está atuando no cenário brasileiro recomendo a leitura de Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota, do Meteoro Brasil

O que me interessa aqui é mostrar que a verdade de Bolsonaro não passa de uma verdade-fake. Ou seja, Bolsonaro nos conta mentiras, afirma que estamos ameaçados por uma dúzia de espantalhos criados justamente para causar pânico. Ele - mas não só, há minions pela internet, cristãos-fakes, filósofos-fakes, jornalistas-fakes - convenceu uma boa parte dos brasileiros - e outra parte fez de conta que estava convencida porque tinha outros interesses - de que todas aquelas teorias conspiratórias eram verdade. Ou seja, a mentira virou verdade. Depois ele disse que era preciso mudar tudo isso que estava aí. 

Mas a verdade de Bolsonaro é fake. E cada vez que suas mentiras são denunciadas, ele ataca e grita que só a verdade poderá nos libertar. Ele ameaça, boicota, censura. Mas diz que o resultado de tudo isso é mais democracia. Bolsonaro é perverso, como já explicou Eliane Brum. Foi ela também que nos explicou que Bolsonaro opera com a autoverdade, "algo que pode ser entendido como a valorização de uma verdade pessoal e autoproclamada, uma verdade do indivíduo, uma verdade determinada pelo “dizer tudo” da internet" (BRUM, El país,  julho de 2018). Esse 'dizer tudo' é performático e pretende criar uma nova realidade. Hannah Arendt já havia chamado a atenção para o fato de que o mentiroso é um sujeito de ação. O mentiroso deseja mudar a realidade. Mentirosos como Bolsonaro, e sua inspiração estadunidense, criam seus próprios fatos, fatos alternativos, como chegou a declarar uma conselheira da Casa Branca. 

O perigo de tudo isso é que, sem os fatos, não é possível a política. Sem os fatos e a verdade factual nos restam os caprichos dos tiranos. Como disse Bucci, "a política sem fatos é um delírio apolítico ou antipolítico, uma guerra entre convicções desprovida de verdade" (BUCCI, 2019, p.83). 

__________

ARENDT, Hannah, Verdade e política, in Entre o passado e o futuro, São Paulo: Perspectiva, 2016.
BRUM, Eliane, Cem dias sob o domínio dos perversos, in El País Brasil, disponível em: https://epoca.globo.com/politica/eugenio-bucci/noticia/2017/01/o-adeus-aos-fatos-e-o-totalitarismo.html. 
BRUM, Eliane, Bolsonaro e a autoverdade, in El País Brasil, disponível em:https://epoca.globo.com/politica/eugenio-bucci/noticia/2017/01/o-adeus-aos-fatos-e-o-totalitarismo.html.
BUCCI, Eugênio, Existe democracia sem verdade factual?, Barueri,SP: Estação das Letras e Cores, 2019.
BUCCI, Eugênio,  O adeus aos fatos e o totalitarismo, in Revista Época, disponível em: https://epoca.globo.com/politica/eugenio-bucci/noticia/2017/01/o-adeus-aos-fatos-e-o-totalitarismo.html.
METEORO BRASIL, Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota, São Paulo: Planeta, 2019.


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