30 setembro 2026

Irresistível

 “Fala, meu amor.” Foi assim que o presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), dirigiu-se a Daniel Vorcaro.

"mas queria mesmo estar era em Mônaco com você", mensagem enviada por Daniel Vorcaro a Hugo Mota (Republicanos-PB), a pelo presidente da Câmara.

As mensagens coletadas no celular do ex-banqueiro e maior vigarista da história recente desse país, Daniel Vorcaro, não deixam dúvidas: o homem era irresistível.

Imagem retirada de: https://www.itatiaia.com.br/politica/almoco-vip-daniel-vorcaro-alexandre-de-moraes-campos-do-jordao-pf/

    Pudera. Com jatinhos, mansões e festinhas privê, presentinhos que iam de garrafa de uísque, passando por ingressos de show e experiências gastronômica até mesadas generosas para filhos de "amigos", sem falar dos contratinhos milionários com esposas, cunhados, filhos… Quem não gostaria de ter um "amigão" desses?

Eu. Eu não gostaria. Mas ele também não teria interesse em mim. Não sou ministra de estado nem de nenhum tribunal muito menos da suprema corte; não sou governadora, nem dona de nenhum partido, não sou presidente do senado, nem da câmara. Eu não teria nada a oferecer para o tipo de amizade que Vorcaro costumava cultivar.

Mas sejamos justos: o sujeito era mesmo boa praça e não fazia distinção entre direita ou esquerda, conservadores ou progressistas, centrão, executivo, legislativo ou judiciário. O critério era um só: poder. Poder para influenciar decisões a favor dos interesses do banqueiro. Poder para blindar o “irmão” quando fosse preciso. E ele sabia que iria precisar. Poder para garantir clientes – ou seria melhor dizer “vítimas”? – e lucro em suas transações feitas por debaixo dos panos ou nem tão às escondidas assim, e ainda regada a uísque e incensada por fumaça de charutos.

Vorcaro era especialista em criar laços profundos. Mandou umas tantas mensagens para ministros e políticos afirmando ter para com eles “dívida de vida” e “gratidão eterna”. Fico pensando o que esses nobres senhores fizeram ao sujeito para merecer tanta deferência. As mensagens obtidas do celular do ex-banqueiro e analisadas pela Polícia Federal nos permite dizer que Daniel Vorcaro é o Dom Juan de Brasília. Seduziu geral. Lendo as mensagens, sinto um pouco de pena – ou seria vergonha alheia? - das esposas dessas figuras que andaram declarando amor e fidelidade ao ex-banqueiro.

Como bem disse Aristóteles, em seu livro Ética a Nicômaco, nas amizades por utilidade, os amigos se amam não por si mesmos, por serem quem são, mas por causa da sua utilidade; daí esse tipo de amizade se dissolver facilmente, uma vez que o útil não é permanente, mas muda constantemente. Preso, sem poder bancar festinhas, nem oferecer garotas de programa de luxo, tendo se tornado uma ameaça – dada a possibilidade de assinar uma delação premiada – Daniel Vorcaro, o irresistível, talvez esteja se sentindo neste momento abandonado pelos seus grandes amigos.

De irresistível a indesejável. É bem verdade que os amigos de Vorcaro ainda não lhe viraram as costas, mas certamente isso se deve à autoproteção, à amizade que devotam a si mesmos, e não ao laço que os unia ao ex-banqueiro - e que agora ameaça enforcá-los. A amizade entre os maus, já dizia Aristóteles, tem vida curta, visto que eles ambicionam mais do que seu quinhão justo de vantagens e vivem “procurando coagir uns aos outros sem que ninguém se disponha a fazer o que é justo”.

22 setembro 2026

Morte na estrada

Dei um grito, sozinha, dentro do carro. Como se pudesse impedir o que se seguiria. O caminhão que estava a minha frente era dirigido por uma criatura que já havia merecido meus xingamentos matinais. Ele me fechou. Não permitiu que eu o ultrapassasse logo depois da praça de pedágio. Por quê? Eu costumo ter ótimas hipóteses para esse tipo de comportamento...

 Lá estava eu, nove e pouco da manhã, fazendo elogios à pessoa do motorista do caminhão baú. E aí ele veio. Na hora eu só pude gritar: Não! E no segundo seguinte o cadáver estava bem na minha frente.

Ele estava completamente desnorteado. Só podia ser. Por que atravessar a estrada daquele jeito? Quando ele entrou no meu campo de visão logo antevi o desfecho. Meu coração deu aquela parada, de susto, e depois acelerou. O que eu poderia fazer?

Mas foi pior, passei por cima. Quer dizer, o cadáver ficou entre as rodas do meu carro. Não passei por cima. Mas isso tanto faz. Ele já estava morto. A batida foi muito forte. Aquele seu corpinho frágil não resistiria. E eu não poderia ter feito nada. Havia outros carros atrás de mim. Eu não podia simplesmente parar no meio da rodovia.

Foi muito rápido. Ele veio da esquerda para a direita. De canto de olho eu o vi. Meus olhos costumam ser muito bons em identificar pássaros. E eu amo anu-branco. Seu canto triste, melancólico, nos fins de tarde, me aperta o peito. Já vi vários pássaros cruzando a estrada pela manhã: tucano, alma-de-gato, anu-preto, bem-te-vi, suiriri. Aquele anu-branco ia atravessar a estrada. Mas estava voando muito baixo.

WikiAves


           Não consigo entender. Ele devia estar doente, não sei. Assim que ele surgiu no canto do meu olho esquerdo, sabia que ele ia se chocar com o baú do caminhão. E não havia a menor chance de não acontecer. Só um milagre. Que não aconteceu.

Eu fui testemunha ocular do acidente. Ou teria sido um suicídio? Será que anu-branco comete suicídio? Será que aquela morte, trágica, diante dos meus olhos, nove e pouco da manhã, foi planejada por ele? O que levaria um anu branco a se matar?

Eu sei, a vida anda difícil. O noticiário rouba a cada edição as migalhas de esperança que ainda restam em nós. Graças aos efeitos do El Niño, num mesmo dia temos primavera-verão-outono-inverno e primavera. E tudo isso tem me causado dores nas articulações dia sim e outro também. Mas o anu-branco? Que motivos teria para desejar findar seus dias de modo tão trágico?

Eu segui meu caminho, um pouco mais triste. Fiquei pensando no quanto as estradas são perigosas, até para os anus. Pensei naquela criatura, no seu corpinho estendido no asfalto, o dia todo. Resolvi eternizá-lo nessas linhas, registrando sua morte na estrada. Querendo acreditar que foi só um acidente, que um anu, por mais triste que seja seu canto, não teria motivos para se matar.

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