22 setembro 2026

Morte na estrada

Dei um grito, sozinha, dentro do carro. Como se pudesse impedir o que se seguiria. O caminhão que estava a minha frente era dirigido por uma criatura que já havia merecido meus xingamentos matinais. Ele me fechou. Não permitiu que eu o ultrapassasse logo depois da praça de pedágio. Por quê? Eu costumo ter ótimas hipóteses para esse tipo de comportamento...

 Lá estava eu, nove e pouco da manhã, fazendo elogios à pessoa do motorista do caminhão baú. E aí ele veio. Na hora eu só pude gritar: Não! E no segundo seguinte o cadáver estava bem na minha frente.

Ele estava completamente desnorteado. Só podia ser. Por que atravessar a estrada daquele jeito? Quando ele entrou no meu campo de visão logo antevi o desfecho. Meu coração deu aquela parada, de susto, e depois acelerou. O que eu poderia fazer?

Mas foi pior, passei por cima. Quer dizer, o cadáver ficou entre as rodas do meu carro. Não passei por cima. Mas isso tanto faz. Ele já estava morto. A batida foi muito forte. Aquele seu corpinho frágil não resistiria. E eu não poderia ter feito nada. Havia outros carros atrás de mim. Eu não podia simplesmente parar no meio da rodovia.

Foi muito rápido. Ele veio da esquerda para a direita. De canto de olho eu o vi. Meus olhos costumam ser muito bons em identificar pássaros. E eu amo anu-branco. Seu canto triste, melancólico, nos fins de tarde, me aperta o peito. Já vi vários pássaros cruzando a estrada pela manhã: tucano, alma-de-gato, anu-preto, bem-te-vi, suiriri. Aquele anu-branco ia atravessar a estrada. Mas estava voando muito baixo.

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           Não consigo entender. Ele devia estar doente, não sei. Assim que ele surgiu no canto do meu olho esquerdo, sabia que ele ia se chocar com o baú do caminhão. E não havia a menor chance de não acontecer. Só um milagre. Que não aconteceu.

Eu fui testemunha ocular do acidente. Ou teria sido um suicídio? Será que anu-branco comete suicídio? Será que aquela morte, trágica, diante dos meus olhos, nove e pouco da manhã, foi planejada por ele? O que levaria um anu branco a se matar?

Eu sei, a vida anda difícil. O noticiário rouba a cada edição as migalhas de esperança que ainda restam em nós. Graças aos efeitos do El Niño, num mesmo dia temos primavera-verão-outono-inverno e primavera. E tudo isso tem me causado dores nas articulações dia sim e outro também. Mas o anu-branco? Que motivos teria para desejar findar seus dias de modo tão trágico?

Eu segui meu caminho, um pouco mais triste. Fiquei pensando no quanto as estradas são perigosas, até para os anus. Pensei naquela criatura, no seu corpinho estendido no asfalto, o dia todo. Resolvi eternizá-lo nessas linhas, registrando sua morte na estrada. Querendo acreditar que foi só um acidente, que um anu, por mais triste que seja seu canto, não teria motivos para se matar.

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