02 janeiro 2025

Como um menino se torna um homem? Não qualquer homem, mas um homem bom

Essa me parece uma ótima pergunta. Uma pergunta que talvez tenha sido negligenciada em décadas de feminismo. Mas, claro, falo a partir do meu umbigo, das minhas experiências e percepções, principalmente como professora em sala de aula, em contato com adolescentes. Além daquela pergunta, seria muito importante que ensinássemos os meninos a se questionarem desde cedo a respeito do que é ser um homem. Nós, mulheres, estamos lidando com esses questionamentos há alguns séculos. Talvez por isso, em Mulheres do século 20, de Mike Mills (EUA, 2016, Netflix), quando sente necessidade de buscar ajuda para a tarefa de tornar seu filho adolescente, Jamie, um homem, Dorothea recorra a duas outras mulheres, mais jovens que ela, e bastante escoladas no feminismo dos anos 70.

                                                      
Desde que eu era adolescente, e olha que tive uma adolescência com muitas limitações numa pequena cidade de Minas Gerais, havia uma preocupação, entre professores, principalmente professoras, em dizer para as meninas que elas poderiam fazer muitas coisas, além de casar. E desde que me mudei para Campinas, durante os anos de faculdade e depois de formada já em sala de aula como professora do ensino médio, essa fala de empoderamento das meninas se tornou muito mais forte e presente no dia a dia escolar e na sociedade de maneira geral. Disseram, e eu disse também, que as meninas poderiam ser o que elas quisessem. Mas faz alguns anos que tenho me perguntado se não falhamos em dar a mesma mensagem para os meninos.

Claro, alguém pode me dizer que os homens sempre puderam tudo. Que num mundo machista, eram as mulheres que precisavam ser estimuladas a assumirem lugares até então proibidos. Que numa sociedade patriarcal, quem precisava ser capaz de enxergar possibilidades de ser de outras maneiras eram as meninas. Mas não seria a ideia de homem, de masculinidade, nesse sistema patriarcal tão limitante e opressora para muitos garotos como aquele ideal de mulher o era para as garotas? Na medida em que as meninas empoderadas se tornaram mulheres empoderadas, não estaria havendo um descompasso no mundo entre homens e mulheres? Não seria esse descompasso um dos motivos de vivermos nos últimos dez anos numa sociedade invadida pelo ressentimento masculino, por ataques misóginos e crescentes taxas de feminicídios? Não seria esse descompasso, responsável pelo aparecimento de grupos red pills nas profundezas e, por que não, na superfície da internet, aliciando as novas gerações e prometendo aos garotos um retorno ao paraíso perdido? A verdade é faz tempo os meninos e adolescentes estão perdidos num mundo que, por um lado, diz que o velho padrão de masculinidade - homem provedor, forte, que não chora - já não serve mas que, por outro, não ofereceu ferramentas para que esses meninos e adolescentes fossem capazes de imaginar e forjar para si outros modos de ser homem

“E eu te conheço menos, a cada dia.” Dorothea, em Mulheres do século 20, sobre seu filho adolescente, Jamie

Revendo esse excelente filme, Mulheres do século 20, me peguei pensando em como é urgente problematizarmos o lugar e a ideia de masculinidade, o que é ser homem, com nossos adolescentes. A linha mestra do filme é o diálogo. As cenas permeadas por diálogos delicados, honestos e por vezes constrangedores, explorando as fragilidades que nos fazem humanos, mostram que esse é o caminho para nos humanizar. Antes de nos tornarmos homens ou mulheres, é fundamental nos tornarmos humanos, familiarizados com tudo que é humano: dúvidas, medos, inseguranças, amor, desejos, frustrações, paixões, prazer, dor.

 Onde falta o diálogo, a palavra, sobra violência, sobra o uso da força bruta. Quanto menos somos capazes de nomear o que sentimos, os bons e os maus sentimentos, menos equipados estamos para lidar com nós mesmos e com os outros. Com nossas perdas, com as emoções fortes que tendem a nos tirar do prumo, com os imprevistos, com tudo que escapa ao nosso controle. É preciso que pelo menos tenhamos a palavra, palavras, para nomear e narrar o que nos acontece e, assim, nos sentirmos um pouco que seja, confortável no mundo, confortável em nossa própria pele. Para que meninos se tornem homens bons é urgente que sejamos capazes de fazer com que crianças - meninos e meninas - se tornem adultos bons, humanos: sensíveis, emocionalmente confiantes, conscientes de seus limites, capazes de reconhecer nos outros a mesma humanidade que reconhece, respeita e valoriza em si mesmo, curiosos – pelo mundo e pelos humanos que habitam esse mundo -, empáticos e honestos consigo e com aqueles que estão a sua volta.

Sobre o que se fala

cotidiano Poesia Dicas opinião opiniões política utilidade pública atualidade atualidades Rapidinhas Campinas educação crônica Conto Minas Gerais São Paulo cinema observações Brasil coisas da vida escola Misto música Delfim Moreira Literatura divulgação Barão Geraldo Bolsonaro democracia eleições Filosofia da vida leitura coisas que fazem bem passeios Comilança clã Bolsonaro debate público redes sociais revoltas 8 de março amigos coronavírus ensino paixão preconceito; atualidades sobre fake news séries Dark Futebol amor coisas de mineiro coisas do mundo internético criança do eu profundo façamos poesia; final de ano; início de ano; cotidiano; infância pandemia Ciência Violência; Educação; utilidade pública de irmã pra irmã distopia história lembranças mulheres política; ser professor (a) tecnologia virada cultural adolescência autoritarismo comunicação consumo consciente desabafo economia fascismo férias impressa livros manifestação mau humor mentira mágica pós-verdade quarentena racismo estrutural reforma da previdência sobre a vida violência música Poesia 15 de outubro 20 de novembro 2021 8 março precisa ser todo dia; Anima Mundi EaD Eliane Brum Fora Bolsonaro Itajubá Moro Oscar Passarinho; Poesia; Vida Posto Ipiranga aborto amizade amor felino animação; assédio sexual autoverdade balbúrdia baleia azul. bolsonarismo cabeça de planilha consciência negra corrupção coti covid-19 crime crônica ficcional crônica; ficção crônica; infância; jabuticaba curta; crônica; curtas; concurso; festival curtas curtas; crônica; da vida; defesa democracia liberal descobrindo o racismo desinformação direitos discurso divulgação; atualidades divulgação; blogs; poesia documentário família feminismo filosofia de jardim fim das sacolinhas plásticas frio férias; viagens; da vida; gata guerra de narrativas hipocrisia humor ideologia jornalismo lei de cotas literatura; crônica; ficção; infância minorias morte mídia música Poesia novidades para rir poema próxima vida racismo institucional rap resenha; atualidade; interesse público; educação saudade saudade; coisas da vida saúde sentimentos tirinhas universidade utopia verdade verdade factual viagem

Amigos do Mineirices