Claro, alguém pode me dizer que os homens sempre puderam tudo. Que num mundo machista, eram as mulheres que precisavam ser estimuladas a assumirem lugares até então proibidos. Que numa sociedade patriarcal, quem precisava ser capaz de enxergar possibilidades de ser de outras maneiras eram as meninas. Mas não seria a ideia de homem, de masculinidade, nesse sistema patriarcal tão limitante e opressora para muitos garotos como aquele ideal de mulher o era para as garotas? Na medida em que as meninas empoderadas se tornaram mulheres empoderadas, não estaria havendo um descompasso no mundo entre homens e mulheres? Não seria esse descompasso um dos motivos de vivermos nos últimos dez anos numa sociedade invadida pelo ressentimento masculino, por ataques misóginos e crescentes taxas de feminicídios? Não seria esse descompasso, responsável pelo aparecimento de grupos red pills nas profundezas e, por que não, na superfície da internet, aliciando as novas gerações e prometendo aos garotos um retorno ao paraíso perdido? A verdade é faz tempo os meninos e adolescentes estão perdidos num mundo que, por um lado, diz que o velho padrão de masculinidade - homem provedor, forte, que não chora - já não serve mas que, por outro, não ofereceu ferramentas para que esses meninos e adolescentes fossem capazes de imaginar e forjar para si outros modos de ser homem.
“E eu te conheço menos, a cada dia.” Dorothea, em Mulheres do século 20, sobre seu filho adolescente, Jamie
Onde falta o diálogo, a palavra, sobra violência, sobra o uso da força bruta. Quanto menos somos capazes de nomear o que sentimos, os bons e os maus sentimentos, menos equipados estamos para lidar com nós mesmos e com os outros. Com nossas perdas, com as emoções fortes que tendem a nos tirar do prumo, com os imprevistos, com tudo que escapa ao nosso controle. É preciso que pelo menos tenhamos a palavra, palavras, para nomear e narrar o que nos acontece e, assim, nos sentirmos um pouco que seja, confortável no mundo, confortável em nossa própria pele. Para que meninos se tornem homens bons é urgente que sejamos capazes de fazer com que crianças - meninos e meninas - se tornem adultos bons, humanos: sensíveis, emocionalmente confiantes, conscientes de seus limites, capazes de reconhecer nos outros a mesma humanidade que reconhece, respeita e valoriza em si mesmo, curiosos – pelo mundo e pelos humanos que habitam esse mundo -, empáticos e honestos consigo e com aqueles que estão a sua volta.