O caso bárbaro de estupro coletivo praticado por cinco jovens de idade entre dezessete, dezoito e dezenove anos no Rio de Janeiro, ganhou contornos ainda mais sombrio esta semana. Um dos estupradores, Vitor Hugo Oliveira Simonin, ao se entregar à polícia no último dia 9, ostentava na camiseta as palavras "regret nothing" - não me arrependo de nada ou sem arrependimento. A afirmação, ao que tudo indica, é um mantra de grupos misóginos e que propagam ódio e violência contra mulheres na internet.
O jovem, porque sim, um rapaz de 18 anos, em que pese ser maior de idade, é um jovem recém saído do ensino médio, demonstra frieza, insensibilidade diante da violência praticada e falta de condições de viver em sociedade. Certamente essa última constatação nos faz questionar que tipo de educação - informal e formal - esse jovem recebeu até esse momento? Que tipo de valores foram apresentados a ele por sua família? O que a escola fez pela formação desse jovem? Onde estavam os adultos responsáveis por ele enquanto ele era aliciado por criminosos? E essas perguntas servem para os cinco estupradores. Servem também para todos os meninos de dezesseis, quinze, doze, oito anos que estão hoje à mercê de aliciadores no Discord ou outras plataformas. Onde estão os adultos, homens e mulheres, e o que estão fazendo por esses meninos?
No dia seguinte, 10 de março, ficamos sabendo através dos jornais que há vídeos dos cinco estupradores, logo após o crime, comemorando o ato bárbaro no elevador e dizendo que "a mãe de alguém vai chorar hoje". Eu me recuso a acreditar que esses cinco jovens já nasceram violentos, nasceram estupradores. E por me recusar, não me canso de perguntar como tantas pessoas falharam com eles. Que tipo de pais e mães esses jovens têm? Não estariam essas mães também chorando ao verem o que seus filhos se tornaram? Não sou mãe, mas ouso dizer que se essas mães não estão chorando, se elas não estão sofrendo diante desse fato terrível - são mães de estupradores - elas são péssimas mães e nem mesmo merecem esse nome. Se essas mães não estiverem hoje dilaceradas diante do horror de saberem serem mães de estupradores, ouso dizer que esses jovens não sabem o que é ter uma mãe.
Para completar o quadro, nem me atrevo a dizer fechar porque ainda estamos no meio da semana, as páginas dos jornais de hoje noticiavam uma trend no TikTok intitulada "Caso ela diga não", na qual homens, de todas as idades, simulavam atos de violência contra mulheres - chutes, facadas, fuzilamento. É urgente a regulamentação das plataformas. É urgente a corresponsabilização das plataformas por conteúdos criminosos que circulam e são disseminados inclusive para jovens e crianças. Se essas plataformas não limitam ou coíbem mensagens que, claramente, colocam vidas em risco, precisam ser multadas. Sim, multa, punição que afeta os cofres, a única linguagem a que essas empresas parecem ser sensíveis.
O título da trend é mais uma prova de como o machismo faz mal para meninas e meninos. Sim, o medo de levar um não vivido por tantos adolescentes é consequência direta de uma ideia estúpida de que são eles, os meninos, os homens, que precisam tomar a iniciativa para iniciar um relacionamento com uma menina, mulher. Esse peso já deve ter assombrado muitos jovens. Além de "ter coragem" para tomar a iniciativa, eles precisam ter que se preparar para ouvir um "não". Só que esse mesmo machismo diz que homens não podem ser contrariados, não podem escutar um não. Ensina que os homens sempre têm suas vontades satisfeitas. Por isso, quantos jovens, adolescentes, já foram humilhados pelo grupo ao ser "rejeitado" por uma garota? Tudo seria bem diferente se, em primeiro lugar, essa obrigação de "ter coragem" não pesasse sobre ninguém. Que independente do sexo, jovens e adultos pudessem manifestar seu interesse por alguém e, desde muito cedo, fossem ensinados que é perfeitamente normal ouvir um "não". Ser rejeitado por alguém não será uma experiência confortável para ninguém. Mas poderia ser menos traumática. Poderia ser mais democrática - pensando nos relacionamentos heterossexuais. Poderia ser uma fonte a menos de sofrimento e de ressentimento masculino.
Enquanto insistirmos em reproduzir ideias machistas e sexistas na educação de meninos e de meninas; enquanto continuarmos cobrando, de meninos e de meninas, certos comportamentos baseados em ideais machistas, muitas mães - de meninas e de meninos - ainda irão chorar.
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