26 fevereiro 2026

Até quando meninas e mulheres serão violentadas nesse país?

Doze anos. Uma criança. Uma menina. Vítima de muitos crimes. Os culpados? O Estado brasileiro, a própria mãe, um homem de trinta e cinco anos, a Justiça. Ou melhor, a injustiça personalizada em dois desembargadores mineiros. Dois homens que entenderam que não havia crime, não havia violência, violação, estupro, em atos sexuais praticados por um homem de trinta e cinco anos com uma criança de doze anos. Segundo o relator, havia “vínculo afetivo consensual”, “formação de família”.

Família? Podemos nos perguntar onde estava a família daquela criança. No caso, a família da menina era a mãe e mais duas irmãs. Aparentemente também elas vítimas. De abandono. Abandonos. A mãe, que ao que tudo indica, entregou a filha para o criminoso em troca de cestas básicas e doces, certamente também foi vítima da misoginia, do sexismo e do machismo que estruturam e perpassam nossa sociedade. Responsável por proteger a filha, fez com a criança o que, muito provavelmente, fizeram com ela quando ela era uma criança. 


Não fosse a escola, que diante das faltas da menina, comunicou o Conselho Tutelar, talvez ninguém estivesse hoje horrorizado com essa história. Talvez o crime do homem de trinta e cinco anos tivesse continuado, até ele se enjoar da menina. Até ele buscar outra vítima, mais nova. Não fosse a escola, provavelmente professoras, e o crime cometido contra essa menina estaria hoje no anonimato. Como tantos outros que acontecem Brasil afora. Segundo dados do Censo 2022, 34 mil pessoas entre 10 e 14 anos viviam em união conjugal no Brasil. Dessas 34 mil, quase oito em cada dez, portanto 77%, eram meninas.


A escola - sim! - essa instituição tão atacada pelos que dizem defender “a família”. As professoras, essas profissionais tão desvalorizadas nesse país. Já houve político - homem - que diante de reivindicações por melhores salários e condições de trabalho, disse que elas “deveriam trabalhar por amor e não por dinheiro”. Amor não paga aluguel, conta de luz, supermercado. Mas quantas professoras, apesar dos salários baixos e péssimas condições de trabalho, exercem com muito amor sua profissão. Amor, responsabilidade, dedicação, compromisso, respeito, honestidade, justiça. Coisas que andam faltando entre políticos e membros do judiciário brasileiro, e não é de agora. 


O caso que chocou e indignou tanta gente nos últimos dias, infelizmente, não é exceção. A postura de membros - homens - do judiciário também não. Segundo o Anuário de 2025 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no ano de 2024 foram registrados 4.169 casos de estupro de vulnerável no estado de Minas Gerais. Mas a  9ª Câmara Criminal Especializada do Tribunal de Justiça de MG, na figura dos desembargadores Magid Nauef Láuar, relator do caso, e Walner Barbosa Milward de Azevedo, decidiu absolver o criminoso. Nós, meninas e mulheres, seguimos sendo cidadãs de segunda classe. A luta contra o sexismo, pelo fim da opressão das mulheres, segue sendo necessária. Defender o feminismo, como um movimento político comprometido com a luta contra a opressão feminina, é também um compromisso ético com uma sociedade mais justa e igualitária. 


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